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Cinco graças

12 maio

Em Porto Alegre, ao tempo do Festival de Gramado, acontece um festival paralelo, chamado de “Os desgramados”, onde se exibem justamente os filmes que, ou não foram selecionados, ou que não ganharam o kikito.

Fico pensando se em Los Angeles não existiria um festival assim, dos “desoscarizados”.

Se houvesse, lá estaria este “Cinco graças” (“Mustang”, 2015), filme da cineasta franco-turca Deniz Gamze Ergüven, que concorreu como estrangeiro e, apesar da qualidade, perdeu.

O cenário é uma província ao norte da Turquia onde moram, com a avó, cinco adolescentes órfãs: Lale, Nur, Selma, Ece e Sonay. Brincalhonas e cheias de vida, levam a vida normal que é permitida a mulheres num país parcialmente fundamentalista e machista, até que, como diz a menor Lale, “num piscar de olho, tudo mudou”.

mustang 1

Mudou no dia em que, ao sair do colégio, as cinco irmãs, e mais uns rapazes, colegas de turma, vão se divertir um pouco na praia, caminho de casa. Entram no mar e ficam fazendo estrepolias e dando risadas ao meio das ondas, e, naturalmente, chegam em casa ensopadas.

Espiadas pela vizinhança, são ´denunciadas´ à avó e ao tio, e é aí que o bicho pega. De garotas inocentes e descontraídas, passam a ser vistas como depravadas e indignas.

Logo a casa vira uma prisão, com grades nas janelas e chaves escondidas. Computadores e celulares, e outros objetos perigosos, são confiscados ou destruídos. Além da instituição do cárcere doméstico, a família tem mais dois cuidados: abafar o escândalo – e, claro, o espectador pergunta ´que escândalo?´ – e cuidar de casar as meninas, antes que seja tarde. Imediatamente providenciados em série, os casamentos, evidentemente, são arranjados entre as famílias do lugar, sem que os noivos sequer se conheçam. Como, de novo, diz a pequena Lale, “a casa transformou-se em uma fábrica de esposas”.

Quanto mais pressionadas aos ditames da família, mais as garotas se revoltam e a estória termina em suicídio e fuga.

mustang 2

O que falta ao meu resumo é o que mais o filme enfoca: a indomável vitalidade das meninas, só dobradas pela força das circunstâncias. Essa vitalidade está no título original do filme, “Mustang”, como se sabe, termo associado ao aspecto selvagem e indomável de certos cavalos. A reintitulação brasileira tem seu charme intertextual, porém, esconde a força das caracterizações.

Autora de alguns curtas, este é o primeiro longa da jovem (37 anos) diretora Deniz Gamze Ergüven, que quase não realiza o filme, pois, ainda na pré-produção, descobre-se grávida e os co-produtores, julgando incerto rodar um filme nessas circunstâncias, quiseram retirar-se do projeto. Ergüven, que já tinha tido um projeto anterior recusado, insiste e o filme é feito.

Na ocasião da estreia internacional, alguns dias depois da exibição e da aclamação, emocionada, ela confessa à imprensa, que de um filme assim pessoal só esperava os aplausos de praxe e nada mais; no dia seguinte, supunha, “Cinco graças” seria esquecido. Não foi e, de público, ela revela sua surpresa com o sucesso.

De fato, “Cinco graças” é um filme intimista, que passa claramente a visão particular da cineasta sobre a condição feminina, especialmente sobre essa condição no seu país de origem, a Turquia, onde a misoginia é um comportamento generalizado. Embora conte a estória de cinco mocinhas, o foco narrativo é doado a uma delas, a menor de todas e também a mais rebelde, Lale, com quem visivelmente a cineasta se identifica.

Um banho de mar pode ser perigoso...

Um banho de mar pode ser perigoso…

Uma ideia apenas implícita, e, no entanto, importante no filme é a de como a educação poderia ajudar a superar o obscurantismo comportamental da tradição.

