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LEITURAS DA QUARENTENA (6) MATAR UM ROUXINOL

19 jun

Só recentemente li o livro da escritora americana Harper Lee, “To kill a mockinbird” (“Matar um rouxinol”), que no Brasil, por causa da adaptação cinematográfica, ganhou o título de “O sol é para todos” (Robert Mulligan, 1962).

Não sei por que, ele nunca entrou nos programas dos cursos de línguas e literaturas estrangeiras da UFPB, nem na graduação, nem no Mestrado. Talvez porque, sendo de 1960, ainda não fazia parte do rol dos canônicos.

Meu contato com a história desse advogado que, no racista Alabama dos anos trinta, defende um negro falsamente acusado de estupro, veio do filme. Ainda hoje lembro o trailer, na tela do Cine Rex, que já me deixou curioso. Esse trailer fazia ênfase no lado mal-assombrado da história, mostrando as incursões das três crianças ao quintal do vizinho misterioso, à noite, por debaixo da cerca de arame. Na estreia, acho que fui um dos primeiros a comprar ingresso. Tempos adiante, eu iria revê-lo várias vezes, em VHS ou DVD.

Claro que, lendo o livro agora, o filme se intrometeu na minha leitura. Mas deu pra driblá-lo.

A história toda é narrada pela autora Lee em primeira pessoa verbal, em tom de autobiografia, e com um emprego de – digamos – “voz dupla”: a da autora no ato de escrever, e a da menina que ela foi na época da narração, Scout, uma garotinha de dez anos que testemunha os fatos sem muito bem entendê-los, mas que, curiosa e atrevida, sempre encontra uma forma de interferir na vida local.

Estamos numa cidadezinha pequena do Alabama onde quase nada acontece. Scout e o irmão Jem, vivem com o pai viúvo, Atticus Finch, e a empregada negra Capurnia que, em muitas circunstâncias, faz o papel da mãe – sobretudo no que tange à censura e à punição.

Cena no filme de Robert Mulligan

Nas férias, recebem a visita de um garoto, Dill Harris, que vem do Mississipi pra ficar uns dias com uma tia. É o único amigo que conhecem e é com ele que fazem a travessura de tentar espiar o quintal do vizinho, onde mora essa figura estranha, do tipo papafigo, chamado de Boo Radley que, se supõe comer gatos e ser muito malvado. (Um parêntese: segundo depoimento posterior de Lee, esse amigo Dill era, na verdade, o futuro escritor Truman Capote).

Quando a história está pendendo para o lado da estranheza do vizinho, vem o caso do negro Tom Robinson, acusado de haver estuprado uma moça branca, e que o pai dos garotos, Atticus, deverá defender em júri acalorado. Essas duas coisas diferentes – digo, a figura estranha do vizinho e a consequência do júri em que Tom é injustamente condenado – terminam por se encaixar no desenlace, de modo especialmente cativante.

O livro tem uma coisa ótima, inexistente no filme, que é o humor – quase todo ele decorrente do modo sagaz e irônico como a autora “se narra”, ou seja, como penetra no espírito dessa pirralha que ela foi, e faz-nos ver o mundo como ela via, com uma inocência que desafia o mundo dos adultos. Por exemplo, aquela cena em que Scout desmonta, moralmente, os agressores do pai, eu achava, antes de ler o livro, que fosse invenção da direção, apelo cinematográfico para conquistar o espectador, e não: está no livro, até com mais força.

Uma pena que a edição brasileira tenha optado pela intitulação que o filme recebeu no Brasil, “O sol é para todos”, quando o título original (aliás, tanto do livro como do filme) é bem mais poético, “Matar um rouxinol”, e, afinal, contém toda a mensagem que a história esconde. Acho que não preciso lembrar que ela se refere ao débil mental Boo Radley, no desenlace descoberto, não mais como o papafigo temido, e sim, como a criaturinha frágil e dócil a quem não se deveria ferir (conselho de Atticus aos filhos), da mesma forma como não se mata um rouxinol.

A escritora Harper Lee, autora de “To kill a mockinbird” (1960)

A COCEIRA DO SÉTIMO ANO

15 maio

Das outras vezes que vi “O pecado mora ao lado” (1955) não me lembro de ter rido tanto. Reapresentado agora na tv paga, o filme de Billy Wilder me pareceu particularmente hilário.

