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YESTERDAY

10 set

E se os Beatles nunca tivessem existido?

O filme “Yesterday” (2019), do cineasta inglês Danny Boyle, em cartaz na cidade, cria essa hipótese e viaja em cima dela.

Depois de sofrer um acidente de automóvel, o jovem compositor e cantor frustrado Jack Malic (Himesh Patel) vem a descobrir que, ao seu redor e no mundo todo, ninguém tem a mínima ideia de quem são os Beatles. Descobre esse fato estranho numa roda de amigos e amigas quando canta, no violão, o belo “Yesterday” e o pessoal pergunta que música era aquela.

Intrigado com o fato, Jack corre para o Google e lá, para seu espanto, comprova a inexistência do genial quarteto de Liverpool. Ao digitar a palavra “Beatles” o aplicativo a transforma em “beetle” (´besouro´), lhe fornecendo os dados e as imagens do tal inseto.

A primeira providência de Jack é tentar recordar, uma por uma, as letras das canções, já que ele é, agora, a única criatura no planeta que as conhece – uma espécie de museu musical ambulante. Tem trabalho com “Eleanor Rigby” e canções de letras mais longas, porém, no geral recorda quase todas, e não só isso, passa a cantá-las publicamente e, inevitavelmente, se transforma de repente no maior compositor e cantor do mundo – reconhecido até pelo astro pop Ed Sheeran, que, no filme é interpretado por si mesmo.

A fama, e uma série de pequenos mal-entendidos, fazem com que Jack perca a amizade e o amor de uma amiga íntima – Ellie Appleton, sua primeira agente – mas, esse desdobramento do enredo, que, da metade em diante, transforma o filme numa ´historinha romântica´, pode ficar pra lá.

O bom mesmo é a criação desses dois universos paralelos (um sem os Beatles versus o outro, com os Beatles), tão bom quanto as performances musicais do ator Patel, executando, no seu estilo, as canções que amamos, mais tarde acompanhado por conjuntos, em super-shows para plateias gigantescas.

Jack seria o engate entre os dois universos paralelos, porém, lá adiante, vamos descobrir que não é o único: um senhor e uma senhora, bem mais coroas que ele, um belo dia lhe aparecem do nada para lhe dizer – sem levantar nenhuma questão jurídica sobre falsidade ideológica – que ele está fazendo um belo trabalho e que estão gostando. E não fazem só isto: lhe dão um endereço secreto e, aí, Jack vai ter com ninguém menos que John Lennon. Pode? Em filmes de universos paralelos tudo pode.

O ator Himesh Patel e o músico Ed Sheeran em cena no filme

No desenlace, o cantor Jack assume a verdade, desiste da falsa carreira e volta ao grande amor reprimido do passado, o que, no meu entender, comprometeu um pouco a qualidade do filme, lhe tirando o ritmo e deixando no ar um certo cheiro de “não sabemos o que fazer com o final da estória e vamos encerrá-la assim,  desculpem”.

De todo jeito, gostei daquela cena bem no finalzinho, quando, Jack, conversando com a companheira Ellie, se refere por acaso a “Harry Potter” e ela pergunta: o que é isso? E aí se abre o espaço pós-tela para um novo mundo onde o best-seller de J. K. Rowling jamais teria existido, muito menos os filmes deles derivados…

Ufa! Ainda bem que era só Harry Potter, e não, por exemplo, William Shakespeare…

Até certo ponto, o filme tem as ousadias e as peripécias de Danny Boyle, que a gente lembra de “Cova rasa” (1994), “Trainspotting” (1996), “A praia” (2001) e “Quem quer ser um milionário” (2008), mas, aqui, com mais descontração e mais ludicidade.

À parte a questão da qualidade, “Yesterday” é um filme agradável, para se assistir com a mesma descontração nele proposta, se possível acompanhado de amigo(a)s com a mesma faixa etária sua e amantes dos Beatles. Foi o que ocorreu comigo.

Aliás, para dar a esta matéria um toque charmoso de Estética da Recepção, relato que, depois da sessão, comendo um delicioso spaghetti com as duas amigas com quem assisti ao filme, fiquei pensando em outros “universos paralelos”, no caso, no contexto brasileiro. Na verdade, confesso encabulado, que fiquei imaginando escrever uma estória em que Chico Buarque não existiria, e eu seria a única privilegiada criatura no universo a ter na memória as suas canções.

Não daria um conto legal, no estilo André Ricardo Aguiar? Só que iriam logo dizer que imitei o Danny Boyle – o que, obviamente, seria verdade.

Hemish Patel fazendo esforços para interpretar os Beatles…

KING LEAR, 2018

9 jul

Meu primeiro contato com “Rei Lear”, a peça de William Shakespeare, foi cinematográfico: o filme homônimo de Peter Brook (1971), extraordinariamente exibido na antiga FAFI, quando eu era aluno do curso de Letras.

