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Viagem à Itália

24 mar

 

Esta semana passada “viajei” à Itália, e não fui só. Acompanhou-me um especialista em cultura italiana, que me deu uma lição toda especial: ninguém menos que o cineasta americano Martin Scorsese.

Pois é, no seu belo documentário de mais de quatro horas de duração, “Minha viagem à Itália” (2001), Scorsese se reporta a suas humildes origens sicilianas, e, de modo bem pessoal e comovente, nos conta como o cinema italiano dos velhos tempos entrou, pela telinha da TV, em sua casa, num bairro pobre de Nova York, e foi consumido, com sofreguidão, pelos seus pais, avós e tios. E, claro, por ele também, que não entendia tudo, mas, encantava-se com aquelas imagens de um país que fora o lar de seus antepassados.

Tais recordações de infância servem de gancho para que Scorsese nos introduza ao movimento de cinema mais influente do século XX: o neo-realismo italiano. Como ele afirma categoricamente, dirigindo-se ao seu espectador : “Eu vi esses filmes e eles tiveram um efeito poderoso sobre mim: você devia vê-los”

O cineasta americano Martin Scorsese

O cineasta americano Martin Scorsese

E a aula que passa a dar é bem sistemática, como deve ser toda boa aula. Começa com o geral e apresenta um panorama do movimento todo, realçando suas características mais marcantes, do ponto de vista técnico, estilístico e temático. Depois é que afunila e passa a enfocar os diretores. Começa com o maior de todos, o grande Roberto Rosselini, de quem apresenta a trilogia fundadora, “Roma cidade aberta” (1945), “Paisà” (1946) e “Alemanha ano zero” (1947).

Escolhendo trechos a dedo, reconstitui os enredos dos filmes com tanta precisão e poder de síntese que o espectador tem, em cada caso, a sensação de estar vendo, ou revendo, o filme por inteiro. Com a vantagem de virem juntas instrutivas curiosidades sobre as filmagens e dados biográficos que enriquecem a significação de cada obra.

Quando chegou a “Europa 51” (1952), eu estava chorando, juro. Não suportei a dor dessa mulher que, havendo perdido um filho pequeno, entrega-se a sanar o sofrimento alheio, e o faz com tal desapego de suas origens nobres, que é considerada louca, e internada em hospício, onde continua ajudando os mais necessitados que ela. Sofri tanto com essa Irene Girard (Ingrid Bergman, então esposa de Rosselini) que fiquei achando que a narração sintética e grave de Scorsese é melhor que o filme inteiriço. Não sei se é. depois confiro.

"Romance na Itália", o filme de Rosselini.

“Romance na Itália”, o filme de Rosselini.

Esperei sofrer um pouco mais quando chegássemos a “De crápula a herói” (Il Generale della Rovere” (1959), mas, por alguma razão, Scorsese não vai até lá, e finda seu testemunho de Rosselini com “Romance na Itália”, que, de fato, pelo título original (“Viaggio in Italia”) não poderia ficar fora deste documentário.

Depois de Rosselini, vêm, na ordem, Vittorio De Sica, Luchino Visconti, Federico Fellini e Michelangelo Antonioni, cada um abordado pelo mesmo esquema, com seleção de seus filmes mais representativos, pelo menos os realizados dentro do périplo enfocado, que começa em 1945 e termina em 1963.

Dentre os filmes escolhidos para serem comentados, uns há que – visivelmente – tiveram direito a mais tempo de tela que outros. Suponho que sejam os xodós de Scorsese. Ou simplesmente, como ele afirma em várias ocasiões, filmes que influíram diretamente no seu fazer cinematográfico.

O garoto de "Ladrões de bicicleta".

O garoto de “Ladrões de bicicleta”.

Por exemplo, o filme de De Sica mais longamente comentado e reproduzido não é “Ladrões de bicicleta”, mas “Umberto D”. A longa sequência do velho tentando penosamente livrar-se do seu cãozinho, tem quase a mesma duração do original, apenas enriquecida pelos comentários de Scorsese, que explica, por exemplo, o quanto o aprendizado com Chaplin é importante aqui.

O Visconti privilegiado acho que é “Sedução da carne” (“Senso”, 1954), a estória dessa condessa que, apaixonada por um tenente do exército, degrada-se moralmente, até onde pode uma mulher casada de origem nobre degradar-se. Dos filmes de Fellini o que ganha mais destaque é “Os boas vidas” (“Il vitelloni”, (1953), com que Scorsese confessa identificar-se, vendo na existência fútil dos personagens, a mesma falta de sentido que experimentou em certa fase de sua juventude em Nova Iorque. Por fim, a ênfase sobre Antonioni fica com “A Aventura” (“L´avventura”, 1960), essa obra misteriosa que ainda hoje intriga a cinefilia universal.

