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MULHERES DAS TERRAS BRAVAS

28 jun

O western – ou, no nosso linguajar, o faroeste – tem a fama de ser um gênero cinematográfico para homens. Os duelos, os tiroteios, as perseguições a cavalo, os roubos a bancos, os enforcamentos, as brigas em saloons, as cidades precárias, os ranchos, os carroções, os índios, a conquista das terras virgens, os bandidos, os mocinhos e os seus respectivos seguidores, as armas sacadas ou a sacar… tudo compondo um quadro meio selvagem de força bruta, poeira, escassez, agrura, maldade e violência.

Nesse contexto, as mulheres seriam seres secundários, coadjuvantes frágeis, acidentais e descartáveis que só atrapalhariam o que interessa: a ação e seu andamento. Será?

Nos tempos atuais, não sei, porém, na era clássica do cinema, no auge do surgimento e desenvolvimento do gênero – anos trinta, quarenta e cinquenta – quer parecer-me que a coisa não era bem esta.

Nesse sentido, seria interessante revermos e/ou lembrarmos as personagens femininas dos filmes mais influentes do gênero e sua importância actancial, psicológica, temática e/ou estrutural.

Marilyn Monroe e Robert Mitchum em O Rio das Almas Perdidas.

Assim, convido o leitor a recordar heroínas como: a prostituta de “No tempo das diligências”; a professora de “Paixão dos fortes”, a também professora de “O matador” (1950); a esposa índia de “Lança partida”; a cantora de cabaré de “O rio das almas perdidas”; a corajosa Louise de “Paixão de bravo”; a jovem ambiciosa de “Almas em fúria”; a mestiça de “Duelo ao sol”; a jovem cega e curada de “A árvore dos enforcados”; a rancheira de “Os brutos também amam”; a mexicana Anita de “Os homens das terras bravas”; a mulher destemida de “Sua única saída”;  a mandona de “Rancho Notorious”; a filha adotiva de “O passado não perdoa”; a jovem intrépida de “Sol amarelo”, a mulher indômita de “A noite das emboscadas”; a criadora de gado de “Até a última bala”; a fazendeira poderosa de “Dragões da violência”; as mulheres rivais de “Da terra nascem os homens”; a dona de cassino de “Johnny Guitar”; a Calamity Jane de “Ardida como pimenta”; a jogadora de “Sem lei e sem alma”; o bando feminino inteiro de “Caravana de mulheres”, ou de “O renegado do Fort Pettycoat”, isto para não falar num caso extremo, a adolescente vingativa de “Bravura indômita”…

Dizer que as personagens femininas são irrisórias nesses filmes – e em tantos outros que não cito – é ser limitado de visão, ou ser preconceituoso.

Mas penso que argumentaria melhor com estudos de casos. Vejamos, portanto, três exemplos da relevância de papéis femininos em três clássicos do gênero western.

Começo com “Matar ou morrer” (“High Noon”, Fred Zinnemann, 1952) que, pelo título brasileiro já sugere tiroteio e nada mais. E não é bem assim. De fato, o filme começa mostrando três pistoleiros que se encontram em lugar ermo e, bem armados, se dirigem à cidade. Mas desde o primeiro fotograma já se escuta uma música que, na melodia e na letra, não condiz com o que se vê: é uma canção de amor em que uma voz masculina implora à amada que não o abandone…

Grace Kelly e Gary Cooper em Matar ou Morrer.

Logo vamos saber por quê. Na cidade, um casamento vem de ser realizado; o Xerife Kane (Gary Cooper) desposa a jovem Amy (Grace Kelly) e estão sendo parabenizados pela comunidade, quando chega a notícia: os três pistoleiros estão na estação de trem à espera de um quarto elemento, um malfeitor que Kane, anos atrás, encaminhara à prisão. Todo o restante do filme vai ser o aguardo do conflito e a certeza da morte de um xerife a quem a cidade em peso nega apoio. Não conto a estória toda, mas, chamo a atenção para o papel decisivo dessa Amy, forte nas decisões tomadas por uma mulher num mundo de homens. Sua força, coragem e determinação têm etapas: a primeira é, resguardando seus princípios pacifistas, pois é quaker, dizer não ao marido; a segunda é, sendo novata na cidade, procurar a ex-amante do marido, no intuito de dissuadi-lo; a terceira é voltar atrás no instante decisivo da partida do trem, e quarta, ter a coragem de, pacifista como era, pegar em arma e matar, pelas costas, um ser humano – um ser humano que, se não morresse, mataria seu esposo amado.