Na ocasião, eu ainda não tinha lido a peça e me impressionei com a terrível e violenta estória desse rei que, na velhice, divide suas posses com as três filhas a partir das declarações de afeto de cada uma, e paga caro pela imprudência. O cenário medieval bem reconstituído e a sombria fotografia em preto-e-branco dessa adaptação fílmica tornavam o drama ainda mais trágico.

Algum tempo depois, fazendo a pós-graduação em literatura anglo-americana, e já embrenhado no universo shakespeariano, escolhi tomar a peça como objeto de minha dissertação de mestrado, demonstrando que nela havia os ecos carnavalizantes que vinham da vetusta sátira menipéia da era clássica.

Anthony Hopkins no papel de REI LEAR

Ao longo da vida, nos meus estudos comparativos entre literatura e cinema, fui descobrindo as muitas – na verdade, inúmeras – adaptações fílmicas que a peça de Shakespeare recebera, e vem recebendo, nos países mais diversos. Além da de Brook, lembro aqui a russa de Grigoriy Kozintseve (1970), a japonesa, de Akira Kurosawa (“Ran”, 1983), e a francesa de Jean-Luc Godard (1987), esta a mais livre de todas.

Agora, me chega esta outra, bem britânica, de Richard Eyre (2018), feita para a televisão, com o ator oitentão Anthony Hopkins no papel-título.

Como é costume acontecer em adaptações shakespearianas, o texto não está completo e se você, como eu, tem a lembrança das palavras poéticas do autor e seu efeito sobre o nosso espírito, em certos momentos chave sente a falta.

Um outro estranhamento seria o temporal, pois aqui a trágica história do rei medieval é transportada para a época atual, com prédios, armas, automóveis, aviões e tudo mais de moderno. Com a seguinte complicação: as palavras não são modernas, muito pelo contrário, são exatamente as mesmas da peça original, o semi-arcaico e belo inglês elisabetano da época, tornado mais belo, como se sabe, pelo gênio criativo do Bardo de Stratford Upon Avon.

O rei e suas três filhas: Goneril, Regan e Cordelia.

Confesso que tive dificuldade em me localizar dentro dessa mistura de tempos, e por vezes fui vítima de um certo – digamos assim – distanciamento brechtiano que me impediu de reviver as fortes emoções a que estou habituado quando releio a peça.

Aliás, não apenas mistura de tempos, mas também de estilos, já que – convenhamos – os cenários e objetos da atualidade não acolhem bem as tantas metáforas, metonímias, hipérboles e tantos outros procedimentos linguísticos que caracterizam a escritura shakespeariana e a tornam tão poderosa, quando lida na neutralidade do papel impresso, ou ouvida na simplicidade espacial do palco.

De todo jeito, a direção de Richard Eyre (de “Notícias de um escândalo” 2008, e Iris, 2001) é competente e sabe colocar, ao meio das falas dos personagens, as imagens que as tornam um pouco mais viáveis para os dias de hoje e, consequentemente, para a fluência da narração – ora os gestos dos atores, ora certos detalhes especiais do cenário ou da paisagem, ora certos movimentos de câmera.

Lear e a filha Cordelia – o reencontro.

E claro, num filme desses, os atores são tudo, e se não fossem, o filme certamente naufragaria. Com a mesma idade do rei bretão – oitenta anos – Anthony Hopkins faz um Lear à altura, doce nos seus momentos de ternura e feroz nos seus momentos de ira. E o resto do elenco não fica atrás. As três filhas do rei estão perfeitas: as malignas Goneril (Emma Thompson) e Regan (Emily Watson) nos repugnam, assim como nos encanta a jovem, bela e madura Cordelia (Florence Pugh), que um Lear agonizante – no final de tudo – reconhecerá como aquela que verdadeiramente o respeitava e amava.

Jim Broadbent e Andrew Scott fazem um par perfeito nos respectivos papéis de Gloucester, o pai cego, e Edgar, o filho disfarçado de mendigo, os dois perdidos no meio de uma paisagem quase lunar. Um dos momentos mais “próximos” da peça, para citar um só exemplo, é aquela famosa cena à beira do abismo em que o filho faz o genitor acreditar no suicídio encenado e na miraculosa salvação…

Provavelmente, este não é um filme fácil para o grande público. Imagino que um pouco menos ainda para quem, jovem ou maduro, nunca leu a peça adaptada. E, o pior, mesmo para quem a leu – como espero haver deixado claro – a dificuldade, ainda que de outra natureza, existe.

O delicado DESENCANTO

3 jul

Lembrado quase sempre pelos seus épicos, como “A ponte do rio Kwai” (1957), “Lawrence da Arábia” (1962) e “Doutor Jivago” (1965), hoje em dia ninguém tem dúvidas de que David Lean (1908-1991) é um dos maiores cineastas do Século XX, e, se for o caso, de todos os tempos e lugares.

