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A VIDA INVISÍVEL

18 dez

“Um melodrama tropical” – esta é a tagline do filme “A vida invisível” (Karim Aïnouz, 2019), em cartaz na cidade e no país. Pois nunca vi tagline mais apropriada. Como também o é a assunção de um gênero cinematográfico que ela sugere. E vejam bem – um gênero que parecia morto havia tanto tempo, e que aqui reaparece com tanto vigor.

Amores não correspondidos, casamentos arranjados, traições, frustrações profissionais, viagens para terras distantes, desaparecimentos, correspondências desviadas, cartas encontradas na velhice… Quanto disso não já vimos tantas vezes nas telas do passado… e como gostamos de ver, ou rever…

Claro que esses elementos melodramáticos tem aqui o seu sabor “tropical”.

Filhas de uma modesta e conservadora família portuguesa, no Rio de Janeiro dos anos cinquenta, Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stokler) têm sonhos diferentes. Uma quer ser pianista, a outra anda atrás de um grande amor. Uma é mais comportada, a outra, mais rebelde, mas o essencial é que as duas se compreendem, se aceitam e se amam.

´Nem piano, nem amor´ – esta poderia ser a frase para resumir seus respectivos paradeiros, mas o pior não é isto. Não conto o enredo, mas o pior é a separação a que são submetidas.

Dois lances de roteiro bem sintomáticos do gênero assumido são:

(1) A cena em que, sem terem a mínima consciência disso, as duas irmãs, postas nas mãos do acaso, estão por um breve momento, no mesmo ambiente, um restaurante em que Guida entrou à força com sua amiga negra, e onde Eurídice se maquia na toalete, enquanto o marido a aguarda na mesa. O filho pequeno desta brinca com a filha pequena daquela… Por questões de segundos, as duas irmãs não se veem e mudam os seus próprios destinos.

(2) A cena em que, muitos anos depois, num asilo da cidade, uma Eurídice idosa (Fernanda Montenegro) conhece a neta de Guida e, com abraços e beijos, arranca – se for o caso – lágrimas do espectador.

Para ser franco, o filme de Aïnouz funciona ainda melhor, se lido na tradição de um certo cinema americano dos anos cinquenta. Quem tem idade pra tanto, vai lembrar filmes como “A caldeira do diabo”, “Amores clandestinos”, “Madame X” e tantos outros melodramas da época.

Mas, certamente um cineasta especialmente lembrado vai ser Douglas Sirk, que elevou o gênero ao status de obra prima. A esse propósito, revejam um filme dele que, sem coincidência, também traz no título o termo ´vida´ – “Imitação da vida” (“Imitation of life”, 1959). Pensando bem nestes dois filmes, ´vida imitada – no sentido de não vivida´ é a mesma coisa que ´vida invisível´…

De minha parte, também lembrei poesia, e poesia paraibana. Releiam aquela trilogia do nosso Marcus Tavares “Moça em alto contraste” e sintam como parece ter servido de argumento para a história da protagonista Guida: (cito)

 

Honrava pai e mãe até o dia

Em que o marinheiro atracou no seu porto

O velho quase morre de desgosto

Mas a moça detestava calmaria

 

Desenrolou as velas e partiu

Dançando um fox trote

 

Arrancou a âncora do útero

E navegou em direção à vida

 

Não vou citar o texto inteiro, mas até o destino de Guida está dado no terceiro poema da trilogia.

Dizem que o melodrama é um gênero feminino. Não sei. O fato é que “A vida invisível” é a história de duas mulheres, irmãs inseparáveis, separadas pelo destino. Dizer ´destino´ parece coisa abstrata, mas aqui esse destino se chama claramente machismo. E até certo ponto, sim, este é um filme saudavelmente feminista. E bonito.

INDIANARA

10 dez

Nenhum país do mundo mata mais LGBTs que o Brasil. Segundo as estatísticas, só no ano de 2018, foram 320 (trezentos e vinte) assassinatos, quase um por dia. Situação vergonhosa que deve piorar, se considerarmos a linha visivelmente homofóbica e armamentista do governo em vigência.

