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JACKSON E GLENN

30 jul

Nunca fiz isso, pois não sou da área, mas se um dia ousasse elencar minhas preferências musicais, a lista iria ter brasileiros e americanos, sempre intercalados, um ao lado do outro, sempre assim, e isto seguindo a cronologia do século XX inteiro. Mesmo que um nada tivesse a ver com o outro – como aparentemente não têm. A única justificava para os pares seria que me encantaram mais ou menos na mesma época da minha vida, e, inevitavelmente ficaram misturados no meu espírito.

Se for para dar exemplos, eis um fragmento dessa lista imaginária: Noel Rosa, Cole Porter, Luiz Gonzaga, The Platters, Lupicínio Rodrigues, Ella Fitzgerald, Jackson no Pandeiro, Glenn Miller… e por aí iria…

Jackson no Pandeiro e Glenn Miller? Pois qual não foi a minha surpresa ao constatar que o nosso ritmista de Alagoa Grande era um ouvinte admirador dos arranjos do maestro e compositor americano. O meu “par” estava longe de ser gratuito e fiquei sabendo desse dado – e vibrei com ele – ao assistir ao belo documentário “Jackson – na batida do pandeiro” (2019), de Marcus Vilar e Cacá Teixeira. Dado enfatizado pelo maestro Carlos Anísio no debate sobre o filme.

Tudo bem, as relações culturais e musicais entre Brasil e Estados Unidos estariam, mais tarde, no irônico “Chiclete com banana” de Jackson, mas nada como ter em mãos o dado biográfico de um caso mais remoto e bem específico: Jackson vs Glenn.

Saí do cinema catando as semelhanças entre os dois itens do meu par e não demorei a encontrar. O “Moonlight Serenade” de Miller podia ser lento demais para ter a ver com o nosso ritmista maior, mas em compensação o swing desbragado de composições como “Pensylvania 6-5000”, “Chatanooga choo choo”, “Tuxedo Junction” e outras mais, iniludivelmente, amarrava esse “par” da minha lista imaginária. E, convenhamos, à parte o meu interesse pessoal pelo caso, ele só faz apontar a enorme envergadura (maior do que se pensa) do nosso pandeirista paraibano.

O maestro e compositor americano Glenn Miller

Mas não foi só isso que o documentário em questão me trouxe. Em uma hora e quarenta minutos de deleite, ele me trouxe – a mim e à plateia que lotou o Cine Bangue na noite de 27 de julho – a vida e a obra de um dos maiores talentos que a Paraíba já deu ao mundo. E o fez em grande estilo.

Começando pelo fim, o filme nos arrasta na ambulância pelas ruas de Brasília para um hospital onde vai agonizar o nosso herói. Quando a câmera, ao som da sirene atordoante da ambulância, penetra o túnel escuro, oportunamente corta-se para uma paisagem física e humana bem diversa, aquela onde tudo começou.

E aí, o espectador vai acompanhar, em ordem mais ou menos cronológica, a trajetória de José Gomes Filho, depois Jack, e finalmente, Jackson do Pandeiro. Primeiro, Alagoa Grande, depois Campina Grande, João Pessoa, Rio de Janeiro, e finalmente, Brasília. Primeiro, o coco de roda, os cabarés, os palcos das rádios, e finalmente, os grandes estúdios e o estrondoso sucesso de público e de crítica. Isso para não falar das participações nas Chanchadas da época.

Além de mitos da MPB, parentes, amigos e especialistas da área dão depoimentos esclarecedores sobre Jackson, porém, um longo e impagável depoimento quem dá é o próprio Jackson, tão autêntico e tão de perto (em close do rosto, o tempo quase todo, em repetidas tomadas) que até parece ter sido gravado especialmente para o filme.

O cineasta paraibano Marcus Vilar

Resultado de pesquisa exaustiva de muitos anos, o filme faz justiça estética à grandeza do biografado e, com ou sem coincidência, chega no momento oportuno de seu centenário.

Vi o filme ainda em pré-estreia, em sessão especial, com a presença de seus realizadores e oportuno debate mediado pelo pesquisador e crítico André Dib, porém, como enfatizou um dos presentes, o que se espera é que as devidas providências sejam tomadas no sentido de uma distribuição de “Jackson – na batida do bandeiro” que atinja um público maior do que o quase sempre o mesmo dos festivais de cinema da vida.

Abri esta matéria de modo pessoal e não resisto em fechá-la do mesmo modo.

Se coloquei Jackson do Pandeiro na minha lista imaginária de preferidos, não preciso mais dizer o quanto sua música foi marcante para mim. Nas rádios da infância eu o ouvia com frequência – a propósito, tanto quanto ouvia Glenn Miller – e, sem querer, solfejava baixinho, sempre com vontade de dançar, o que só não fazia impedido pelo medo de ser ridicularizado.

Enfim, fosse eu dançarino, acho que um pé seria de Jackson do Pandeiro, o outro de Glenn Miller. E daria tudo incrivelmente certo. Agora eu sei disso, e tenho provas.

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CINE GLÓRIA, CRUZ DAS ARMAS

19 jul

Da minha nostalgia de cinéfilo faz parte sentir saudades dos cinemas antigos de João Pessoa; dos que frequentei, mas, estranhamente, também dos que nunca frequentei.

Sim, tenho que admitir, alguns cinemas da cidade me escaparam. O Astória e o Metrópole, em dois extremos, eram muito distantes do meu bairro, Jaguaribe. E o Filipeia, ali por trás do Palácio do Governo, este me perdeu por conta de sua proximidade aos principais cinemas do Centro: saindo de Jaguaribe, de ônibus, de bonde ou a pé, por que eu iria a ele, se os dois “lançadores” da cidade, Plaza e Rex, estavam logo ali?