Evidentemente, eu já conhecia os filmes comentados nesse documentário, e o neo-realismo chegou a ser assunto de cursos que ministrei sobre cinema. A novidade é a paixão da abordagem, e o modo como o cineasta assume e analisa suas próprias influências. Além disso, Scorsese ocorre ressaltar, nesses filmes, aspectos que eventualmente me escaparam, e que agora me fazem constatar efeitos estéticos que perdi por desatenção ou pressa.

Em suma, uma viagem cinematográfica da qual retornei mais rico… e mais feliz.

Ingrid Bergman no comovente "Europa 51"

Ingrid Bergman no comovente “Europa 51”

 

Ingrid

16 mar

 

Item especial da seleta programação do novo Cine Bangüê, continua em cartaz o documentário do sueco Stig Bjorkman “Eu sou Ingrid Bergman” (2015), filme imperdível para os amantes do cinema.

Através de álbuns de família, filmezinhos domésticos, material de arquivos de cinema e jornais, fotos em geral, e depoimentos de filhos e amigos, o filme reconstitui a vida e a carreira dessa atriz sueca que, com sua beleza e talento, conquistou Hollywood e o mundo.

O traço de sua personalidade que mais aparece no documentário acho que é o seu espírito de aventura – supostamente não esperado de uma escandinava – evidenciado pelas muitas reviravoltas, amorosas e profissionais, na sua vida. Um outro talvez seja a sua determinação em ser atriz, e atriz de renome. Ainda jovem, começou no seu país, porém, a Suécia – como ela mesma admite – era pequena para a sua ambição. De forma que não hesitou ao ser convidada pelo todo poderoso David Selznick, para atuar em Hollywood. Ao chegar, alguém lhe disse que “nunca seria uma estrela de cinema, pois era alta demais”… e ela, claro, nem deu ouvidos. E com razão. Em seu primeiro filme americano, “Intermezzo” (1939) ninguém notou que Leslie Howard fosse mais baixo que ela.

Com Humphrey Borgart, em "Casablanca".

Com Humphrey Borgart, em “Casablanca”.

O sucesso lhe veio como luva, e ela o abraçou como a um amante querido. “O médico e o monstro” (1941), “Casablanca” (1942), “Os sinos da Sta Maria” (1943) “À meia luz” (1944), “Quando fala o coração” (1945), “Interlúdio” (1946): era um filme atrás do outro e, com eles, a consagração de crítica e público.

Um efeito colateral inevitável foi um certo descuido com a família, no caso, com o marido, Petter, e a filha pequena, Pia, que com ela vieram morar nos Estados Unidos. Aliás, problema familiar é o que não lhe faltou. Multiplicaram-se esses problemas quando, ainda casada, assistiu ao filme italiano “Roma cidade aberta”, apaixonou-se, primeiro pelo filme e depois pelo diretor. Sem dar ouvido ao rumores da imprensa, mudou-se para Roma, casou com Roberto Rosselini e deu início a uma nova vida e carreira, cheia de perigos e riscos.

Na primeira metade dos anos cinquenta, em solo italiano, rodou filmes que nada tinham a ver com o padrão Hollywood de qualidade, e pagou pela opção. Julgamentos de valor à parte, não há como negar: ainda hoje, todo mundo lembra a Ingrid Bergman de “Casablanca”, mas quem lembra a de “Stromboli” (Rosselini, 1950)? Bem, se porventura a Itália não lhe deu o sucesso esperado, deu-lhe três filhos maravilhosos, Ingrid, Roberto e Isabella, e logo em seguida, um novo divórcio.

Com Leslie Howard, em "Intermezzo".

Com Leslie Howard, em “Intermezzo”.

Em 1956, Ingrid Bergman retorna à Meca do cinema, que a recebe com um pé atrás, mas logo é reconquistada pelo seu charme. O filme da reestreia americana é “Anastácia, a princesa esquecida”, que ela roda ao lado de Yul Brynner. Outros filmes se seguem, e não demora a aparecer um novo amor, desta feita o compatriota Lars Schmidt.

Um lance curioso do filme é que seja narrado em primeira pessoal verbal, como se a própria Ingrid o assinasse. Ajuda nesse recurso narrativo as muitas cartas que Ingrid enviou aos amigos ou parentes, aqui relidas em voz alta por uma voz feminina. De grande ajuda também são os muitos filmes caseiros, pois ela era apaixonada por câmeras e pelo gesto de filmar, herança, segundo ela mesma. de seu pai.