Daí a importância de um filme como Indianara (2019), exibido (e premiado) entre nós na décima quarta versão do Fest-Aruanda, festival anual de cinema paraibano.  Mas não só daí.

Bem roteirizado, bem montado e bem dirigido, o documentário da dupla Marcelo Barbosa e Aude Chevalier-Beaumel acompanha o dia a dia dessa líder transgênero Indianara Siqueira que, com heroísmo admirável, mantém, no Rio de Janeiro, uma espécie de ONG para auxiliar toda uma população LGBT a sobreviver ao meio do preconceito e da violência.

A chamada “Casa Nem” acolhe e abriga prostitutas, gays, lésbicas, trans e bissexuais, gente sem recursos para se manter por conta própria ou, se for o caso, para progredir e profissionalizar-se. Muitos deles foram expulsos de seus lares – ou deles fugiram por não aguentar maus tratos – e, não fosse Indianara e seu projeto filantrópico – estariam nas ruas, em condição de mendicância.

Natural de Paranaguá, Paraná, a jovem Indianara saiu de casa aos dezoito anos de idade para fazer a vida e a vida não foi fácil. Sem moralismos, abraçou a profissão de prostituta, que a levou a Santos e de lá ao Rio.

Mas, atenção, o filme não é – nem pretende ser – uma biografia. Mais modesto, ele apenas registra cerca de dois anos (de 2016 a 2018) na vida de Indianara, no caso, misturando momentos privados do seu cotidiano com o esposo Maurício e cenas públicas quando a ativista trans, nas ruas e às vezes de peito aberto (literalmente) enfrenta multidões, polícia e autoridades, com seu inflamado discurso libertário e demolidor de hipocrisias. Tanto é assim que nem direita, nem esquerda, escapam de seus ataques. Seu desentendimento com o PSOL, por exemplo, vem à tona com o mesmo furor com que denuncia o falso moralismo da direita.

Esses dois anos de filmagens coincidiram com o governo Temer e, inevitavelmente, estão registrados os protestos de rua que marcaram essa fase da história brasileira. Como grita Indianara em ocasião de desabafo: “não chamem Temer de filho da puta. Putas somos nós, e ele não é nosso filho. Ele é filho de Cunha”. No meio desses protestos, dois momentos são particularmente significativos, pela sua desoladora disforia: a ocasião do assassinato de Marielle, e a vitória nas urnas de Bolsonaro – duas “mortes” recebidas pelo grupo LGBT com profunda tristeza.

E por falar em mortes, a primeira cena do filme já se dá no cemitério, onde Indianara e o pessoal da “Casa Nem” sepulta o corpo de uma amiga LGBT: em dado momento, com um travelling por sobre os túmulos, ouve-se a voz da protagonista, nos lembrando que os vermes não distinguirão entre trans, bis, homos e heteros…

O filme não é, porém, um amontoado de desolações. Ele tem seus momentos de alegria e descontração – por exemplo, nas brincadeiras com os amigos, nas farras, e nos instantes mais privados em que Indianara troca miudezas com o esposo, os dois deitados na sua cama de casal. Dois auges dessa euforia são a comemoração do aniversário da protagonista em via pública e o ritual do seu casamento com Maurício.

Em que pese a cena do anúncio da vitória de um presidente homofóbico, vista na televisão da “Casa Nem” pelos seus residentes em pranto, em que pese esta cena – uma das mais emblemáticas do filme, por apontar para um futuro incerto e temeroso, – acho que Indianara mesmo assim, nos deixa com alguma esperança. Se não for outra, a que brota da força, determinação, carisma, charme e beleza de sua protagonista.

Com sua aisance no andar, seus olhos amendoados, seus lábios grossos e seus seios generosos, a mim, ela (presente no Fest-Aruanda) me soou como uma espécie de Anita Ekberg brasileira. Torçamos para que um dia ela possa banhar-se livremente na sua Fontana di Trevi sem ser molestada. O seu Mastroianni ela já tem.