Vejam que a primeira cena do filme é a da despedida da pequena Lale da professora do Colégio, a qual está se mudando para Istambul. Esta cena é quase esquecida ao longo da projeção, porém, muito bem relembrada na última cena do filme, onde se mostra o reencontro em Istambul, depois que Lale, bravamente, foge de casa com a irma Nur, em busca da liberdade. O abraço da professora e da aluna, que se reveem, agora em situação tão dramática, nos faz lembrar a figura e as ideias de uma Malala, e, por tabela, o filme sobre esta jovem educadora paquistanesa que há pouco comentei, nesta coluna.

Qual será o paradeiro de uma garota de catorze anos que fugiu de casa? Como em clássicos que nem “Os incompreendidos” (1959), o filme deixa isso em aberto, mas o espectador não tem dúvidas: a ex-professora foi procurada porque, em atuação de sala  de aula, deve ter dado lições de liberdade…

Lale, a menor e mais rebelde, cortando os cabelos.

Lale, a menor e mais rebelde, cortando os cabelos.

Tempo de tela

29 jan

Eis um conceito que só poderia ter surgido no cinema, arte ao mesmo tempo narrativa e plástica: tempo de tela, em inglês ´screen time´. Na literatura (só narrativa) e na pintura (só plástica) não fariam sentido, e se no teatro se pode falar em ´tempo de palco´ já foi por influência do cinema.

Como defini-lo? Há pelo menos dois caminhos, tão próximos que fica difícil distingui-los: o técnico e o semiótico. No primeiro caminho, tempo de tela é o espaço de tempo durante o qual, num filme, um ator permanece diante da câmera, visível para o espectador. Se ao invés de ator, falarmos em personagem, temos o segundo e mais importante caminho, o semiótico.

Desencanto: a protagonista conta sua própria estória

Desencanto: a protagonista conta sua própria estória

Não esqueçamos que, em qualquer filme, há vários momentos em que, mesmo o protagonista, está off-screen, ou seja ausente da tela, enquanto outras coisas acontecem, a sua revelia, ou não. O somatório das suas ´presenças´ é o seu tempo de tela.

Para a maioria das pessoas, tempo de tela pode parecer um conceito inútil, porém, para o estudioso da linguagem cinematográfica, é de grande importância, sobretudo no que diz respeito à observação da estrutura actancial do filme, e esta palavra feia (´actancial´) é somente o adjetivo técnico para ´personagens´.

O tempo de tela pode ser o parâmetro para se decidir com relação à relevância de um personagem na estória narrada pelo filme. No geral, quanto mais tempo de tela é dado a um personagem, mais ele se aproxima do estatuto de protagonista, mas, claro, a regra não é rígida e, eventualmente, um personagem secundário pode ganhar mais tempo de tela que o protagonista, tudo isso a depender da temática e do enfoque dado ao filme.

No filme clássico, calcula-se que o protagonista ganhasse cerca de 80% do tempo de tela, sem contar que geralmente, mesmo quando estava off-screen, ele era o assunto dos diálogos alheios. Para dar um só exemplo, é o caso de “Farrapo humano” (1945) filme em que o alcoólico Don Birman quase não sai da frente da câmera, e quando sai, é dele que se fala.

Naturalmente, ao tempo de tela se somam outros fatores que podem determinar a importância de um personagem na estória narrada. O tipo de enquadramento escolhido, por exemplo, pode contribuir no destaque, ou não. Um tempo de tela curto pode valer mais se a maioria das tomadas for em close, e, mutatis mutandis, um tempo de tela mais longo pode valer pouco se as tomadas forem em plano geral, onde o personagem fica pouco visível para o espectador.

