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LEITURAS DA QUARENTENA (2)

22 abr

GUERRA PRA CACHORRO

 

Matando o tempo, dou andamento a esta série, cujo primeiro item foi o comentário do livro “Paulo Francis – Diário da Corte”.

Agora é a vez do romance “O DIA DOS CACHORROS”, do escritor paraibano e amigo Aldo Lopes.

A moça que recebe a visita de um anjo truculento e malamanhado, chamado Chandão, e é acometida de uma gravidez imaginária; o homem que vendia caro as partes do seu corpo, pois era detentor natural – dom divino – de preciosos ossos de marfim; a velha morta cujo cadáver o filho utilizava para amedrontar e extorquir o irmão avaro…

Ah, como me diverti com essa Princeza dos anos 30, e seu reino independente, seu povo teimoso e seus feitos impossíveis.

Havia tempos o livro de Aldo esperava, na minha biblioteca, na fila, por uma leitura em momento adequado. Pois o momento chegou.

Acho que conheci Aldo Lopes no comecinho dos anos 80, depois que passei a colaborar no Correio das Artes, e fui me enturmando com os outros colaboradores. Lembro-o naqueles encontros etílico-literários dos Bancários, em torno da militância do crítico Hildeberto Barbosa Filho. Era um bando de jornalistas, professores, críticos, poetas, contistas… que se juntavam em fins de semana para tomar umas cervejas, bater papo e polemizar: Wellington Pereira, Milton Marques, Marcos Nicolau, José Antônio Assunção, Carlos Tavares, Lúcio Lins, Edônio Alves, Gilson Renato, Marilia Arnaud… e tantos outros. Mais tarde, esses encontros se concentrariam no Bar do Baiano, mas não começaram ali.

Naquela época eu escrevia mais sobre poesia do que sobre outra coisa, mas lia os contos de Aldo com muito interesse. Até porque naquela prosa bem urdida havia algo de estranhamente poético. Depois reunidos em livros – pelo menos quatro – esses contos tomariam contornos novos e, acho, constituíram o caminho estratégico para a composição de seu primeiro romance, este de que vos falo, “O dia dos cachorros”, lançado primeiramente em 2005, e, com algumas modificações, relançado em nova edição, em 2012.

O pano de fundo da narrativa é histórico, o episódio paraibano da “guerra de Princesa”, mas não confie na veracidade dos fatos relatados. Esse pano é intencionalmente furado, e tem mais cores e remendos do que poderia imaginar a nossa vã credibilidade.

Como a Rimini de Fellini, ou a Macondo de Garcia Marquez, a Princeza de “O dia dos cachorros” é a Princeza (assim, com “z”) de Aldo Lopes. Exclusivamente dele. Realismo mágico? Seja o que for, o fato é que esse lugarejo nos confins do estado da Paraíba nos intriga e encanta com seus personagens únicos e sua saga de miséria, riqueza, covardia, heroísmo, mesquinhez, grandeza, assombração, erotismo, morbidez, farsa, comédia, tragédia, carnificina, escatologia, sonho, pesadelo, beleza e delírio.

Tanto é assim que não há uma linha narrativa que encaminhe a história, e a noção de começo, meio e fim é vaga e elástica. Para começo de conversa, cada capítulo do livro, com belas ilustrações de Albert Lacet, tem sua autonomia semântica e pode ser lido de per se. E mesmo dentro de cada capítulo, há um vai-e-vem temporal de um narrador prolixo que, propositadamente, enche seu relato de desvios e mais desvios, e retarda o andamento da fabulação. Muitos desses “desvios narrativos” (geralmente, introduzindo a faceta mais fantasiosa da história) são iniciados pela expressão “dizem que” – verdadeiro engate linguístico para o autor dar vazão a seu poder criativo e… devanear à vontade.

De todo jeito, no conjunto da leitura, os relatos – plausíveis ou absurdos – se complementam e a história mantém lá a sua unidade semiótica, e, sobretudo, poética.

Faltou talvez ressaltar a presença visceral da cultura popular, tal que, até certo ponto, nos faz pensar no movimento armorial de Ariano Suassuna. Sem coincidência, o posfácio do livro é de Carlos Newton Jr, como se sabe, o teórico e divulgador do movimento, e o comentário de capa é do próprio Ariano. Enfim…

A sociedade literária e a torta de casca de batata

28 ago

Ao tempo do III Reich, se os alemães não chegaram à Inglaterra, chegaram perto. Por exemplo, da costa norte da França ocupada para a ilha de Guernsey foi um pulo. Sim, em 1941 essa ilha britânica foi invadida e sua população, sob o domínio nazista, comeu o pão que o diabo amassou.

