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“Relatos selvagens”: o superego que se dane!

28 nov

Só agora me chega às mãos e aos olhos este “Relatos selvagens” do argentino Damian Szifron (2014). Perdi-o, quando foi exibido por aqui, embora, na ocasião, não tenha escapado dos muitos comentários – aliás, extremamente favoráveis – de amigos que o haviam visto e curtido.

De fato, o filme de Szifron é empolgante e faz jus à fama que já detém, há muito tempo, a boa – para não dizer, excelente – cinematografia argentina. Conta seis estórias, cada uma independente das outras, salvo pelo fato do que está sugerido no título: a selvageria que, em instantes de crise, faz os personagens agirem de modo inesperado para as convenções socialmente recomendadas. Se pensarmos em Freud, algo assim como ´mandar o superego para a p que pariu´…

Na primeira estória, “Pasternak”, um aviador que foi um dia um músico frustrado decide pôr no mesmo voo, todos os seus desafetos, para, a turma toda junta, espatifar-se lá embaixo numa espetacular queda suicida. Vejam que um dos desafortunados passageiros é o psiquiatra de Pasternak, de forma que não estou chutando quando, acima, me refiro a Freud.

Na segunda estória, “Os ratos”, uma garçonete se vinga de um freguês que, no passado, arruinara sua família e o procedimento é um eficiente envenenamento… Em “O mais forte”, terceira estória, dois motoristas se digladiam na estrada, dois duelistas insanos que ganham o mesmo fim ensanguentado. Já “Bombinha”, quarta estória, relata os pormenores de como um engenheiro de demolições, é moral e psicologicamente “demolido” pela burocracia… e revida com moeda própria. O quinto episódio, “A proposta”, trata o caso de um filhinho do papai que, em acidente de automóvel, mata uma mulher grávida: os pais acertam que o jardineiro da família, assumiria o crime, com a compensação de 500 mil dólares, mas, o problema é que contrapropostas vão surgindo e o pai do rapaz decide tomar uma decisão inesperada.

Embora sempre dentro de um mesmo cenário – uma festa de casamento – a última estória é a mais longa e envolve um número maior de personagens, embora, claro, o centro sejam os noivos. Em “Até que a morte nos separe” ela, a noiva, descobre que está sendo traída e, enfurecida, opta pelo menos esperado: um radical, penoso e constrangedor “barraco”.

Em cada estória está tudo perfeito: do roteiro à direção de atores – passando por fotografia, música e montagem – está tudo bem equilibrado e o filme demonstra como se faz cinema com talento e criatividade. Em todas elas, estão bem dosadas as pitadas de drama e humor. Os personagens parecem reais, mesmo quando vão perdendo o controle de seus respectivos egos. E mesmo nos auges caricatos, assim permanecem: reais. Vejam o caso da última estória. Considerem que encenar “um barraco” não é nada fácil, sobretudo com a duração que este tem. O perigo de cair no ridículo (o mesmo ridículo que está sendo encenado) é grande. Szifron consegue esse milagre, e o faz com perfeição. A imagem final, em close, dos bonecos do bolo, no chão, recebendo os efeitos colaterais da selvagem cópula do casal… merece palmas do espectador. Em suma: quanto mais desequilibrados os personagens, mais equilibrado o filme.

No geral, o filme parece fazer a pergunta: até onde o ser humano vai quando sua sobrevivência (psicológica, moral, física, seja qual for) se vê ameaçada? O que ainda temos dos animais, aqueles que aparecem na tela, ao lado dos nomes de cada integrante da equipe de filmagens? O argumento inicial, que deu origem ao roteiro, pode ter sido só uma brincadeira, mas, que deu certo, deu.

Um lugar comum da crítica é que o melhor do bom cinema argentino de atualmente está nos roteiros. “Relatos selvagens” confirma esta verdade. As estórias são inventivas e originais, o que, no entanto, não impede que nelas encontremos ecos de outros filmes e outros autores.

Por exemplo: “Os ratos” nos lembra, de modo bem direto, aqueles filmes curtos que Alfred Hitchcock fez para a televisão americana nos anos 50 e 60, dentro da série “Hitchcock Apresenta”. Sintam como a cozinheira que, à revelia de sua colega medrosa, se empolga com a ideia de pôr o veneno na comida do freguês – e o faz – é um tipo hitchcockiano bem óbvio. Na verdade, no grosso, o filme tem o espírito desesperado (e a temática) de “Um dia de fúria” (Joel Schumacher, 1993), mas talvez o seu eco particular mais ostensivo para o cinéfilo seja o da estória dos dois duelistas na estrada, remontando, desde o primeiro fotograma, ao delicioso “Encurralado” de Steven Spielberg (1971).