O terceiro homem: pouco tempo de tela para o personagem titular

O terceiro homem: pouco tempo de tela para o personagem titular

O conceito de tempo de tela também pode ajudar no entendimento de como funciona a narração fílmica. Por exemplo: observar o tempo de tela dos personagens num filme em que o narrador da estória é o próprio protagonista, ou num filme cujo foco narrativo é abstrato, pode ser fundamental para revelar as implicações de sentido do filme. Como exercício, considerem o caso de “Desencanto” (1945), onde a protagonista narra sua estória, e o de “Quem é o infiel?” (1949), onde a estória do protagonista é narrada por outrem.

Um caso curioso é certamente o de “Cidadão Kane” (1941), filme em que a imagem do protagonista só aparece na tela em narrações alheias, como se, em cada um desses fragmentos narrativos, fosse personagem secundário. A soma de todos os fragmentos é que o transforma em protagonista.

Notar que, assim como o silêncio em relação ao som, a ausência física de um personagem pode ser um fator importante para a estrutura significativa do filme. Lembro o caso de “O terceiro homem” (1948) em que um personagem com menos de 30% de tempo de tela é o mais destacado na estória, o Harry Lime feito por Orson Welles.

Um condenado à morte escapou: tempo de tela pleno

Um condenado à morte escapou: tempo de tela pleno

As nuances entre ator e personagem é outra lição que a contagem do tempo de tela nos ensina. Vejam o caso de “Um corpo que cai” (1958): no filme inteiro a personagem Madeleine – suposta protagonista – só aparece na tela por alguns segundos, exatamente no instante em que é jogada da torre do Convento. E, no entanto, a atriz Kim Novak tem um enorme tempo de tela, em duas situações distintas: (1) fingindo ser Madeleine e (2) fingindo não ter fingido sê-la.

Dois exemplos extremos da dicotomia personagem/ator estão em dois filmes bem diferentes. Em “Um condenado à morte escapou” (1956) o tempo de tela do protagonista (e consequentemente, do ator) é absoluto, isto é, coincide com a duração do filme. Exatamente o contrário disso, vai acontecer em “Encurralado” (1971) com o personagem do motorista de caminhão que, sendo tão importante na estória (aquele com quem o protagonista duela o tempo inteiro), não aparece na tela em instante algum: tempo de tela zero.

Nos velhos tempos da Hollywood clássica, o maior tempo de tela era disputado com unhas e dentes pelos atores e atrizes, e os iniciantes, naturalmente, se conformavam com pontas, mas esta é outra estória que fica para depois.

Encurralado: ator com tempo de tela zero

Encurralado: ator com tempo de tela zero

Vertigem no cânone

6 ago

Qual o filme mais perfeito já feito em toda a história do cinema, aquele que se daria como exemplar de um cânone cinematográfico? Para a crítica internacional, a resposta está na ponta da língua – “Cidadão Kane” (Orson Welles, 1941) que, desde 1952, vem ocupando o topo da lista dos dez mais na eleição decenal que realizam o BFI (British Film Institute) e a revista Sight & Sound, uma eleição em que votam críticos, acadêmicos e profissionais da sétima arte em todo o mundo.

A resposta está na ponta da língua?? Estava! É que vem de sair o resultado da nova eleição, a do último decênio, 2002/2012, e – pasmem! – o melhor filme do mundo deixa de ser “Cidadão Kane” e passa a ser “Um corpo que cai” (“Vertigo”, Alfred Hitchcock, 1958).

Para o mundo da cinefilia, favorável ou desfavoravelmente, essa mudança no cânone vai, com certeza, repercutir e muita discussão vai surgir, em papos de amigos, ou mesmo em artigos, crônicas e ensaios. Mais relevante que o Oscar, a eleição do BFI + Sight & Sound é uma espécie de Nobel do cinema, que confere consagração artística a realizações cinematográficas, sem quaisquer concessões mercadológicas ou de outra ordem. Este ano, foram 846 votantes que escolheram entre 2.045 filmes, propondo, em ordem pertinente de importância, os dez que melhor corresponderiam a um conceito de perfeição artística.

