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Um clássico a lembrar

26 abr

Neste 2014 comemora-se o aniversário de sessenta anos do filme que dá nome à minha coluna no Jornal Contraponto, “Janela indiscreta” (Rear window, 1954), e, portanto, não posso deixar de anotar o evento. Para tanto, reproduzo parcialmente matéria que está no meu livro virtual “Emoção à flor da tela” (Conferir neste blog, a categoria LIVROS acima).

Digamos, primeiramente, que “Janela indiscreta” pertence àquele tipo raro de filme que tanto funciona para platéias menos instruídas, quanto para cinéfilos empertigados. Não é sem razão que pode passar na televisão sem problemas, do mesmo modo que sua referência e análise constam em sofisticados compêndios de teoria da linguagem fílmica.

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Aliás, tão frequentemente tem sido “Janela indiscreta” objeto de estudo de especialistas e pensadores da sétima arte, que as suas interpretações concorrem, em fama, com o próprio filme. A mais conhecida é a tese da metalinguagem, segundo a qual o filme inteiro seria uma representação do próprio cinema, a condição de voyeur de seu protagonista equivalendo à posição natural do espectador.

A tese é fascinante, mas, mais fascinante é o filme. Num setor pobre de Greenwich Village, um repórter acidentado, de perna engessada, passa o seu tempo ocioso espreitando a vida dos seus vizinhos pela janela de fundos (cf título original), até descobrir um crime: um homem esquartejara a esposa, enterrando suas partes em partes diferentes da cidade.

Resumida assim, a estória parece mórbida e escatológica, e, no entanto, quem lembra o filme sabe o quanto tudo isso é contado com irresistível charme e humor.

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Sem espaço para maiores análises, aqui aproveito as dicas do par antonímico morbidez e humor para abordar um aspecto do filme pouco discutido pela crítica, a saber, o da roteirização, empreendida em cima do original adaptado, o conto homônimo de Cornell Woolrich.

Acontece que o conto de Woolrich se limita praticamente ao que resumimos acima, ao passo que o filme de Hitchcock lhe faz um acréscimo que não é apenas considerável, mas também significativo: todo o sub-enredo do caso amoroso entre Jeffrey, o repórter, e Lisa, sua namorada ricaça, e com ele, todas as discussões em torno da instituição do casamento. Na verdade, o roteiro de Hitchcock não fez só um acréscimo no sentido quantitativo da palavra: ele desenvolveu a diegese numa direção temática oferecida pelo núcleo em Woolrich. De alguma forma o cônjuge que mata o outro também mata o casamento, assunto que, em Janela indiscreta, passou a ser um segundo tema, tão importante quanto o primeiro.

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Vejam bem, fosse o crime de outra ordem e a roteirização seguramente não teria tomado esse caminho. Mas é o esposo que mata a esposa e, sem querer, suscita todas as questões sobre a instituição que os unira, como se perguntasse: vale a pena casar, se o casamento pode terminar com o casal se matando? Em várias instâncias, o filme brinca com a pergunta, inexistente no conto.

Assim, sonhadora e apaixonada, a ricaça Lisa (Grace Kelly) só pensa em casamento; pobre e prático, o repórter Jeffrey (James Stewart) é contra a ideia. O crime descoberto pelos dois, na vizinhança, parece apontar para uma visão desfavorável do casamento; só que, no desenrolar da estória, o seu desvendamento une Lisa e Jeffrey como nada no universo ficcional do filme fora capaz de fazer antes: aquela cena em que, no apartamento do assassino, ela põe no dedo a aliança da mulher vitimada é, conforme já demonstrado pela crítica, um simbolismo favorável. Bem entendido, favorável ao casamento Lisa\Jeffrey, mas não necessariamente à instituição em si, já que, afinal de contas, se trata da aliança de um cônjuge assassinado por outro.

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Não apenas Jeffrey e Lisa discutem o assunto da (in)viabilidade do matrimônio, mas também outros personagens, inexistentes no conto de Woolrich, como a enfermeira Stella e o policial amigo Tom, para não falar dos vizinhos que o fazem apenas graficamente, mas o fazem.

E conclui-se o filme sem respostas. Depois de tudo passado, a vida na vizinhança de Greenwich Vilage retoma seu rumo normal: por exemplo, a Srta “coração solitário” e o pianista frustrado se encontram, o que parece favorável à ideia de casamento, mas em compensação, os recém-casados do outro lado brigam porque ele não tem emprego, o que parece desfavorável. Nos fotogramas finais, Jeffrey, agora com as duas pernas quebradas, cochila ao lado de Lisa, o que parece favorável à noção de casamento, mas ela, por trás do sério periódico em que o namorado trabalha, lê revistas de moda, o que, no contexto da estória a dois, parece desfavorável.

Ao contrário do conto, que é monossêmico e monótono, “Janela indiscreta” trabalha o tempo todo com ambiguidades dessa e de outras ordens, sem, em nenhum momento, deixar que a bola caia para quaisquer dos lados, e sem permitir decidir se estamos vendo um sombrio e trágico “noir” ou uma comédia romântica de final feliz. Coisa de gênio!