Enfim, o filme de Szifron me chegou tardiamente, mas isto não tem importância alguma. Alguns filmes que me chegaram em tempo eu já os esqueci. Este, eu vou demorar a esquecer, ou, quem sabe, talvez não esqueça nunca.

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Um instante de amor

21 jun

Dúvida não há de que o Varilux deste 2017 veio um pouco mais fraco. De todo jeito, assisti com certo prazer a este “Um instante de amor” (“Mal de pierres”, 2016) da diretora Nicole Garcia.

Nada de extraordinário, mas um drama relativamente bem feito sobre uma mulher que estima o amor de um modo tal a perder o limite entre a sanidade e a loucura, sobretudo quando esse amor ansiado lhe escapa.

Posta diante de uma imagem de Cristo na cruz, depois de uma decepção amorosa, Gabrielle implora pelo principal, e esse “principal”, é o amor que a vida teima em lhe negar. Poderia ter sido algo no nível de “O morro dos ventos uivantes”, livro que o seu professor particular lhe emprestara, mas – como diz o frio professor – isto é só literatura.

A estória de “Um instante de amor” se passa no Sul da França, algum tempo após a II Guerra, e os pais de Gabrielle são fazendeiros tradicionais, com certo poder sobre toda uma gama de trabalhadores rurais, entre os quais se encontra esse espanhol José, empregado competente e responsável.

Considerada moça velha “nervosa” – para não dizer desequilibrada – Gabrielle é oferecida a esse José, que a aceita como parte de um negócio de família. Ela logo lhe avisa que não o ama, ao que ele retruca, sincero, que tampouco a ama. Fica, assim, combinado entre os noivos que não farão sexo, e que ele procurará prostitutas quando precisar. Isto, até o dia em que ela, por alguma razão não muito clara, veste-se de prostituta e ele paga pelo ato. “Ponha o dinheiro na mesa”, lhe diz ela.

Esse casamento sem amor segue assim, até o dia em que, acometida do “mal de pedras” (conferir título original do filme), Gabrielle é interna num hospital nas montanhas suíças. Lá ela conhece outro enfermo, um jovem tenente, ferido na guerra da Indochina, um André Sauvage, de sobrenome sintomático. Esse ex-combatente fragilizado desperta nela “o principal” e com uma intensidade nunca sentida.

Um dia, porém, a ambulância vem pegá-lo e, para completo desespero de Gabrielle, o seu quarto de enfermo fica vazio. Ela se arrasa, mas, eis que logo ele retorna, são e salvo, lhe dizendo que fez isso por causa dela… Ou será que não retorna?

Para não contar o resto da estória, deixo a pergunta no ar.

Gabrielle lendo “O morro dos ventos uivantes”.

Digamos apenas que o filme tem uma estrutura narrativa bifurcada, parecida, se vocês lembram bem, com a daquele filme dos anos oitenta com Kathleen Turner, “Júlia e Júlia” (Peter Del Monte, 1987), em que realidade e delírio se intercalavam, formando como que universos paralelos, cada um com sua lógica rigorosa e sua compleição.

Como, tal qual no filme de Del Monte, a estória é narrada no ponto de vista da protagonista Gabrielle, somos tão vítimas de suas ilusões quanto ela, ilusões que só serão esclarecidas no desenlace.

Lembro-me bem que em “Júlia e Júlia” havia, na cena final, uma fotografia que deveria ser esclarecedora, mas não era (Júlia, o marido e o filho: uma família que nunca existiu). Ao contrário do esperado, essa fotografia enfatizava o universo delirante. Em “Um instante de amor” (título brasileiro que não deixa de ser curioso), diferentemente, a fotografia do final (Gabrielle recostada sobre uma cadeira vazia, ou seja, sem o seu tenente Sauvage,) é francamente esclarecedora… O que, para o bem ou para o mal estético, retira do filme parte da sua ambiguidade.

Uma foto decisiva…

Uma coisa é certa: “Um instante de amor” é um filme de mulher, em vários sentidos. Vejam bem: trata-se de uma estória sobre mulher, adaptada de um livro de autoria feminina, dirigida por mulher, com referência literária feminina (“O morro dos ventos uivantes”) e, como se não bastasse, com um desempenho feminino de primeira linha, dado pela sempre ótima Marion Cotillard, aqui mais instigante que nunca.

Penso que, sem pompa nem circunstância, a personagem de Gabrielle vem somar-se à galeria de mulheres apaixonadas que o cinema, desde a era clássica, vem sabendo retratar.

