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Confissões de um cinéfilo à moda antiga

26 jun

Semanas atrás fui ao cinema do Manaíra Shopping ver “A livraria” (“The bookshop”, 2017), filme obscuramente exibido na Sala 1, sala esta, segundo consta, reservada a ´filmes de arte´.

Pois mesmo nesta ´sala de arte,´ passam, antes da sessão, os trailers dos filmes comerciais e, aí, começa o meu tormento. Um atrás do outro, cada trailer é um amontoado de explosões, rostos e corpos deformados, criaturas robóticas, paisagens desoladas e sombrias, correrias sem fim, velocidades indizíveis, pirotecnias as mais mirabolantes, efeitos especiais os mais absurdos… e barulho, muito muito barulho.

Deve ser problema da idade, mas essas parafernálias dos filmes atuais me incomodam horrivelmente e fazem mal aos meus olhos e ouvidos, para não dizer que ameaçam a minha saúde. Fico enfiado na poltrona como um menino medroso, com vontade de chorar ou sair da sala correndo.

Ufa! Depois de mais ou menos meia hora de sofrimento, eis que começa o filme que escolhi ver. Que alívio!

Na verdade, “A livraria” não é nenhuma grande obra: só um filme mediano, sem méritos especiais, mas, por contraste com o inferno dos trailers, juro, comecei a achá-lo um bálsamo para o meu espírito aturdido. Que beleza, entrar leve e discretamente na vida de pessoas normais, que não são robóticas, nem voam, nem se transformam em monstros, nem explodem bombas que destroem o Universo…

Em 1959, numa cidadezinha insignificante da Inglaterra, Hardborough, chega essa senhora, viúva de meia idade, Florence, simpática e tranquila, que compra uma casa antiga do lugar, com o intento de transformá-la numa livraria. Encontra apoio em uns e oposição em outros, mas, nada que esteja fora do familiar universo dos seres humanos como a gente. A senhora Florence poderia muito bem ser nossa tia, e os seus apoiantes e oponentes, poderiam muito bem ser os residentes do bairro onde moramos.

Com a vantagem de ser um filme sobre livros, coisa que eu não via fazia tempos. O último acho que foi “Nunca te vi, sempre te amei” (“84 Charing Cross Road”) do diretor David Jones, – vocês lembram – com a Anne Bancroft e o par Anthony Hopkins e Judi Dench em começo de carreira no cinema, embora ambos já maduros.

Em “A livraria” até os conflitos são leves. É verdade que a Sra Florence encontra indiferença na população local e rivalidade junto a uma socialite poderosa que termina por derrubar os seus planos, mas, mesmo assim o filme não pesa.

Pesa a bela e delicada amizade da protagonista com um senhor idoso e solitário, o Sr Brundish, que ela descobre ser um grande bibliófilo e, daí, passa a lhe enviar livros para avaliação. O primeiro que envia é um livro sobre livros, o famoso “Farenheit 451” de Ray Bradbury, que é logo aprovado e passa a constar das prateleiras da livraria. O segundo vai dar mais ainda o que falar: o – para a época – polêmico “Lolita” de Nabokov, mas é, sim, aprovado e passa a ser vendido como qualquer outro livro.

E por falar em Lolita, vejam que a funcionária da livraria da Sra Florence é uma criança, uma garota de 14 anos, Christine, que sequer gosta de ler, mas que será induzida à leitura pela sua patroa. Aliás, o filme inteiro – saberemos no desenlace – é narrado em flashback por essa garota, quando já adulta, ela mesma, hoje dona de uma grande livraria em Londres.

Como disse, “A livraria” não tem méritos especiais; é retilíneo e convencional, porém, contraposto ao inferno dos trailers que o precedeu, ele acidentalmente tornou-se, para mim, um filme extremamente agradável.

A propósito do contraste que me bateu entre os trailers infernais e “A livraria”, acho que não é coincidência que se trate de um filme sobre livros, quando se sabe que o computador, o poderoso opositor do livro no mundo de hoje, é justamente a máquina eletrônica que torna possível todo o “inferno” dos trailers referidos… Por aí.

Sobre o problema dos trailers que tanto me atormentaram, um amigo me disse o que já sei: que em tempo de férias, a programação local investe em filmes assim, para uma plateia infanto-juvenil. Para mim, o problema persiste: será que isto significa que, formado por esse tipo cibernético e barulhento de filme, o espectador do futuro nunca vai ver um filme singelo e humano como “A livraria”? Não tenho resposta…

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Cinquentões em 2016

8 jan

 

Neste 2016 que começa, que filmes estarão completando idade redonda? Sugiro que retrocedamos meio século e chequemos aqueles que vão ser os cinquentões do ano, ou seja, os estreados em 1966.

São muitos, mas fiquemos com os mais significativos, no caso, os dezesseis que tomei a liberdade de selecionar pela importância que tiveram na década de sessenta. Por falta de melhor critério, listo-os na ordem alfabética de seus diretores.

