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Cadê Fellini?

19 dez

Um filme com um título desses, “Em busca de Fellini” (“In search of Fellini”, 2107), eu iria ver de todo jeito. Ainda que tivesse lido comentários desfavoráveis. Pois li e fui.

O argumento é igualmente convidativo: uma garota de uma pequena cidade interiorana de Ohio vai a Cleveland, e cai, por acaso, dentro de um Festival Fellini; apaixona-se subitamente pelo cineasta de “A estrada da vida” e, com o consentimento da mãe doente, se dana para a Itália no encalço dele.

Inspirado pela genial mistura felliniana entre realidade e fantasia, o filme do diretor novato Taron Lexton conta a história de Lucy (Ksenia Solo), apostando que pode fazer o mesmo: misturar realidade e fantasia. Ocorre que nem todo mundo é Fellini, e…

Lucy, a garota de Ohio, usa a camisa listrada de Gelsomina – personagem de “La Strada” – e quer ter a inocência da mesma, mas isso não ajuda muito. Literalmente, perde-se na Itália, e o filme junto com ela, também se perde. E vejam que, para o bem ou para o mal, é baseado “numa aventura real”… Pensando bem, talvez por isso mesmo se perca.

Que Fellini não será encontrado (vários sentidos para esta expressão!), a gente adivinha desde a chegada da moça a solo italiano. Onde posa o avião dela? Não em Roma, mas em Verona, a cidade de Romeu e Julieta. É, portanto, fácil prever o desenlace: a viagem vai lhe dar, não Fellini, mas, um amor. E é aí que o filme ganha a cara de “sessão da tarde”.

A sequência final, em que Lucy, já em Roma, tem, conosco, e por algum instante, a ilusão de estar na presença de Fellini, quando a figura masculina à sua frente é, na realidade, o namorado veronês, só não decepciona mais porque, como disse, já estava implícita desde sempre. Sintomática e convenientemente, a jornada de Lucy acontece em 1993, ano da morte de Fellini.

O filme é cheio de desperdícios, que os espectadores de maior boa vontade podem, se quiserem, chamar de ´pistas falsas´.

Um caso é o dos aparecimentos, em momentos e locais os mais variados, daquele rapaz forte com correntes amarradas no busto (para lembrar o Zampano de “La strada”)… aparecimentos que não vêm a dar em nada. Outro desperdício é a existência do segundo ´interessado´ em Lucy, aquele desconhecido que a conduz a uma orgia supostamente felliniana, e depois a maltrata…

Engraçado é que um problema que Lucy teve, também o teve o filme. Refiro-me ao fato de que não há um Fellini só: há muitos Fellinis, e aquele de “La strada” e “Noites de Cabiria” é bem diverso do de “A doce vida”, que por sua vez, é diverso do de “Satyricon” e “Roma”.

Mas, os atrapalhos semióticos do diretor Lexton, não ficam por aí.

Vejam bem: depois de meia hora de projeção, eu, pessoalmente, comecei a me indagar se um título mais apropriado ao filme não seria “Em busca de Capra”. Pois é, são tantas e tão enfáticas as cenas mostradas de “A felicidade não se compra” (1946) onde se veem a bela Donna Reed e James Stewart em conversas amorosas ou trocando beijos…

O que, aliás, me conduz a uma questão mais genérica, mas também pertinente ao filme de Lexton. Como casar o cinema clássico americano com o cinema de arte europeu? A dicotomia é um lugar teórico comum da crítica, mas que aqui, suponho, vem bem ao caso.

Lucy e a mãe doente, ainda em Ohio.

Em alguns momentos do filme, as personagens americanas tentam explicar aos outros o que é Fellini. Antes de viajar, Lucy faz isso para a tia, sem sucesso, e, mais tarde, essa mesma tia, tenta explicar à irmã, mãe de Lucy. O que ela diz é o seguinte: “Peitos, bundas, você sabe, arte”. Por sua vez, assistindo na televisão a “A doce vida”, a mãe de Lucy reclama: “Cadê o enredo?” E é consolada pela irmã: “Não há enredo”.