Indianara concorreu à “Palma queer” no Festival de Cannes deste ano, onde, segundo consta, foi ovacionado em três sessões especiais. Esperemos que o sucesso em festivais de cinema conduza o filme a um público maior, se possível, aos circuitos comerciais. Os parentes e amigos dos 320 LGBTs assassinados o ano passado, com certeza, agradeceriam.

O CLUBE DOS CANIBAIS

30 out

Quando criança eu sonhava em poder um dia assistir a filmes impróprios até 18 anos. Hoje sonho em ver filmes de censura livre…

“Era uma vez em Hollywood”, “Bacurau”, “Coringa”, “Pássaros de verão”… Meu Deus, quanta sanguinolência!

Pois, como se não bastasse tanto sangue espirrado na minha cara, fiz a ousadia de ir ver este “O clube dos canibais” (Guto Parente, 2018), que no título já diz tudo.

Em rica mansão, numa praia paradisíaca do Ceará, reside esse super-empresário, dono de uma companhia de seguros, que junto com a sua jovem e bela esposa costuma matar, cozer e comer os seus empregados.

Na verdade, não é só o casal Otávio e Gilda que usa dessa prática. Ele, Otávio, faz parte do tal clube do título do filme. Trata-se de uma confraria secreta, em que todos são membros da elite, com o objetivo de limpar a sociedade dessa “gentinha pobre e sem futuro”, e uma maneira efetiva e deliciosa de fazê-lo é matando e comendo.

Pois, o nosso protagonista Otávio (Tavinho Teixeira) faz isso sempre, até fora da atividade do clube, no caso, seguindo um certo ritual: a sua esposa Gilda (Ana Luiza Rios) conquista o empregado da casa, leva-o para a cama e, enquanto fazem amor, o marido, escondido, espia a cena e se prepara para o golpe. No exato momento do gozo do empregado, ele o ataca por trás e o mata com um golpe certeiro de machado bem no meio do crânio. É sangue pra todo lado.

A cena seguinte é o lauto jantar, onde o casal se delicia com a carne do empregado, devidamente assada com requintes de gourmet.

A elite brasileira comendo (literalmente) gente da classe pobre – isto, obviamente, é uma grande metáfora para a situação atual do país, e o filme, em vários níveis, está repleto de indícios comprobatórios.

Cheio dos moralismos mais conservadores, o discurso do presidente do clube, proferido com eloquência feroz em uma das reuniões dos ilustres canibais, é um exemplo ostensivo dessa metáfora diegética, como também do seu implícito grau de hipocrisia. Sem coincidência, além de empresário, o tal presidente do clube também exerce a profissão de político.

Indicia esse grau de hipocrisia, o turning point que vai dar uma direção diferente à situação estabelecida. Numa festa local, Gilda descobre o presidente do clube em relação anal passiva com um dos empregados da casa. Ela o vê e é vista por ele, e isto vai pôr em perigo o casal e levar o filme para um desenlace ainda mais drástico e mais sanguinário do que o que já se tem.

Assistindo a “O clube dos canibais” não me saiu da cabeça um famoso ensaio da literatura inglesa do século XIII que também trata de um – chamemo-lo assim – “canibalismo socialmente corretivo”, ou seja, que tem o fito de resolver problemas da sociedade exterminando a pobreza, através do extermínio dos pobres.

Acho que meu leitor, a essa altura, já matou a charada. Sim, refiro-me ao satírico e brilhante ensaio do escritor Jonathan Swift “A modest proposal” (1729).

A proposta modesta de Swift sugeria, justamente, que, em vista da grande miséria que assolava o país na época, a aristocracia começasse a comer as crianças pobres, até um ponto em que a pobreza fosse eliminada. Segundo Swift, os pobres conscientes da propriedade da medida, eles próprios ofereceriam seus filhos para o banquete dos ricos.

Não resisto em citar um trecho da sátira de Swift, que na época chocou meio mundo, até ser entendida como denúncia.

“Uma criança de um ano de idade, sadia, é um alimento delicioso e nutritivo, se cozido, torrado, assado ou guisado; e não tenho dúvidas de que pode ser servido num fricassé, ou num ragu”.

Antes de redigir esta matéria, li comentários críticos de “O clube dos canibais”, e achei estranho ninguém fazer referência ao texto de Swift, no meu entender – eu tinha certeza – um intertexto óbvio do filme.