Com seu espírito maldoso de sempre, Wilder faz gozação de tudo o que pode: dos comerciais de televisão ao uso de música clássica nos filmes românticos, passando pela psicanálise e outras coisas sérias ou nem tanto, nada escapa.

Ótimo no papel, Tom Ewell é o marido de meia idade que fica em casa quando a mulher e o filho vão aproveitar as férias de verão em Maine. Esse “solteirão temporário” entra em crise quando lhe aparece essa vizinha, loura sensual, com todos os atrativos de Marilyn Monroe. Ela está morando no andar de cima, e, da varanda dela, cai no terraço dele, um pesado jarro que quase o mata. Ele reclama mas, quando vê quem é, se desmancha em amabilidades e uma amizade perigosa começa a se formar.

Um detalhe, o jarro poderia conter flores, mas não: a plantinha era tomate, e o espectador anglófono lembra logo que “tomato” (em inglês) era a gíria que se usava na época do filme para ´uma moça sexy´.

Pois, logo em seguida, a moça sexy aparece na porta dele, pedindo gelo para aliviar o calor do verão nova-iorquino, e, ao ver que Ewell possui ar condicionado, faz o que pode para não ir mais embora. O que deixa o nosso Ewell nervoso, em grave crise de moral, coitado, tolhido entre o sincero propósito de se manter fiel à esposa ausente e a tentação de uma aventura amorosa com a bela vizinha.

Pra piorar, ele é funcionário de uma Editora e nas mãos lhe cai um livro incômodo de título “The seven year itch” (“A coceira do sétimo ano”). Segundo o autor, todo casamento passaria por uma fase crítica no sétimo ano da relação, quando os cônjuges, cansados de uma vida convencional, estariam tentados a dar um pulinho fora dos trilhos. Claro, a tese não tem sustentação científica, mas, com a ajuda da astúcia de Wilder, serve como pretexto dramático ao filme. Sem coincidência, faz justamente sete anos que ele casou, a esposa está fora, e aquela loura “tomato” está debaixo do seu teto, estirada numa poltrona com as pernas pra cima, a saia meio levantada, se refrescando no seu aparelho de ar condicionado.

O perigo aumenta quando ela, cheia de manhas, lhe pede para dormir lá e ele… embora em pânico, naturalmente consente. Nada acontece, até porque – diz ela – é muito legal que ele seja casado e tenha filho, pois não vai haver o perigo de lhe pedir em casamento, como fazem todos os homens com quem se relaciona.

Nada acontece, mas as sugestões maliciosas do roteiro são muitas. Quando Ewell decide abrir um champanhe que a moça trouxera para celebrar a amizade, o dedo dele fica preso na boca da garrafa e os dois, gastam um tempo tentando tirá-lo dali. Vejam bem, ele com o dedo enfiado no buraco do champanhe dela – a insinuação sexual é óbvia para qualquer espectador inocente.

Até o que eu antes não gostava em “O pecado mora ao lado” passei a gostar. Refiro-me ao capcioso emprego que Wilder faz do “Segundo concerto para piano” de Rachmaninoff como se fosse a trilha musical irresistível para engrossar uma relação amorosa. (E a gente sabe que, nisso, ele está criticando filmes como o “Desencanto” de David Lean).

Uma cena mostra Ewell ao piano conquistando sua vizinha com Rachmaninoff, porém, a cena é apenas fruto da fértil imaginação do personagem e logo se dissolve. A capciosa maldade com o compositor russo é, felizmente, aliviada numa cena seguinte, não mais imaginária, quando Ewell põe a mesma música na radiola e ela não surte efeito algum na moça, que prefere alguma coisa pop. Ou seja, a tese de Wilder é contradita por ele mesmo…

A cena mais lembrada do filme de Wilder é a do vento do metrô levantando a saia de Monroe numa rua da cidade, esquentando a cabeça de Ewell a um ponto máximo, mas, esta é uma cena direta, quase sem malícia.

