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Estrelas de cinema nunca morrem

24 abr

O título desta matéria é uma metáfora cara aos cinéfilos, mas não é só isto: é também a denominação brasileira de um filme americano recém lançado (2017) que conta os últimos anos da vida de uma grande atriz de Hollywood, a inesquecível Gloria Grahame.

O título original do filme é, na verdade, mais prosaico: “Film stars don´t die in Liverpool”, (“Estrelas de cinema não morrem em Liverpool”) e a referência à cidade inglesa dá-se porque é aí que vamos encontrar Gloria Grahame, entre 1979 e 1981, decadente e enferma, hóspede numa modesta pensão de bairro. Sua carreira desandara desde os anos sessenta, com filmes cada vez mais raros e mais irrisórios. No momento, está em Liverpool ensaiando a peça “The glass menagerie” (“À margem da vida”), num teatro de segunda categoria.

Baseado em fatos reais, o filme do jovem diretor escocês Paul McGuigan nos conta como, aos 57 anos de idade, Gloria Grahame se apaixona pelo jovem filho dos donos da pensão, Peter Turner (28 anos, ele também ator) e como vive, no curto período de menos de três anos, uma grande e bela estória de amor, no caso, a última de uma longa série na sua vida conturbada.

Anette Bening faz uma Gloria Graham convincente e, bem conduzido, o filme de um modo geral emociona, e, em certos momentos, até eleva, especialmente naquela cena em que o namorado recita com uma Gloria enferma, no palco de um teatro vazio, o trecho do encontro entre Romeu e Julieta – a peça shakespeariana que Gloria sonhava interpretar e nunca o fez.

Desconfio, porém, que perde parte do prazer de assistir a “Estrelas de cinema nunca morrem” o espectador que nunca ouviu falar de Gloria Grahame. Loura, sensual e sedutora, não teve a fama de Marilyn Monroe, mas teve, sim, seu fã clube. No julgamento da crítica, Gloria Grahame é considerada uma atriz competente, determinada, honesta, espontânea, curiosa e criativa.

Anette Bening é Gloria Grahame.

De minha parte, sempre fui seu fã e a ponho na minha galeria de imagens amadas. Filha da atriz de teatro Jean Grahame, Gloria começou sua vida no cinema em 1944, aos 21 anos de idade, no filme “Blonde Fever”, mas, minha primeira lembrança dela é como a mocinha sapeca a quem George Bailey (James Stewart) ajuda em “A felicidade não se compra” (Frank Capra, 1946).

Depois vem toda uma gama de filmes noir, gênero em que ela, com seu charme meio vamp, se saía muito bem. “Rancor” (Edward Dmytryk) é de 1947, porém, o auge dessa fase noir – como aliás, o auge de sua carreira cinematográfica – vai acontecer nos anos cinquenta. Cito alguns, todos grandes filmes, assinados por grandes cineastas: “No silêncio da noite” (Nicholas Ray, 1950), “Precipícios d´alma” (David Miller, 1952), “Macao” (Joseph von Sternberg, 1952), “Os corruptos” (Fritz Lang, 1953), “Fúria assassina” (Jerry Hopper, 1954), “Homens em fúria” (Robert Wise, 1959).

Ainda nesta década de cinquenta, vamos vê-la em grandes dramas, como: “Assim estava escrito” (Vincente Minnelli, 1952) que, por sinal, lhe deu o Oscar de coadjuvante; “Os saltimbancos” (Elia Kazan, 1953); “Paixões sem freios” (Minnelli, 1955) e “Não serás um estranho” (Stanley Kramer, 1955).

Jamie Bell e Anette Bening em cena do filme.

É possível que o espectador a lembre em filmes de maior sucesso comercial. Se for o caso, como a atriz circense que trabalha com elefantes, em “O maior espetáculo da terra” (Cecil B DeMille, 1952), ou – quem sabe – no épico musical de Fred Zinneman “Oklahoma” (1955) onde ela aparece cantando e dançando.

Sua vertiginosa decadência nos anos sessenta, vale dizer, coincidiu com a decadência geral da Hollywood clássica. No caso de Gloria, motivada ou não, pelos escândalos familiares.

Em 1960 ela casa com o enteado Anthony Ray – filho do seu primeiro esposo, o cineasta Nicholas Ray. Esse casamento faz todo mundo – especialmente, os colunistas sociais – lembrar que, oito anos atrás, Ray (o diretor de “Juventude transviada”, para quem não lembra) pedira divórcio com a alegação grave de que a havia encontrado na cama com o mesmo Anthony, então um garoto de apenas treze anos de idade.

“Estrelas de cinema nunca morrem” toca de leve nessas questões, mas o seu mérito está mesmo em, além de contar uma comovente e trágica estória de amor, resgatar a imagem de uma atriz que – como quer o título do filme – nunca vai morrer na lembrança dos cinéfilos da vida.