Com relação à diretora Nicole Garcia, não conhecia seus filmes, mas, lembro bem dela como atriz, especialmente do seu papel dramático e decisivo em “Retratos da vida” (“Les uns et les autres”, 1981, de Claude Lelouch), na pele daquela violinista judia que, para salvar o filho bebê, é forçada a deixá-lo numa linha de trem que se dirige a campo de concentração, e só vem a revê-lo já velha, num asilo para idosos.

Não me surpreenderia se alguém me dissesse que os muitos papéis dramáticos que Nicole Garcia desempenhou nos filmes em que foi atriz, ajudaram a construir a figura cativante da Gabrielle de “Um instante de amor”.

Marion Cotillard, em excelente interpretação.

Cinema Novo

13 mar

Já vai fazer um ano que, no último Festival de Cannes o prêmio “L´Oeil d´Or”, de melhor documentário, foi para um filme brasileiro: “Cinema Novo” (2016), de Eryk Rocha. Beleza. Ponto para nós, mas, e o filme? Onde foi possível vê-lo?

Se você não é porventura “barata” de festivais de cinema, teve que esperar que ele chegasse ao circuito comercial de sua cidade. Se é que chegou. Na maior parte dos casos, não. No meu caso, permaneceria como mais um “ilustre desconhecido”, não fosse a iniciativa do Canal Brasil de incluí-lo na sua programação.

O filme é um ensaio audio-visual, com imagens e sons do movimento de cinema que projetou o Brasil cultural e artístico para fora de seus limites geográficos e deixou uma proposta, estética e política, ainda hoje reverberante.

Como afirma o seu autor, não é um filme “sobre”, mas, “com” o Cinema Novo Brasileiro, e essa mudança de preposições é importante. Não há nele, por exemplo, depoimentos atuais de críticos ou historiadores – sequer de cineastas – que pudessem nos dar um, digamos, discurso revisionista desse movimento cinematográfico. Não. Todas as imagens (incluindo os depoimentos) são “de época”, ou seja, é o Cinema Novo Brasileiro falando dele mesmo.

E, para dizer a verdade, falando pouco (se entendermos falar como gesto verbal), pois o que predomina são as muitas imagens dos muitos filmes – somadas às imagens “periféricas” ao movimento cinemanovista, como as dos filmes de Humberto Mauro, Mário Peixoto, Alberto Cavalcanti, Linduarte Noronha e outros – tudo montado de uma maneira pessoal (sem créditos justapostos), conduzindo, menos à informação histórica que a um poema plástico.

Tanto é assim que o autor, em vários momentos, se dá ao luxo de brincar com isotopias visuais, como naquelas séries encadeadas de imagens de filmes diversos que mostram, ora pessoas correndo, ora dançando, ora discursando, isto independentemente das relações temáticas que possam ter existido entre filmes tão diferentes quanto, digamos, “Menino de engenho”, “Terra em transe”, ou “Macunaíma”.

Inspirado – segundo depoimento seu – no conceito de “cinema cachoeira” de Humberto Mauro, o autor buscou, de propósito, essa ressignificação que, propiciada pela edição criativa, transforma o enorme material disponível (cerca de 130 fontes) num novo filme, um filme atual. Como afirmou o autor em entrevista: “Cinema Novo quer falar de hoje, de agora”.

Já que quer falar de agora, fico pensando nos seus receptores. Inevitavelmente, há dois tipos de espectador para ele. Aquele mais coroa, que conheceu o cinema realizado no país nos anos sessenta e, portanto, viu os filmes mostrados dentro do filme; e o jovem de hoje, que só conhece o Cinema Novo Brasileiro de ouvir falar. Eu, que me ponho na primeira categoria, não duvido que o efeito poético pretendido valha para os dois, porém, com certeza, sua forma de acontecer, e mesmo sua intensidade, será diferente para cada caso. Ou estou enganado?

Ainda segundo Eryk Rocha (36 anos de idade, filho de Glauber), uma coisa que o filme retoma do Cinema Novo Brasileiro seria o seu “projeto de formação de público”.

O que nos remete aos anos sessenta, quando o Cinema Novo Brasileiro era novo, com a pergunta inevitável: até onde houve formação de público?

A propósito da questão, ocorreu-me consultar estatísticas que pudessem porventura ajudar na compreensão do fenômeno. Vejam bem, a produção brasileira de cinema, na década de sessenta – a década do CNB – foi exatamente de 442 filmes. Tive o cuidado de repassar, um a um, esses 442 títulos, para identificar quais deles caberiam na rubrica CNB.