Claro que constar da lista dos dez da Sight & Sound em qualquer posição já significa consagração, mas, como a humanidade adora competição, o primeiro lugar é sempre o mais visado.

Antes de prosseguirmos no comentário da subida do filme de Hitchcock para o topo da lista, vejamos a lista toda deste decênio, que, divulgada na Sight & Sound, reproduzo abaixo, indicando, após o nome do diretor e o ano de produção, a nacionalidade:

1 – Um corpo que cai (Alfred Hitchcock, 1958, EUA)

2 – Cidadão Kane (Orson Welles, 1941, EUA)

3 – Era uma vez em Tóquio (Yasujiro Ozu, 1953, Japão)

4 – A regra do jogo (Jean Renoir, 1939, França)

5 – Aurora (F. W. Murnau, 1927, Alemanha/EUA)

6 – 2001: uma odisséia no espaço (Stanley Kubrick, 1968, EUA)

7 – Rastros de ódio (John Ford, 1956, EUA)

8 – Um homem com uma câmera (Dziga Vertov, 1929, URSS)

9 – A paixão de Joana D´Arc (Carl Dreyer, 1927, Dinamarca)

10 – Oito e meio (Federico Fellini, 1963, Itália)

A primeira eleição do BFI + Sight & Sound foi efetuada em 1952, e a deste ano é, portanto, a sétima, já que o périplo entre eleições é um decênio. Interessante seria cotejar o total das sete listas, porém, como não dispomos de espaço, vou me limitar, primeiramente, a comentar o desempenho eleitoral de “Um corpo que cai” que, vale dizer, não é a primeira vez que comparece ao cânone. Na verdade, apareceu pela primeira vez em 1982 como o sétimo colocado, e não parou mais de ser indicado, nem de subir: subiu ao quarto lugar em 1992, e subiu um pouco mais, para a segunda posição, em 2002; sua chegada ao topo da lista parece ter, digamos assim, uma certa lógica interna.

E há mais: o fato mesmo de “Um corpo que cai” não ter estado entre os eleitos antes de 1982 é explicável, já que, desde o início dos anos sessenta, o filme (num pacote de mais quatro) ficou, por questões de ordem jurídica, embargado, até a data da morte de Hitchcock, em 1980, quando só então pôde ser reprisado para o grande público. Naturalmente, sem ser visto, ou revisto, dificilmente seria votado.

Sobre outros filmes na lista, vai um breve comentário.

“Cidadão Kane” não esteve na primeira eleição (o primeiro lugar de 1952 foi “Ladrões de bicicleta”), provavelmente porque os entraves da Segunda Guerra retardaram sua exibição na Europa e no resto do mundo, porém, desde 1962, como já dito, tomou conta do topo da lista, como se nunca mais fosse dele sair (no total, cinco vezes). Um caso curioso é, com certeza, o do filme do francês Jean Renoir, “A regra do jogo”, o único a ter estado em todas as sete eleições da Sight & Sound, e isto em situação invejável: começou em décimo lugar em 1952, depois do que conquistou um quase invariável segundo lugar, bem coladinho a “Cidadão Kane”, de modo que, se fosse para julgar pela freqüência de segunda posição, o indicado atual seria ele, e não “Um corpo que cai”. Mas, de longe, o caso mais intrigante é o do documentário do russo Vertov, “Um homem com uma câmera” (1929) que, pela data de produção, poderia ter estado em qualquer das eleições anteriores, e nunca esteve, ou melhor, nunca tinha estado: é, assim, o grande novato, ocupando, como se vê, o oitavo lugar da lista atual.

Nesta lista talvez seja interessante observar a variedade das nacionalidades (sete em dez filmes) e, mais que isso, a inclinação para o passado: vejam que o filme mais recente é de 1968 e três deles são da década de vinte, quando o cinema ainda era mudo.

