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A sociedade literária e a torta de casca de batata

28 ago

Ao tempo do III Reich, se os alemães não chegaram à Inglaterra, chegaram perto. Por exemplo, da costa norte da França ocupada para a ilha de Guernsey foi um pulo. Sim, em 1941 essa ilha britânica foi invadida e sua população, sob o domínio nazista, comeu o pão que o diabo amassou.

A estória está contada, e muito bem contada, no filme de Mike Newell, “A sociedade literária e a torta de casca de batata” (2018), em exibição no NetFlix.

Para o espectador, tudo começa um pouco mais tarde, no ano de 1946, a guerra já finda, e os estragos já feitos. E começa com correspondência. Em Londres, a escritora Juliet Ashton descobre que existia na referida ilha essa curiosa “sociedade literária” do título do filme, espontaneamente formada por pessoas comuns que gostavam de literatura e se juntavam para comer torta e conversar sobre livros e autores.

Depois de um tempo correspondendo-se com um dos membros, o bibliófilo e criador de porcos Dawsey, Juliet resolve viajar para Guernsey e visitar a tal sociedade, com o intuito de escrever, para o “The Times”, uma inspiradora reportagem sobre o caso. É bem recebida pelo pequeno grupo, discute com eles a ficção das irmãs Brontë e come da torta de casca de batata, porém, ao propor a entrevista para a revista, recebe um retumbante não.

Por que a Sra Emilia, a mais idosa do grupo, opõe-se tão terminantemente à entrevista? É claro que Juliet não se conforma com a recusa, e tomada pela curiosidade, passa, a partir daí, a investigar sobre o caso todo, tendo e dando oportunidade ao espectador de vir a saber o que, de fato, teria acontecido nessa ilha isolada do Canal da Mancha ao tempo em que os alemães lá estiveram.

De cada membro do grupo, as revelações vão vindo aos poucos, com muitas reservas, mas, de todo jeito, cada uma delas endossada por flashbacks generosos, que nos revelam talvez mais do que estava no intento de cada um revelar.

Misturando guerra, amor e literatura, o enredo é empolgante e prende a atenção do espectador, como sempre fazem os filmes de Newell. Não pretendo revelar esse enredo, mas apenas nele apontar um eixo actancial essencial, formando por duas figuras, uma presente na estória, a outra, ausente: a primeira é uma garotinha de quatro anos, kit; a segunda é uma mulher apaixonada e corajosa, Elizabeth, que enfrentou o nazismo de várias formas. Aquela é criada pelos membros da Sociedade literária; esta última, já morta, só a vemos em flashbacks. Naturalmente, se trata de filha e mãe. Pois bem, o modo difícil como a escritora Juliet se apazigua com a Sociedade literária e seus membros passa por essa dupla dramática. E mais não conto.

Baseado no romance homônimo de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows, não sei até que ponto o filme tem raízes na História real, mas, se não tem, bem que poderia ter, pelo menos por uma razão: é que a ilha de Guernsey possui background literário. Foi, no século XIX, refúgio do escritor francês Victor Hugo, que lá morou por quinze anos e lá escreveu o seu magistral “Os miseráveis”.

Como sugere o título do filme (no original: “The Guernsey literary and potato peel pie society”), a literatura é uma dominante na estória, e é uma delícia acompanhar as discussões do grupo sobre quem, das irmãs Brontë, seria a maior, ou coisas desse nível. Depois do desenlace, durante a exposição dos créditos, não desliguem a televisão e fiquem atentos às vozes dos personagens lendo trechos chave dos seus autores preferidos, que vão de Virginia Woolf a Shakespeare, passando por Charlotte Brontë e Robert Louis Stevenson.

Enfim, uma estória de amor (para ser mais correto, duas), um filme de guerra, mas também, uma obra sutil e delicada sobre afinidades literárias e o modo como elas formam e transformam as pessoas, eventualmente unindo-as, ou, no caso de faltar, separando-as.

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Para literatos?

25 out

posterNo território literário, quais são os limites entre best-seller e obra prima? No começo do Século XX, uma editora americana, a Scribner, teve um papel importante na busca do equilíbrio entre uma coisa e outra.

Mas, se Editora hoje é algo impessoal, naquele tempo era o dono, em pessoa, quem lia os originais enviados por jovens estreantes e quem decidia o que poderia porventura trazer, para a editora, não apenas dinheiro (os best-sellers), mas também prestígio (as obras primas).

Foi Max Perkins, o dono da Scribner, quem descobriu e lançou, por exemplo, Ernest Hemingway e Scott Fitzgerald, e foi ele também quem descobriu Thomas Wolfe.