A estória está contada, e muito bem contada, no filme de Mike Newell, “A sociedade literária e a torta de casca de batata” (2018), em exibição no NetFlix.

Para o espectador, tudo começa um pouco mais tarde, no ano de 1946, a guerra já finda, e os estragos já feitos. E começa com correspondência. Em Londres, a escritora Juliet Ashton descobre que existia na referida ilha essa curiosa “sociedade literária” do título do filme, espontaneamente formada por pessoas comuns que gostavam de literatura e se juntavam para comer torta e conversar sobre livros e autores.

Depois de um tempo correspondendo-se com um dos membros, o bibliófilo e criador de porcos Dawsey, Juliet resolve viajar para Guernsey e visitar a tal sociedade, com o intuito de escrever, para o “The Times”, uma inspiradora reportagem sobre o caso. É bem recebida pelo pequeno grupo, discute com eles a ficção das irmãs Brontë e come da torta de casca de batata, porém, ao propor a entrevista para a revista, recebe um retumbante não.

Por que a Sra Emilia, a mais idosa do grupo, opõe-se tão terminantemente à entrevista? É claro que Juliet não se conforma com a recusa, e tomada pela curiosidade, passa, a partir daí, a investigar sobre o caso todo, tendo e dando oportunidade ao espectador de vir a saber o que, de fato, teria acontecido nessa ilha isolada do Canal da Mancha ao tempo em que os alemães lá estiveram.

De cada membro do grupo, as revelações vão vindo aos poucos, com muitas reservas, mas, de todo jeito, cada uma delas endossada por flashbacks generosos, que nos revelam talvez mais do que estava no intento de cada um revelar.

Misturando guerra, amor e literatura, o enredo é empolgante e prende a atenção do espectador, como sempre fazem os filmes de Newell. Não pretendo revelar esse enredo, mas apenas nele apontar um eixo actancial essencial, formando por duas figuras, uma presente na estória, a outra, ausente: a primeira é uma garotinha de quatro anos, kit; a segunda é uma mulher apaixonada e corajosa, Elizabeth, que enfrentou o nazismo de várias formas. Aquela é criada pelos membros da Sociedade literária; esta última, já morta, só a vemos em flashbacks. Naturalmente, se trata de filha e mãe. Pois bem, o modo difícil como a escritora Juliet se apazigua com a Sociedade literária e seus membros passa por essa dupla dramática. E mais não conto.

Baseado no romance homônimo de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows, não sei até que ponto o filme tem raízes na História real, mas, se não tem, bem que poderia ter, pelo menos por uma razão: é que a ilha de Guernsey possui background literário. Foi, no século XIX, refúgio do escritor francês Victor Hugo, que lá morou por quinze anos e lá escreveu o seu magistral “Os miseráveis”.

Como sugere o título do filme (no original: “The Guernsey literary and potato peel pie society”), a literatura é uma dominante na estória, e é uma delícia acompanhar as discussões do grupo sobre quem, das irmãs Brontë, seria a maior, ou coisas desse nível. Depois do desenlace, durante a exposição dos créditos, não desliguem a televisão e fiquem atentos às vozes dos personagens lendo trechos chave dos seus autores preferidos, que vão de Virginia Woolf a Shakespeare, passando por Charlotte Brontë e Robert Louis Stevenson.

Enfim, uma estória de amor (para ser mais correto, duas), um filme de guerra, mas também, uma obra sutil e delicada sobre afinidades literárias e o modo como elas formam e transformam as pessoas, eventualmente unindo-as, ou, no caso de faltar, separando-as.

Escritores que cometeram crítica de cinema

25 jul

Poetas ou ficcionistas, há escritores cujas obras lembram cinema. A poesia de João Cabral, por exemplo, ele mesmo insistia em dizer, tem muito de cinematográfica. Em alguns casos, até escritores do passado, quando a sétima arte sequer existia, já pareciam fílmicos. Dickens é um caso óbvio, citado pelo cineasta pioneiro D. W. Griffith, mas acho que Sthendal, Tolstoi e Balzac também.