No momento em que redijo estas linhas me ocorre que a justificativa para a insistente presença intertextual de “A felicidade não se compra” seria para lembrar que o cinema clássico americano, ao contrário, tinha enredo e não tinha peitos e bundas… Será? Pode até ser, mas não melhora a impressão de confusão estilística e estrutural que “Em busca de Fellini” nos passa. Sem falar da impressão, mais grave, de inutilidade.

O cinema clássico americano, com suas regras e limites, e o cinema de arte europeu, com suas liberdades e ousadias, estão “casados”, e muito bem casados, nas obras concretas, consumadas e consumidas, de grandes diretores como Billy Wilder, Otto Preminger, Fritz Lang, William Wyler, e tantos outros.

Satisfaçamo-nos, portanto, com o que já foi feito.

Fellini, buscado, mas não encontrado…

Viagem à Itália

24 mar

 

Esta semana passada “viajei” à Itália, e não fui só. Acompanhou-me um especialista em cultura italiana, que me deu uma lição toda especial: ninguém menos que o cineasta americano Martin Scorsese.

Pois é, no seu belo documentário de mais de quatro horas de duração, “Minha viagem à Itália” (2001), Scorsese se reporta a suas humildes origens sicilianas, e, de modo bem pessoal e comovente, nos conta como o cinema italiano dos velhos tempos entrou, pela telinha da TV, em sua casa, num bairro pobre de Nova York, e foi consumido, com sofreguidão, pelos seus pais, avós e tios. E, claro, por ele também, que não entendia tudo, mas, encantava-se com aquelas imagens de um país que fora o lar de seus antepassados.

Tais recordações de infância servem de gancho para que Scorsese nos introduza ao movimento de cinema mais influente do século XX: o neo-realismo italiano. Como ele afirma categoricamente, dirigindo-se ao seu espectador : “Eu vi esses filmes e eles tiveram um efeito poderoso sobre mim: você devia vê-los”

O cineasta americano Martin Scorsese

O cineasta americano Martin Scorsese

E a aula que passa a dar é bem sistemática, como deve ser toda boa aula. Começa com o geral e apresenta um panorama do movimento todo, realçando suas características mais marcantes, do ponto de vista técnico, estilístico e temático. Depois é que afunila e passa a enfocar os diretores. Começa com o maior de todos, o grande Roberto Rosselini, de quem apresenta a trilogia fundadora, “Roma cidade aberta” (1945), “Paisà” (1946) e “Alemanha ano zero” (1947).

Escolhendo trechos a dedo, reconstitui os enredos dos filmes com tanta precisão e poder de síntese que o espectador tem, em cada caso, a sensação de estar vendo, ou revendo, o filme por inteiro. Com a vantagem de virem juntas instrutivas curiosidades sobre as filmagens e dados biográficos que enriquecem a significação de cada obra.

Quando chegou a “Europa 51” (1952), eu estava chorando, juro. Não suportei a dor dessa mulher que, havendo perdido um filho pequeno, entrega-se a sanar o sofrimento alheio, e o faz com tal desapego de suas origens nobres, que é considerada louca, e internada em hospício, onde continua ajudando os mais necessitados que ela. Sofri tanto com essa Irene Girard (Ingrid Bergman, então esposa de Rosselini) que fiquei achando que a narração sintética e grave de Scorsese é melhor que o filme inteiriço. Não sei se é. depois confiro.

"Romance na Itália", o filme de Rosselini.

“Romance na Itália”, o filme de Rosselini.

Esperei sofrer um pouco mais quando chegássemos a “De crápula a herói” (Il Generale della Rovere” (1959), mas, por alguma razão, Scorsese não vai até lá, e finda seu testemunho de Rosselini com “Romance na Itália”, que, de fato, pelo título original (“Viaggio in Italia”) não poderia ficar fora deste documentário.