Em entrevista à imprensa, falando de suas influências, o cineasta Guto Parente menciona os filmes de John Carpenter, Wes Craven, David Cronenberg, e outros praticantes do subgênero “gore”, e destaca o lado “sátira social” de seu filme, porém, não faz qualquer referência a Swift, demonstrando claramente desconhecê-lo.

Aparentemente estamos diante de uma curiosa coincidência de enfoques, separada por três séculos. Que seja.

O HOMEM DE FERRO

18 set

Não curto esporte, mas gostei de ver o documentário “1932 – a medalha esquecida” (Ernesto Rodrigues, 2017), sintomaticamente (re)apresentado no Canal Brasil, no dia 7 de setembro deste ano.

Entre documental e ficcional, o filme reconstitui a história da participação brasileira nas Olimpíadas de Los Angeles de 1932, com tudo que teve ela de patético e heroico.

Estávamos então no Brasil de Vargas, um país falido, com a queda da bolsa de Nova Iorque, queda que trouxe a desvalorização do nosso principal produto de exportação – o café, e, por tabela, a revolução constitucionalista de São Paulo.

Para Los Angeles segue a comitiva brasileira, no navio cargueiro Itaquicê, com falsa fachada de navio de guerra, escondendo, no subsolo, nada menos que 55 mil sacas de café e muita cachaça.

A falsa fachada bélica era para ganhar isenção da obrigatória taxa de travessia do Canal de Panamá, porém, a polícia local descobre a tramoia e a taxa tem que ser paga de qualquer jeito. As sacas de café eram para ser vendidas no percurso, para pagar a taxa de desembarque no Porto de Los Angeles, porém, que país da igualmente pobre América Central teria grana pra bancar tanto café? E em L. A. o nosso falso navio de guerra fica detido sem poder fazer o devido atracamento.

A corrupção brasileira vem de longe, diz a voz narrativa do filme, e para provar dá mais exemplos: a comitiva japonesa levou para L. A. 200 atletas e apenas dois técnicos. Já a comitiva brasileira foi com 80 atletas e cerca de 120 acompanhantes que pouco ou nada tinham a ver com esporte. Como a narração faz questão de mencionar, a cantora Carmem Miranda (ainda no Rio e ainda sem fama internacional) perde um namorado, pois o rapaz embarca na turma do oba oba para L. A.

O Itaquicê não atraca no Porto de Los Angeles, mas isto não impede que, lá onde estava, se transforme numa espécie de paraíso etílico-erótico, com farras monumentais que entraram para o anedotário da Califórnia. Em plena lei seca, os americanos não podiam tomar whisky em solo pátrio, mas, se entupiam de cachaça nas dependências do navio brasileiro, e isto, ao som do samba mais animado, executado por uma orquestra que fazia parte da tripulação.

Uma figura, no entanto, destoou dessa zorra toda, e nela o filme se centra: o atleta-marinheiro Adalberto Cardoso, que deixou sua marca na corrida de dez mil metros – não ganhando, e sim, perdendo, mas perdendo de forma heroica.

Ocorre que, junto com parte dos atletas, Adalberto fora instalado em São Francisco e, no dia em que devia competir, foi obrigado a fazer a difícil viagem num carro velho de São Francisco a L. A., uma viagem cheia de atropelos (carro quebrado no meio da estrada, fome, cansaço). De modo que, esgotado e mal nutrido, vestindo uma roupa emprestada de última hora (pois a pressa o fizera esquecer a farda no automóvel) enfrenta o desafio e vai sofrer o que poderia perfeitamente chamar-se de “o calvário na pista”.

Na corrida de dez mil metros, fragilizado e ofegante, fica atrás desde o início, porém, em sua posição de último lugar, corre – ou melhor dizendo, se arrasta – até o final, mesmo depois de o anúncio do nome vitorioso já haver sido devidamente divulgado pelos amplificadores. No seu penoso e demorado arrastado, sofre, como Cristo, três quedas e, diferentemente de Cristo, quanto mais se arrasta e mais cai, mais aplausos recebe das comovidas plateias americanas, boquiabertas diante de tão grande sacrifício inútil. No diante seguinte, os jornais de L. A. mal citam o Brasil: em seu lugar só dá “The iron man”, “o homem de ferro”, epíteto que honrosamente lhe concede a imprensa americana.