Mas não é disso quero tratar aqui.

Aqui quero tratar de profissionais que, tendo se notabilizado como escritores, conheceram, sim, o cinema e, bem antes do ofício literário, e/ou científico, cometeram a crítica cinematográfica – geralmente uma crítica praticada no ardor da juventude, e de que hoje pouco se tem notícia.

Gabriel Garcia Marquez, crítico de cinema, antes de ser escritor.

São em número bem maior do que pensamos, ou sabemos, mas aqui me concentro em quatro ou cinco casos, suficientemente ilustrativos.

Comecemos como o autor de “Cem anos de solidão”.

Sim, você sabia que o colombiano Gabriel Garcia Marquez fez crítica de cinema na juventude? Pois é. Eu vim a saber disso muito tardiamente, décadas depois de ter lido seus romances e novelas, e de ter visto suas adaptações para a tela. Como soube? Foi o meu saudoso amigo e colega de labuta crítica Antônio Barreto Neto quem me passou a informação. Informação nada, ele me deu de presente o livro em que está editada toda a crítica cinematográfica de Garcia Marquez, este ainda um jovem jornalista, comentando as ´películas´ – quase todas americanas – exibidas nos cinemas locais de Bogotá. Quem quiser provas, o livro que Barreto me deu está aqui, na minha estante, me fitando de longe.

A essa altura dos acontecimentos, imagino que já foi feita alguma tese de doutorado, catando, nesses escritos sobre cinema, elementos que possam ter alimentado a ficção de Garcia Marquez. Se não foi, que se faça!

O pernambucano Josué de Castro.

O segundo caso que cito é brasileiro, o do nosso cientista e pensador social Josué de Castro. Bem antes de ficar conhecido como o teórico da fome, Josué de Castro foi um apaixonado pela sétima arte, cuja autonomia estética defendeu com unhas e dentes. Seus escritos de crítica datam do início dos anos trinta, quando o cinema acabara de ganhar o acréscimo do som, aliás, um acréscimo que ele abominava. Assim, gastou tempo e energia redigindo ensaios em que defendia a pureza da imagem. No seu entender, para alcançar a condição de arte pura, o cinema precisava livrar-se da herança do teatro e da literatura, e, por isso mesmo, o advento do som lhe era malsão. Seu posicionamento coincidiu com o de Chaplin, mas, ele nem precisou de endosso alheio para alardeá-lo.

Que relação essa posição terá com sua obra posterior eu não sei, mas é, sim, instigante rever o autor de “A geografia da fome” como um esteta radical a defender a imagem pura. Cá comigo, fico pensando se alguém não já teve a ideia de juntar os dois Josués e rodar um documentário sem som nem fala… sobre a fome.

Um terceiro caso que me vem à memória é o do romancista inglês Graham Greene. Tudo bem, seus romances quase todos viraram filmes e ele mesmo seria, mais tarde, convidado por Hollywood para ser roteirista. Nada disso, porém, impede que o inclua neste rol que aqui apresento, por uma razão simples – bem antes de ser romancista, ainda na juventude, ele fez crítica de cinema, e de modo sistemático. A coisa literária viria depois, como veio depois o métier de roteirista.

O inglês Graham Greene.

Dele possuo um livro que coleta sua produção de crítico cinematográfico, um belo volume chamado “Mornings in the dark” (“Manhãs no escuro”), com artigos publicados em jornais londrinos a um tempo em que ninguém, no âmbito literário, sabia quem era esse tal de Graham Greene.

Um quarto caso a citar é o do nosso Vinicius de Moraes, famoso pela poesia publicada e pelas músicas compostas e cantadas, porém, “um desconhecido crítico de cinema”.

Só os mais idosos vão lembrar as tantas “crônicas de cinema” que o nosso mais tarde embaixador e poeta veiculou com assiduidade profissional, nos jornais cariocas, nos anos quarenta. Como Josué de Castro, Vinicius também foi um defensor da tela muda, mas, o melhor de seus escritos está na simplicidade com que falava de seu amor ao cinema e daquilo que seria o perfil do espectador autêntico.

Por sorte, seu trabalho de crítico cinematográfico foi resgatado das velhas páginas de jornal e está no delicioso “O cinema dos meus olhos”, livro organizado e editado pelo jornalista Carlos Augusto Calil. É conferir.

Vinicius de Moraes, o crítico de cinema.