Bem menos conhecido é o Lean pré-superproduções, o diretor de começo de carreira, mais modesto, mais subjetivo e mais britânico, que adaptou Charles Dickens duas vezes (“Grandes esperanças”, 1946, e “Oliver Twist”, 1948) e que trabalhou com o escritor Noel Coward em filmes “domésticos”, intimistas e extremamente líricos.

Adaptado de uma peça de Coward, um desses “domésticos” é “Desencanto” (“Brief encounter”) que, em 1945, ele rodou para os Estúdios Eagle-Lyon, com Celia Johnson e Trevor Howard nos papéis principais.

Quase todo narrado em ´monólogo interior´, o filme conta a estória de uma simplória dona de casa inglesa, bem casada e mãe de dois filhos, que se apaixona fora do casamento. Na verdade, quem conta a estória é ela mesma, e a conta ao marido, do começo ao fim, nos mínimos detalhes, sem contudo, abrir a boca. Faz isso mentalmente, sentada diante do cônjuge, que, distraído, resolve palavras cruzadas. E aí, claro, a câmera providencialmente substitui as palavras dela por imagens, de tal forma que, com ela, testemunhamos todo o seu encanto e todo o seu desencanto.

A narração consiste numa sucessão de quintas-feiras, o dia em que Laura Jessen, residente em Ketchworth, toma o trem e vai à cidade vizinha, Milford, para fazer alguma compra, trocar livros na biblioteca pública, ou pegar um cineminha. É na Estação de Milford que lhe cai um cisco no olho e ela, na cantina da estação, recebe a ajuda de um senhor que, por acaso, é médico.

Na próxima quinta, por acaso, se cruzam numa calçada qualquer, se cumprimentam e seguem, sós, cada um para seus respectivos afazeres. O acaso, porém, lhes reserva um outro encontro: na quinta-feira seguinte, Laura Jessen está lanchando num restaurante da cidade, o Kardomah, quando o Dr Alec Harvey entra – não há mesas vagas, e assim, ele senta com ela e, inevitavelmente, entabulam uma conversa.  E é aí que ela aprende que ele, residente na cidade vizinha, Churleigh, vem a Milford, justamente toda quinta-feira, atender no Hospital local. Do papo casual surge um convite para ir ao cinema e…

O caso se formulará umas quintas-feiras adiante, quando, na lanchonete da estação, Alec pede a Laura para vê-la na próxima quinta. E a partir daí o acaso cede seu lugar ao desejo. Aqui vale lembrar esta cena sintomática, em que ele, falando de sua vocação profissional, enumera uma série de nomes de doenças pulmonares, enquanto ela o escuta, encantada, e isto, ao som da trilha do “Segundo concerto para piano”, de Rachmaninoff, sorrateiramente introduzida na conversa. Excelente exemplo de função fática da linguagem. “Você de repente me pareceu uma criança”, diz Laura a Alec, e nesse instante ele tem a certeza de que ela consentirá encontrá-lo na quinta-feira próxima e, possivelmente, nas outras.

Mas, atenção, bem antes disso, uma formulação do caso amoroso, já aparecera para o espectador, de modo sutil e cifrado, no início do filme. Fred, o esposo de Laura está no seu confortável gabinete caseiro, como de hábito, resolvendo suas palavras cruzadas, enquanto ela repousa numa poltrona a seu lado. Ele lhe pede uma ajuda com a palavra cruzada que está resolvendo. Trata-se de um verso de Keats em que falta um termo. “Quando contemplo, no rosto estrelado da noite, grandes símbolos nebulosos de um alto…” Laura recorda o verso e responde com o termo faltoso: “romance”. Ou seja, “romance” é o que falta nas palavras cruzadas do marido, e o que sobra na vida secreta da esposa, que, justamente a partir daí, começa a desabafar a sua estória.

Não cabe recompor aqui a estória inteira, mas cabe dizer que, com ou sem a ajuda do acaso, com visíveis e incômodos recuos e avanços, o envolvimento do casal vai crescendo a cada quinta-feira, até chegar a um ponto em que, para o bem ou para o mal, precisa ser resolvido. Exemplo: aceitar encontrar Alec na próxima quinta é um avanço; no mesmo dia se deparar com o filho acidentado é um recuo; decidir rever Alec, só por educação é um recuo; não encontrá-lo em frente ao Hospital e lamentar é um avanço…

O filme é muito rico e permite muitas leituras. Por exemplo, uma delas já está na dolorosa ironia do título original escolhido, “Brief encounter”, quando, para o casal envolvido, o caso foi tudo menos um ´breve encontro´. A propósito, o título da peça de Coward era ainda mais ambíguo, “Still life”, expressão que podia ser lida duplamente como ´vida parada´ e ´ainda vida´.