Em “Retratos da vida”, o cineasta francês Claude Lelouch conta uma história comovente que se inicia com uma derrota – a bailarina russa que não consegue o primeiro lugar no concurso do balé Bolshoi.

“Derrota” também é o tema no filme de Rodrigues, mas nele, a palavra é – em vário sentidos – mais grave.

 

Em tempo: esta matéria é dedicada ao jornalista e pesquisador Edônio Alves.

BACURAU

4 set

Acho que ninguém sai incólume de “Bacurau” (2019). Eu não saí.

O tão esperado filme da dupla Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, premiado em Cannes, e até o momento com oito pontos na avaliação dos usuários do IMDB, nos inquieta com seu enredo estranho – nada que se tenha visto até agora na cinematografia brasileira.

No oeste de Pernambuco, um vilarejo está ameaçado de extinção. A razão ninguém sabe ao certo, mas, a ameaça vem de um misterioso grupo de americanos, tecnologicamente bem equipados e apoiados (isso se saberá mais tarde) pelo prefeito do município.

O que pode uma população pobre e sem recursos (nem de água dispõem) contra esse poderio estrangeiro e estranho que a quer fora do mapa? Fora do mapa mesmo, pois virtualmente já está.

História estranha. Lembra um western, mas não é. Parece science-fiction, mas não é. Sugere um horror movie, mas não é. Seria um filme de ação, ou um drama? Seja qual for o gênero – ou a recusa (ou a mistura) de gêneros – um filme forte, concebido para provocar impacto. E desse impacto a violência gráfica é só um detalhe.

Só para lembrar o namoro do filme com um dos gêneros mencionados – o western – esse enredo (a luta de uma comunidade pobre contra um poder de fora) nos faz pensar nos camponeses vitoriosos de “Sete homens e um destino” (John Sturges, 1960) ou, antes disso, na sua fonte, “Os sete samurais” de Akira Kurosawa. O problema é que o filme inteiro nos faz pensar em tantos outros…

Ao menos uma coisa nele é clara: a sua estrutura tripartite, a mesma da tragédia clássica, ou a da fantasia infanto-juvenil mais inocente, para não falar do mais tradicional roteiro hollywoodiano, com suas três partes distintas: (1) exposição (2) conflituação e (3) resolução.

Assim, na primeira parte do filme tem-se a descrição da vida em Bacurau, depois da chegada da ex-residente, para o enterro da matriarca Carmelita. Na segunda parte somos apresentados ao inimigo e sua sanha sanguinária. E finalmente, na terceira parte, vem o tão esperado revide da população e a mais que ansiada vitória. Quase que dá para falar em final feliz.

Disse acima que ninguém sabe ao certo a razão da programada erradicação de Bacurau, o vilarejo. Quem são os terríveis inimigos e por que tramam exterminar justamente esse vilarejo perdido no meio do sertão nordestino? Li comentários que reclamavam desse mistério e, inevitavelmente, lembrei-me de Hitchcock e seu conceito de macguffin.

Sim, revejam seus filmes e chequem o conceito. Em “O homem que sabia demais”, por exemplo, duvido você dizer quem é a “entidade” (ponho entre aspas, de propósito) que quer assassinar o Ministro, e pior, a que país pertence esse Ministro. Não há no filme nada que lhe dê pistas, e esse vazio diegético – esse desligamento da realidade conhecida – é o que Hitchcock chama de macguffin. Faça a mesma busca em “Intriga internacional”. Que “entidade” persegue o personagem de Cary Grant? Ela é somente o macguffin que põe a narrativa a andar, mas que, em si mesma, não precisa ter uma existência no mundo real. Um terceiro exemplo hitchcockiano, este ainda mais radical, seria o de “Os pássaros”.