Um outro cinema da cidade que nunca adentrei foi o Cine Glória, que ficava – vocês lembram? – na rua principal do bairro de Cruz das Armas. Nunca o adentrei, e, no entanto, lembro bem sua fachada. O problema é que, saindo de Jaguaribe, antes de chegar a ele, eu passava na calçada do charmoso Cine Bela Vista, na mesma rua, e já comprava ingresso.

Pois, estranhamente, no momento em que escrevo, me bateu uma saudade poeticamente inexplicável e inexplicavelmente poética desse cinema em cuja sala de exibição nunca pisei. É que, porventura, um certo anjo benfazejo trouxe às minhas mãos a fotografia rara de um cartaz dos velhos tempos, anos quarenta ou cinquenta, anunciando uma de suas sessões, na verdade, duas.

Nesse cartaz do Cine Glória o filme do dia é “Dillinger”, anunciado, para as 19:30 horas, como “a história do inimigo público número um, escrita com balas, sangue e loiras”. E o cartaz ainda garante que essa história “está fielmente descrita na tela deste cinema”. Em seguida, vem o elenco, resumido no nome do ator que faz o papel-título, Lawrence Tierney. E não se deixa de acrescentar a “natural” – como eram chamados os noticiários que costumavam anteceder a projeção – neste caso, uma que não conheci, intitulada de “A voz do mundo”.

O ator Lawrence Tierney no papel de Dillinger.

Logo abaixo vem o anúncio da “sessão das moças”, programada para a próxima terça-feira, que é o drama “Sublime abnegação”, e vejam só que pérola de registro dos costumes da época: “com três rótulos do afamado FUBÁ PÉROLA – assegura o cartaz – qualquer pessoa terá direito a uma entrada grátis”.

As sessões das moças eram comuns na época em outros cinemas da cidade: eram sessões em que as moças pagavam a metade do valor do ingresso, mas, não apenas elas iam ver o filme – por causa delas, a sala se enchia de rapazes, claro. O que não era comum – eu, pelo menos, não recordo – era esse curioso expediente descrito de os espectadores poderem levar rótulos de um produto qualquer (aqui o Fubá Pérola) e, com isso, terem direito a uma sessão gratuita.

De que ano seria esse precioso cartaz do Cine Glória? Não há, na foto, o registro de data, mas é possível supor. Os dois filmes anunciados são, respectivamente de 1945 e 1946. Como as películas estrangeiras demoravam a aportar em território brasileiro, e muito mais ainda, no Nordeste, é provável que o ano em questão esteja em torno de 1949 ou mesmo 1950.

Rosallind Russell interpreta a enfermeira Elizabeth Kenny em “Sublime abnegação”

“Dillinger”, o filme do dia, é um policial noir, dirigido por Max Nosseck que, além de Lawrence Tierney, ainda tem a bela Anne Jeffreys no elenco. Em 1950 eu tinha apenas quatro anos de idade, mas lembro-me que um irmão meu, dez anos mais velho, me falou, muito entusiasmado, dessa figura, vista na tela, do bandido Dillinger, ao mesmo tempo má e fascinante. Em que cinema meu irmão assistiu ao filme, não saberia dizer, porém, como o Glória, se não me engano, fazia parte da cadeia exibidora do Rex, o filme em questão pode ter sido exibido, ou reprisado, em qualquer dos três cinemas de Jaguaribe, onde morávamos, todos dessa mesma cadeia. Só vim vê-lo bem mais tarde, em formato virtual.

Quanto ao filme da sessão das moças, dirigido por Dudley Nichols, é a história verídica da enfermeira australiana Elizabeth Kenny (título original: “Sister Kenny”) que, sem reconhecimento da sociedade médica de então, lutou para salvar crianças vitimadas pela paralisia – papel desempenhado pela grande Rosalind Russell. Uma história de mulher heroica, bem apropriada para uma “sessão das moças”. (Em tempo: o filme também foi exibido por aqui com o título alternativo de “Sacrifício de uma vida”).

Esta crônica inapropriadamente saudosista eu dedico aos moradores do bairro de Cruz das Armas, especialmente aos mais antigos que, munidos ou não dos rótulos do Fuba Pérola, se emocionaram com as aventuras de Dillinger e as dores da enfermeira Kenny. De minha parte, me emocionei só de ver o cartaz do Cine Glória. E ao anjo providencial que me deu acesso a ele, agradeço pela impossível viagem no tempo…

O cartaz do Cine Glória, que inspirou esta crônica.

KING LEAR, 2018

9 jul

Meu primeiro contato com “Rei Lear”, a peça de William Shakespeare, foi cinematográfico: o filme homônimo de Peter Brook (1971), extraordinariamente exibido na antiga FAFI, quando eu era aluno do curso de Letras.

Na ocasião, eu ainda não tinha lido a peça e me impressionei com a terrível e violenta estória desse rei que, na velhice, divide suas posses com as três filhas a partir das declarações de afeto de cada uma, e paga caro pela imprudência. O cenário medieval bem reconstituído e a sombria fotografia em preto-e-branco dessa adaptação fílmica tornavam o drama ainda mais trágico.

Algum tempo depois, fazendo a pós-graduação em literatura anglo-americana, e já embrenhado no universo shakespeariano, escolhi tomar a peça como objeto de minha dissertação de mestrado, demonstrando que nela havia os ecos carnavalizantes que vinham da vetusta sátira menipéia da era clássica.