Com Charles Boyeur, em "À meia luz".

Com Charles Boyeur, em “À meia luz”.

A construção desse tom confessional, contudo, não impede que nos depoimentos, se vislumbrem “discordâncias” que com certeza a protagonista não endossaria. Tem-se isso nos testemunhos de Isabella Rosselini (a filha que propôs o projeto do filme ao diretor Bjorkman), a qual aponta, por exemplo, o autoritarismo da mãe, só notado por ela mesma ao assistir suas ´auditions´ com o cineasta Ingmar Bergman, para as filmagens de “Sonata de outono” (1978). Mas acho que o exemplo mais claro está na fala de Pia, a filha do primeiro casamento, hoje uma senhora de certa idade. Nessa fala sente-se um certo rancor, que a depoente não esconde, às vezes expressando-o com ironia. Em dado momento, ela chega a dizer que “não seria o caso de se escrever um livro do tipo ´Mamãezinha querida´, mas, que houve afastamento familiar, houve”.

Em “Eu sou Ingrid Bergman” é possível que o espectador sinta falta de imagens dos filmes que a atriz protagonizou, ao menos dos mais amados. Veem-se cenas de seus filmes suecos e/ou italianos, mas poucas de sua, bem mais vasta, filmografia americana. A questão dos direitos autorais pode ter sido o motivo, mas, de todo jeito, é curioso que não vejamos cenas, por exemplo, de “Por quem os sinos dobram”, e, no entanto, vejamos uma longa cena (Ingrid dançando feito louca numa festa) de um filmezinho obscuro que quase ninguém conhece, “Flor de cacto” (“Cactus flower”, 1969) onde ela faz uma moça velha meio ridícula, apaixonada pelo patrão, o dentista Walter Matthau.

Bem, seja como for, Ingrid é Ingrid, e o filme – repito – é imperdível.

Com Cary Grant, em "Interlúdio".

Com Cary Grant, em “Interlúdio”.

 

Saudades do cinema italiano

9 jan

Li outro dia que o cineasta Ettore Scola teria afirmado à impressa estar se aposentando. Seu fã inconteste, lamentei, porém, confesso que, no  momento, me ocorreu que não é só Scola que se aposenta: o cinema italiano, salvo prova em contrário, está aposentado há algum tempo.

Eu sei que, aqui e acolá, fala-se de um novo filme italiano, dirigido por não sei quem, com não sei que elenco, que alguém viu não sei onde, mas, nada que, nem de longe, engrosse o caldo de uma cinematografia, no sentido de ´produção conjunta de um país´. Até porque não há caldo a engrossar.

Pois eu e os de minha geração temos razões especiais para perguntar o que aconteceu com o cinema italiano, e mais que isso, para lamentar o vazio de hoje em dia.

Na nossa juventude – quando avidamente aprendíamos o que era cinema – curtimos o cinema italiano da forma mais entusiasmada e intensa. Sim, nos saudosos anos sessenta, víamos por aqui, tantos filmes italianos quanto americanos, e, aliás, os italianos com mais gosto, já que, na época, a Hollywood dos grandes estúdios já era sinônimo de franca decadência, ao passo que o que nos chegava da Itália tinha cheiro de inovação e criatividade.

Cena de Rocco e seus irmãos

Cena de Rocco e seus irmãos

Aquela era a época das vanguardas (a nouvelle vague francesa, o free cinema inglês, o cinema novo brasileiro…) e a Itália estava na frente de todas, fazendo mais e melhores filmes, embora, intrigantemente, a grande movimentação cinematográfica ocorrendo então nesse país não tenha recebido um nome. Podia muito bem ter se chamado, digamos, ‘o novo cinema italiano´ ou coisa assim, mas, ninguém da imprensa ou do meio fílmico teve a idéia de jogar a expressão no ar e o movimento (sim, o movimento) ficou inominado mesmo.

É possível que para isso tenha contribuído o peso do passado, digo, o daquele movimento cinematográfico do pós-guerra que ficou marcado, para o mundo todo, como Neo-realismo Italiano. Parece que ninguém teve a coragem de admitir o que de fato estava acontecendo – que o cinema italiano dos anos sessenta estava suplantando o neo-realismo.

Era toda uma gama de grandes cineastas realizando, um atrás do outro, filmes ótimos, a que assistíamos encantados, às vezes chocados, ou perplexos. É verdade que muitos desses cineastas vinham diretamente do neo-realismo, como Fellini, Visconti, Antonioni, DeSica, porém, nem todos tinham esta origem, e outra coisa, mesmo os que tinham, como os citados, cometiam agora um cinema essencialmente diferente, novo, pessoal, original, que pouco ou nada mais tinha a ver com o conceito de neo-realismo.