Em “Duelo de titãs” (“Last train from Gun Hill”, John Sturges, 1959) também a cidade inteira está contra um Xerife. Mas não é o Xerife local. Matt Morgan (Kirk Douglas) veio da cidade vizinha para levar para a cadeia o assassino de sua esposa. Estupro e morte. O culpado, um rapaz cheio de si, é filho do mandão do lugar, Craig Belden (Anthony Quinn). Matt e Craig haviam sido amigos no passado (e ainda seriam), por isso, o conflito entre lei e afeto é mais grave.

Carolyn Jones e Kirk Douglas em Duelo de Titãs.

A sequência que destaco se passa num quarto de hotel onde Matt já mantém o filho do amigo acorrentado à cama, aguardando o horário do último trem que sai de Gun Hill – como se diz no título original do filme. Lá fora, a mandado de Craig, uma multidão armada está disposta a impedir a façanha de Matt.

Ele consegue? Não conseguiria sem a ajuda de uma mulher, uma desconhecida, e, mais surpreendente, amante do mandão do lugar. Por que a amante do mandão do lugar iria ajudar um estranho a cumprir a lei? O filme oferece algumas pistas. Com certeza a mais óbvia é a revolta interior dessa mulher contra o machismo generalizado e cego, que não vê nada demais em mulheres serem estupradas e mortas, principalmente se são desconhecidas, e, mais ainda, como é o caso, se são mestiças. Uma das cenas mais emocionantes e belas no filme, é aquele momento em que Linda (Caroly Jones) – indignada com a baixeza do crime – rouba um rifle do bar, esconde nas dobras da saia e sobe as escadas do hotel para entregar a arma a Matt, que a recebe admirado e, ao perguntar por quê, ouve uma resposta mais ou menos assim: “a raça humana é podre e eu sou doutora em saber disso”.

Em “O homem que matou o facínora” (“The man who shot Liberty Valence”, John Ford, 1962) todo o conflito é entre o Oeste selvagem e o Leste civilizado. Vítima de um assalto à diligência, chega a esta cidadezinha do interior o estropiado advogado Ransom Stoddard (James Stewart). Sua intenção de educar não serve de nada diante da força bruta de um bando de malfeitores que assola o lugar, liderado pelo despótico e cruel Liberty Valence. Em duelo de rua, Valence é surpreendentemente derrotado, mas o autor do disparo fatal não foi, como ele mesmo supõe, Ransom, e sim Tom Doniphon (John Wayne), um cowboy de tiro certeiro, que atirou às escondidas. O mistério envolve uma moça, Hallie (Vera Miles), em quem os dois homens têm interesse.

Torturada pela indecisão entre os dois, Hallie opta pelo advogado do Leste, e com pesar sentido, abre mão do cowboy – seu namorado oficial – que um dia, como prova de seu amor, lhe dera uma flor de cacto. Como se percebe, por trás das ações dos homens, a decisão de uma mulher, determina o desenlace de uma história repleta de violência. No final do filme, todos já idosos, ela e o esposo (hoje um famoso senador da república e candidato a vice-presidência) vindos do Leste civilizado para o humilde velório de Doniphon, é uma flor de cacto que ela deposita sobre seu corpo – gesto singelo que resume todo um mundo de afeto, coragem, determinação, grandeza de espírito e amor.

Nos casos destas três obras primas do gênero – assim como nos filmes mencionados na abertura desta matéria – as presenças femininas, não apenas transformam os filmes em histórias de amor, como dão ao conjunto a direção, a profundidade e a amplitude semântica que têm.

Não sei dizer se a literatura feminista já tratou do assunto, mas, se não, já seria tempo de fazê-lo.

Em tempo: o título desta matéria parodia o de um dos filmes mencionados acima: “Os homens das terras bravas”.

Vera Miles e James Stewart em O Homem que Matou o Facínora.

Filmes para homens?

10 mar

Parece que, depois do movimento feminista, os homens, meio na defensiva, ficaram menos seguros em relação ao que é ser homem. Deve ser isso que justifica a existência, na internet, de sites como este “The art of manliness” – traduzindo aproximadamente: ´a arte da masculinidade´. Tentando resgatar o conceito do masculino essencial, o site é interessante e reúne aspectos do comportamento dos homens que seriam fundantes desse conceito.