A título de análise, aqui me reporto à questão do emprego do ponto de vista, modernamente chamado de ´focalização´.

Como se sabe, em qualquer narrativa, existem, a rigor, três tipos de focalização, a saber, o ponto de vista onisciente, o ponto de vista limitado, e um terceiro ponto de vista, modernamente chamado de paraléptico. No primeiro caso, quem narra a estória é uma espécie de instância abstrata que pode ser igualada a Deus, já que ela sabe tudo sobre os personagens e a estória e nos conta tudo o que quer contar, ao mesmo tempo em que sonega o que quer sonegar. O normal é que essa instância abstrata (que não deve ser confundida com o cineasta) nos forneça informação diegética aos poucos, sempre sonegando partes, até que no final, o espectador venha a saber tudo que aconteceu. O segundo caso acontece quando o narrador da estória é um dos personagens. Neste caso o ponto de vista se diz limitado, uma vez que o personagem não é Deus, mas um mero mortal, como nós mesmos, e, assim sendo, só pode narrar o que testemunhou.

“Desencanto” começa e termina em ponto de vista onisciente, porém, estas duas partes do filme, a inicial e a final, são curtas. No meio delas, fica a longa parte intermediária, toda ela narrada pela protagonista Laura. O problema é que Laura narra o que viu… e o que não pôde ter visto. Exemplo: na cena do apartamento do colega de Alec, quando o casal é descoberto e Laura foge por uma saída traseira, e corre para a rua, debaixo de chuva e pranto, ela não viu o que se passou entre Alec e o amigo, (pode até ter imaginado, mas, a rigor, não viu) e, no entanto, toda a cena nos é mostrada, fazendo parte do já referido acima ´monólogo interior´ da protagonista – seu desabafo mental ao marido. É essa ingerência da onisciência dentro de um ponto de vista limitado que se chama de “paralepse”, ou ponto de vista paraléptico. Cabe acrescentar que o ponto de vista paraléptico, já existente na literatura, foi assumido pelo cinema como um procedimento regular, que dribla a verossimilhança para conseguir o efeito desejado de forma mais efetiva do que o faria o realismo stricto sensu. Em “Desencanto” o seu emprego é genial.

Consideremos a cena da despedida do casal, na lanchonete da estação, para nós mostrada duas vezes, primeiramente em ponto de vista onisciente, e no quase desenlace, do ponto de vista limitado de Laura. São duas cenas aparentemente iguais, mas só aparentemente. Na primeira, por exemplo, não sabemos o que aconteceu a Laura, na passagem do trem expresso; na segunda, testemunhamos sua tentativa de suicídio. Se a primeira cena é semanticamente vazia (nós não conhecemos ainda o drama de Laura), a segunda é um pique dramático de alta tensão. Com a discreta ironia de que, quem sabia mais (a focalização onisciente) sonega informação diegética, ao passo que, quem sabia menos (a focalização limitada) a fornece.

Se é a voz de Laura quem nos conta a estória, não posso deixar de acrescentar que essa estória tem um segundo narrador: a música, o belíssimo “Concerto número dois para piano” de Rachmaninoff, tão ubíquo e tão penetrante que, para o espectador, resulta inseparável do drama da protagonista. Antes de iniciar sua narração monologal, no gabinete do esposo, Laura liga o rádio e, sem coincidência, é Rachmaninoff que está tocando. Assim, a música começa homodiegética, até se tornar a trilha dolorosa que acompanhará Laura nos seus momentos mais tristes. Tudo isso feito de uma maneira tal que as nuances musicais ecoam as nuances emocionais da protagonista de forma harmônica e extremamente efetiva. Se servir um depoimento pessoal: assistindo a uma apresentação da Orquestra Sinfônica da Paraíba em que o Concerto de Rachmaninoff foi executado pela exímia pianista Juliana Steinbach, confesso que revi o filme de Lean por inteiro, mentalmente, como se estivesse sendo exibido diante dos meus olhos. Inescapavelmente, redigi crônica sobre o assunto que intitulei: “Por causa de Rachmaninoff”.

Se me for permitido conceber um terceiro narrador, este seria a fotografia. Prestem atenção, por exemplo, ao escurecimento da imagem, em torno do rosto de Laura, toda vez que os seus closes se pretendem mais subjetivos. Ou ao declive do cenário, na cena da tentativa de suicídio, quando a sala da cantina se inclina para um lado (com a inclinação da câmera, naturalmente), de forma a “jogar” Laura para fora, em direção aos trilhos do trem expresso, que deverão esmagá-la. Aliás, o aproveitamento das imagens dos trens é um item à parte. Diegeticamente são os fatores que ligam e/ou separam o casal, mas acima disso, desempenham o papel de comentários existenciais, como está em uma cena ontológica: a do beijo na estação, entrecortado pelo trem que corta a noite, como se indiciando paixão e perigo.

