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Filmes emparelhados

20 fev

Concorrendo ao Oscar ou não, alguns dos filmes lançados em 2017 entraram numa categoria curiosa, que aqui estou chamando de “emparelhados”. São pares de filmes que, havendo sido produzidos no mesmo ano, por mera coincidência, abordam, cada um a seu modo, uma mesma problemática.

Por exemplo: a vida do estadista britânico Winston Churchill – ou parte dela – está tanto em “O destino de uma nação” (2017) quanto em “Churchill” (2017). Sem contar que, como já demonstrei em artigo aqui veiculado, aquele primeiro filme é, pela temática, complementar a “Dunkirk”, também de 2017.

“Me chame pelo seu nome” (2017) e “Reino de Deus” (2017) praticamente contam uma mesma estória: o encontro e o relacionamento amoroso entre dois homens. No primeiro caso, gente culta, no segundo, gente simples, mas os roteiros têm a mesma estrutura. Já “The post – a guerra secreta” (2017) e “Mark Felt” (2017) têm o mesmo problema de Watergate como centro diegético; no primeiro caso, Watergate e a imprensa; no segundo, Watergate e o FBI.

“O destino de uma nação” tem o mesmo personagem de “Churchill”.

Não há nada demais em que filmes tratem de uma temática semelhante: ao longo da história do cinema isto sempre aconteceu e até com frequência, como era de se esperar. O que torna os citados acima pares curiosos é que tenham sido rodados no mesmo ano, sem que os realizadores tenham sequer tido contato.

Um caso exemplar desse tipo de emparelhamento que sempre cito está mais para trás, em 1989, quando na mesma Itália, e ao mesmo tempo, sem contato entre as equipes dos filmes, foram rodados “Splendor” e “Cinema Paradiso”, ambos contando a grandiosa e dolorida vida de um cinema, com idênticos momentos de glória, e idêntico desenlace disfórico. Na ocasião das filmagens, é possível que Ettore Scola tenha tido notícia, talvez pela imprensa, do filme de Giuseppe Tornatore, e vice-versa, mas, se tiveram, cada um prosseguiu com o seu projeto… e foi até o final.

Pensando no assunto, me ocorreu tentar reconstituir, na história do cinema, pares de filmes que pudessem se enquadrar nessa categoria de “emparelhados”, e alguns títulos me vieram à mente, que passo a citar. São filmes rodados e lançados no mesmo ano (em alguns casos, a diferença entre eles é de um ano apenas) e cujas temáticas são semelhantes e mesmo complementares. Cito-os em ordem cronológica.

“Splendor” faz enparelhamento com “Cinema Paradiso”.

Rodados e lançados entre 1938 e 39, “Jezebel” e “E o vento levou” têm a guerra de secessão como pano de fundo, sendo, ambos, a estória de uma moça sulista que é levada a nela se envolver.

Do mesmo ano de 1964, “Dr. Fantástico” e “Limite de segurança” tratam ambos do perigo de uma guerra nuclear que destruiria o planeta terra, se certos botões fossem apertados inadvertidamente. No primeiro, o tom é de comédia, no segundo, de tragédia, mas o problema é o mesmo.

Entre 1985/86, “De volta ao futuro” e “Peggy Sue – seu passado a espera” procedem ao mesmo esquema narrativo de enviar alguém ao passado, e, mais tarde, fazer o resgate para o presente, ironicamente chamado de ‘futuro´. Os recursos do envio ao passado são diferentes nos dois filmes (uma máquina do tempo versus um desmaio), mas, de novo, a estrutura narrativa é a mesma.

Em 1994, “Tombstone” e “Wyatt Earp” recontam a mesma história, a dos irmãos Earp, o amigo Doc Holliday e a gangue dos Clanton, todos envolvidos no famoso duelo no Ok Curral. A história já fora contada antes, em vários outros filmes, mas o curioso agora é que esteja em dois filmes do mesmo ano.

“Peggy Sue” também faz um retorno ao passado…

No ano de 1997, o budismo de Dalai Lama é assunto em “Kundun” e “Sete anos no Tibete”.

Entre 1998/99 o espectador pôde assistir a dois filmes sobre o mesmo problema do “reality show”, no caso “O show de Truman” e “Ed TV”.

Em 2012 os bastidores da vida privada do mago do suspense Alfred Hitchock vêm à tona em dois filmes que em tudo se complementam: “The girl” e “Hitchcock”.

Em 2016, a vida de uma mesma figura do mundo da música clássica, no caso, uma milionária com pretensão a cantora lírica, foi tema de dois filmes: o francês “Marguerite”, e o americano “Florence – quem é essa mulher?”

Enfim, outros casos há, que o leitor deverá lembrar para compor uma lista mais extensa, e talvez mais pertinente, dessas coincidências que tornam a história do cinema mais curiosa do que já é.

“Florence – quem é essa mulher?” e “Marguerite”, com o mesmo tema.

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