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Mary Shelley

17 jul

Com sua atmosfera tenebrosa e seu desenlace triste, a estória dessa “criatura” inominada já faz parte, há muito tempo, do folclore moderno. Inominada? Quem, por tabela, lhe empresta o nome é o seu criador, também ficcional, o Dr. Frankenstein.

Refiro-me ao livro da romancista inglesa Mary Shelly, “Frankenstein ou o moderno Prometeu” (1818) que, como sabemos, já serviu de roteiro para inúmeros filmes, ao longo da história do cinema.

Pois bem, agora é a vida da própria autora da estória que chega às telas, e vem com o seu nome “Mary Shelley” (2017).

Dirigido pela árabe Haifaa Al-Mansour, essa produção inglesa vai entrar na vida de Mary nos dois ou três anos que antecederam a publicação do seu romance. Vivendo com o pai William Godwin – filósofo e escritor famoso – uma irmã, uma madrasta hostil, e, talvez mais grave, a má fama de uma mãe feminista e adúltera, já falecida, Mary é, quando o filme começa, uma adolescente de 16 anos, insatisfeita com a mesmice da rotina, e à procura de uma afirmação e de uma identidade. Rabisca e conta estória de terror à irmã, mas nada que se leve a sério. Na maior parte dos casos, como lhe diz o pai, imitação do que lia. “Encontre sua própria voz”, lhe diz ele um dia.

Bem, antes de encontrar sua própria voz, ela encontra o homem de sua vida, o então já afamado poeta Percy Byssche Shelley, por quem se apaixonada e com quem inicia um caso amoroso no melhor estilo da época, claro, o “romântico”.

Em seguida vêm os elementos fundamentais ao Romantismo: sim, as tempestades e as fúrias, uma coisa atrás da outra. Em primeiro lugar, a notícia de que ele é casado: a briga em família, a fuga de casa, com a desaprovação do pai, problemas financeiros, a perda de uma filha recém-nascida, a vida promíscua do marido e seu parceiro de prática poética, Lord Byron, são fatores que agravam o relacionamento do casal.

Mas claro, essa lista de atribulações no roteiro é só para chegarmos ao seu corolário compensador: a escritura, primeiramente secreta, do livro que imortalizaria a penalizada Mary. O marido é o primeiro a ler o romance, gosta, aprova, e no entanto, lhe faz a pergunta que não cabia fazer: “por que a criatura formada de partes alheias não foi um ser superior, um anjo celeste e feliz?” O interessante é que a irmã, em princípio leiga em questões literárias, é quem entende o romance e o interpreta corretamente: a criatura de Dr. Frankenstein teria nascido do sofrimento da autora.

A primeira edição sai anônima com prefácio de Shelley, o que dá a impressão de ser dele a autoria, embora ele mesmo confesse a verdade, na ocasião do lançamento. A segunda, porém, auspiciada pelo pai reconciliado, já traz o nome da autora e concede a essa jovem de 18 anos de idade o estatuto público de escritora.

O filme é fiel à vida de Mary e, sem escassez nem exagero, cumpre bem o papel de ser biográfico. Com ótima atuação e quase todo o tempo de tela, com planos em close, a atriz Elle Fanning convence como essa jovem sonhadora que vê seus sonhos atropelados pelas circunstâncias da vida e dá a volta por cima, ao menos a volta possível.

Uma das coisas boas no filme é a recriação da atmosfera prevalecente nessa fase tão importante da história da literatura inglesa – o Romantismo. Quase todas as figuras da época aparecem, ou são referidas no diálogo, e muitos dos eventos mostrados, direta ou indiretamente, comentam os princípios da escola literária que deu os cinco nomes maiores no terreno da poesia: Wordsworth, S.T. Coleridge, Byron, Shelley e Keats.

De minha parte, supunha que uma grande influência na criação do romance de Mary Shelley tivesse sido o gótico e apavorante Coleridge de “The Rhyme of the Ancient Mariner”, mas que nada: num sarau, rodeada de poetas, onde estava o próprio Coleridge, em dada ocasião, Mary confessa ao companheiro Shelley, secretamente e com um riso zombeteiro, que Coleridge havia sido leitura infantil que agora, madura, simplesmente descartava.

Enfim, assistindo a “Mary Shelley” senti o que raramente sinto: saudade do tempo em que, professor da UFPB, lecionava literatura inglesa para alunos da graduação e da pós no Curso de Letras. À parte seus eventuais limites estéticos ou de outra ordem, um filme desses, puxa vida, teria sido muito útil para ilustrar o programa do curso. Fica o recado para os professores atuais.