É o que está contado no filme “O mestre dos gênios” (“Genius”, 2016, do novato Michael Grandage), em exibição na cidade. Baseado na biografia do editor da Scribner, “Max Perkins – editor of genius” (Scott Berg, 1978), o filme deixa um pouco de lado a vida do biografado para centrar-se no seu relacionamento com Wolfe, desde o dia em que este lhe envia os originais do seu livro “Look homeward, angel” (1929), até o seu passamento precoce em 1938.

Hemingway e Fitzgerald têm direito a algumas cenas, mas poucas. Com sua avalanche de palavras, tanto as escritas quanto as faladas, Wolfe é o onipresente, avassalador e sufocante protagonista. Na primeira leitura dos originais, Perkins já constata o seu valor e, no íntimo, sem sequer conhecê-lo, decide lançá-lo na praça. Sua escrita inaugurava esse gênero em que, de uma maneira poética e mágica, se misturam ficção e autobiografia.

Colin Firth e Jude Law, editor e escritor

Colin Firth e Jude Law, editor e escritor

Ao conhecê-lo, o fascínio de Perkins pelo livro estende-se ao homem que – sintomaticamente – autodefine-se como um Caliban. Para quem não lembra, ou não sabe, Caliban, figura disforme que a todos assusta, ou fascina, com a sua selvageria, é o monstro que habita a ilha distante em “A tempestade” (“The tempest”, 1611), a última peça que William Shakespeare escreveu.

Do dia para a noite, com o empurrão da Scribner, eis que Thomas Wolfe vira o escritor mais lido no país, ultrapassando os já consagrados Hemingway e Fitzgerald, os quais Wolfe passa a esnobar. Uma cena sintomática é aquela do malfadado encontro entre Wolfe e Fitzgerald (este em crise de criação e com a esposa, Zelda, doente) em que os dois se acusam, respectivamente, de concisão doentia e prolixidade exibicionista.

Se Fitzgerald é mesmo conciso, fica a discutir, mas a prolixidade de Wolfe é quase um tema no filme. Seu primeiro livro, o já citado “Look Homeward, angel”, é “podado” de muitos trechos pelo próprio Perkins, isto para não falar de seu próximo livro “Of time and the river” (1935), cujos originais foram entregues a um Perkins escandalizado, com nada menos que cinco mil páginas. Esse papel de “podador” de Perkins é o que o torna uma espécie de co-autor de Wolfe, e é o que dá um sentido duplo à palavra “editor” na biografia, já citada, de Scott Berg. Aqui podar não é censura, mas partilha.

No filme, a história toda, apesar das pausas literárias (vide adiante) é narrada com fluência e as interpretações são seguras. Colin Firth desempenha o papel do sempre fleumático editor Perkins, Jude Law faz o convulsivo Wolfe, e Nicole Kidman desempenha a ciumenta e tresloucada amante do escritor em ascensão.

Nicole Kidman é a amante tresloucada de Thomas Wolfe.

Nicole Kidman é a amante tresloucada de Thomas Wolfe.

Acho que posso dizer que estamos diante de um bom filme, cujo problema – se é que há um – seria o seu assunto. No extremo, seria um filme para literatos. Sim, é provável que o espectador culto o ame, porém, tenho dúvidas se o amará o espectador comum. Pior ainda, para o espectador brasileiro que, seguramente, desconhece a obra de Thomas Wolfe (não confundir com o atual Tom Wolfe), praticamente nunca traduzida para língua portuguesa.

Com certeza, uma das queixas do espectador comum será o número de recitações dos trechos dos livros de Wolfe, nas vozes on, off, ou over dos personagens, trechos longos que retardam a narração e tornam o filme – se for o caso – monótono.

Esse excesso de verbalidade, numa arte essencialmente icônica como o cinema, pode incomodar, mas, por contraste e ironia, ressalta o valor das imagens. Um pequeno exemplo: prestem atenção à indumentária do Sr Max Perkins – o símbolo do seu indefectível fleumatismo (em contraste com as convulsões ruidosas de Wolfe) está no seu chapéu, que ele nunca tira da cabeça, ao longo do filme inteiro… exceto no desenlace, quando, tomado pela emoção (não vou contar tudo) passa a ler a carta a ele enviada por um morto.

Se porventura não fizesse outro efeito, “O mestre dos gênios” já nos deixaria com vontade de ler os longos escritos de Thomas Wolfe.

Thomas Wolfe, o próprio.

Thomas Wolfe, o próprio.