Há, por exemplo, listas de coisas que os homens preferem – ou deveriam preferir – e uma delas se refere ao cinema.

“Cem filmes obrigatórios para homens” é uma das listas que o site apresenta, certamente títulos votados pelos organizadores e dispostos na ordem de importância, do primeiro ao centésimo. Sem dúvida, um excelente objeto de estudo para os interessados, como eu, em Estética da Recepção no cinema.

No geral, são filmes que se centram na figura masculina, porém, curiosamente, nem todos veiculam aquele velho estereótipo do homem como sendo um ser forte, corajoso, decidido, violento, possessivo, autoritário, briguento, etc.

Por motivo de espaço, o meu comentário aqui vai limitar-se à metade da lista – os cinqüenta primeiros filmes – e aos citá-los, mencionarei sempre o diretor e o ano de produção.

Embora nessa lista estejam filmes fundados na violência como “Rambo” (Ted Kotcheff, 1983), “Duro de matar” (John McTiernan, 1988) e “Operação dragão (Robert Clouse, 1973), nela também estão outros, bem diferentes, como: “Ladrões de bicicleta” (Vittorio De Sica, 1948), “Se meu apartamento falasse” (Billy Wilder, 1960), e “Gandhi” (Richard Attenborogh, 1982), ou seja, filmes em que o protagonista está a léguas de distância do estereótipo tradicional acima referido.

É verdade que um número expressivo desses “filmes masculinos” trata de esporte – suposta preferência masculina. Citando dentre os nossos cinquenta: “Momentos decisivos” (David Anspaugh, 1986), “Sorte no amor” (Ron Shelton, 1988), “Campo dos sonhos” (Phil Alden Robinson, 1989) “Rudy” (David Anspaugh, 1993), “A luta pela esperança” (Ron Howard, 2005), “Desafio à corrupção” (Robert Rossen, 1961)”

Também previsivelmente, outro número considerável versa sobre guerra, a saber: “Fugindo do inferno” (John Sturges, 1963), “Sob o domínio do mal” (John Frankenheimer, 1962), “Das boot” (Wolfgang Peterson, 1981), “Nada de novo no front” (Lewis Milestone, 1930). Vejam, porém que um filme como “Os melhores anos de nossas vidas” (William Wyler, 1946) é muito mais sobre os efeitos da guerra, sobretudo os psicológicos. E que “Casablanca” (Michael Curtiz, 1942), só é um filme de guerra até certo ponto.

Entre os preferidos dos homens não poderiam deixar de estar os westerns da vida, que, dos nossos cinquenta, são: “Butch Cassidy” (George Roy Hill, 1969), “O último pistoleiro” (Don Siegel, 1976), “Os brutos também amam” (George Stevens, 1953), “Matar ou morrer” (Fred Zinnemann, 1952), “Os imperdoáveis” (Clint Eastwwood, 1992) e “Bravura indômita” (Henry Hathaway, 1969).

O mesmo se diga dos policiais ou filme de suspense: Perseguidor implacável (Don Siegel, 1971), “Intriga internacional” (Alfred Hitchcock, 1959), “Pacto de sangue” (Billy Wilder, 1944), “Relíquia macabra” (John Huston, 1941), “Operação França” (William Friedkin, 1971), “Os intocáveis” (Brian DePalma, 1987), “Bullit” (Peter Yates, 1968), “Um corpo que cai” (Alfred Hitchcock, 1958),

Surpreendentemente ou não, o gênero da ficção cientifica teve poucos preferidos: “Guerra nas estrelas” (George Lucas, 1977) e “O gigante de ferro” (Brad Bird, 1999). Os filmes históricos, ou épicos,  são três: “Gladiador” (Ridley Scott, 2000), “Spartacus” (Stanley Kubrick, 1960) e “O último dos moicanos (Michael Mann, 1992). Dois filmes tratam do tema vida em prisão: “Um sonho de liberdade” (Frank Darabont, 1994) e “Rebeldia indomável” (Stuart Rosenberg, 1967). E três enfocam a luta contra o racismo, a saber, “Malcom X” (Spike Lee, 1992), “Mississipi em chamas” (Alan Parker, 1988) e “No calor da noite” (Norman Jewison, 1968). O único documentário da lista toda é “The endless Summer” (Bruce Brown, 1969), sobre a prática do surfe.