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Um invento vibrante

3 jul

Nas ciências da alma, nada mais superado do que o conceito de histeria feminina. Houve, porém, uma época – século XIX – em que era considerado verdade científica incontestável. Nessa época atrasada, associava-se o nervosismo da mulher ao útero e um tratamento da “doença” devia, portanto, mexer com este órgão, ou com suas adjacências.

O Dr Robert Dalrymple, por exemplo, descobriu que a massagem vaginal podia aliviar, ou mesmo combater a histeria. No seu consultório, passou a usar essa massagem com suas pacientes, respeitáveis senhoras da sociedade vitoriana. A massagem era feita com a mão do médico, sem luvas e bem lubrificada. Deitada em leitor especial, a paciente abria bem as pernas e o médico começava de leve a massagem e ia aumentando o ritmo dos movimentos, até a paciente atingir o que o Dr Dalrymple chamava de paroxismo, depois do qual a paciente sentia um enorme relaxamento.

Na verdade, o paroxismo era – clinicamente falando – puro orgasmo, porém, o circunspecto médico, um senhor de certa idade, não pensava assim, nem nada na puritana Londres de 1880, o levaria a pensar coisa diferente.

Pensando assim, ou não, o fato é que, depois do método adotado, o consultório do Dr Dalrymple superlotou e as respeitáveis senhoras vitorianas, viúvas, solteironas ou bem casadas, em número cada vez maior, faziam fila para serem massageadas naquele lugar e experimentar o delicioso paroxismo.

Cartaz do filme "Histeria" (2011)

Cartaz do filme “Histeria” (2011)

Tudo isso está mostrado no filme “Histeria” (“Hysteria”, Tanya Wexler, 2011), que não veio ao circuito comercial, mas está disponível em DVD.

Na verdade, o filme vai mais além. Ocorre que o Dr Dalrymple (Jonathan Pryce), já idoso e cansando, resolveu empregar um jovem e charmoso assistente, por nome Mortimer Granville (Hugh Dancy), que, de dedo em riste, passou a aplicar a massagem com o mesmo rigor científico de seu mestre e patrão. Com o tempo, Granville começou a sentir câimbras na mão, naturalmente resultantes do movimento infinitamente repetido.

Por sorte, um amigo de Granville, um tal de Edmund Saint-John Smythe (Rupert Everett) aristocrata ocioso e inventor nas horas vagas, havia engendrado uma engenhoca que, movida à eletricidade, funcionava como uma espécie de espanador giratório. Preocupados com as câimbras, Granville e seu amigo conversaram um bocado sobre o invento que, com paulatinas modificações técnicas, de espanador virou um eficiente vibrador.

Depois de experimentarem o aparelho em uma jovem de reputação duvidosa (que teve três “paroxismos” seguidos), o jovem assistente apresentou ao seu patrão o vibrante invento que, na massagem, iria substituir a mão do médico e, testado e aceito o seu emprego, passou a ser um sucesso, aumentando mais ainda a clientela do Dr Dalrymple.

Experimentando o novo invento em uma voluntária

Experimentando o novo invento em uma voluntária

Para quem não acredita no que está vendo, a diretora Tanya Wexler, já na abertura do filme, fizera questão de apor a legenda “Uma estória verdadeira”, e logo após, achando que o espectador ainda pudesse ter dúvidas, acrescentara um adverbiozinho: “realmente”.

Mas, seria injustiça ao filme deixar sugerido que sua temática gire (!) em torno da invenção do vibrador. Não é o caso.

O filme é, a rigor, uma mistura de estória romântica e relato médico, com crítica à condição feminina no final do século XIX. Considerem, por exemplo, que o Dr Dalrymple tem duas filhas – uma, certinha e prendada para o matrimônio, a outra, independente e liberal. A primeira vive tocando piano, à espera de seu príncipe encantado, enquanto a segunda, de mangas arregaçadas, dedica-se a cuidar dos desvalidos em um asilo de mendicância, que o pai conservador não ajuda nem aprova.

O espanador que virou vibrador

O espanador que virou vibrador

É claro que o jovem assistente Mortimer Granville (na verdade o protagonista do filme) envolve-se com ambas, e, como é praxe acontecer numa velha comédia romântica de antigamente, ele se compromete com a primeira, Emily (Felicity Jones), e, para surpresa de todos – inclusive dele mesmo – se apaixona pela segunda, Charlotte (Maggie Gyllenhaal). Diga-se de passagem, sem que nada disso tenha a ver com vibrador ou coisa do gênero.

Aliás, talvez o problema principal de “Histeria” consista justamente nesse desequilíbrio entre fazer o relato de um fato histórico, a saber, a invenção do vibrador, e contar uma estória de amor entre dois jovens progressistas. Com o elemento complicador seguinte: o invento vibrante, que poderia porventura ser entendido como uma espécie de símbolo da vitória feminina sobre a moralidade da época, aqui aparece sempre do lado dos conservadores.

Enfim, uma questão para o espectador resolver. Ou não.

Dr Dalrymple e seu assistente em ação

Dr Dalrymple e seu assistente em ação