Assim, começamos com o italiano Michelangelo Antonioni e o seu ainda hoje perturbador “Blow up”, no Brasil chamado de “Depois daquele beijo”. Rodado na Inglaterra, o filme usava o nonsense para desconstruir um gênero, o policial.

w blow up

Em seguida, vem o sueco Ingmar Bergman com o seu impactante “Persona”, drama psicológico que marcou e definiu o estilo do diretor. No Brasil, outra reintitulação equivocada: “Quando duas mulheres pecam”.

No modelo ação a todo custo, o americano Richard Brooks roda “Os profissionais”, onde Burt Lancaster, Lee Marvin e Robert Ryan são os durões contratados para resgatar a esposa sequestrada (Claudia Cardinale) de um figurão.

O também americano John Frankenheimer comparece com essa estória sombria sobre uma cirurgia plástica secreta que concederia ao cidadão a chance de mudança de identidade: “O segundo rosto” (“Seconds”). Rock Hudson é o cirurgiado que apaga o passado.

Paul Newman e Julie Andrews em "Cortina rasgada"

Paul Newman e Julie Andrews em “Cortina rasgada”

O filme do ano de Jean-Luc Godard não é dos mais badalados nem dos melhores. Em postura francamente existencialista “Masculino/Feminino” junta um bando de jovens num apartamento, discutindo o sentido, ou a falta de sentido, da vida.

“Cortina rasgada” (“Torn curtain”) é o contributo de Alfred Hitchcock para o dilema do Muro de Berlim. Paul Newman é o cientista americano enviado ao lado oriental da cidade, seguido, sem o saber, pela esposa curiosa, Julie Andrews.

O francês Claude Lelouch ganha o Oscar de filme estrangeiro com o singelo “Um homem, uma mulher” (“Um homme, une femme”), em que, ao meio de referências musicais ao Brasil, Jean-Louis Trintingnat e Anouk Aimée fazem um par de viúvos que se apaixonam.

"Um homem, uma mulher: Trintignant e Aimée.

“Um homem, uma mulher: Trintignant e Aimée.

Sérgio Leone engendra o seu terceiro título no modelo “faroeste espaguete”: “Três homens em conflito” (“Il buono, Il bruto, Il cativo”), com o trio Clint Eastwood, Eli Wallach e Lee Van Cleef, e, naturalmente, a bela música de Ennio Morricone.

Já Joseph Losey surpreende com “Modesty Blaise”, comédia amalucada, do tipo James Bond de saia, em que as estrelas da época, Monica Vitti, Terence Stamp e Dick Bogarde, não têm receio de enfrentar o ridículo.

Promovendo a estreia de Candice Bergen, Sidney Lumet nos dá “O grupo” (“The group”), estória de mulheres que lutam por afirmação profissional, lá pelos anos trinta. Baseado no romance da escritora Mary MacCarthy.

Liz Taylor em "Quem tem medo de Virginia Woolf?" de Mike Nichols.

Liz Taylor em “Quem tem medo de Virginia Woolf?” de Mike Nichols.

“Quem tem medo de Virginia Woolf?” (“Who is afraid of Virginia Woolf?”) é a estreia de um jovem e promissor diretor, Mike Nichols. Baseado na peça de Edward Albee, o filme trata de conflitos conjugais em que se misturam alcoolismo e agressão. O desempenho elogiado de Elizabeth Taylor lhe deu o Oscar de melhor atriz.

Um filme forte sobre linchamento, racismo, adultério, e poder é “Caçada humana” (“The chase”) onde Marlon Brando faz o sherif em uma cidade sulista nada tranquila. Direção segura de Arthur Penn.

Com “A batalha de Argel” (“La Battaglia di Algeri”), Gillo Pentecorvo nos oferece um relato duro e imparcial do que teria sido a luta pela independência na Argélia, contra o domínio francês.

Oskar Werner, o policial lendo, em "Farenheit 451".

Oskar Werner, o policial lendo, em “Farenheit 451”.

Filmando o romance de Ray Bradbury, o diretor francês François Truffaut reporta-se a uma sociedade futura em que os livros são proibidos e devem ser queimados na temperatura de “Farenheit 451”. Oskar Werner é o policial que entra em crise após haver lido alguns dos livros a serem queimados.

Do mestre Billy Wilder vem uma comédia modesta, “Uma loura por um milhão” (“The fortune cookie”), sobre uma farsa para burlar o sistema de indenização por um acidente de trabalho. É a inauguração da dupla Jack Lemmon e Walter Mattheau, que depois deste, tantos filmes fariam juntos.

E por fim, fechamos a lista com “O homem que não vendeu sua alma” (“A man for all seasons”), realização brilhante do grande Fred Zinnemann, que arrebanhou nada menos que cinco Oscars, inclusive os três mais importantes, de melhor filme, melhor diretor, e melhor ator para Paul Scoffield, no papel título de Thomas More, em sua luta insubmissa contra o rei Henrique VIII, na Inglaterra do século XVI.

A cara da década de sessenta: "Persona".

A cara da década de sessenta: “Persona”.

