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DIPLOMACIA

14 maio

Fazia tempo que eu não tinha notícia do cineasta alemão Volker Schlondorff, um dos nomes destacados no movimento cinematográfico que o mundo chamou de “Novo Cinema Alemão”.

Decorrido entre os anos sessenta e oitenta, esse movimento – um dos últimos na História do cinema – incluiu Rainer Werner Fassbinder, Werner Herzog e Wim Wenders, que juntos com Schlondorff e sua esposa Margarette von Trotta, deram uma cara nova à até então confusa, dispersa e irrelevante produção alemã.

De Schlondorff eu conhecia “A súbita riqueza do povo de Combach” (1971), “O Tambor” (1979) e “Um amor de Swan” (1983), este último visto, em estreia local, no velho Cine Banguê em sua fase áurea. Filmes que me impressionaram e me convenceram de que eu estava, em que pese ao fato de os dois últimos serem adaptações literárias (Gunter Grass e Proust, respectivamente) perante um talento forte de um criador original.

Pois bem, em 1986 eu estava residindo em Bloomington, Indiana, Estados Unidos, quando fui convidado por um amigo americano a frequentar um dos Cineclubes da cidade. O filme anunciado era “A morte do caixeiro viajante” e eu pensei que se tratasse do clássico de Lazlo Benedek, de 1951, com o grande Fredric March no papel-título. Não era. Era uma nova adaptação da peça de Arthur Miller, feita para a televisão, com Dustin Hoffman no papel do trágico caixeiro Willy Loman. E a direção de quem era? Para a minha completa surpresa, de Volker Schlondorff.

De lá para cá nada mais vi dele, mas agora me cai nas mãos um de seus filmes recentes, “Diplomacia” (“Diplomatie”, 2014), um drama de guerra sobre os últimos dias do exército alemão na Paris ocupada, quando as forças aliadas já estavam nas redondezas, em agosto de 1944.

Embora o contexto seja a guerra, o filme tem pouca ação e se passa, quase todo, entre as quatro paredes do amplo gabinete do então nomeado “Governador” de Paris, o general alemão Dietrich von Choltitz. Este recebe a visita “diplomática” do Consul Geral da Suécia Raoul Nordling e o longo diálogo – com frequência mostrado na técnica do campo contra campo – substitui as porventura esperadas ações.

Esse diálogo tem um miolo, a rigor, o conflito que justifica o filme. É que, conforme a ordem de Hitler, a cidade de Paris já estava, toda ela, tecnicamente preparada para ser destruída – era só o General Choltitz emitir o comando a seus soldados, o que ele estava disposto a fazer de imediato e sem hesitação. Já o Consul da Suécia – país neutro – ali está para tentar convencer o General alemão de que a destruição de Paris não valia a pena.

De lado a lado, as argumentações se chocam e o impasse vai tomando forma de coisa definitiva. Já estamos nos aproximando do final do filme – e talvez cansados de tanta fala inútil – quando o tom da conversa vai se tornando mais pessoal. E, numa cena intimista de tom confessional, descobrimos, junto com o Consul sueco, que o motivo do General alemão para cumprir as ordens nazistas não é propriamente patriótico, mas pessoal: sua família, esposa e filhos, estão sob a mira da Gestapo… De repente, do militar impassível que parecia, Choltitz, acometido por constantes ataques de asma e pelo pavor de perder os seus, vai diminuindo de figura… até se tornar um mortal, como nós todos.

Com meia hora de projeção já fica claro para o espectador que estamos vendo a adaptação de uma peça de teatro. De fato, a peça é do dramaturgo Cyril Gely, que toma a liberdade de inventar uma situação dramática, que – atenção! – não corresponde necessariamente aos fatos históricos. Um exemplo: muitos dos argumentos do Consul sueco evocam o que os espectadores – os da peça e os do filme – sentem por Paris, a Cidade Luz que nunca devia ser destruída. Eu, pessoalmente, tinha acabado de assistir na TV o incêndio na Notre-Dame e trouxe esta emoção para dentro do filme.

Claro que também trouxe para o filme de Schlondorff, a emoção de outros filmes sobre o tema. Por exemplo, o “Paris está em chamas?” (“Paris, brûle-t-il?”, 1996) do francês René Clément, vocês lembram, não é, onde Gert Fröbe fazia o General Choltits e o grande Orson Welles era o Consul sueco Nordling.

Enfim, foi bom ter notícias fílmicas de Volker Schlondorff.

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Os belos dias de Aranjuez

3 jul

O que nos faz aguentar um filme inteiro sem nenhuma ação, só diálogos? Resposta: o nome de Wim Wenders na direção. É o caso de “Os belos dias de Aranjuez” (2016) que me chegou à vista há pouco.