Um elemento que pode inquietar o espectador é o cômico subplot da dona da lanchonete com o guarda da estação. É que o filme está concebido e montado na tradição documental do cinema inglês, cinema onde o grande documentarista John Grierson (1898-1972) foi mestre, e onde espaço houve igualmente para um brasileiro, o nosso Alberto Cavalcanti. Parece-nos que todo esse subplot vulgar é para nos lembrar que estamos lidando com gente de carne e osso, e não com heróis. Por outro lado, não seria demais considerar, nessa intercalação de comédia e tragédia, um ingrediente shakespeariano – basta lembrar, em “Romeu e Julieta”, a linguagem sublime do casal trágico versus a linguagem chula da aia de Julieta, ou, em “Otelo”, o mundo elevado de Desdêmona e seu amado versus o mundo baixo e vil de Iago – e a convivência espaço-temporal das duas coisas. No filme, uma ironia a mais está no inverso posicionamento tímico do par plot/subplot: enquanto aquele “decai”, este, ao contrário, “sobe” até um final feliz.

Incrível é que, depois da primeira sessão pública de “Desencanto”, David Lean tenha querido destruir as cópias do filme, e só não o fez porque foi impedido pelos produtores e amigos. Foi numa dessas sessões-cobaia que ocorrem antes da distribuição nacional. Durante a sessão, em dado momento, uma espectadora gaiata emitiu um riso maldoso, que fez a plateia estourar na risada. Arrasado, Lean retirou-se da sala, achando que errara a mão na direção. Não ficou para constatar que, depois desse incidente, a sessão correu normal e até choro houve.

No geral, a recepção ao filme foi boa e hoje “Desencanto” está colocado pela crítica inglesa entre os cem melhores filmes britânicos de todos os tempos, no privilegiado segundo lugar. Com o passar dos anos, o filme foi se tornando tão popular que, hoje, na Carnforth Railway Station (local de filmagem das cenas na Estação) se conserva, tal e qual, a mesma cantina onde Laura e Alec se conheceram e se apaixonaram, com o nome chamativo de “The Brief Encounter Refreshment Room”.

O que não impede que tenha havido – digamos – desafetos. Um deles é o diretor Billy Wilder que no seu “O pecado mora ao lado” (1955) ridicularizou abertamente uma das melhores coisas no filme: o uso da trilha sonora do “Segundo concerto para piano”, de Rachmaninoff em filmes supostamente melodramáticos. Isto como se o próprio Lean não tivesse marcado sua crítica ao puro melodrama: lembrar como Laura e Alec se retiram de uma certa sessão de cinema porque não suportam o tom meloso de um filme a que vão assistir, intitulado “Flames of passion” (`Chamas de paixão´). Curiosamente, mais tarde, Wilder conceberia todo o enredo do seu ótimo “Se meu apartamento falasse” (1960) a partir daquela cena em que o encontro secreto do casal é interrompido no apartamento do amigo de Alec.

Não tenho idade para ter visto “Desencanto” em tela de cinema, mas, mesmo assim, me considero o seu curador local. Descobri-o lá pelos anos oitenta, quando foi editado em VHS. Desde então, tenho feito sua divulgação e hoje muitos cinéfilos pessoenses admitem que conhecem o filme de Lean por minha causa.

Na verdade, tenho dúvidas se houve exibição comercial de “Desencanto” nos cinemas da cidade. Creio que não, pois mesmo espectadores com mais idade que eu não me dão notícia disso. Sei, porém, que ele foi exibido no primeiro cineclube da cidade, o “Cineclube de João Pessoa”. Da programação de abertura, em 1951, fazia parte o filme de Lean, conforme está registrado no livro “Cinema na/da Paraíba”, do historiador Wills Leal.

Por que gosto tanto de “Desencanto”? A qualidade artística bastaria para responder a pergunta, mas, se porventura não bastasse, confesso que me agrada dar-me conta de que ele pertence a uma certa linhagem de filmes de algum modo derivados dos grandes romances do Século XIX, especialmente aqueles romances que ficcionalizaram a situação diegética que resumo na expressão ´mulheres apaixonadas fora do casamento´. Situação que está em, por exemplo, “Ana Karenina”, “Madame Bovary”, “O primeiro Basílio”, “A letra escarlate”, “Dom Casmurro”, etc.

Como se sabe, o Século XIX consistiu no auge da arte do romance, o qual sofreu um declínio crítico depois da desconstrução que lhe impôs Joyce, com o seu “Ulisses”, em 1922. Arte então nova, o cinema retomava a tradição das grandes narrativas e, em termos de consumo popular, “substituía” a romancística do passado, trazendo, no bojo, a situação diegética acima referida, a das mulheres apaixonadas fora do casamento. Temos isso em “Casablanca”, “Os brutos também amam”, “Chá e simpatia”, “Um dia muito especial”, e tantos outros filmes, ditos ou não “românticos”, mas, penso, “Desencanto” sustenta esse diálogo com o romance clássico de forma impecável. (De alguma maneira, o “trem” de Laura é o “trem” de Karenina).