Mary Shelley, a própria.

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Confissões de um cinéfilo à moda antiga

26 jun

Semanas atrás fui ao cinema do Manaíra Shopping ver “A livraria” (“The bookshop”, 2017), filme obscuramente exibido na Sala 1, sala esta, segundo consta, reservada a ´filmes de arte´.

Pois mesmo nesta ´sala de arte,´ passam, antes da sessão, os trailers dos filmes comerciais e, aí, começa o meu tormento. Um atrás do outro, cada trailer é um amontoado de explosões, rostos e corpos deformados, criaturas robóticas, paisagens desoladas e sombrias, correrias sem fim, velocidades indizíveis, pirotecnias as mais mirabolantes, efeitos especiais os mais absurdos… e barulho, muito muito barulho.

Deve ser problema da idade, mas essas parafernálias dos filmes atuais me incomodam horrivelmente e fazem mal aos meus olhos e ouvidos, para não dizer que ameaçam a minha saúde. Fico enfiado na poltrona como um menino medroso, com vontade de chorar ou sair da sala correndo.

Ufa! Depois de mais ou menos meia hora de sofrimento, eis que começa o filme que escolhi ver. Que alívio!

Na verdade, “A livraria” não é nenhuma grande obra: só um filme mediano, sem méritos especiais, mas, por contraste com o inferno dos trailers, juro, comecei a achá-lo um bálsamo para o meu espírito aturdido. Que beleza, entrar leve e discretamente na vida de pessoas normais, que não são robóticas, nem voam, nem se transformam em monstros, nem explodem bombas que destroem o Universo…

Em 1959, numa cidadezinha insignificante da Inglaterra, Hardborough, chega essa senhora, viúva de meia idade, Florence, simpática e tranquila, que compra uma casa antiga do lugar, com o intento de transformá-la numa livraria. Encontra apoio em uns e oposição em outros, mas, nada que esteja fora do familiar universo dos seres humanos como a gente. A senhora Florence poderia muito bem ser nossa tia, e os seus apoiantes e oponentes, poderiam muito bem ser os residentes do bairro onde moramos.

Com a vantagem de ser um filme sobre livros, coisa que eu não via fazia tempos. O último acho que foi “Nunca te vi, sempre te amei” (“84 Charing Cross Road”) do diretor David Jones, – vocês lembram – com a Anne Bancroft e o par Anthony Hopkins e Judi Dench em começo de carreira no cinema, embora ambos já maduros.

Em “A livraria” até os conflitos são leves. É verdade que a Sra Florence encontra indiferença na população local e rivalidade junto a uma socialite poderosa que termina por derrubar os seus planos, mas, mesmo assim o filme não pesa.

Pesa a bela e delicada amizade da protagonista com um senhor idoso e solitário, o Sr Brundish, que ela descobre ser um grande bibliófilo e, daí, passa a lhe enviar livros para avaliação. O primeiro que envia é um livro sobre livros, o famoso “Farenheit 451” de Ray Bradbury, que é logo aprovado e passa a constar das prateleiras da livraria. O segundo vai dar mais ainda o que falar: o – para a época – polêmico “Lolita” de Nabokov, mas é, sim, aprovado e passa a ser vendido como qualquer outro livro.

E por falar em Lolita, vejam que a funcionária da livraria da Sra Florence é uma criança, uma garota de 14 anos, Christine, que sequer gosta de ler, mas que será induzida à leitura pela sua patroa. Aliás, o filme inteiro – saberemos no desenlace – é narrado em flashback por essa garota, quando já adulta, ela mesma, hoje dona de uma grande livraria em Londres.

Como disse, “A livraria” não tem méritos especiais; é retilíneo e convencional, porém, contraposto ao inferno dos trailers que o precedeu, ele acidentalmente tornou-se, para mim, um filme extremamente agradável.

A propósito do contraste que me bateu entre os trailers infernais e “A livraria”, acho que não é coincidência que se trate de um filme sobre livros, quando se sabe que o computador, o poderoso opositor do livro no mundo de hoje, é justamente a máquina eletrônica que torna possível todo o “inferno” dos trailers referidos… Por aí.

Sobre o problema dos trailers que tanto me atormentaram, um amigo me disse o que já sei: que em tempo de férias, a programação local investe em filmes assim, para uma plateia infanto-juvenil. Para mim, o problema persiste: será que isto significa que, formado por esse tipo cibernético e barulhento de filme, o espectador do futuro nunca vai ver um filme singelo e humano como “A livraria”? Não tenho resposta…