Mas, enfim, será que “Um corpo que cai” merece o lugar que ocupa? Bem, o mínimo a dizer é que “Um corpo que cai” e “Cidadão Kane” são dois grandes filmes e não faz sentido contrapô-los, mas, há, além da qualidade estética, uma coisa que têm em comum – a extensão da bibliografia crítica. Com efeito, junto com “Cidadão Kane”, “Um corpo que cai” é um dos filmes mais estudados em escolas de cinema e adjacências, e sobre o qual mais se escreveu.

À guisa de homenagem, aqui repasso alguns pontos críticos e interpretativos que, a essa altura, já não sei se são meus ou alheios.

Sobre a produção do filme, digamos primeiramente que tudo começou na França, em 1952, quando o escritor Pierre Boileau publicou o seu romance “Celle que n´était plus” (´A que não era mais´) e, no ano seguinte, ouviu dizer que Hitchcock teria lido e demonstrado interesse em filmar. Quem, dois anos depois, filmou foi o cineasta também francês H. G. Clouzot (Cf. “Les diaboliques”/“As diabólicas”, 1955), mas, o fato é que Boileau, um fã de Hitchcock, não perdeu as esperanças de ter uma obra sua vertida para a tela pelas mãos do mestre do suspense.

Para tanto, passou a redigir, junto com seu parceiro de escrita Thomas Narcejac, uma estória que pudesse se dizer a mais hitchcockiana possível. E inventou esse detetive que tem medo de alturas e por isso se torna presa fácil para um ardiloso plano de assassinato conjugal. A estória toda, chamada “D´entre les morts” (´dentre os mortos´), se passava em Paris, com um desenlace trágico: descobrindo a trama toda no final, o detetive estrangulava a mulher que o envolvera no caso e por quem se apaixonara.

E Boileau conseguiu o que queria: o livro chegou a Hitchcock que, comprado os direitos de filmagem, o “desenhou” (em termos modernos, lhe fez a ´storyboard´); segundo consta, o roteirista contratado para o processo de adaptação, Samuel Taylor, ao invés de ler o romance, bolou o roteiro em cima da storyboard de Hitchcock. De qualquer forma, na adaptação, muda-se o cenário, de Paris para São Francisco, e muda-se o desenlace, com a heroína – mais simetricamente – sofrendo a mesma morte da sua vítima: a queda da torre.

O filme foi mal recebido pela crítica americana da época e Hitchcock não hesitou em pôr a culpa no elenco. Para começo de conversa, ele nunca quis Kim Novak para o papel da protagonista. Sua musa da época era Vera Miles, que, engravidando no início do projeto, não pôde participar. Novak foi a opção da Paramount e contam que, durante a filmagem toda, o cineasta não lhe dirigiu a palavra uma só vez. James Stewart foi o outro culpado, pois, na opinião do cineasta, estava, aos cinqüenta anos, muito velho para um papel romântico desse porte (Novak tinha vinte e quatro).

De “Um corpo que cai” está fora um dos elementos mais recorrentes no estilo Hitchcock, que é o humor, fator sempre atenuante das tensões ou do pessimismo. É também o único filme do cineasta em que o criminoso não é punido e a estória se finda sem soluções morais. Inspirada no “Tristão e Isolda” de Wagner, a trilha sonora de Bernard Herrman lhe completa o clima sombrio, igualmente enfatizado pelo uso da luz, que varia de intensidade em momentos chaves, um dos quais é aquele em que Judy Barton, depois de longa insistência do amante, se veste completamente de Madeleine e, envolta em luminosidade difusa, se aproxima de Scott em câmera quase lenta.

A crítica mais competente tem destacado pelo menos três aspectos na estruturação de “Um corpo que cai” – a duplicação de situações ou personagens, cuja matriz reside na figura dupla de Madeleine/Judy Barton; o motivo gráfico recorrente da espiral, que, mais obviamente, está na abertura e no pesadelo de Scott, como também no formato da escada que conduz ao crime; e a freqüência de espelhos ou imagens refletidas, por exemplo, aquelas que confundem as figuras femininas: Carlota, Madeleine, Judy e a amiga de Scott, Midge. Tudo isso, evidentemente, homologando o tema da vertigem (titulo original: ´vertigo´) que, muito mais que um mero fator patológico, desencadeador da trama, adquire, no conjunto, uma dimensão metafísica.