Vejam que, a rigor, “Desencanto” é a estória de um casal, porém, como já dito, contada pela mulher – e em nenhum momento pelo homem, embora este esteja tão apaixonado quanto – com o adicional de que a ela é dado o maior tempo de tela e os closes mais significativos, dos quais destaco três: (1) no trem, nos primeiros momentos da projeção, com Laura se expressando desfavoravelmente em relação a sua inconveniente companheira de viagem, que havia pouco estragara um momento precioso do casal: a despedida. (2) na estação, no momento suicida em que corta a noite o Trem Expresso, “aquele que não para”; (3) no gabinete do marido Fred, com Laura na iminência de lhe narrar uma longa estória, impossível de ser a ele narrada, e por isso mesmo, narrada a si mesma, com toda a dor que esse gesto implica. Quanta delicadeza.

Li uma vez, não sei mais onde, um comentário sobre a obra de David Lean onde o filme aqui discutido era referido como “o delicado Desencanto”. Não lembro o nome do autor do comentário, mas mesmo assim, lhe peço licença para usar a feliz expressão como título para este ensaio-depoimento.

A sociedade literária e a torta de casca de batata

28 ago

Ao tempo do III Reich, se os alemães não chegaram à Inglaterra, chegaram perto. Por exemplo, da costa norte da França ocupada para a ilha de Guernsey foi um pulo. Sim, em 1941 essa ilha britânica foi invadida e sua população, sob o domínio nazista, comeu o pão que o diabo amassou.

A estória está contada, e muito bem contada, no filme de Mike Newell, “A sociedade literária e a torta de casca de batata” (2018), em exibição no NetFlix.

Para o espectador, tudo começa um pouco mais tarde, no ano de 1946, a guerra já finda, e os estragos já feitos. E começa com correspondência. Em Londres, a escritora Juliet Ashton descobre que existia na referida ilha essa curiosa “sociedade literária” do título do filme, espontaneamente formada por pessoas comuns que gostavam de literatura e se juntavam para comer torta e conversar sobre livros e autores.

Depois de um tempo correspondendo-se com um dos membros, o bibliófilo e criador de porcos Dawsey, Juliet resolve viajar para Guernsey e visitar a tal sociedade, com o intuito de escrever, para o “The Times”, uma inspiradora reportagem sobre o caso. É bem recebida pelo pequeno grupo, discute com eles a ficção das irmãs Brontë e come da torta de casca de batata, porém, ao propor a entrevista para a revista, recebe um retumbante não.

Por que a Sra Emilia, a mais idosa do grupo, opõe-se tão terminantemente à entrevista? É claro que Juliet não se conforma com a recusa, e tomada pela curiosidade, passa, a partir daí, a investigar sobre o caso todo, tendo e dando oportunidade ao espectador de vir a saber o que, de fato, teria acontecido nessa ilha isolada do Canal da Mancha ao tempo em que os alemães lá estiveram.

De cada membro do grupo, as revelações vão vindo aos poucos, com muitas reservas, mas, de todo jeito, cada uma delas endossada por flashbacks generosos, que nos revelam talvez mais do que estava no intento de cada um revelar.

Misturando guerra, amor e literatura, o enredo é empolgante e prende a atenção do espectador, como sempre fazem os filmes de Newell. Não pretendo revelar esse enredo, mas apenas nele apontar um eixo actancial essencial, formando por duas figuras, uma presente na estória, a outra, ausente: a primeira é uma garotinha de quatro anos, kit; a segunda é uma mulher apaixonada e corajosa, Elizabeth, que enfrentou o nazismo de várias formas. Aquela é criada pelos membros da Sociedade literária; esta última, já morta, só a vemos em flashbacks. Naturalmente, se trata de filha e mãe. Pois bem, o modo difícil como a escritora Juliet se apazigua com a Sociedade literária e seus membros passa por essa dupla dramática. E mais não conto.

Baseado no romance homônimo de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows, não sei até que ponto o filme tem raízes na História real, mas, se não tem, bem que poderia ter, pelo menos por uma razão: é que a ilha de Guernsey possui background literário. Foi, no século XIX, refúgio do escritor francês Victor Hugo, que lá morou por quinze anos e lá escreveu o seu magistral “Os miseráveis”.