Segundo minha observação, apenas 40 comportariam essa rubrica, o que significa dizer que todo o CNB constituiu cerca de 9% da produção realizada na sua década. Se considerarmos que nem todos, dentre esses 40 filmes, foram exibidos em circuitos comerciais, o que deduzimos? Que nos anos 60, o grande público, aquele chamado de espectador comum, conheceu mal, ou não conheceu o CNB. E que, portanto, se houve “formação de público” foi precária, muito precária. Sejamos realistas: o pessoal cinéfilo da época (onde me incluo) saiu de casa correndo para ver “Os fuzis”, “Vidas secas” e “Deus e o diabo na terra do sol”, mas, não consta (e mais estatísticas confirmariam isso) que o espectador comum tenha ido junto.

Sem coincidência, abri esta matéria falando da dificuldade que tive para ver “Cinema Novo”, o filme. E de como só cheguei a ele por interesse particular. Acho que não preciso explicar mais nada. Parece-me que, antes da questão de um projeto de formação de público, há um buraco mais embaixo: a distribuição de cinema brasileiro no Brasil. Formação pressupõe contato: simples assim.

Enfim, gostei do filme de Eryk Rocha, cheguei a emocionar-me em certos momentos, mas quem sou eu? Um cinéfilo solitário, que está muito longe de representar o espectador comum, aquele que realmente precisaria – para respeitar a concepção dos dois Rochas, o pai e o filho – ser “formado”.

O diretor Eryk Rocha, 36 anos, filho de Glauber Rocha.

O futuro não se vê

9 nov

Com o filho de dez anos, Hank, o casal McKenna está de férias em Marrocos. Residentes em Indiana, Estados Unidos, ele é médico e ela, ex-cantora, hoje dona de casa.

A viagem teria sido ótima, se não tivesse havido aquele pequeno incidente, no ônibus. Num movimento brusco do veículo, Hank, sem querer, arrancou de uma passageira árabe, o seu intocável véu facial, e isso deu confusão, que foi contornada por um desconhecido de sotaque francês, o qual se fez amigo do casal americano.

À noite, no quarto do hotel, enquanto o pai se apronta, a mãe e o garoto solfejam e dançam, juntos, aquela cançãozinha cuja letra faz perguntas sobre o tempo por vir, com o refrão “Que será, será…”. E tudo parecia normal. Parecia mas não estava. Saberemos no dia seguinte, quando o casal e o garoto vão passear no mercado árabe e presenciam um assassinato. Antes de morrer, a vítima agonizante confidencia uma informação no ouvido do Sr McKenna, e…

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Não vou contar o resto da estória, mas, é claro que o leitor, homem ou mulher, sabe demais de que filme estou falando. Sim, é isso mesmo: “O homem que sabia demais” (“The man who knew too much”, 1956, de Alfred Hitchcock).

No elenco estão James Stewart (o pai), Doris Day (a mãe), e Daniel Gélin (o homem morto no mercado) mas – pergunta de gaveta que faço ao leitor cinéfilo – quem é o ator que desempenha o papel do garotinho Hank? Faço a pergunta porque esta matéria pretende ser sobre ele.

Se você não sabe, não se preocupe. Pouco tempo depois de atuar nesse filme inesquecível, esse ator mirim desaparecia do cenário cinematográfico… E nunca mais ninguém ouviu falar dele.

Christopher Olsen – este é o seu nome – nasceu em 1946, em Los Angeles, e aos dois anos de idade já aparecia na tela. Era o bebê, filho de Dana Andrews, no sombrio noir sobre a guerra fria “Cortina de ferro” (William Wellman, 1948).

Entre 1948 e 1958, Olsen apareceu na tela várias vezes, na maior parte dos casos em pontas não creditadas, em filmes menores.

Mãe e filho cantando "Que será, será".

Mãe e filho cantando “Que será, será”.

Eventualmente, também esteve em alguns poucos filmes de mais destaque, por exemplo: em 1952 foi o filho de Barry Sullivan no drama “Assim estava escrito” (Vincente Minnelli); em 1956 esteve no faroeste de Russell Rouse “Gatilho relâmpago”; no mesmo ano foi o filho de James Mason em “Delírios de loucura”, de Nicholas Ray; e em 1957 foi o filho de Robert Stack em “Almas maculadas”, de Douglas Sirk.

Mas nada que lhe tenha dado a visibilidade que conseguiu em “O homem que sabia demais”. É verdade que a canção “Que será, será” ajudou, até porque é com ela que o desenlace se organiza para o ansiado final feliz, mas, além disso, a figura de Olsen é cativante, com seu cabelo louro, seus olhos azuis, e seu jeito despachado de garoto típico americano.