Sei dizer que esse cinema italiano – que, na minha cabeça, delimito entre 1960 e 1969 – marcou uma época e criou um estilo como se fosse uma grife. Claro que, prolífero como era, foi diversificado e múltiplo, porém, ainda que indefinida, uma constante estilística prevaleceu e entrou no imaginário de toda uma geração, a minha. Se não isso, ao menos uma atmosfera.

Cena de Oito e meio

Cena de Oito e meio

Como já sugerido, dos diretores italianos que deram aos anos sessenta esse vigor e essa coloração nem todos foram inaugurais, nem pararam de fazer cinema uma vez a década finda. Acontece que o meu enfoque aqui não é a história do cinema italiano – meu enfoque é a década de sessenta e, sobretudo, sua caracterização como um movimento cinematográfico.

A respeito da diversidade das realizações nesta década e da inexistência de um programa, aproveito para lembrar que os outros movimentos cinematográficos da época (os já citados, Nouvelle Vague, Free Cinema e Cinema Novo Brasileiro) tampouco tiveram a unidade suposta e muito menos ainda, a definição de um programa.

Pois é, passando a um nível mais pessoal, ainda hoje me vejo, entusiasmado, acertando com os amigos para irmos à sessão das 16:30 do Cinema de Arte do Cine Municipal, aquele organizado pela ACCP (Associação de Críticos Cinematográficos da Paraíba). O filme podia ser Accatone” (Pasolini), ou “Kapo” (Pontecorvo) ou “O eclipse” (Antonioni)… Pouco importava – tratava-se de cinema italiano e, sendo assim, já era garantia de qualidade, com certeza motivo para os animados papos subseqüentes nas mesas do Luzeirinho ou de outro bar qualquer da cidade.

Recordo-me como era charmoso aprender a pronunciar os nomes de todos aqueles cineastas, quase todos terminando na desinência /ini/, ou pelo menos no sonoro /i/ que caracteriza a língua de Dante: Fellini, Zurlini, Pasolini, Comencini, Bolognini, Damiani, Antonioni, Visconti, Ferreri, Monicelli…

A própria língua italiana, com sua bela entonação cantada e suas sílabas fortes, passou a entrar no nosso vocabulário de cinéfilos e daí a pouco, nem precisávamos ler as legendas para saber o que era ´capiche´, ´bambini´, ´stanco´, ´paura´, ´ Che cosa far´…

Cena de Os companheiros

Cena de Os companheiros

De repente, os ídolos do cinema americano que reverenciávamos – os Gary Cooper e Liz Taylor da vida – começavam a abrir a rodinha do estrelado para lá caber os Marcelo Mastroiani, Vittorio Gassman, Claudia Cardinale, Monica Vitti de agora. Sem falar nos que já se confundiam com Hollywood, como Sophia Loren, Ana Magnani e Gina Lollobrigida…

Enfim, para não me estender mais, encerro com uma listinha pessoal de 20 filmes italianos que gostei de ter visto na época de suas estreias. São filmes de temáticas, gêneros e estilos variados que ilustram, ao mesmo tempo, a diversidade e a força do inominado – que aqui estou denominando – “movimento italiano de cinema dos anos sessenta”.

“Rocco e seus irmãos” (Luchino Visconti, 1960)

“A doce vida” (Federico Fellini, 1960)

 “O belo Antonio” (Mauro Bolognini, 1960)

“A moça com a valise” (Valerio Zurlini, 1961)

“Duas mulheres” (Vittorio DeSica, 1961)

“Dois destinos” (Zurlini, 1962)

“Os dias são numerados” (Elio Petri, 1962)

“A ilha dos amores proibidos” (Damiano Damiani, 1962)

“Oito e meio” (Fellini, 1963)

“Os companheiros” (Mario Monicelli, 1963)

“O leopardo” (Visconti, 1963)

“O leito conjugal” (Marco Ferreri, 1963)

“O evangelho segundo São Mateus” (Píer Paolo Pasolini, 1964)

“De punhos cerrados” (Marco Bellochio, 1965)

“O incrível exército de Brancaleone (Monicelli, 1965)

“A batalha de Argel” (Gilo Pontecorvo, 1965)

“Blow up” (Michelangelo Antonioni, 1967)

“A China está próxima” (Bellochio, 1967)

 “Queimada” (Pontecorvo, 1969)

“Teorema” (Pasolini, 1969)

Cena de Duas Mulheres

Cena de Duas Mulheres