Penso que para o espectador cinéfilo de “Bacurau” essa associação com o conceito de macguffin é bastante rentável do ponto de vista estético, tornando o filme mais intrigante do que já é. Por outro lado, e como todo macguffin é, a rigor, um vazio, o espectador mais político, e talvez menos cinéfilo, vai ler a invasão a Bacurau de modo mais mimético, dentro do contexto ideológico que (é verdade) está insinuado em certos elementos da estória, assim como outros há que insinuam o recurso do macguffin. Por exemplo: se a figura ridícula do prefeito corrupto conduz à mimese, a abertura interestelar do filme – sonora e visualmente – conduz ao macguffin.

Comentei acima a irresolução dos gêneros em “Bacurau”, o que nos remete a um outro aspecto interessante no filme, que é a questão das influências. Respondendo à pergunta sobre que outros cineastas estariam por trás de seus filmes, o diretor Kleber Mendonça, em entrevista recente à imprensa, explica que, de um modo geral, as influências podem não ser conscientes para quem cria um roteiro ou dirige um filme, e acrescenta que muitas vezes são os espectadores – críticos profissionais ou não – que o fazem ver que certos cineastas, de fato, embasaram seus filmes, num nível que ele mesmo não notara.

Influenciadores admitidos, ou apontados, são John Carpenter, Brian De Palma e Glauber Rocha. Carpenter é praticamente um homenageado, se você lembrar que a escola no povoado de Bacurau se chama “João Carpinteiro”. Quanto a De Palma e Rocha, acho que são duas influências bem sintomáticas para os dois modelos de espectador que imaginei há pouco: De Palma sustentaria a leitura do macguffin (como sabemos, ele foi um recriador assumido de Hitchcock) e Rocha, a leitura mimética, ideológica.

Essa tensão entre macguffin e ideologia, entre o abstrato e o documental, o filme a contém e é ela que mais o enriquece. Portanto, não precisamos resolvê-la, e sim, usufruí-la.

Estou me guardando para quando o carnaval chegar

7 ago

Na infância, o cineasta recifense Marcelo Gomes costumava visitar essa pequena cidade do agreste pernambucano, Toritama. Originário da vizinha Caruaru, seu pai o levava a passeio pelas ruas e redondezas dessa cidadezinha idílica cujo nome indígena significa “terra da felicidade”.

Quatro décadas depois, Gomes resolve retornar a Toritama, hoje conhecida como “a capital do jeans”, produtora de 20% das roupas deste tecido fabricadas em todo o país. O que aconteceu à idílica Toritama do passado, agora um exemplo de capitalismo tupiniquim desenfreado? É o que nos mostra o documentário de Gomes “Estou me guardando para quando o carnaval chegar” que, no título, já é intrigante.

Bem, o mínimo o que se pode dizer de Toritama é que é um caso sui generis, no Brasil e talvez no mundo. Lá todo mundo trabalha na mesma coisa – a confecção de roupas jeans – e o faz em árduo tempo integral, cada um ganhando por produção. A maioria das casas virou “facções”, como são chamadas essas oficinas domésticas, com suas máquinas de costura e demais apetrechos mecânicos.

Uma calça jeans está longe de ser uma coisa fácil de se fazer. A confecção de uma única peça envolve cerca de trinta pessoas. Quando se considera que a cidade fabrica cerca de 20 milhões de jeans por ano, dá para se ter uma ideia do que é a vida em Toritama. Segundo seus habitantes, 14 horas é a média do trabalho diário de cada um, e cada um é pago pela sua especialidade – cortar o tecido, ou costurar, ou fazer abanhados, ou pregar zíperes, seja o que for… Como confessa uma residente, fora disso só há tempo pra comer e dormir, e mais nada.

Naturalmente, as atividades tradicionais da região ficaram para trás. Não há mais agricultura, nem pecuária, e a secura do agreste ficou mais grave e mais feia.