Anthony Hopkins no papel de REI LEAR

Ao longo da vida, nos meus estudos comparativos entre literatura e cinema, fui descobrindo as muitas – na verdade, inúmeras – adaptações fílmicas que a peça de Shakespeare recebera, e vem recebendo, nos países mais diversos. Além da de Brook, lembro aqui a russa de Grigoriy Kozintseve (1970), a japonesa, de Akira Kurosawa (“Ran”, 1983), e a francesa de Jean-Luc Godard (1987), esta a mais livre de todas.

Agora, me chega esta outra, bem britânica, de Richard Eyre (2018), feita para a televisão, com o ator oitentão Anthony Hopkins no papel-título.

Como é costume acontecer em adaptações shakespearianas, o texto não está completo e se você, como eu, tem a lembrança das palavras poéticas do autor e seu efeito sobre o nosso espírito, em certos momentos chave sente a falta.

Um outro estranhamento seria o temporal, pois aqui a trágica história do rei medieval é transportada para a época atual, com prédios, armas, automóveis, aviões e tudo mais de moderno. Com a seguinte complicação: as palavras não são modernas, muito pelo contrário, são exatamente as mesmas da peça original, o semi-arcaico e belo inglês elisabetano da época, tornado mais belo, como se sabe, pelo gênio criativo do Bardo de Stratford Upon Avon.

O rei e suas três filhas: Goneril, Regan e Cordelia.

Confesso que tive dificuldade em me localizar dentro dessa mistura de tempos, e por vezes fui vítima de um certo – digamos assim – distanciamento brechtiano que me impediu de reviver as fortes emoções a que estou habituado quando releio a peça.

Aliás, não apenas mistura de tempos, mas também de estilos, já que – convenhamos – os cenários e objetos da atualidade não acolhem bem as tantas metáforas, metonímias, hipérboles e tantos outros procedimentos linguísticos que caracterizam a escritura shakespeariana e a tornam tão poderosa, quando lida na neutralidade do papel impresso, ou ouvida na simplicidade espacial do palco.

De todo jeito, a direção de Richard Eyre (de “Notícias de um escândalo” 2008, e Iris, 2001) é competente e sabe colocar, ao meio das falas dos personagens, as imagens que as tornam um pouco mais viáveis para os dias de hoje e, consequentemente, para a fluência da narração – ora os gestos dos atores, ora certos detalhes especiais do cenário ou da paisagem, ora certos movimentos de câmera.

Lear e a filha Cordelia – o reencontro.

E claro, num filme desses, os atores são tudo, e se não fossem, o filme certamente naufragaria. Com a mesma idade do rei bretão – oitenta anos – Anthony Hopkins faz um Lear à altura, doce nos seus momentos de ternura e feroz nos seus momentos de ira. E o resto do elenco não fica atrás. As três filhas do rei estão perfeitas: as malignas Goneril (Emma Thompson) e Regan (Emily Watson) nos repugnam, assim como nos encanta a jovem, bela e madura Cordelia (Florence Pugh), que um Lear agonizante – no final de tudo – reconhecerá como aquela que verdadeiramente o respeitava e amava.

Jim Broadbent e Andrew Scott fazem um par perfeito nos respectivos papéis de Gloucester, o pai cego, e Edgar, o filho disfarçado de mendigo, os dois perdidos no meio de uma paisagem quase lunar. Um dos momentos mais “próximos” da peça, para citar um só exemplo, é aquela famosa cena à beira do abismo em que o filho faz o genitor acreditar no suicídio encenado e na miraculosa salvação…

Provavelmente, este não é um filme fácil para o grande público. Imagino que um pouco menos ainda para quem, jovem ou maduro, nunca leu a peça adaptada. E, o pior, mesmo para quem a leu – como espero haver deixado claro – a dificuldade, ainda que de outra natureza, existe.

O delicado DESENCANTO

3 jul

Lembrado quase sempre pelos seus épicos, como “A ponte do rio Kwai” (1957), “Lawrence da Arábia” (1962) e “Doutor Jivago” (1965), hoje em dia ninguém tem dúvidas de que David Lean (1908-1991) é um dos maiores cineastas do Século XX, e, se for o caso, de todos os tempos e lugares.

Bem menos conhecido é o Lean pré-superproduções, o diretor de começo de carreira, mais modesto, mais subjetivo e mais britânico, que adaptou Charles Dickens duas vezes (“Grandes esperanças”, 1946, e “Oliver Twist”, 1948) e que trabalhou com o escritor Noel Coward em filmes “domésticos”, intimistas e extremamente líricos.

Adaptado de uma peça de Coward, um desses “domésticos” é “Desencanto” (“Brief encounter”) que, em 1945, ele rodou para os Estúdios Eagle-Lyon, com Celia Johnson e Trevor Howard nos papéis principais.

Quase todo narrado em ´monólogo interior´, o filme conta a estória de uma simplória dona de casa inglesa, bem casada e mãe de dois filhos, que se apaixona fora do casamento. Na verdade, quem conta a estória é ela mesma, e a conta ao marido, do começo ao fim, nos mínimos detalhes, sem contudo, abrir a boca. Faz isso mentalmente, sentada diante do cônjuge, que, distraído, resolve palavras cruzadas. E aí, claro, a câmera providencialmente substitui as palavras dela por imagens, de tal forma que, com ela, testemunhamos todo o seu encanto e todo o seu desencanto.

A narração consiste numa sucessão de quintas-feiras, o dia em que Laura Jessen, residente em Ketchworth, toma o trem e vai à cidade vizinha, Milford, para fazer alguma compra, trocar livros na biblioteca pública, ou pegar um cineminha. É na Estação de Milford que lhe cai um cisco no olho e ela, na cantina da estação, recebe a ajuda de um senhor que, por acaso, é médico.