Por fim, outros filmes há que não se classificam por gêneros, a não ser no sentido amplo de serem dramas – familiares, sociais ou existenciais.  “Vidas sem rumo” (Francis F Coppola, 1983); “Mar adentro” (Alejandro Amenábar, 2004); “A mulher faz o homem” (Frank Capra, 1939); “Juventude transviada” (Nicholas Ray, 1955); “Vinhas da ira” (John Ford, 1940) e “Uma rua chamada pecado” (Elia Kazan, 1951).

Não estou citando os atores, mas dei-me ao trabalho de contar, e os campeões de recorrência são, de fato, previsíveis: na ordem, Clint Eastwood, Kevin Costner e John Wayne.

Feita a leitura da lista, acho que a vontade do leitor é perguntar o que é, afinal de contas, um filme para homens. E, por antítese inevitável, o que seria um filme para mulheres.

O critério do Site, como dito, é o filme ser a estória de um personagem do sexo masculino, mas, quem foi que disse que uma estória sobre um homem só interessa a homens? Ou que uma estória sobre uma mulher só interessaria a mulheres? Eu, que sou homem, me sentiria frustrado se me proibissem de ver ou de gostar de – para citar apenas filmes com nomes femininos -: “Rainha Cristina”, “Stella Dallas”, Ana Karenina, “Ninotchka”, Joana D´Arc”, “Noites de Cabíria”, “Gilda”, “Laura”, “Sabrina”, “Irma La douce”, “Xica da Silva”, Adele H”, “Júlia e Júlia”, e tantas outras.

Sem contar que, em muitos casos, fica difícil dizer quem é mais protagonista do que quem. Em “Casablanca” seria Rick ou Ilsa? Em “E o vento levou”, seria Scarlett ou Rhett? Em “A princesa e o plebeu” seria a princesa, ou o plebeu? Nas muitas adaptações de Shakespeare, o protagonista seria Romeu ou Julieta?

Tudo bem, não sou ingênuo e sei que, na prática, as pessoas fazem a separação, e que os produtores e realizadores, para garantir bilheteria, reforçam a dicotomia recepcional entre os sexos, pondo mais ação em filmes para homens, e mais sentimento em filmes para mulheres, assim como, em casa, os brinquedos que os pais dão aos filhos são carros e armas para os meninos e bonecas e casinhas para as meninas.

O engraçado é que existe um filme, aliás, não referido no Site em questão, em que essa dicotomia recepcional está abordada, e de modo muito curioso. Acho que vocês se recordam da comédia romântica com Tom Hanks e Mag Ryan “Sintonia de amor” (Nora Ephron, 1993): em uma determinada cena alguém (naturalmente uma mulher) começa a rememorar o melodrama de Leo McCarey “Tarde demais para esquecer” (1957) e, na descrição da cena final entre a aleijada Deborah Kerr e o pintor Cary Grant, simplesmente desaba em pranto, ao ponto de não poder continuar. Nesse momento, incomodado, alguém (naturalmente um homem) alega que “Tarde demais” é um filme para mulherzinha, e, imediatamente, passa a descrever a cena final em um “filme para homem”, cheio de ação e adrenalina, “Os doze condenados” (Robert Aldrich, 1967). Ora, no meio da descrição, o marmanjo se emociona e … desaba em pranto.

A idéia na cena de “Sintonia de amor” seria a de que, se filmes para homens e filmes para mulheres são diferentes, a diferença não residiria na reação do(da) espectador(a), aqui, o mesmo jorro de lágrimas. Mas, atenção, não esqueçamos que o autor do filme – de qualquer filme! – também tem sexo e o sentido da cena foi dado por ele/ela. No caso presente, trata-se de uma mulher (Nora Ephron), mas, poderia ter sido um homem que, faria talvez a encenação com outra conseqüência semântica.

E ficamos na estaca zero da discussão.

Ao leitor ou leitora desta matéria, sugiro que repasse com calma a lista desses filmes para homens, relembrando o que assistiu e com que interesse, e, a partir de seu próprio gosto ou tirocínio, decida sobre a pertinência de uma lista de filmes – a aqui exposta, ou qualquer outra – que divida a recepção a partir da diferença sexual entre os espectadores.