Gloria Grahame nos anos cinquenta.

Café com pão

10 jan

 

Algum tempo atrás, assisti, na televisão paga, a uma entrevista com uma renomada gourmet, que discorreu sobre os pratos mais refinados do planeta e a arte de prepará-los e servi-los.

Infelizmente não gravei o nome da gourmet, mas isto não me impede de citá-la, principalmente na sua fala final. Depois de conversarem, ela e o jornalista entrevistador, sobre a alta cozinha, seus ingredientes e seus deliciosos segredos, o jornalista fez a pergunta que o espectador, de água na boca, queria que ele fizesse.

“Para finalizar – indagou ele – gostaria que a senhora nos dissesse qual o seu prato preferido.” A entrevistada, então, esboçou um sorriso malicioso e foi dizendo: “Acho que você vai se decepcionar, porque, para mim, não há nada melhor do que café com pão”. Diante da cara de espanto do entrevistador, completou: “um bom café e um pão de qualidade são a melhor comida do mundo”.

Cena de "Quem matou Vicky?"

Cena de “Quem matou Vicky?”

Nunca esqueci a entrevista e o tanto de verdade que ela contém, sobretudo na sua defesa da simplicidade; nem esqueci o quanto a sua conclusão é aplicável a outras esferas da vida humana.

Claro que pensei logo no cinema.

Vejam bem: Eisenstein, Orson Welles, Bergman, Antonioni, Resnais, Godard, Kurosawa, Kubrick… tudo isso é culinária sofisticada para ser consumida devagarinho em ocasiões especiais, com comedimento para não enjoar, ou, se for o caso, para não causar algum tipo de indigestão existencial.

A esses pratos finos contraponho o “café com pão” que consumo quase todo dia, barato, e sem efeitos colaterais, só os propostos. Refiro-me a toda aquela gama de filmezinhos B que Hollywood produziu nos anos quarenta e cinquenta, os hoje chamados filmes noir, que nunca ganharam Oscar, nem pretenderam ganhar. São estórias simples, envolvendo quase sempre crime, mulher fatal, polícia, e muita sombra…

Lee J Cobb em "Por uma mulher má".

Lee J Cobb em “Por uma mulher má”.

O elenco não precisava ser famoso, nem ninguém da equipe, sequer os diretores. Eram produções de baixo orçamento que os grandes estúdios permitiam que fossem rodados para as exibições do meio da semana, e por isso, não fiscalizavam as filmagens, deixando os cineastas à vontade para lances criativos, impossíveis nas superproduções. O resultado é que com pouco dinheiro e um pouco de liberdade, se rodavam filmes intrigantes e inovadores para a época. Às vezes, um diretor famoso assumia esses projetos modestos, mas esta não era a regra. Fritz Lang, Otto Preminger, John Huston e Howard Hawks foram alguns, mas, na maior parte dos casos as assinaturas desses filmes só são reconhecidas pelos poucos que curtem “café com pão”.

Como na citação da nossa gourmet, trata-se de café com pão, porém, não de qualquer café ou qualquer pão: é café do bom e pão de qualidade.

Para não ficar no vazio, cito uma listinha de deliciosas refeições que fiz ao longo da vida e adoro repetir. Veja se você já saboreou esses filmezinhos “café com pão”. Se não, não sabe (nos dois sentidos da palavra) o que está perdendo:

"Moeda falsa", 1947, de Anthony Mann.

“Moeda falsa”, 1947, de Anthony Mann.

Quem matou Vicky? (I Wake up screaming, 1941, Bruce Humberstone). Com Victory Mature e Betty Grable.

Cilada mortífera (Murder by contract, 1958, Irving Lerner). Com Vince Edwards e Phillip Pine.

Mata-me por favor (Please, murder me, 1956, Peter Godfrey). Com Raymond Burr e Angela Lansbury.

Dúvida (The suspect, 1944, Robert Siodmak). Com Charles Laughton e Ella Raines.

A maleta fatídica (Nightfall, 1957, Jacques Tourneur). Com Aldo Ray e Anne Bancroft.

Trágico alibi (My name is Julia Ross, 1945, Joseph H. Lewis). Com Nina Foch e George MacReady.

Sonha, meu amor (Sleep, my love, 1948, Douglas Sirk). Com Claudette Colbert e Robert Cummings.

A maldição da sombra (The second woman, 1950, James V. Kern). Com Robert Young e Betsy Drake.

Moeda falsa (Raw Deal, 1947, Anthony Mann). Com Dennis O´Keefe, Alfred Ryder.

O beijo da morte (Kiss of death, 1947, Henry Hathaway). Com Victor Maturee e Brien Donlevy.

Os quatro desconhecidos (Kanzas City Confidential, 1952, Phil Karson). Com John Payne e Coleen Gray.

Por uma mulher má (The man who cheated himself, 1950, Felix E. Feist). Com Lee J. Cobb e Jane Wyatt.