Na próxima quinta, por acaso, se cruzam numa calçada qualquer, se cumprimentam e seguem, sós, cada um para seus respectivos afazeres. O acaso, porém, lhes reserva um outro encontro: na quinta-feira seguinte, Laura Jessen está lanchando num restaurante da cidade, o Kardomah, quando o Dr Alec Harvey entra – não há mesas vagas, e assim, ele senta com ela e, inevitavelmente, entabulam uma conversa.  E é aí que ela aprende que ele, residente na cidade vizinha, Churleigh, vem a Milford, justamente toda quinta-feira, atender no Hospital local. Do papo casual surge um convite para ir ao cinema e…

O caso se formulará umas quintas-feiras adiante, quando, na lanchonete da estação, Alec pede a Laura para vê-la na próxima quinta. E a partir daí o acaso cede seu lugar ao desejo. Aqui vale lembrar esta cena sintomática, em que ele, falando de sua vocação profissional, enumera uma série de nomes de doenças pulmonares, enquanto ela o escuta, encantada, e isto, ao som da trilha do “Segundo concerto para piano”, de Rachmaninoff, sorrateiramente introduzida na conversa. Excelente exemplo de função fática da linguagem. “Você de repente me pareceu uma criança”, diz Laura a Alec, e nesse instante ele tem a certeza de que ela consentirá encontrá-lo na quinta-feira próxima e, possivelmente, nas outras.

Mas, atenção, bem antes disso, uma formulação do caso amoroso, já aparecera para o espectador, de modo sutil e cifrado, no início do filme. Fred, o esposo de Laura está no seu confortável gabinete caseiro, como de hábito, resolvendo suas palavras cruzadas, enquanto ela repousa numa poltrona a seu lado. Ele lhe pede uma ajuda com a palavra cruzada que está resolvendo. Trata-se de um verso de Keats em que falta um termo. “Quando contemplo, no rosto estrelado da noite, grandes símbolos nebulosos de um alto…” Laura recorda o verso e responde com o termo faltoso: “romance”. Ou seja, “romance” é o que falta nas palavras cruzadas do marido, e o que sobra na vida secreta da esposa, que, justamente a partir daí, começa a desabafar a sua estória.

Não cabe recompor aqui a estória inteira, mas cabe dizer que, com ou sem a ajuda do acaso, com visíveis e incômodos recuos e avanços, o envolvimento do casal vai crescendo a cada quinta-feira, até chegar a um ponto em que, para o bem ou para o mal, precisa ser resolvido. Exemplo: aceitar encontrar Alec na próxima quinta é um avanço; no mesmo dia se deparar com o filho acidentado é um recuo; decidir rever Alec, só por educação é um recuo; não encontrá-lo em frente ao Hospital e lamentar é um avanço…

O filme é muito rico e permite muitas leituras. Por exemplo, uma delas já está na dolorosa ironia do título original escolhido, “Brief encounter”, quando, para o casal envolvido, o caso foi tudo menos um ´breve encontro´. A propósito, o título da peça de Coward era ainda mais ambíguo, “Still life”, expressão que podia ser lida duplamente como ´vida parada´ e ´ainda vida´.

A título de análise, aqui me reporto à questão do emprego do ponto de vista, modernamente chamado de ´focalização´.

Como se sabe, em qualquer narrativa, existem, a rigor, três tipos de focalização, a saber, o ponto de vista onisciente, o ponto de vista limitado, e um terceiro ponto de vista, modernamente chamado de paraléptico. No primeiro caso, quem narra a estória é uma espécie de instância abstrata que pode ser igualada a Deus, já que ela sabe tudo sobre os personagens e a estória e nos conta tudo o que quer contar, ao mesmo tempo em que sonega o que quer sonegar. O normal é que essa instância abstrata (que não deve ser confundida com o cineasta) nos forneça informação diegética aos poucos, sempre sonegando partes, até que no final, o espectador venha a saber tudo que aconteceu. O segundo caso acontece quando o narrador da estória é um dos personagens. Neste caso o ponto de vista se diz limitado, uma vez que o personagem não é Deus, mas um mero mortal, como nós mesmos, e, assim sendo, só pode narrar o que testemunhou.

“Desencanto” começa e termina em ponto de vista onisciente, porém, estas duas partes do filme, a inicial e a final, são curtas. No meio delas, fica a longa parte intermediária, toda ela narrada pela protagonista Laura. O problema é que Laura narra o que viu… e o que não pôde ter visto. Exemplo: na cena do apartamento do colega de Alec, quando o casal é descoberto e Laura foge por uma saída traseira, e corre para a rua, debaixo de chuva e pranto, ela não viu o que se passou entre Alec e o amigo, (pode até ter imaginado, mas, a rigor, não viu) e, no entanto, toda a cena nos é mostrada, fazendo parte do já referido acima ´monólogo interior´ da protagonista – seu desabafo mental ao marido. É essa ingerência da onisciência dentro de um ponto de vista limitado que se chama de “paralepse”, ou ponto de vista paraléptico. Cabe acrescentar que o ponto de vista paraléptico, já existente na literatura, foi assumido pelo cinema como um procedimento regular, que dribla a verossimilhança para conseguir o efeito desejado de forma mais efetiva do que o faria o realismo stricto sensu. Em “Desencanto” o seu emprego é genial.

Consideremos a cena da despedida do casal, na lanchonete da estação, para nós mostrada duas vezes, primeiramente em ponto de vista onisciente, e no quase desenlace, do ponto de vista limitado de Laura. São duas cenas aparentemente iguais, mas só aparentemente. Na primeira, por exemplo, não sabemos o que aconteceu a Laura, na passagem do trem expresso; na segunda, testemunhamos sua tentativa de suicídio. Se a primeira cena é semanticamente vazia (nós não conhecemos ainda o drama de Laura), a segunda é um pique dramático de alta tensão. Com a discreta ironia de que, quem sabia mais (a focalização onisciente) sonega informação diegética, ao passo que, quem sabia menos (a focalização limitada) a fornece.