Como sugere o título do filme (no original: “The Guernsey literary and potato peel pie society”), a literatura é uma dominante na estória, e é uma delícia acompanhar as discussões do grupo sobre quem, das irmãs Brontë, seria a maior, ou coisas desse nível. Depois do desenlace, durante a exposição dos créditos, não desliguem a televisão e fiquem atentos às vozes dos personagens lendo trechos chave dos seus autores preferidos, que vão de Virginia Woolf a Shakespeare, passando por Charlotte Brontë e Robert Louis Stevenson.

Enfim, uma estória de amor (para ser mais correto, duas), um filme de guerra, mas também, uma obra sutil e delicada sobre afinidades literárias e o modo como elas formam e transformam as pessoas, eventualmente unindo-as, ou, no caso de faltar, separando-as.

Mary Shelley

17 jul

Com sua atmosfera tenebrosa e seu desenlace triste, a estória dessa “criatura” inominada já faz parte, há muito tempo, do folclore moderno. Inominada? Quem, por tabela, lhe empresta o nome é o seu criador, também ficcional, o Dr. Frankenstein.

Refiro-me ao livro da romancista inglesa Mary Shelly, “Frankenstein ou o moderno Prometeu” (1818) que, como sabemos, já serviu de roteiro para inúmeros filmes, ao longo da história do cinema.

Pois bem, agora é a vida da própria autora da estória que chega às telas, e vem com o seu nome “Mary Shelley” (2017).

Dirigido pela árabe Haifaa Al-Mansour, essa produção inglesa vai entrar na vida de Mary nos dois ou três anos que antecederam a publicação do seu romance. Vivendo com o pai William Godwin – filósofo e escritor famoso – uma irmã, uma madrasta hostil, e, talvez mais grave, a má fama de uma mãe feminista e adúltera, já falecida, Mary é, quando o filme começa, uma adolescente de 16 anos, insatisfeita com a mesmice da rotina, e à procura de uma afirmação e de uma identidade. Rabisca e conta estória de terror à irmã, mas nada que se leve a sério. Na maior parte dos casos, como lhe diz o pai, imitação do que lia. “Encontre sua própria voz”, lhe diz ele um dia.

Bem, antes de encontrar sua própria voz, ela encontra o homem de sua vida, o então já afamado poeta Percy Byssche Shelley, por quem se apaixonada e com quem inicia um caso amoroso no melhor estilo da época, claro, o “romântico”.

Em seguida vêm os elementos fundamentais ao Romantismo: sim, as tempestades e as fúrias, uma coisa atrás da outra. Em primeiro lugar, a notícia de que ele é casado: a briga em família, a fuga de casa, com a desaprovação do pai, problemas financeiros, a perda de uma filha recém-nascida, a vida promíscua do marido e seu parceiro de prática poética, Lord Byron, são fatores que agravam o relacionamento do casal.

Mas claro, essa lista de atribulações no roteiro é só para chegarmos ao seu corolário compensador: a escritura, primeiramente secreta, do livro que imortalizaria a penalizada Mary. O marido é o primeiro a ler o romance, gosta, aprova, e no entanto, lhe faz a pergunta que não cabia fazer: “por que a criatura formada de partes alheias não foi um ser superior, um anjo celeste e feliz?” O interessante é que a irmã, em princípio leiga em questões literárias, é quem entende o romance e o interpreta corretamente: a criatura de Dr. Frankenstein teria nascido do sofrimento da autora.

A primeira edição sai anônima com prefácio de Shelley, o que dá a impressão de ser dele a autoria, embora ele mesmo confesse a verdade, na ocasião do lançamento. A segunda, porém, auspiciada pelo pai reconciliado, já traz o nome da autora e concede a essa jovem de 18 anos de idade o estatuto público de escritora.

O filme é fiel à vida de Mary e, sem escassez nem exagero, cumpre bem o papel de ser biográfico. Com ótima atuação e quase todo o tempo de tela, com planos em close, a atriz Elle Fanning convence como essa jovem sonhadora que vê seus sonhos atropelados pelas circunstâncias da vida e dá a volta por cima, ao menos a volta possível.

Uma das coisas boas no filme é a recriação da atmosfera prevalecente nessa fase tão importante da história da literatura inglesa – o Romantismo. Quase todas as figuras da época aparecem, ou são referidas no diálogo, e muitos dos eventos mostrados, direta ou indiretamente, comentam os princípios da escola literária que deu os cinco nomes maiores no terreno da poesia: Wordsworth, S.T. Coleridge, Byron, Shelley e Keats.

De minha parte, supunha que uma grande influência na criação do romance de Mary Shelley tivesse sido o gótico e apavorante Coleridge de “The Rhyme of the Ancient Mariner”, mas que nada: num sarau, rodeada de poetas, onde estava o próprio Coleridge, em dada ocasião, Mary confessa ao companheiro Shelley, secretamente e com um riso zombeteiro, que Coleridge havia sido leitura infantil que agora, madura, simplesmente descartava.