Baseado na peça de Peter Handke, o filme começa nos mostrando o amplo gabinete de um escritor que, sentado diante de sua máquina de escrever, dedilha, na página em branco, as palavras que constituirão sua próxima obra. Enquanto escreve, é-nos permitido avistar, lá fora, um casal, sentado em torno de uma mesa, no belo jardim dessa ampla residência de campo, toda rodeada de uma vegetação exuberante. É um dia de verão e o casal saboreia um suco, enquanto conversa.

Como as imagens são simultâneas, o espectador é, inicialmente, levado a pensar que são pessoas independentes, o escritor no seu gabinete, e o casal lá fora. Talvez amigos ou parentes. Com o andar da projeção, percebe-se que o casal fala exatamente o que o escritor redige, ou seja, esse casal não passa de dois personagens que estão sendo criados naquele momento pelas palavras do escritor.

Em filmes assim, digo, que começam com alguém escrevendo a estória, a praxe é que o escritor desapareça da tela e a estória tome conta da diegese, até um momento final, quando a figura do escritor retorna para fechar. Aqui não. Os três continuam presentes, e várias vezes, vemos o escritor espiando os seus personagens, ou vice-versa, sendo espiado por eles. Como se todos, e não apenas dois, fossem personagens criados ad hoc. Outra coisa: nem sempre existe sincronia entre o gesto de escrever e o ato de falar dos personagens.

Mas não só isso nos intriga. Como já disse, o mais intrigante é a inexistência de ação. O escritor até que se move: às vezes, para de escrever, se levanta vai lá dentro, e põe uma música para tocar; outras vezes caminha sem rumo por dentro de casa, e mesmo lá fora pelo jardim, e mais adiante floresta adentro. Ao passo que os seus dois personagens mal se movimentam: às vezes mudam suas cadeiras de lugar, mas o movimento é mínimo. Limitam-se o tempo todo a falar, um formulando perguntas ao outro, que responde de bom grado e se estende em suas divagações, sobre assuntos os mais diversos: sexualidade, relação a dois, amor, infância, etc…

Tanto é assim que, lá pelo final, quando o homem se levanta e, imitando um pássaro de que falava, sai correndo pela pradaria de braços abertos, a mulher reclama e lhe grita que “Não estava combinado que teríamos ação, qualquer ação”. O homem alega que um pouquinho de ação não vai fazer mal, mas, nesse momento, o espectador dá-se conta de que havia entre os dois, desde sempre, um código que não permitia certos comportamentos, ou mesmo certos assuntos. Algumas vezes, um deles era brecado ao falar de um tema, que o outro, alegando o código, simplesmente desaprovava.

Em certos momentos, a infindável conversa do casal lembra uma sessão de análise, mas só em certos momentos, pois, no geral, são os dois – e não apenas um – que relatam suas experiências de vida as mais privadas. Por vezes, o diálogo toma rumo surrealista, sobretudo quando o que ela fala nada tem a ver com o que ele fala, e vice-versa. Um exemplo que tem que ser dado é o das frequentes referências dele aos seus belos dias em Aranjuez, os quais, quando mencionados, nada têm a ver com o discurso de sua interlocutora, embora ela o escute com atenção e interesse.

Na verdade, em ambos os casos são discursos poéticos, cheio de imagens líricas que, se concorrem com a beleza da paisagem em torno, acho que ganham. Uma qualidade desses diálogos é, como esperado, a ambiguidade. Tratando de sua vida amorosa, a mulher se corrige com frequência e volta atrás no que disse. É comum que comece fazendo uma afirmação e aí diz “não” e corrige – isso muitas vezes ao longo de sua fala.

Em se tratando de Wim Wenders, um intertexto inevitável é o do cinema, introduzido com alguma sutileza. Exemplo: quando a mulher pergunta ao seu interlocutor se ele acredita que os seus companheiros de cama sempre falavam de amor, a resposta é a seguinte: “sim, acredito, quando penso em filmes antigos”. Num outro instante, mais perto do final, a mulher faz uma longa e comovida homenagem às mulheres dos velhos faroestes, dizendo que, mesmo amando seus heróis, eram independentes e que gostaria de ser como elas.

Na abertura desta matéria, usei o termo “aguentar” para “Os belos dias de Aranjuez”. De fato, não é um filme digerível. Experimental e desconcertante, tem todo o ranço do chamado “cinema de arte europeu”, mas, de qualquer forma, consegue ser  suave e delicado, e, se você tiver paciência e disposição, a experiência de vê-lo pode talvez vir a ser gratificante.

O escritor é o ator alemão Jens Harzer