Ora, com essa visibilidade toda, o esperado era que sua carreira ascendesse e ele viesse, mais tarde, com mais idade, a se tornar um galã das décadas seguintes.

Tal não aconteceu. Seu último filme, “Return to Warbow”, um faroeste de segunda categoria, não exibido entre nós, foi rodado e lançado em 1958, e, depois disso, nunca mais o mundo cinematográfico teve notícia de Christopher Olsen.

Perto do desenlace ansiado em "O homem que sabia demais".

Perto do desenlace ansiado em “O homem que sabia demais”.

No seu país, foi ator infantil de televisão e esteve em vários seriados, como “Cheyenne”, “Lassie”, “The millionaire”, mas, em 1960 também encerrou sua carreira na telinha… definitivamente.

Depois dessa data, o que é feito de Christopher Olsen? Ninguém sabe, ninguém viu. Nem o Google dá conta do seu paradeiro. Nos muitos sites de cinema da internet, o único dado sobre ele é que está vivo, já que, em nenhum deles, consta data de sua morte. Se é vivo, estaria, portanto, com setenta anos de idade, completados no dia 09 de setembro deste ano.

Por que esse vazio de informação sobre sua vida, mesmo que fora das telas? Não assumiu porventura uma outra profissão que fizesse constar seu nome nas enciclopédia eletrônicas de hoje em dia? Ou teria havido um recolhimento de ordem ideológica, desejado e assumido?

E vejam que dois irmãos de Olsen estiveram no show business. Seu irmão mais velho, nascido em 38, Larry Olsen foi ator de cinema, normalmente coadjuvante, com 25 filmes rodados, carreira também bruscamente encerrada em 1954, no filme “A lenda dos beijos perdidos”. Sua irmã mais nova, nascida em 61, Susan Olsen, foi atriz de televisão.

A canção do filme de Hitchcock – vocês lembram – afirma que ´o futuro não se vê´. No caso particular de Christopher Olsen, a frase ganha contornos semânticos adicionais.

Christopher Olsen em "Delírios de loucura", 1956, com James Mason.

Christopher Olsen em “Delírios de loucura”, 1956, com James Mason.

O pior cineasta do mundo

29 jun

Repletos de falhas técnicas, semióticas e de outra ordem, os filmes de Ed Wood, foram, na sua época, anos 50, – e ainda hoje são – considerados ´trash´, palavra inglesa para ´lixo´.

O problema é que esses filmes são tão assumidamente ´trash´ que, com o tempo, foram se tornando divertidos e muito agradáveis de ver. Os seus erros de continuidade, e outros erros, viraram clássicos e passaram a ser lidos como sofisticada metalinguagem.

E hoje em dia, Ed Wood desfruta a privilegiada posição oximórica de ser ´o pior cineasta do mundo e o mais cultuado´. Tão cultuado que ganhou de Tim Burton – vocês lembram – uma bela homenagem póstuma, o filme “Ed Wood” (1994), em que o ator Johnny Depp desempenha o seu papel. No meu livro virtual “Emoção à flor da tela” dedico um ensaio ao filme de Burton. Conferir o blogue “Imagens amadas”.

Poster de "A face do crime" ("Jail bait")

Poster de “A face do crime” (“Jail bait”)

Sem prestígio em Hollywood, e trabalhando com baixíssimos orçamentos, Wood não podia dar-se ao luxo de seguir a gramática do cinema, e fez do erro o seu trunfo maior, sua alternativa para inventar filmes imaginosos e extravagantes, basta lembrar “Glen ou Glenda” (1953), “A noiva do monstro” (1954) ou o mais famoso “Plano 9 do espaço sideral” (1959).

Agora, me chega às mãos e aos olhos este seu “A face do crime” (“Jail bait”, 1954), uma curiosa incursão no gênero noir que, para os seus parâmetros desajeitados, pode se dizer bem sucedida.

A estória é mais ou menos a seguinte. Filho de conceituado cirurgião plástico, o playboy Don é aliciado para o mundo do crime pelo fora da lei Vic Brady. No assalto ao cofre do Teatro Monterey, Don mata um policial, e vira bandido, perseguido pela polícia com a grave pecha de ´assassino de policial´.

Arrependido e querendo se entregar, termina sendo morto por Brady que, mais tarde, de arma na mão, exige do pai de Don, uma cirurgia que lhe mude o rosto e assim, o livre da fotografia na ficha policial que o incrimina. O médico faz a operação cirúrgica, porém, lhe dá o rosto do seu próprio filho, e Brady é, assim, alvo da polícia e morto como se fosse Don.