Enfim, assistindo a “Mary Shelley” senti o que raramente sinto: saudade do tempo em que, professor da UFPB, lecionava literatura inglesa para alunos da graduação e da pós no Curso de Letras. À parte seus eventuais limites estéticos ou de outra ordem, um filme desses, puxa vida, teria sido muito útil para ilustrar o programa do curso. Fica o recado para os professores atuais.

Mary Shelley, a própria.

Confissões de um cinéfilo à moda antiga

26 jun

Semanas atrás fui ao cinema do Manaíra Shopping ver “A livraria” (“The bookshop”, 2017), filme obscuramente exibido na Sala 1, sala esta, segundo consta, reservada a ´filmes de arte´.

Pois mesmo nesta ´sala de arte,´ passam, antes da sessão, os trailers dos filmes comerciais e, aí, começa o meu tormento. Um atrás do outro, cada trailer é um amontoado de explosões, rostos e corpos deformados, criaturas robóticas, paisagens desoladas e sombrias, correrias sem fim, velocidades indizíveis, pirotecnias as mais mirabolantes, efeitos especiais os mais absurdos… e barulho, muito muito barulho.

Deve ser problema da idade, mas essas parafernálias dos filmes atuais me incomodam horrivelmente e fazem mal aos meus olhos e ouvidos, para não dizer que ameaçam a minha saúde. Fico enfiado na poltrona como um menino medroso, com vontade de chorar ou sair da sala correndo.

Ufa! Depois de mais ou menos meia hora de sofrimento, eis que começa o filme que escolhi ver. Que alívio!

Na verdade, “A livraria” não é nenhuma grande obra: só um filme mediano, sem méritos especiais, mas, por contraste com o inferno dos trailers, juro, comecei a achá-lo um bálsamo para o meu espírito aturdido. Que beleza, entrar leve e discretamente na vida de pessoas normais, que não são robóticas, nem voam, nem se transformam em monstros, nem explodem bombas que destroem o Universo…

Em 1959, numa cidadezinha insignificante da Inglaterra, Hardborough, chega essa senhora, viúva de meia idade, Florence, simpática e tranquila, que compra uma casa antiga do lugar, com o intento de transformá-la numa livraria. Encontra apoio em uns e oposição em outros, mas, nada que esteja fora do familiar universo dos seres humanos como a gente. A senhora Florence poderia muito bem ser nossa tia, e os seus apoiantes e oponentes, poderiam muito bem ser os residentes do bairro onde moramos.

Com a vantagem de ser um filme sobre livros, coisa que eu não via fazia tempos. O último acho que foi “Nunca te vi, sempre te amei” (“84 Charing Cross Road”) do diretor David Jones, – vocês lembram – com a Anne Bancroft e o par Anthony Hopkins e Judi Dench em começo de carreira no cinema, embora ambos já maduros.

Em “A livraria” até os conflitos são leves. É verdade que a Sra Florence encontra indiferença na população local e rivalidade junto a uma socialite poderosa que termina por derrubar os seus planos, mas, mesmo assim o filme não pesa.

Pesa a bela e delicada amizade da protagonista com um senhor idoso e solitário, o Sr Brundish, que ela descobre ser um grande bibliófilo e, daí, passa a lhe enviar livros para avaliação. O primeiro que envia é um livro sobre livros, o famoso “Farenheit 451” de Ray Bradbury, que é logo aprovado e passa a constar das prateleiras da livraria. O segundo vai dar mais ainda o que falar: o – para a época – polêmico “Lolita” de Nabokov, mas é, sim, aprovado e passa a ser vendido como qualquer outro livro.

E por falar em Lolita, vejam que a funcionária da livraria da Sra Florence é uma criança, uma garota de 14 anos, Christine, que sequer gosta de ler, mas que será induzida à leitura pela sua patroa. Aliás, o filme inteiro – saberemos no desenlace – é narrado em flashback por essa garota, quando já adulta, ela mesma, hoje dona de uma grande livraria em Londres.

Como disse, “A livraria” não tem méritos especiais; é retilíneo e convencional, porém, contraposto ao inferno dos trailers que o precedeu, ele acidentalmente tornou-se, para mim, um filme extremamente agradável.

A propósito do contraste que me bateu entre os trailers infernais e “A livraria”, acho que não é coincidência que se trate de um filme sobre livros, quando se sabe que o computador, o poderoso opositor do livro no mundo de hoje, é justamente a máquina eletrônica que torna possível todo o “inferno” dos trailers referidos… Por aí.

Sobre o problema dos trailers que tanto me atormentaram, um amigo me disse o que já sei: que em tempo de férias, a programação local investe em filmes assim, para uma plateia infanto-juvenil. Para mim, o problema persiste: será que isto significa que, formado por esse tipo cibernético e barulhento de filme, o espectador do futuro nunca vai ver um filme singelo e humano como “A livraria”? Não tenho resposta…