Se é a voz de Laura quem nos conta a estória, não posso deixar de acrescentar que essa estória tem um segundo narrador: a música, o belíssimo “Concerto número dois para piano” de Rachmaninoff, tão ubíquo e tão penetrante que, para o espectador, resulta inseparável do drama da protagonista. Antes de iniciar sua narração monologal, no gabinete do esposo, Laura liga o rádio e, sem coincidência, é Rachmaninoff que está tocando. Assim, a música começa homodiegética, até se tornar a trilha dolorosa que acompanhará Laura nos seus momentos mais tristes. Tudo isso feito de uma maneira tal que as nuances musicais ecoam as nuances emocionais da protagonista de forma harmônica e extremamente efetiva. Se servir um depoimento pessoal: assistindo a uma apresentação da Orquestra Sinfônica da Paraíba em que o Concerto de Rachmaninoff foi executado pela exímia pianista Juliana Steinbach, confesso que revi o filme de Lean por inteiro, mentalmente, como se estivesse sendo exibido diante dos meus olhos. Inescapavelmente, redigi crônica sobre o assunto que intitulei: “Por causa de Rachmaninoff”.

Se me for permitido conceber um terceiro narrador, este seria a fotografia. Prestem atenção, por exemplo, ao escurecimento da imagem, em torno do rosto de Laura, toda vez que os seus closes se pretendem mais subjetivos. Ou ao declive do cenário, na cena da tentativa de suicídio, quando a sala da cantina se inclina para um lado (com a inclinação da câmera, naturalmente), de forma a “jogar” Laura para fora, em direção aos trilhos do trem expresso, que deverão esmagá-la. Aliás, o aproveitamento das imagens dos trens é um item à parte. Diegeticamente são os fatores que ligam e/ou separam o casal, mas acima disso, desempenham o papel de comentários existenciais, como está em uma cena ontológica: a do beijo na estação, entrecortado pelo trem que corta a noite, como se indiciando paixão e perigo.

Um elemento que pode inquietar o espectador é o cômico subplot da dona da lanchonete com o guarda da estação. É que o filme está concebido e montado na tradição documental do cinema inglês, cinema onde o grande documentarista John Grierson (1898-1972) foi mestre, e onde espaço houve igualmente para um brasileiro, o nosso Alberto Cavalcanti. Parece-nos que todo esse subplot vulgar é para nos lembrar que estamos lidando com gente de carne e osso, e não com heróis. Por outro lado, não seria demais considerar, nessa intercalação de comédia e tragédia, um ingrediente shakespeariano – basta lembrar, em “Romeu e Julieta”, a linguagem sublime do casal trágico versus a linguagem chula da aia de Julieta, ou, em “Otelo”, o mundo elevado de Desdêmona e seu amado versus o mundo baixo e vil de Iago – e a convivência espaço-temporal das duas coisas. No filme, uma ironia a mais está no inverso posicionamento tímico do par plot/subplot: enquanto aquele “decai”, este, ao contrário, “sobe” até um final feliz.

Incrível é que, depois da primeira sessão pública de “Desencanto”, David Lean tenha querido destruir as cópias do filme, e só não o fez porque foi impedido pelos produtores e amigos. Foi numa dessas sessões-cobaia que ocorrem antes da distribuição nacional. Durante a sessão, em dado momento, uma espectadora gaiata emitiu um riso maldoso, que fez a plateia estourar na risada. Arrasado, Lean retirou-se da sala, achando que errara a mão na direção. Não ficou para constatar que, depois desse incidente, a sessão correu normal e até choro houve.

No geral, a recepção ao filme foi boa e hoje “Desencanto” está colocado pela crítica inglesa entre os cem melhores filmes britânicos de todos os tempos, no privilegiado segundo lugar. Com o passar dos anos, o filme foi se tornando tão popular que, hoje, na Carnforth Railway Station (local de filmagem das cenas na Estação) se conserva, tal e qual, a mesma cantina onde Laura e Alec se conheceram e se apaixonaram, com o nome chamativo de “The Brief Encounter Refreshment Room”.

O que não impede que tenha havido – digamos – desafetos. Um deles é o diretor Billy Wilder que no seu “O pecado mora ao lado” (1955) ridicularizou abertamente uma das melhores coisas no filme: o uso da trilha sonora do “Segundo concerto para piano”, de Rachmaninoff em filmes supostamente melodramáticos. Isto como se o próprio Lean não tivesse marcado sua crítica ao puro melodrama: lembrar como Laura e Alec se retiram de uma certa sessão de cinema porque não suportam o tom meloso de um filme a que vão assistir, intitulado “Flames of passion” (`Chamas de paixão´). Curiosamente, mais tarde, Wilder conceberia todo o enredo do seu ótimo “Se meu apartamento falasse” (1960) a partir daquela cena em que o encontro secreto do casal é interrompido no apartamento do amigo de Alec.

Não tenho idade para ter visto “Desencanto” em tela de cinema, mas, mesmo assim, me considero o seu curador local. Descobri-o lá pelos anos oitenta, quando foi editado em VHS. Desde então, tenho feito sua divulgação e hoje muitos cinéfilos pessoenses admitem que conhecem o filme de Lean por minha causa.