Casal do crime...

Casal do crime…

Notar que para o pai, ver o bandido Brady ser morto ostentando o rosto de seu filho, é como se, ele mesmo, o pai, estivesse conduzindo um filho já morto, a uma segunda morte.

Ninguém pode dizer que a estória não seja interessante, com todos os ingredientes do gênero  noir, tão noir que, embora rodadas na ensolarada Los Angeles, todas as cenas foram sistematicamente filmadas à noite, como se o dia não existisse.

A rigor, o filme possui aqueles três elementos que definem o gênero: no original, “hat, dame and gun”, ou seja “chapéu, dona e arma”. “Chapéu” porque naquele tempo todos os homens usavam; “dona” é o termo pejorativo para o sexo feminino, no caso, a mulher vamp obrigatória; e quanto a “arma”… não precisa explicar.

Um ponto favorável é o diálogo, cheio de ironias e boutades engenhosas. “Eu não gosto de ter cadáveres espalhados por dentro de casa”, diz Loretta, a companheira de Brady, referindo-se ao corpo de Don, escondido num armário pelo autor do crime. E a resposta é: “Cala essa latrina ou o próximo vai ser o seu”, com o seguinte adendo, bem sintomático: “não se esqueça que fui eu que lhe tirei da rua e a trouxe para cá”, remissão ao passado prostituto da companheira.

Cirurgia forçada.

Cirurgia forçada.

“Você sabe que essa arma é isca de prisão”, diz a irmã de Don, quando ele, ainda no início do filme, procura e acha o revólver caseiro e o põe no bolso. E a expressão usada é “Jail bait”, que é o título original do filme, e tem uma conotação sexual, designando a pessoa de menor que atrai um adulto, e, por isso mesmo, é ´isca de prisão´.

Sem dúvida alguma, “A face do crime” é o filme mais coerente de Ed Wood, todo construído em ´decupagem clássica´, aquele tipo de montagem convencional, com a serventia explícita de facilitar o andamento e a compreensão da narrativa, para o espectador comum.

Com Ed Wood, no entanto, coerência sempre tem limites. Por exemplo, o espectador desavisado, sem informação sobre o estilo Wood, com certeza, vai estranhar as circunstâncias em que é executada a cirurgia para mudar o rosto do bandido: de improviso, num sofá da residência do paciente, sem enfermeiras, nem demais aparelhamentos obrigatórios para uma operação dessa gravidade. E estranhará mais ainda, quando, em pouco tempo, o rosto já sarou e o médico já pode mostrar aos policiais – que, sem coincidência, acabaram de chegar ao recinto – o resultado de seu trabalho. Parece coisa de desenho animado, mas é somente Ed Wood.

No filme de Tim Burton, Johnny Depp no papel de Ed Wood.

No filme de Tim Burton, Johnny Depp no papel de Ed Wood.

Confinados

18 fev

Se você viveu, como eu, os anos cinqüenta no bairro de Jaguaribe, em João Pessoa, conhece a estória. Foi na rua Alberto de Brito, um pouco acima da esquina com a Coremas, sentido Centro, numa casinha pobre do lado esquerdo da rua.

Nessa casinha foi descoberta uma coisa horrível, que chocou a população: uma moça fora criada em cativeiro pela avó, desde pequena trancada num quarto escuro, sem nenhum contato com o mundo exterior. Não lembro como nem quem descobriu o cativeiro, mas sei que a moça, com cabelos desgrenhados, unhas enormes, esmolambada e mal cheirosa, grunhindo sons estranhos, parecia um bicho. Segundo a avó amalucada, o nome dela era Amorosa. A imprensa noticiou, e se você for atrás dos jornais da época com certeza vai ver o fato registrado, talvez com fotos.

w room poster

Mas, por que estou tratando disso? É que acabei de assistir a esse “O quarto de Jack” (“Room”, 2015) e, inevitavelmente, lembrei-me de Amorosa. Tudo bem, criado até os cinco anos dentro de um quarto em companhia da mãe, o garoto do filme, não chega a ter o aspecto horrendo de Amorosa, porém, o tema do confinamento é o mesmo.

Concorrendo ao Oscar, o filme de Lenny Abrahamson é bom, mas, para dizer a verdade, o seu primeiro efeito é nos fazer lembrar outros filmes com a temática; e como o conceito de confinamento é amplo, os filmes são muitos, sem importar, obviamente, os motivos pelos quais as vítimas foram confinadas, ou por quanto tempo assim permaneceram.