 

Trinta anos sem Truffaut

22 out

Neste 21 de outubro fez trinta anos da morte de um dos mais conceituados cineastas do mundo, o francês François Truffaut (1932-1984), um dos criadores da Nouvelle Vague, movimento cinematográfico que, a partir dos anos sessenta, mudou a forma de se ver e fazer cinema, na França e no mundo.

A sua história é bem conhecida: salvo da marginalidade pelo crítico André Bazin, o jovem cinéfilo Truffaut é introduzido aos bastidores da Revista Cahiers du Cinéma, para a qual passa a escrever artigos cada vez mais agressivos contra o cinema dito “de qualidade” de seu país. René Clair, René Clément, Marc Allegrét, Marcel Carné, Claude Autant-Lara… quase ninguém escapa de suas garras destrutivas, todos acusados de cometer um cinema artificial, fundado em regras de estúdio e de uma dramaturgia congelada e falsa.

François Truffaut: da crítica ao cinema.

François Truffaut: da crítica ao cinema.

Nessas críticas violentas, partilhadas por outros jovens críticos como Jean-Luc Godard e Claude Chabrol, ia embutida uma proposta de cinema inovadora, que seria chamada, mais tarde, de “cinema de autor”. Segundo esses jovens críticos, o cineasta devia ignorar regras de estúdio e usar a câmera como o poeta usa sua caneta. Era o que estava num texto, também publicado nos Cahiers du cinéma, do teórico Alexandre Astruc. Isto seria possível? Possível ou não, é essa idéia de “caméra-stylo” (´câmera-caneta´) o que gera, em 1954, um ensaio fundamental de François Truffaut, “Uma certa tendência do cinema francês”, ensaio este que funcionou como o verdadeiro manifesto da Nouvelle Vague.

 No final dos anos cinquenta, esse “cinema de autor” começa a desabrochar em forma de filme, primeiro curtas, depois longas. O primeiro dos longas é o belo “Os incompreendidos” (1959), onde Traffaut ficcionaliza a sua vida privada.

“Os incompreendidos” ganha o Festival de Cannes e, desde então, Trauffaut não para mais de filmar. O engraçado é que, se suas críticas contra o cinema francês eram agressivas, o cinema que ele passa a fazer não o é de forma alguma. Ao contrário, com Truffaut vai se ter um cinema doce, suave, humanista, dramático às vezes, mas sempre terno e poético.

Infância e marginalidade no belo "Os Incompreendidos" (1959)

Infância e marginalidade no belo “Os Incompreendidos” (1959)

Outra coisa engraçada, comum a Truffaut e aos outros nouvellevaguistas, foi o amor ao cinema americano. Enquanto a maior parte dos cineastas franceses não valia nada para eles, Otto Preminger, Fritz Lang, Howard Hawks, William Wyler, Billy Wilder, George Stevens lhes pareciam gênios que driblavam as regras de Hollywood para produzir obras primas. Com certeza, o mais cultuado de todos foi Alfred Hitchcock, com quem Truffaut chegou a fazer uma longa entrevista, que se estendeu por mais de uma década e foi, mais tarde, lançada em livro, hoje uma das melhores lições de cinema que a bibliografia da área conhece.

Enquanto movimento, a Nouvelle Vague se descaracterizaria a partir da década de setenta, principalmente com a rixa surgida entre os dois cabeças do movimento, Truffaut e Godard, a partir do lançamento de “A noite americana” (1973), filme que provocou em Godard uma reação violenta, que foi entendida em nível pessoal e resultou numa famosa carta pública de Truffaut, igualmente violenta.

Mas claro, nem por isso Truffaut parou de filmar. Não pretendo citar sua filmografia completa, mas, acrescento no final desta matéria, uma lista de dez de seus filmes mais conceituados, uma seleção do site IMDB.

Cena emblemática do mais prestigiado filme de Truffaut: "Jules et Jim"

Cena emblemática do mais prestigiado filme de Truffaut: “Jules et Jim”

Em sua autobiografia recém publicada, o cineasta brasileiro Carlos Diegues – que conheceu Truffaut de perto – dá um depoimento que não resisto em reproduzir: “Nunca vi ninguém gostar tanto de cinema, e só de cinema; nem sei se ele tinha algum outro interesse verdadeiro na vida”.

Pois é, este era François Truffaut, que pode não ter sido o maior cineasta do mundo, mas foi, sem dúvida, o mais cinéfilo de todos.

 

Dez filmes para não esquecer François Truffaut:

 

Os incompreendidos (Les 400 coups, 1959)

Jules et Jim (1962)

A sereia do Mississipi (La sirène du Mississipi, 1969)

A noite americana (La nuit américaine, 1973)

O homem que amava as mulheres (L´homme qui amait les femmes, 1977)

Farenheit 451 (1966)

O último metrô (Le dernier metro, 1980)

A mulher do lado (La femme d´à coté, 1981)

O quarto verde (La chambre verte, 1978)

Beijos proibidos (Baisers volés, 1968)

 

François Truffaut: cinefilia e cinema.

François Truffaut: o homem que amava o cinema