Na verdade, tenho dúvidas se houve exibição comercial de “Desencanto” nos cinemas da cidade. Creio que não, pois mesmo espectadores com mais idade que eu não me dão notícia disso. Sei, porém, que ele foi exibido no primeiro cineclube da cidade, o “Cineclube de João Pessoa”. Da programação de abertura, em 1951, fazia parte o filme de Lean, conforme está registrado no livro “Cinema na/da Paraíba”, do historiador Wills Leal.

Por que gosto tanto de “Desencanto”? A qualidade artística bastaria para responder a pergunta, mas, se porventura não bastasse, confesso que me agrada dar-me conta de que ele pertence a uma certa linhagem de filmes de algum modo derivados dos grandes romances do Século XIX, especialmente aqueles romances que ficcionalizaram a situação diegética que resumo na expressão ´mulheres apaixonadas fora do casamento´. Situação que está em, por exemplo, “Ana Karenina”, “Madame Bovary”, “O primeiro Basílio”, “A letra escarlate”, “Dom Casmurro”, etc.

Como se sabe, o Século XIX consistiu no auge da arte do romance, o qual sofreu um declínio crítico depois da desconstrução que lhe impôs Joyce, com o seu “Ulisses”, em 1922. Arte então nova, o cinema retomava a tradição das grandes narrativas e, em termos de consumo popular, “substituía” a romancística do passado, trazendo, no bojo, a situação diegética acima referida, a das mulheres apaixonadas fora do casamento. Temos isso em “Casablanca”, “Os brutos também amam”, “Chá e simpatia”, “Um dia muito especial”, e tantos outros filmes, ditos ou não “românticos”, mas, penso, “Desencanto” sustenta esse diálogo com o romance clássico de forma impecável. (De alguma maneira, o “trem” de Laura é o “trem” de Karenina).

Vejam que, a rigor, “Desencanto” é a estória de um casal, porém, como já dito, contada pela mulher – e em nenhum momento pelo homem, embora este esteja tão apaixonado quanto – com o adicional de que a ela é dado o maior tempo de tela e os closes mais significativos, dos quais destaco três: (1) no trem, nos primeiros momentos da projeção, com Laura se expressando desfavoravelmente em relação a sua inconveniente companheira de viagem, que havia pouco estragara um momento precioso do casal: a despedida. (2) na estação, no momento suicida em que corta a noite o Trem Expresso, “aquele que não para”; (3) no gabinete do marido Fred, com Laura na iminência de lhe narrar uma longa estória, impossível de ser a ele narrada, e por isso mesmo, narrada a si mesma, com toda a dor que esse gesto implica. Quanta delicadeza.

Li uma vez, não sei mais onde, um comentário sobre a obra de David Lean onde o filme aqui discutido era referido como “o delicado Desencanto”. Não lembro o nome do autor do comentário, mas mesmo assim, lhe peço licença para usar a feliz expressão como título para este ensaio-depoimento.

Brecht e o cinema

11 jun

Tenho sorte em ter amigos generosos. Venho de ganhar o precioso e chique pacote “Brecht no cinema”, contendo os filmes em que a obra do dramaturgo alemão foi levada às telas, e mais um longo documentário sobre o autor.

Um dos filmes no pacote é o clássico “A ópera dos três vinténs” (“Die Dreisgroschenoper”), que o cineasta G. W. Pabst dirigiu em 1931, claro, baseado na peça musical de Bertold Brecht e Kurt Weill.

O cenário é a Londres do começo do século XX, mas não o da realeza, e sim, o dos bandidos, dos mendigos e dos corruptos. Ali impera Mackie Navalha, o rei dos ladrões, que domina o mundo do crime, com sua tirania e sua pompa de mau. Em setor paralelo, impera J.J. Peachum, o rei dos mendigos, tão poderoso e mafioso na sua área quanto Mackie.

Ocorre que Mackie conhece Polly, a filha de Peachum, se ligam e se casam, sem que família da moça o saiba. Com a ajuda dos comparsas de Mackie e um padre relutante, o casamento tem lugar num prédio em ruinas, onde ratos e baratas são apressadamente substituídos por candelabros, champanhe e bolos.

Ao saber do evento, o chefe da polícia, Jackie Brown aparece no local, porém, comprometido com a bandidagem como está, nada pode fazer. Fora lá porque, ameaçado por um Peachum irritado e violento, ficara sabendo que, sob a ordem deste, toda a horda de mendigos de Londres pretendia mostrar a sua cara feia e a sua raiva, nas imediações do Palácio de Buckingham, no dia previsto para o desfile oficial da Rainha. E, para o chefe da polícia, isto significaria demissão sumária.

Como em sua poesia, o texto de Brecht é impiedoso com as classes poderosas e simpático com os pobres. A canção de abertura do filme, dirigida aos pregadores religiosos e aos políticos, já diz tudo “Primeiro comida, depois moral”. No dia da passeata dos mendigos, os cartazes e faixas são irônicos, para não dizer que são cínicos. Um cartaz grita “A miséria” (“Dem Elend”), um outro sugere “Dê para poder receber” (“Gib, so wir dir gegeben”). Quando Peachum, aos berros, ensina aos seus esfarrapados seguidores que “os ricos do mundo não têm pruridos em causar a miséria, mas não suportam a visão dela”, praticamente ouvimos aí a voz indignada de Brecht.

Polícia e bandido no mesmo saco…

No melhor estilo do “distanciamento brechtiano”, os pontos de virada na estória (os “turning points”) são marcados pelo aparecimento súbito de um personagem extra-diegético (isto é: que não faz parte da estória), o qual se dirige diretamente aos espectadores, comentando os fatos narrados, explicando certas questões e anunciando o que vem em seguida.