Com sua equipe, Gomes entrevista os moradores, mas não faz só isso. Como nos documentários de Eduardo Coutinho, o realizador interage com os entrevistados, não apenas oralmente, mas também no fazer cinematográfico. Haja vista aquela cena em que se mostram pedaços de tecido passando na máquina de costura, um após o outro, a mão do costureiro repetindo o gesto infinitamente, e isto ao som do barulho ensurdecedor da máquina. Primeiramente se mostra o gesto repetido até saturar a paciência do espectador; depois se tira o som da máquina; e por fim se põe música no lugar do som. E tudo isso orientado pela voz over do cineasta. E, mais que isso, mais tarde, o cineasta vai fazer um pacto com os residentes do lugar: fornecerá um transporte que os leve à desejada praia, no carnaval, contanto que eles se filmem a si mesmos, durante essas férias carnavalescas. De forma que as cenas finais são de autoria dos próprios toritamenses.

No início, o filme parece otimista (uma cidade do interior nordestino que soube se virar economicamente), porém, logo vai ficando triste, o que atinge um ápice constrangedor na parte final, quando se mostra a ansiedade desesperada da população local para fugir da cidade para o carnaval na praia, vendendo tudo – geladeiras, celulares, micro-ondas, etc – pra não ficar na, então, desolada Toritama. Nesse momento, o espectador dá-se conta do quanto o “progresso” da cidade é relativo e mesmo precário: se não fosse, os moradores do lugar não precisariam vender os seus eletrodomésticos para fazer uma viagem à praia mais próxima, e isso, uma vez no ano. O fotograma que fecha o filme diz tudo: o grupo de mascarados fantasmagóricos sugere o inferno que é ser toritamense.

Os comentadores do filme enfatizam a questão do capitalismo, mas, de minha parte, achei que o tema é mais universal, e mesmo bíblico, ocorrendo-me a etimologia da palavra “trabalho”, que, como se sabe, vem de “tripaliu”, um terrível instrumento de tortura antigo, formado por três paus, um dos quais era cruelmente introduzido no ânus dos torturados. Com efeito, os toritamenses de Gomes é o que me pareceram: escravos torturados pelo trabalho, que não leva a nada, salvo – viciosamente – ao trabalho.

Enfim, saí de “Estou me guardando para quando o carnaval chegar” entristecido, mas essa tristeza não compromete o filme: ao contrário, é um mérito seu.

E fecho minha leitura com um detalhe nostálgico. Dentre os muitos casos dos produtores de jeans mostrados no filme, um deles é o daquela senhora humilde que transformou o quintal de sua modesta casinha numa “facção”, dando fim ao chiqueiro ali existente. Ficou só uma galinha de estimação (a quem a câmera de Gomes dá um close destacado), batizada de Sara Jane. Pois, desculpem a minha cabeça viciada de cinema, mas fiquei pensando: quem sabe se, nos tempos pré-Jeans, Toritama não tinha um cinema? Quem sabe se, nesse cinema, a idosa dona do chiqueiro, quando jovem, não teria assistido ao filme “Imitação da vida”, onde, vocês lembram muito bem, uma personagem básica (a mocinha negra que queria se passar por branca e, nesse querer, matava a mãe) se chamava justamente Sara Jane…? Por favor, me permitam esse delírio de cinéfilo viciado, que, afinal, nos faz remontar à Toritama lírica da infância de Marcel Gomes, ou mais provavelmente, um pouco antes dela…

O cineasta pernambucano Marcelo Gomes

JACKSON E GLENN

30 jul

Nunca fiz isso, pois não sou da área, mas se um dia ousasse elencar minhas preferências musicais, a lista iria ter brasileiros e americanos, sempre intercalados, um ao lado do outro, sempre assim, e isto seguindo a cronologia do século XX inteiro. Mesmo que um nada tivesse a ver com o outro – como aparentemente não têm. A única justificava para os pares seria que me encantaram mais ou menos na mesma época da minha vida, e, inevitavelmente ficaram misturados no meu espírito.