Depois de Rosselini, vêm, na ordem, Vittorio De Sica, Luchino Visconti, Federico Fellini e Michelangelo Antonioni, cada um abordado pelo mesmo esquema, com seleção de seus filmes mais representativos, pelo menos os realizados dentro do périplo enfocado, que começa em 1945 e termina em 1963.

Dentre os filmes escolhidos para serem comentados, uns há que – visivelmente – tiveram direito a mais tempo de tela que outros. Suponho que sejam os xodós de Scorsese. Ou simplesmente, como ele afirma em várias ocasiões, filmes que influíram diretamente no seu fazer cinematográfico.

O garoto de "Ladrões de bicicleta".

O garoto de “Ladrões de bicicleta”.

Por exemplo, o filme de De Sica mais longamente comentado e reproduzido não é “Ladrões de bicicleta”, mas “Umberto D”. A longa sequência do velho tentando penosamente livrar-se do seu cãozinho, tem quase a mesma duração do original, apenas enriquecida pelos comentários de Scorsese, que explica, por exemplo, o quanto o aprendizado com Chaplin é importante aqui.

O Visconti privilegiado acho que é “Sedução da carne” (“Senso”, 1954), a estória dessa condessa que, apaixonada por um tenente do exército, degrada-se moralmente, até onde pode uma mulher casada de origem nobre degradar-se. Dos filmes de Fellini o que ganha mais destaque é “Os boas vidas” (“Il vitelloni”, (1953), com que Scorsese confessa identificar-se, vendo na existência fútil dos personagens, a mesma falta de sentido que experimentou em certa fase de sua juventude em Nova Iorque. Por fim, a ênfase sobre Antonioni fica com “A Aventura” (“L´avventura”, 1960), essa obra misteriosa que ainda hoje intriga a cinefilia universal.

Evidentemente, eu já conhecia os filmes comentados nesse documentário, e o neo-realismo chegou a ser assunto de cursos que ministrei sobre cinema. A novidade é a paixão da abordagem, e o modo como o cineasta assume e analisa suas próprias influências. Além disso, Scorsese ocorre ressaltar, nesses filmes, aspectos que eventualmente me escaparam, e que agora me fazem constatar efeitos estéticos que perdi por desatenção ou pressa.

Em suma, uma viagem cinematográfica da qual retornei mais rico… e mais feliz.

Ingrid Bergman no comovente "Europa 51"

Ingrid Bergman no comovente “Europa 51”

 

Que estranho chamar-se Federico

6 nov

Não veio ao circuito comercial local, mas, acabou de entrar na programação da TV paga o belo e comovente “Que estranho chamar-se Federico” (2013), filme-homenagem de Ettore Scola ao seu colega, amigo e compatriota Fellini.

O filme de um cineasta que amo sobre um cineasta que amo. Vocês não imaginam a ansiedade com que me preparei para ver, e a alegria com que o vi, a mesma com que escrevo.

Sem mais nem menos, “Que estranho chamar-se Federico” é o esperado, um filme com a sofisticação de Scola e a fantasia de Fellini, as duas coisas juntas e inconsúteis. Sim, porque o filme é sobre os dois, e não apenas um. De forma solta e imaginativa, sem se preocupar em ser documental, Scola faz questão de centrar-se na amizade e nos pontos de contato entre os dois, deixando o resto de lado.

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Para tanto, inventa um narrador que, primeiro se insinua como voz, e depois de corpo inteiro. Não um narrador qualquer, mas um que tem todo aquele jeito de personagem felliniano, inclusive, o de intrometer-se no narrado. Uma vez encontra-se num café da época e a garçonete vem lhe trazer a conta, e ele retruca que “sou o narrador, e narrador não paga”, ao que a moça responde que sim, senhor.