Trata-se de um filme extremamente irônico, para não dizer cínico, onde os maus (a polícia corrupta, os banqueiros, e a máfia dos mendigos) se saem bem no desenlace, todos unidos por um acordo nada cavalheiresco. O cenário é Londres, porém, os ecos são da Alemanha da época, como se sabe, devastada pela derrota na Primeira Guerra Mundial. Tanto é assim que o filme lembra, inevitavelmente, um outro filme do cinema alemão coetâneo, “O vampiro de Dusseldorf” (Fritz Lang, 1931), com suas hordas de marginais fazendo justiça, à revelia da polícia e das autoridades.

A diferença é que o gênero aqui é musical. A crítica sempre se refere à sensacional performance da atriz Lotte Lenya (esposa do músico Kurt Weill) na cena da festa de casamento, aqui já referida, cantando “Jenny a pirata”, mas a letra da canção – não seria inapropriado lembrar –  contém a mesma isotopia da torpeza e da maldade que Brecht denuncia. Com cinismo, sim, mas denuncia.

Sabe-se que Brecht não gostou da forma como a peça foi adaptada ao cinema. Curiosamente, não porque o filme tenha traído a peça, mas ao contrário, porque lhe foi fiel demais.

Um casamento entre ratos e baratas…

Meu contato com o teatro de Brecht nunca foi extenso, mas, tive o privilégio de ver no palco a sua peça “Mãe coragem e seus filhos”. Eu estava a passeio em Lisboa, em 1986, e a peça estava em cartaz no Teatro Nacional Dona Maria II, com Francisco Pestana e Irene Cruz no elenco, direção de João Lourenço. Confesso que foi uma sessão dolorosa, não apenas pela temática, mas pela duração. Lembro que, havendo começado às 21 horas, o espetáculo, contado o intervalo, terminou a uma hora da madrugada; não havíamos jantado e, vocês sabem, o centro de Lisboa depois da meia-noite é quase tão morto quanto o de João Pessoa…. Mas, enfim, esta é outra estória, que não cabe aqui desenvolver.

Volto ao meu “pacote Brecht”: o próximo filme, roteiro dele, é “Os carrascos também morrem” (1943), direção do imenso Fritz Lang.

Em tempo: esta matéria é dedicada ao amigo Romero Venâncio.

Bertold Brecht

GODARD E SEU TRISTE FIM

28 maio

Não. Não é do cineasta francês de “Acossado” que vou tratar, mas de um outro “Godard” que visitou o Brasil e aqui morreu, um pouco antes de o cinema ser inventado.

Sim, Arsênio Godard morreu em 1894, no Rio de Janeiro, mas é hoje personagem de cinema. Está no telefilme de Adolfo Rosenthal “O triste fim de Arsênio Godard” (2011), há pouco exibido no Canal Futura.

A estória é a seguinte. Estamos nas águas da Baía da Guanabara, entre 1893 e 1894, em plena “Revolta da Armada”. Se vocês ainda lembram as aulas de História do Brasil, o presidente da época era Floriano Peixoto, ditador militar, conhecido como “o Marechal de ferro”. Ainda monarquista, a Marinha se revolta contra seu governo, considerado ilegítimo, e vários couraçados e outros navios de guerra estão a postos na Baía, prontos para atacar e, se for o caso, retomar o poder.

A um desses navios, onde o filme inteiro decorrerá, chega a notícia de que alguns espiões estão por perto, rondando a armada. Sob as ordens do comandante, sai uma tropa, cortando a Baía à noite, para a captura. Não encontram um grupo de espiões, mas um só: no caso, o nosso Arsênio Godard, um mercenário francês que os marinheiros trazem amarrado feito um saco de batatas e depositam aos pés do Comandante do navio. Na condição de estrangeiro, Godard exige os seus direitos de cidadão, mas, segundo as duras palavras do intransigente Comandante, não tem direito algum, e é levado à solitária onde deve passar a noite, imaginando que terríveis castigos receberá na manhã seguinte.

Fuzilamento? Forca? Afogamento? Que nada! O castigo foi mais sutil e mais cruel. Sob determinação do Comandante, o mercenário francês podia circular dentro das dependências do navio onde quisesse, sempre acompanhado de um vigilante pessoal; podia dormir no mesmo compartimento dos marinheiros; podia fazer refeições com o corpo diretor e, num tempo de escassez, podia beber e comer tudo o que fosse servido à mesa. Com um pequeno detalhe, e este terrível detalhe era o castigo: ninguém no navio podia lhe dirigir a palavra.

Depois de inúmeras tentativas inúteis de estabelecer um diálogo com a tripulação, essa “tortura do silêncio” vai minando o espírito de Godard e, meses depois, o mercenário francês enfraquece e começa a apresentar sintomas de insanidade.

Até que um dia perde o controle, toma a arma do vigilante de plantão e o ameaça de morte. A tripulação acorre ao local, só para assistir ao suicídio do triste Arsênio Gordard, que corta o pescoço com a baioneta e expira, ensanguentado, na frente de todos, inclusive do irado Comandante que friamente lamenta o fato de prisioneiro ter, pelo suicídio, escapado à punição que lhe fora imposta.

O filme de Adolfo Rosenthal é, na verdade, a adaptação cinematográfica de um belo conto do nosso João do Rio. Quase homônimo ao conto (“O fim de Arsênio Godard”), o filme lhe foi fiel o quanto pôde.

Para quem não lembra, João Paulo Emílio Cristovão dos Santos Coelho Barreto (1881-1921), também conhecido como Paulo Barreto, e João do Rio, foi um cronista talentoso, além de jornalista, tradutor e teatrólogo criativo. Seu mérito de escritor foi publicamente reconhecido ao ser, em 1910, eleito para a Academia Brasileira de Letras.