O primeiro que me veio à mente foi “Muito além do jardim” (Hal Ashby, 1979). Em seguida lembrei “O show de Truman” (Weir, 1998). Nestes filmes, os confinados são adultos, mas os pontos comuns com “O quarto de Jack” são muitos, a começar pelo lance da televisão. Em “Muito além”, o confinado, como o Jack de agora, só conhece o mundo lá fora pelo aparelho de TV. Em “Truman”, o protagonista está dentro da própria engrenagem da televisão, e não sabe. O terceiro filme que me ocorreu foi “O colecionador” (Wyler, 1965), já que o motivo do confinamento é o mesmo, um sequestro que devia valer para a vida toda.

x mãe e filho no quarto

O impacto do menino confinado, ao ser exposto ao mundo fora de seu quarto, traz à tona “O garoto selvagem” de Truffaut (1970), e o mais radical “O enigma de Kasper Hauser” de Herzog (1974).  Mas também nos faz pensar em “A mulher da areia” (Teshigahara, 1964), e em todos os confinamentos entre quatro paredes, como em “Um condenado à morte escapou” (Bresson, 1956) ou “O homem de Alcatraz” (Frankenheimer, 1962).

Uma coisa boa no filme de Abrahamson é que se chame “Room”, deste jeito: palavra única com letra maiúscula. (o título brasileiro estraga tudo). Vejam que depois de libertado, o menino fala que estava, “in Room”, como se estivesse dizendo ´in Canada´, ou ´in Ireland´ (no Canadá ou na Irlanda). Essa maneira de expressar-se sugere a verdade dele: a de que o quarto era o seu universo, um universo paralelo e bem diferente do que ele conhece agora. Libertado e encontrando a mãe também liberta, a primeira coisa que pede é para voltarem à cama, “in Room”. Sim, porque esse país chamado ´Room´ (´Quarto´), mesmo fisicamente limitado, prescindia de uma série de problemas com que ele se depara aqui fora. E, claro, nesse momento, o espectador inevitavelmente faz a associação com a ideia de útero. Um útero estranho, é verdade, pois abrigava ambos, filho e mãe.

Outra coisa interessante no filme são suas gritantes lacunas: ninguém sabe o motivo do sequestro, nem o paradeiro do sequestrador. Sequer a presença dos avós da criança esclarece, muito menos a polícia… Claro, é uma opção autoral, mas uma opção interesseira, que tem a serventia de enfatizar o lado simbólico da situação.

z olhando a claraboia e imaginando o mundo lá fora

Ao espectador atento não deve ter escapado que Jack só supera o trauma de seu confinamento na ausência da mãe. Naquele momento em que ele declara o seu amor à avó, sente-se que deu adeus ao país chamado `Room´. Nem precisava o adeus do desenlace. Também é interessante que o ponto de vista narrativo seja o de Jack (e não o da mãe). É a ele que é dado mais tempo de tela, e até a narração em voz over (supostamente onisciente) é dele. Dentro dessa lógica é que nós, espectadores, permanecemos, na primeira metade do filme, também confinados no quarto e só divisaremos a paisagem lá fora no instante futuro em que Jack a divisar.

As sequelas de Jack são basicamente psicológicas, mas há um traço físico que traz do confinamento: os cabelos longos que, mais tarde, serão cortados e presenteados à mãe, para lhe dar força. Agora de cabelos curtos, Jack está pronto para enfrentar e vencer esse segundo Mundo, paralelo a Room.

Cá comigo, fico imaginando qual terá sido o destino da nossa Amorosa. Se enfrentou e se porventura venceu o nosso Mundo não sei, mas que sua estória também dá filme, dá. Atenção, cineasta paraibanos!

O ator Jacob Tremblay como o confinado Jack.

O ator Jacob Tremblay como o confinado Jack.

Hud, o “car boy”

11 mar

Foi nos anos 1950 que o filme faroeste amadureceu, e tanto que, no processo, gerou uma espécie de parente agregado: o filme que tinha o mesmo cenário, o Oeste, mas o tempo era outro; era o presente, contemporâneo às filmagens. Nesse novo modelo de ´western´, o cavalo cedeu lugar ao automóvel, e o ´mocinho´, subtraído de seu mítico heroísmo de cowboy – bem que poderia ser chamado de ´car boy´.

Não sei dizer quem foi, na cronologia, o primeiro “parente agregado” do faroeste, mas, lembro pelo menos três filmes nesse modelo: “Assim caminha a humanidade” (George Stevens, 1956), “Os desajustados” (John Huston, 1960) e “Hud, o indomado” (Martin Ritt, 1963). hud poster Sobre os dois primeiros já escrevi alhures, e aqui me atenho a “Hud, o indomado”, recentemente circulando na programação da televisão paga, um filme de boa qualidade que teve cinco indicações ao Oscar e levou três.

