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A paixão segundo Madalena

27 mar

Com base nos vetustos escritos do Papa bizantino Gregório Magno, a figura de Maria Madalena perdurou, no imaginário cristão, e ainda hoje perdura, como a mulher pecadora, a prostituta que Cristo teria misericordiosamente perdoado.

Segundo interpretações mais modernas dos Evangelhos, sobretudo a dos livros gnósticos, esse conceito é equivocado, e Maria, natural de Magdala (daí ser chamada de “Madalena” quando na sua época não existiam sobrenomes) nunca foi prostituta, ao contrário disso, foi uma das apóstolas de Cristo, e tem mais, uma das mais convictas, mais atuantes e mais – física e espiritualmente – próximas a Jesus.

É o que relata o filme, “Maria Madalena” (“Mary Magdalene”, 2018), atualmente em cartaz na cidade, com certeza um item interessante para o movimento feminista, no seu intento, aliás mais que justo, de recuperar o papel de figuras femininas da História ou do imaginário popular.

Segundo o filme do quase novato Garth Davis, a jovem Maria vivia inquieta entre os seus, insatisfeita com a vida pequena da família, pescadores do mar da Galileia. Quando o pai, Daniel, quer lhe impor o noivo Efraim, ela recusa e é tida por louca, ou possuída pelo demônio.

Ao lhe chegarem as notícias de que um certo messias – preconizado por João, o batista – está pregando a palavra divina, ela não tem dúvidas de que era o que buscava: após um primeiro contato, deixa pai e irmãs e, sem saber o que a espera e o que poderia advir dessa aventura – vai ao encalço desse homem misterioso que, na companhia de seus apóstolos, fala aos pobres e prega o reino de Deus.

Madalena e Judas em diálogo

Nem todos os apóstolos, porém, a veem com bons olhos, e a sua integração ao grupo itinerante não é lá muito tranquila, só ocorrendo com certo nível de conflito,  este só amenizado, com o tempo, pela visível afinidade que vai, de modo perturbador para todos, brotando e crescendo entre ela e o próprio Jesus.

No mais, o filme relata o que já se conhece dos muitos filmes do gênero, ou de encenações teatrais, ou da própria Bíblia, desde a ceia larga até a ressureição, passando pela traição de Judas e a crucificação. Há elipses (o julgamento por Pôncio Pilatos fica de fora) ou modificações (não se vê vinho na cena da ceia larga, por exemplo). Mas a diferença maior é que agora tudo é apresentado na perspectiva de Madalena – fato evidenciado, por exemplo, na imagem sub-aquática e simbólica que abre e fecha a narrativa, com o corpo da moça submerso, supostamente num hiperbólico e eterno batismo nas águas da Galileia.

Em que pese o ponto de vista de Madalena, uma curiosidade é que os protagonistas da história não são apenas – como se esperaria do press-release do filme – ela e Jesus. Sim, o eixo actancial não é dual, mas triádico, pois com certa ênfase inclui a figura de Judas Iscariotes.

Joaquin Phoenix é Cristo

A este personagem se doa um considerável tempo de tela e não só isso: desde sempre – e diferentemente dos outros apóstolos – Judas se torna um confidente de Madalena e os seus dramas, digo, as motivações profundas que o teriam conduzido aos dramáticos gestos finais, aparecem para o espectador de uma forma lógica e concatenada: mortos os seus filhos e esposa havia algum tempo, Judas queria o Reino de Deus de imediato, para, no milagre esperado da reencarnação, tê-los de volta devidamente ressuscitados.

Ateus e religiosos vão, naturalmente, reagir de modos diferentes a “Maria Madalena”, como, aliás, costuma acontecer com filmes do gênero, mas, esta é uma outra questão, que aqui não vem ao caso discutir, e que deixo para os estudiosos da Estética da Recepção.

De minha parte, diria que estamos diante de um filme mediano, sem maiores méritos de natureza estética. Sem dúvida, os atores dão bons desempenhos, mas nada que eleve o nível para além da média. Para ficar apenas com os protagonistas: Rooney Mara faz uma Maria Madalena correta, Tahar Rahim faz o mesmo para o seu Judas Iscariotes, e o grande Joaquin Phoenix, como esperado, convence como um Jesus introspectivo e angustiado.

Enfim, se neste tempo de Semana Santa, você está a fim de assistir a um filme de temática religiosa, vá lá. Se não, fique em casa, ou vá à praia.

Tahar Rahim tem o papel de Judas Iscariotes

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Filosofia e crime

3 set

Aos 79 anos de idade, o cineasta americano Woody Allen não para de filmar. Depois de longa peregrinação europeia, volta aos Estados Unidos e comete este “O homem irracional”, com algumas idéias e situações requentadas de filmes anteriores, seus ou alheios.