Negro e homossexual, sofreu reprimendas públicas que o levaram a polêmicas infrutíferas. Lima Barreto o acusava de não assumir a questão negra, e Humberto de Campos, o ridicularizou pela homossexualidade. Ao traduzir a obra do escritor inglês Oscar Wilde, foi visto, à imagem de Wilde no seu país, como um dândi efeminado que devia ser subestimado pelo seu comportamento amoral.

Na verdade, João do Rio foi um grande escritor, hoje pouco conhecido, mesmo dos que transitam nos meios literários. O seu conto “O Fim de Arsênio Godard” é um bom exemplo do seu talento. Não tenho espaço para mais, porém, cito a genial estratégia de escolher, para a focalização (o ponto de vista da narração), não um narrador particular (por exemplo, o protagonista Godard, ou o Comandante do navio, ou, um dos marinheiros), mas a voz coletiva da tripulação inteira, o que tem um efeito dramático especial, se considerarmos o castigo do protagonista – nunca ouvir esta voz coletiva.

No filme “O triste fim de Arsênio Godard”, nota-se que o diretor Adolfo Rosenthal tenta manter essa estratégia dramática. Se consegue, é algo ainda a investigar…

O Cronista João do Rio

DIPLOMACIA

14 maio

Fazia tempo que eu não tinha notícia do cineasta alemão Volker Schlondorff, um dos nomes destacados no movimento cinematográfico que o mundo chamou de “Novo Cinema Alemão”.

Decorrido entre os anos sessenta e oitenta, esse movimento – um dos últimos na História do cinema – incluiu Rainer Werner Fassbinder, Werner Herzog e Wim Wenders, que juntos com Schlondorff e sua esposa Margarette von Trotta, deram uma cara nova à até então confusa, dispersa e irrelevante produção alemã.

De Schlondorff eu conhecia “A súbita riqueza do povo de Combach” (1971), “O Tambor” (1979) e “Um amor de Swan” (1983), este último visto, em estreia local, no velho Cine Banguê em sua fase áurea. Filmes que me impressionaram e me convenceram de que eu estava, em que pese ao fato de os dois últimos serem adaptações literárias (Gunter Grass e Proust, respectivamente) perante um talento forte de um criador original.

Pois bem, em 1986 eu estava residindo em Bloomington, Indiana, Estados Unidos, quando fui convidado por um amigo americano a frequentar um dos Cineclubes da cidade. O filme anunciado era “A morte do caixeiro viajante” e eu pensei que se tratasse do clássico de Lazlo Benedek, de 1951, com o grande Fredric March no papel-título. Não era. Era uma nova adaptação da peça de Arthur Miller, feita para a televisão, com Dustin Hoffman no papel do trágico caixeiro Willy Loman. E a direção de quem era? Para a minha completa surpresa, de Volker Schlondorff.

De lá para cá nada mais vi dele, mas agora me cai nas mãos um de seus filmes recentes, “Diplomacia” (“Diplomatie”, 2014), um drama de guerra sobre os últimos dias do exército alemão na Paris ocupada, quando as forças aliadas já estavam nas redondezas, em agosto de 1944.

Embora o contexto seja a guerra, o filme tem pouca ação e se passa, quase todo, entre as quatro paredes do amplo gabinete do então nomeado “Governador” de Paris, o general alemão Dietrich von Choltitz. Este recebe a visita “diplomática” do Consul Geral da Suécia Raoul Nordling e o longo diálogo – com frequência mostrado na técnica do campo contra campo – substitui as porventura esperadas ações.

Esse diálogo tem um miolo, a rigor, o conflito que justifica o filme. É que, conforme a ordem de Hitler, a cidade de Paris já estava, toda ela, tecnicamente preparada para ser destruída – era só o General Choltitz emitir o comando a seus soldados, o que ele estava disposto a fazer de imediato e sem hesitação. Já o Consul da Suécia – país neutro – ali está para tentar convencer o General alemão de que a destruição de Paris não valia a pena.

De lado a lado, as argumentações se chocam e o impasse vai tomando forma de coisa definitiva. Já estamos nos aproximando do final do filme – e talvez cansados de tanta fala inútil – quando o tom da conversa vai se tornando mais pessoal. E, numa cena intimista de tom confessional, descobrimos, junto com o Consul sueco, que o motivo do General alemão para cumprir as ordens nazistas não é propriamente patriótico, mas pessoal: sua família, esposa e filhos, estão sob a mira da Gestapo… De repente, do militar impassível que parecia, Choltitz, acometido por constantes ataques de asma e pelo pavor de perder os seus, vai diminuindo de figura… até se tornar um mortal, como nós todos.

Com meia hora de projeção já fica claro para o espectador que estamos vendo a adaptação de uma peça de teatro. De fato, a peça é do dramaturgo Cyril Gely, que toma a liberdade de inventar uma situação dramática, que – atenção! – não corresponde necessariamente aos fatos históricos. Um exemplo: muitos dos argumentos do Consul sueco evocam o que os espectadores – os da peça e os do filme – sentem por Paris, a Cidade Luz que nunca devia ser destruída. Eu, pessoalmente, tinha acabado de assistir na TV o incêndio na Notre-Dame e trouxe esta emoção para dentro do filme.

Claro que também trouxe para o filme de Schlondorff, a emoção de outros filmes sobre o tema. Por exemplo, o “Paris está em chamas?” (“Paris, brûle-t-il?”, 1996) do francês René Clément, vocês lembram, não é, onde Gert Fröbe fazia o General Choltits e o grande Orson Welles era o Consul sueco Nordling.

Enfim, foi bom ter notícias fílmicas de Volker Schlondorff.