As “malícias” de Wilder são melhores quando indiretas. Estas, como já sugeri, são muitas e não dá pra citar todas. Fechando, lembro apenas três casos: (1) em um dos seus muitos delírios eróticos, Ewell está na praia com uma colega de trabalho que o beija na areia, os dois lambidos pelas ondas do mar, dizendo ela que o amará “from here to eternity” (paródia de cena no filme de Fred Zinnemman, de três anos atrás, “A um passo da eternidade”); (2) em resposta a uma pergunta que lhe é feita, o grosseiro porteiro do prédio declama a letra de “Summertime” para justificar aventuras amorosas no verão nova-iorquino, as dele e as de Ewell; e (3) ao saírem da matinée, Marily Monroe faz uma interpretação toda romantizada da horrenda criatura de “O monstro da lagoa negra”, a qual Ewell, em sua dócil feiura, fica por tabela, comparado.

Risadas, o tempo todo.

O PRIMEIRO WIM WENDERS

15 abr

Sabe aquele filme que você conhece de referência, mas nunca assistiu? Meu caso com “O medo do goleiro diante do pênalti” (1972) que só agora vejo, esta semana, uma cortesia do Canal Arte 1.

Embora não curta futebol, o título sempre me intrigou, o mesmo em alemão, “Die Angst des Tormanns beim Elfmeter”, e mais ainda por ser a primeira realização de um cineasta que tanto admiro, o grande Wim Wenders.

A rigor, ele já era, na época, autor de uma série de curtas e de um trabalho de curso desconhecido, chamado de “Summer in the city”, e co-autor (com mais oito cineastas) do misterioso “Kaspar Hauser”, mas nada que lhe houvesse dado identidade fílmica – de modo que se pode dizer que “O medo do goleiro diante do pênalti” é o primeiro Wim Wenders.

O cineasta alemão Wim Wenders

O primeiro, e mesmo assim, só veio a público atrasado no tempo. Ocorre que o filme tinha uma rica trilha musical, com canções de, entre outros, Rolling Stones e Elvis Presley, e as gravadoras não autorizaram a distribuição. Em nova cópia, Wenders foi obrigado a mudar essa trilha musical, e claro, em detrimento da qualidade.

E de que trata o filme? Baseado em livro de Peter Handke, conta uma história de uma hora e quarenta minutos com um mínimo de ação.

Na Viena da época, o goleiro Josef Bloch engole uma bola, briga com o juiz, e é despedido. Depois disso, fica vagando por aí meio sem rumo. Conhece uma bilheteira de cinema, com quem sai, e… a mata. Em seguida, se desloca pra uma cidade vizinha, onde se hospeda na pensão de uma conhecida, e passa o tempo fazendo coisas indefinidas até o filme terminar. Uma das coisas que faz é ler jornal. Num deles, o caso da bilheteira estrangulada é mostrado, mas o assassino não foi identificado e nunca será… e assim o filme termina.

A última cena mostra Bloch assistindo a uma pelada, e explicando a um senhor ao lado, que na hora de uma cobrança perigosa, todo mundo olha a bola, mas ninguém presta atenção ao goleiro. Deve ser verdade, mas o filme não deixa claro por que a jovem bilheteira foi estrangulada por esse goleiro frustrado… E, suponho, o espectador tem, ao final, uma árdua tarefa de preencher as lacunas semânticas e temáticas com que o filme o abandona.

O ator Arthur Brauss, que faz o papel do goleiro Josef Bloch.

Tudo bem, aqui já estão alguns dos traços que entrariam no estilo Wim Wenders que veio a ser conhecido depois: a alienação, o comportamento antissocial, o vagar sem destino, a dificuldade de comunicação entre as pessoas, o vazio da existência, o gosto pela cultura americana (presente nas músicas), etc, mas de todo jeito, não posso dizer que o filme tenha me conquistado. Se o tivesse visto na época, não adivinharia, nele, o Wim Wenders dos belos “Paris, Texas” e “Asas do desejo”.

Bem ou mal, visto ou apenas noticiado, “O medo do goleiro diante do pênalti” deve ter entrado no clima do movimento de cinema, surgido então, e que foi, mais tarde, chamado pela crítica de “O novo cinema alemão”, do qual também fizeram parte importante Volker Schlondorff, Rainer Werner Fassbinder e Werner Herzog.

Enfim, não sei se, com a trilha musical original, “O medo do goleiro diante do pênalti” faria outro efeito. Nem sei e, pelo jeito, nem ninguém jamais saberá…