Se for para dar exemplos, eis um fragmento dessa lista imaginária: Noel Rosa, Cole Porter, Luiz Gonzaga, The Platters, Lupicínio Rodrigues, Ella Fitzgerald, Jackson no Pandeiro, Glenn Miller… e por aí iria…

Jackson no Pandeiro e Glenn Miller? Pois qual não foi a minha surpresa ao constatar que o nosso ritmista de Alagoa Grande era um ouvinte admirador dos arranjos do maestro e compositor americano. O meu “par” estava longe de ser gratuito e fiquei sabendo desse dado – e vibrei com ele – ao assistir ao belo documentário “Jackson – na batida do pandeiro” (2019), de Marcus Vilar e Cacá Teixeira. Dado enfatizado pelo maestro Carlos Anísio no debate sobre o filme.

Tudo bem, as relações culturais e musicais entre Brasil e Estados Unidos estariam, mais tarde, no irônico “Chiclete com banana” de Jackson, mas nada como ter em mãos o dado biográfico de um caso mais remoto e bem específico: Jackson vs Glenn.

Saí do cinema catando as semelhanças entre os dois itens do meu par e não demorei a encontrar. O “Moonlight Serenade” de Miller podia ser lento demais para ter a ver com o nosso ritmista maior, mas em compensação o swing desbragado de composições como “Pensylvania 6-5000”, “Chatanooga choo choo”, “Tuxedo Junction” e outras mais, iniludivelmente, amarrava esse “par” da minha lista imaginária. E, convenhamos, à parte o meu interesse pessoal pelo caso, ele só faz apontar a enorme envergadura (maior do que se pensa) do nosso pandeirista paraibano.

O maestro e compositor americano Glenn Miller

Mas não foi só isso que o documentário em questão me trouxe. Em uma hora e quarenta minutos de deleite, ele me trouxe – a mim e à plateia que lotou o Cine Bangue na noite de 27 de julho – a vida e a obra de um dos maiores talentos que a Paraíba já deu ao mundo. E o fez em grande estilo.

Começando pelo fim, o filme nos arrasta na ambulância pelas ruas de Brasília para um hospital onde vai agonizar o nosso herói. Quando a câmera, ao som da sirene atordoante da ambulância, penetra o túnel escuro, oportunamente corta-se para uma paisagem física e humana bem diversa, aquela onde tudo começou.

E aí, o espectador vai acompanhar, em ordem mais ou menos cronológica, a trajetória de José Gomes Filho, depois Jack, e finalmente, Jackson do Pandeiro. Primeiro, Alagoa Grande, depois Campina Grande, João Pessoa, Rio de Janeiro, e finalmente, Brasília. Primeiro, o coco de roda, os cabarés, os palcos das rádios, e finalmente, os grandes estúdios e o estrondoso sucesso de público e de crítica. Isso para não falar das participações nas Chanchadas da época.

Além de mitos da MPB, parentes, amigos e especialistas da área dão depoimentos esclarecedores sobre Jackson, porém, um longo e impagável depoimento quem dá é o próprio Jackson, tão autêntico e tão de perto (em close do rosto, o tempo quase todo, em repetidas tomadas) que até parece ter sido gravado especialmente para o filme.

O cineasta paraibano Marcus Vilar

Resultado de pesquisa exaustiva de muitos anos, o filme faz justiça estética à grandeza do biografado e, com ou sem coincidência, chega no momento oportuno de seu centenário.

Vi o filme ainda em pré-estreia, em sessão especial, com a presença de seus realizadores e oportuno debate mediado pelo pesquisador e crítico André Dib, porém, como enfatizou um dos presentes, o que se espera é que as devidas providências sejam tomadas no sentido de uma distribuição de “Jackson – na batida do bandeiro” que atinja um público maior do que o quase sempre o mesmo dos festivais de cinema da vida.

Abri esta matéria de modo pessoal e não resisto em fechá-la do mesmo modo.

Se coloquei Jackson do Pandeiro na minha lista imaginária de preferidos, não preciso mais dizer o quanto sua música foi marcante para mim. Nas rádios da infância eu o ouvia com frequência – a propósito, tanto quanto ouvia Glenn Miller – e, sem querer, solfejava baixinho, sempre com vontade de dançar, o que só não fazia impedido pelo medo de ser ridicularizado.

Enfim, fosse eu dançarino, acho que um pé seria de Jackson do Pandeiro, o outro de Glenn Miller. E daria tudo incrivelmente certo. Agora eu sei disso, e tenho provas.