O filme começa com o mestre Fellini em sua cadeira de diretor, de costas para nós, olhando a paisagem a sua frente, que deve ser o mar de sua Rimini natal. E aí, magicamente, uma luz de cenário se acende, e passam a desfilar diante dele, dançarinos, saltimbancos, palhaços, acrobatas, tudo como se num show circense.

A partir daí, mas sem obedecer a cronologias, vai-se narrando episódios na vida do cineasta. O primeiro deles, e talvez o mais demorado, é a sua entrada na revista romana de humor “Marc´Aurelio”, como chargista. Seus desenhos e suas charges são motivos de pequenas encenações e o espectador tem a chance de constatar o cineasta inventivo que esses rabiscos prometiam.

Jovens intelectuais na Roma dos anos 50

Jovens intelectuais na Roma dos anos 50

Seis anos depois, à mesma “Marc´Aurelio”, chega o jovem Ettore Scola, com o mesmo propósito, sendo aceito do mesmo modo. A essa altura Fellini já saíra do jornal e já fazia sucesso como cineasta premiado, mas isto não impede que os dois se encontrem e se tornem companheiros de trabalho e amigos. Até porque são muitos parecidos: como assegura o narrador, “ambos meio abstratos, sem jeito para atividades físicas, nunca chutaram uma bola, os dois apaixonados por desenho, pintura e cinema”.

E não podiam faltar os percalços. É o que se tem nos primeiros sketches de um Fellini ainda tateante, encenados no palco modesto de um teatro de revista: sem achar graça no humor dos textos, a platéia começa a jogar lixo no velho ator que performatiza o quadro. Claro, tudo muito felliniano!

Muitas das cenas em que os dois cineastas aparecem juntos soam como fictícias, sem que isso tenha propriamente importância. Para quem conhece a filmografia de Fellini, são, na verdade, cenas poeticamente necessárias, como aquela em que, numa noite qualquer, a dupla dá uma volta pelas ruas de Roma, e, na calçada das putas, oferece carona a uma delas, a qual, no banco de trás do carro, lhes relata quase toda a sua vida. Se se prestar atenção, nesse relato descontraído estão elementos que alimentariam muitos dos roteiros fellinianos, entre os quais o de “La strada”, ou de “Noites de Cabíria”.

Sempre o teatro de revista...

Sempre o teatro de revista…

Pontos comuns entre os dois também são pessoas. Marcelo Mastroiani, por exemplo. E o filme remonta a “A doce vida” para o qual o ator indicado pela produção era Paul Newman, e não o “tipo comum” (palavras de Fellini) Mastroiani, por sua vez, quase recusado, anos mais tarde, por Scola, para o seu “Casanova e a revolução”. Uma canja histórica são as verídicas ´auditions´ que Sordi e Gassman fizeram para ganhar o papel.

Uma das poucas cenas documentais é o funeral de Fellini que, encerraria o filme, não fossem os protestos dos produtores. E então, Scola dá um jeito de jogar em cena mais uma de suas licenças poéticas. Matreiro, Fellini dribla os dois enfeitados carabinieri que guardam o féretro, e às escondidas, escapole pelos becos da cidade, até chegar ao que queria, um carrossel onde vai se divertir feito menino. E com o movimento do carrossel vêm as imagens de seu mundo fantasioso, um caleidoscópio frenético com que dele nos despedimos a rever as cenas mais queridas de suas películas…

É claro que essa licença poética não foi exigência dos produtores. Com certeza, ela já estava no roteiro que o hoje idoso Scola bolou com a ajuda preciosa de suas duas filhas queridas, Paola e Silvia.

Em tempo: a frase que intitula o filme (no original: ´Che strano chiamarsi Federico´) é reprodução de um certo verso de um poeta espanhol que foi xará de Fellini: Federico Garcia Lorca.

O mestre Fellini.

O mestre Fellini.