Uma questão que se levanta com grande pertinência sobre “Um corpo que cai” é a sua qualidade onírica, de fato, um dos seus fascínios sobre a espectação.

Deve ser essa qualidade onírica que faz com que nós não nos incomodemos com as inverossimilhanças do enredo.

A primeira e mais óbvia é que um crime seja planejado e executado com sucesso nas circunstâncias em que foi – um homem lança, da torre de um convento, o corpo desfalecido da esposa e depois de todo o burburinho lá embaixo, desce acompanhado de uma parceira que se vestira tal e qual a esposa, para ludibriar um detetive que, sofrendo de acrofobia, não pudera subir até o topo da torre.

Ora, o senso comum nos diz que aquele lugar – o topo da torre de onde “se jogara” a suposta suicida – seria o primeiro a que acorreriam curiosos (para não dizer, a polícia)… e no entanto, nunca ouvi ninguém reclamando dessa falta de verossimilhança, e fico pensando o quanto é impressionante como o filme de Hitchcock ludibria o espectador e passa por cima de uma improbabilidade perigosa num gênero como o thriller. Sim, não há dúvidas: a lógica é a dos sonhos, que – se sabe – não precisam de lógica.

Outro caso é o do inexplicável desaparecimento momentâneo de Madeleine no quarto do hotel McKittrick. Naquela tarde, Scott, que a perseguia havia dias, a vê na janela do hotel, entra, sobe até o quarto dela, no terceiro andar… e lá, completamente estarrecido, não encontra ninguém, nem encontrara ao subir as escadas. Evaporação? Certo que, por enquanto, Hitchcock queria nos fazer crer (e a Scott também) que estávamos diante do sobrenatural, porém, quando o filme termina sabemos que não vimos um horror movie, e sim, um policial e a questão fica sem explicação. De novo, sonho!

De minha parte, tudo em “Um corpo que cai” me fascina, mas um aspecto que aqui quero destacar é o modo pelo qual a narração se processa, fornecendo e/ou sonegando informação diegética no momento certo, e disso retirando um grande efeito. Para tanto, vou mencionar três momentos especiais no enredo que, para fins de análise, chamo respectivamente de “A sós com Madeleine”, “A sós com Judy Barton” e “O colar no espelho”.

Como não tenho certeza se o leitor guarda na memória o filme como o guardo, reconstituo parte da estória.

O detetive aposentado John Ferguson, mais conhecido por Scott (James Stewart), é procurado por um antigo companheiro de faculdade, Gavin Elster (Tom Helmore), para seguir a sua esposa, Madeleine (Kim Novak), que, segundo consta, vem manifestando sintomas de loucura, com inclinação ao suicídio. Aparentemente Madeleine está sendo perseguida pelo espírito de uma ascendente sua, Carlotta, que se suicidara na mesma idade que ela tem agora.

Sofrendo de acrofobia, Scott reluta, mas termina aceitando o trabalho que, de início, consiste em seguir a mulher pelas ruas de São Francisco. Ocorre que, como temido, Madeleine tenta suicídio, jogando-se nas águas frias da Baía, sendo salva por Scott que a leva para casa, e, a partir daí, inicia-se e desenvolve-se entre os dois uma relação de amizade/amor… Até a próxima tentativa de suicídio da mulher, desta vez bem sucedida, quando ela se joga da torre do Convento São João Batista, sem que Scott tenha podido evitar: sua acrofobia não lhe permitiu escalar todos os batentes da enorme escada em espiral.