Recém contratado para o departamento de filosofia em uma universidade de Rhode Island, o professor Abe Lucas (Joaquin Phoenix) vive entediado e, em sala de aula, passa aos alunos o seu tédio. Filosofia, segundo ele, seria masturbação intelectual, e Kant, com sua noção de um mundo sem mentiras, seria um grande mentiroso, desmascarado todo dia pela realidade mais banal. Encantadas com o seu tédio e seu charme as mulheres se entregam fácil, mas, ele, depressivo, prefere roleta russa. Até o dia em que descobre a saída, e a saída é o crime perfeito… e útil. O turning point de sua vida também vai ser o turning point do filme, que, no momento dessa descoberta, passa de drama existencial a thriller.

0 o poster

Um dia ele está numa lanchonete com uma aluna, e, por acaso, entreouve a conversa na mesa vizinha: uma mãe está sofrendo horrores por causa de um juiz de má fé que não lhe concede a guarda dos filhos. Pronto: nesse momento Abe decide que o mundo será melhor sem o juiz Spangling, e ele mesmo – um completo desconhecido de todos os envolvidos no caso – será o autor de um crime, não apenas perfeito, mas também ético. É claro que o fato de a vítima vir a ser um representante da justiça tem significação especial, que não lhe ocorre, mas ocorre ao espectador.

Praticado exatamente como planejado, o crime deixa o professor Abe de bem com a vida e o tédio vai embora, como se nunca tivesse existido. Até o dia em que… E o exercício de fazer thriller prossegue.

Com certeza os comentaristas de “O homem irracional” vão apontar o seu pano de fundo literário (Dostoievski, aliás, referido no diálogo), porém, a mim chamou-me a atenção a dívida do filme para com o gênero noir, em especial para com três filmes antigos que Allen com certeza conhece muito bem, embora deles possa não ter lembrado no gesto de confeccionar o roteiro.

Entreouvindo uma conversa, na lanchonete.

Entreouvindo uma conversa, na lanchonete.

Vejam bem. Há, no filme em questão, três situações dramáticas bem particulares, já construídas em três clássicos noir do passado, a saber:

(1) A disposição de praticar um assassinato baseada no fato de que o seu autor jamais será descoberto porque a vítima lhe é desconhecida, além de não ter ele interesse pessoal em sua morte (o álibi dos álibis, já que não existe o chamado “motivo”!). Tal situação já estava em “Pacto sinistro” (Alfred Hitchcock, 1951).

(2) Depois do assassinato praticado, a situação em que o autor vai se achar entre amigos que com ele fazem suposições sobre o modo como o assassino teria agido, e ele próprio, querendo ou não, é levado pela conversa a ajudar nas pistas que conduzem à solução do caso. Se vocês lembrarem bem, essa mesma situação já estava no noir “Um retrato de mulher (Fritz Lang, 1944).

(3) No decorrer das investigações, a polícia chega, erroneamente, a um outro suspeito – este com motivos para o crime – que, tudo indica, será condenado e pagará por um crime não cometido, livrando assim o verdadeiro culpado da prisão perpétua ou da pena de morte. Mais uma vez, esta situação também já esteve em um dos grandes noir do passado, “Dúvida” (Robert Siodmak, 1944).

Além desses intertextos alheios, há os próprios, por exemplo, a idéia de que tudo na vida depende do acaso, explicitamente formulada em “Match Point”. Vejam que o que vai condenar Abe à morte não será algum processo judicial, e sim, um flashlight ganho no tiro ao alvo.

Joaquin Phoenix como o professor Abe Lucas.

Joaquin Phoenix como o professor Abe Lucas.

Já afirmei alhures que Allen é um desses cineastas de estilo forte, onde as redundâncias, formais ou temáticas, são coisas positivas. Mas ora, repetições sempre trazem riscos, principalmente quando soam viciosas, ou mesmo preguiçosas.

É o caso neste “O homem irracional”, por exemplo, com as entregas amorosas entre os personagens, todas fáceis demais, como se fosse para não perder tempo de tela; como se o cineasta estivesse nos dizendo: ´vocês já viram isso em outros filmes meus e, portanto, pulemos detalhes e vamos ao que interessa´. O resultado é que os relacionamentos entre os personagens soam esquemáticos, para não dizer que o ´tédio´ da parte inicial também já soara esquemático, manjadamente woodyalliano.

No mais, é só mais um Woody Allen em nossas telas, para chatear os antipatizantes e satisfazer os fãs. Um filme mediano que nem melhora nem piora a brilhante carreira do autor.

Em tempo: “O homem irracional” (“Irrational man”, 2015) está em cartaz na cidade e no país.

O professor Abe e sua aluna apaixonada.

O professor Abe e sua aluna apaixonada.