Nessa fazenda de gado, no Oeste americano de hoje em dia (ou seja, de 1963) vivem três homens de faixas etárias diferentes: o proprietário e idoso Homer, seu filho Hud e o neto adolescente Lon. De pais falecidos, este último é sobrinho de Hud, de forma que a única presença feminina na casa fica por conta da empregada, a simpática e atraente Alma Brown.

O velho Homer representa o passado e todos os seus valores; nele o espectador pode ler claramente o perfil de todos os rancheiros ou criadores de gado dos velhos faroestes e, por tabela, a bravura dos que conquistaram o Oeste bravio.

Já no cínico e inescrupuloso Hud, seu filho, ao contrário, divisamos o novo western man, – o nosso “car boy” – aquele que dirige seu cadillac em alta velocidade, que namora todas as mulheres casadas do lugar, que enche a cara nos prostíbulos da cidade, e que pensa em vender a fazenda para escavação de petróleo, algo bem mais rentável do que a atividade pecuária. É o novo tempo chegando, com sua nova moral, ou seria mais apropriado dizer, falta de moral.

Brando De Wilde e Paul Newman em cena do filme.

Brando De Wilde e Paul Newman em cena do filme.

Entre os dois personagens, e também entre os dois modelos éticos, se equilibra o adolescente Lon, aquele a quem a câmera concede mais tempo de tela. Para dramatizar o contraste entre passado digno e presente corrupto, dois lances de roteiro são básicos.

O primeiro é a doença – em si mesmo simbólica – que acomete o gado. Quando morre a primeira rês, Hud sugere ao pai que venda a manada toda e repasse o problema para outrem, o que, naturalmente, deixa o genitor indignado – e se for o caso, também o espectador – com a sugestão de contaminar o gado no país inteiro, meramente por conta do lucro. Ponto dramático que completa as caracterizações dos personagens e define o caminho actancial da narrativa, o segundo lance de roteiro a que me refiro é a cena em que Hud tenta estuprar a emprega, e só não o faz porque o sobrinho interfere.

Paul Newman e o veterano Melvyn Douglas.

Paul Newman e o veterano Melvyn Douglas.

Trata-se, evidentemente, de um filme contundente, só possível depois de estar fora de validade o Código Hays de censura, aliás, extinto para sempre no ano seguinte, 1964. Seu diretor, Martin Ritt, era um dos jovens novatos, como Sidney Lumet ou Sam Peckimpah, com vontade explícita de quebrar barreiras e impor novos conceitos, estéticos e de outra ordem. Por exemplo, numa data em que a cor já era praxe, o seu preto e branco impressiona, especialmente pelos criativos dotes fotográficos do grande mestre James Wong Howe, sem coincidência, um dos três Oscars recebidos.

Um comentário obrigatório sobre o filme de Martin Ritt diz respeito ao elenco. No papel do imoral e “indomado” Hud, Paul Newman está ótimo, e melhor ainda está a sempre soberba Patricia Neal, como a empregada Alma, vítima de suas garras, mas não de todo inocente: quando ela decide ir embora do rancho, uma alegação é a de que não resistiria por muito tempo aos sedutores ombros largos de Hud.

No terraço: avô, neto e filho...

No terraço: avô, neto e filho…

Mas, quero me referir a dois atores cujas simples presenças trazem, para o filme, significações adicionais. Sim, para o espectador da época (e se for o caso, para o de hoje também) Melvyn Douglas, como o velho rancheiro deprimido com o seu legado carnal, era o símbolo da Hollywood clássica, anos 30 e 40, agora decadente como a vida no Oeste. (Lembram dele como o galanteador de Greta Garbo em “Ninotchka”, 1939?).

E, do mesmo modo, Brandon De Wilde simbolizava o auge do gênero faroeste, aquele adolescente que todo mundo lembrava como o garotinho amigo de Shane em “Os brutos também amam” (1953): e sintam a ironia intertextual, na infância seu amigo era não apenas um herói, mas a encarnação de todos os mitos do faroeste; agora, na adolescência, seu “amigo” não passa de um cínico e devasso que enterra o Oeste, como o velho Homer foi obrigado a, literalmente, enterrar uma manada inteira, contaminada por uma doença – repito – simbólica em vários sentidos.

A empregada Alma (Patricia Neal), dias antes do estupro...

A empregada Alma (Patricia Neal), dias antes do estupro…