Scott entra em depressão e o tempo passa. Um belo dia, recuperado do trauma, mas nem tanto, ele encontra essa moça pobre e meio brega, que mora num apartamento modesto, muito parecida com Madeleine, que diz se chamar Judy Barton (a mesma Kim Novak).

Bem, creio que esta reconstituição parcial já foi suficiente para refrescar a memória do leitor, e com isso, passo a meu comentário do foco narrativo, naqueles três momentos que denominei acima.

Comecemos com “A sós com Madeleine”.

Scott salvara a esposa do amigo e a trouxera para casa; trocara-lhe as vestimentas e, no momento, ela repousa na cama, no quarto de Scott, que lhe explica o que houve. O telefone toca, Scott atende e, depois disso, sai, fechando a porta do quarto atrás de si. Neste momento, estamos ´a sós com Madeleine´ que – só saberemos bem mais tarde – não passa de Judy Barton, desempenhando o papel da suicida. O momento dura apenas segundos, e não muitos. Por que? Porque se durasse mais, desvendaríamos a trama no começo do filme. Judy fingia para Scott, mas, por que, a sós entre quatro paredes de um quarto fechado, continuaria fingindo? Resposta: porque, se Scott não a vê, nós a vemos, daí a pressa da narração em tornar o momento veriginosamente breve.

Segundo momento “A sós com Judy Barton”.

Scott acabara de avistar, nas calçadas de São Francisco, essa moça incrivelmente parecida com a falecida Madeleine e a segue até o seu modesto apartamento. Os dois conversam e, com alguma dificuldade, Scott a convence a jantarem juntos. Quando Scott vai embora, estamos ´a sós com Judy Barton´ e, para a nossa surpresa, este momento, ao contrário do anterior, não é breve. Rosto em close, Judy nos olha de frente e aí sua memória nos faz testemunhar, em linguagem visual, tudo o que realmente acontecera na Torre do Convento de São João Batista.

Agora o crime de Elster e a participação de Judy nos são conhecidos, mas, atenção, a informação nos foi generosamente fornecida, porém, não a Scott, que, depois de haver duramente transformado Judy em uma cópia fiel de Madeleine, continua ignorando a verdade. E é aqui que entra o terceiro momento, “O colar no espelho”.

Apaixonado e feliz, o casal se apronta para sair – mais um jantar no restaurante Ernie´s, onde Scott uma noite viu Madeleine, pela primeira vez – quando Judy pede a Scott que lhe ajude na tarefa de colocar o colar no pescoço. Ele se levanta, vai até a moça, que se olha no espelho, e por trás dela, tenta abotoar o belo colar. Abotoada a jóia, ele dirige o olhar para o espelho e, só neste momento, divisa pelo espelho, no colo alvo de Judy, a jóia em sua completude, o mesmo colar que um dia pertencera à falecida Madeleine. É neste instante, e nunca antes, que a informação, a nós fornecida pela memória visual de Judy, chega a Scott. E é só nesse instante que Scott descobre que sua acrofobia fora usada para a consumação de um mais que ardiloso plano de assassinato. Como ele, descartando o jantar no Ernie´s e de volta à torre fatídica, dirá mais tarde a Judy: ´algo que nunca se deve guardar é o souvenir do crime´.

Esses três momentos são chave (vários sentidos da palavra) dentro do filme e são eles que o tornam uma estrutura vertiginosamente tripartite, separando eles três seções bem distintas da narrativa, que, para fins didáticos, poderíamos chamar assim: (1) perseguindo Madeleine, (2) transformando Judy em Madeleine, e (3) desvendando o mistério. Como estamos cansados de saber, um sonho também é narrativo.

Teria um pouco mais a dizer, mas, fico por aqui, acreditando que este comentário eventualmente poderá ser útil aos que – por causa da Sight & Sound ou não – vão querer revisitar a obra prima de Hitchcock.

Em tempo: o título desta matéria é obviamente uma brincadeira com o título original de “Um corpo que cai”: “Vertigo”.