"Dúvida", com Charles Laughton, 1944.

“Dúvida”, com Charles Laughton, 1944.

Estados de espírito

25 jun

Tenho um amigo cinéfilo que, quando porventura não está lá se sentindo muito bem, sabe como é, chateado da vida, tristonho, borocoxô, ele diz que está “meio nouvelle vague”.

Sim, isso mesmo: o nome do movimento de cinema francês dos anos sessenta lhe serve para denominar o seu estado de espírito depressivo.

Nem tudo nos filmes da Nouvelle Vague era assim tão para baixo, mas, não tiro a razão de meu amigo: entendi-o perfeitamente, aceitei de bom grado o código dele, e, confesso, às vezes até o uso também.

Aceitei, porém, esperem um momento; como nem tudo na existência das criaturas humanas é depressão, fiquei sentido a falta de uma expressão cinematográfica que denominasse justamente o oposto: não mais a disforia, mas a euforia. E claro que, dentro desse contexto filmo-tímico, o contrário de “nouvelle vague” é obviamente “Hollywood clássica”.

De modo que a nova expressão foi adotada entre nós e, agora, quando a gente se encontra, ou se liga, o papo pode muito bem começar assim: “E aí? Tudo Hollywood clássica?”

Só que, vejam bem, ocorre-me, mais uma vez, que nem todo mundo é ciclo-tímico: a alma humana não vive só da antítese disforia/euforia, e muitas são as nuances entre os dois extremos.

O próprio conceito de Hollywood clássica é uma ilustração dessa variedade, pois, cinematograficamente falando, dentro dele às vezes cabia coisinhas bem tristes, por exemplo, os filmes noir.

Pois é, se um amigo cinéfilo chegasse para mim me confessando que, de uns dias para cá, anda se sentido um tanto e quanto “noir”, o que é que eu iria entender? Que está bem ruinzinho da cuca: que o mundo para ele é um lugar feio, habitado por gente má, fazendo coisas más e se dando mal.

E se o estado de espírito do meu amigo – que Deus o livre! – for expressionismo alemão, então nem se fala! Esse cara está perdido nas trevas, num beco sem saída, ou à margem do abismo.

Para continuar com estilos cinematográficos, acho que dá para imaginar o que seria estar se sentindo neo-realismo italiano… Meio lascado? E estar cinema novo brasileiro? Idem?

Penso que os gêneros cinematográficos também podem render nesse contexto. Assim, não fique por perto de um indivíduo que esteja se sentindo western, que vai ter briga feia e você pode sair ferido, e por sua vez, um cara meio science-fiction não seria lá muito confiável, ou seria misterioso demais para qualquer gosto.

Acho que boas denominações de nuances de estados de espírito a gente pode conseguir em nomes de cineastas, que tal?

Como será que estaria uma pessoa que se sentisse, digamos, Bergman? Não sei se acerto, mas vou chutar: à beira do suicídio. Já se o estado de espírito do cara tiver o nome de Capra, hum, aí ele está de bem com a vida e é difícil encontrar, no mundo inteiro, alguém mais feliz que ele.

Como seria estar Hitchcock? Nervoso? John Huston? Amargo? Buster Keaton? Ridículo? Douglas Sirk? Apaixonado? Buñuel? Furioso? Tati? Patético? David Lean? Desencantado? Herzog? Desesperado? Woody Allen? Confuso? Almodóvar? Desaforado? Tarantino? Agressivo? Aceito sugestões.

Obviamente, nem todo cineasta tem um estilo tão forte e definido, ao ponto de servir para denominações dessa ordem psicológica. E mesmo os que o têm, pode não ser fácil enquadrá-lo. Por exemplo, o que exatamente significaria acordar pela manhã e dizer que “hoje estou me sentindo um pouco Billy Wilder”? Essa pessoa é, com certeza, tão complexa que não faço idéia clara do que sente. Ou faço ideias demais.

Não fui tão longe, mas tenho a impressão que os leitores desta matéria, sobretudo os cinéfilos, vão querer estender a proposta para âmbitos mais particulares, e vão, talvez, cogitar de denominações psicológicas em nomes de atores e atrizes.

Naturalmente os muito versáteis serão os mais difíceis de assumir. De qualquer forma, já pensaram o que é estar se sentindo Cary Grant? Ou estar Marlon Brando? Ou Marilyn Monroe? Ou Robert De Niro? Ou Mia Farrow? Ou Johnny Depp? Mais uma vez: aceito sugestões.

Talvez mais fácil seja ir direto aos filmes e, neste caso, já antevejo dois extremistas típicos: um, coitado, reclamando estar se sentido profundamente “Morte em Veneza”, e o outro declarando, sorridente, estar perdidamente “Cantando na chuva”.

Perguntinha final, para complicar: qual seria o estado de espírito de quem se dissesse “Casablanca”? Ou ninguém diria isso?