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Ainda Truffaut

3 nov

Um velho sonho do cineasta francês François Truffaut era rodar um filme sobre a França ocupada – tempo em que ele era criança. Outro sonho igualmente caro era rodar um filme sobre os bastidores do mundo teatral.

Como está contado em sua biografia (Conferir livro de Antoine de Baeque, Record, 1998) em 29 de abril de 1979, ele adentra o escritório de sua colega de métier, a roteirista Suzanne Schiffman, com dois dossiês debaixo do braço, um sobre a Ocupação, o outro sobre o Teatro, e vai proclamando, decisivo: “Vamos fazer um filme sobre os dois”.

A partir desse momento, as mangas arregaçam-se e, no ano seguinte, já estreava, nos cinemas de Paris e do mundo, o filme “O último metrô” (“Le dernier métro”, 1980) – recentemente exibido nos cinemas do Manaíra Shopping, na Mostra Truffaut, a que me referi em artigo anterior.

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O título deve-se ao fato de que, na Paris sob o jugo alemão, o cidadão não podia perambular tarde da noite, e onze horas era o horário do último metrô, que os espectadores de teatro e cinema, ou frequentadores de boates e bares, deviam tomar. De forma que os espetáculos deviam terminar bem antes das onze, para a comodidade de todos.

Esse cuidado com horários tem-se no Teatro Montmartre, dirigido pela Sra Marion Steiner (Cathérine Deneuve), desde que seu esposo, o judeu Lucas Steiner (Heinz Bennent), fugiu para a América do Sul. As atividades do teatro são observadas de longe e de perto pelo crítico germanófilo Daxiat (Jean-Louis Richard), porém, o que o crítico espião não sabe é que o Sr Steiner nunca deixou Paris: sobrevive escondido no porão do teatro, fato só conhecido da esposa, e mais ninguém.

Quando o filme inicia-se, a companhia teatral está ensaiando as primeiras cenas de uma nova peça, que promete ser um sucesso, “A desaparecida”. A atriz principal é a própria Marion, e um novo ator em ascensão foi contratado para o papel masculino, e acaba de chegar: o mulherengo convicto Bernard Granger (Gérard Depardieu).

Depardieu e Deneuve.

Depardieu e Deneuve.

A estória desenrola-se em três espaços: o palco onde encena-se a peça; o porão em que Steiner leva sua vida subterrânea de “prisioneiro”; e as ruas da cidade onde as fardas alemãs enchem a vista e onde o termo ´judeu´ é pronunciado como se obsceno fosse.

Embora, no grosso da estória, prevaleça o triângulo amoroso que será formado, mais tarde, por Marion (a esposa), Steiner (o marido) e Bernard (o amante), a narração abarca praticamente todos os envolvidos na atividade teatral, do iluminador ao garoto que é convidado para fazer uma ponta, passando pelo diretor sempre indeciso e pela figurinista lésbica que se envolve com uma das atrizes secundárias. E nisso, chega a ser uma lição de ribalta.

Sobre “O último metrô”, em entrevista à crítica Anne Gillain, Traffaut confessou uma vez que, depois de dezenove filmes realizados, era esperável que conceitos ou imagens dos anteriores recorressem. E, de fato, o filme em questão nos remete, de forma bem direta, a duas de suas realizações mais marcantes: “A noite americana” (1973), sobre os bastidores do mundo cinematográfico, e “Jules et Jim” (1961), sobre as ressonâncias emotivas de um idêntico triângulo amoroso.

A polícia nazista nos bastidores do Teatro.

A polícia nazista nos bastidores do Teatro.

Embora em cores, o filme traz uma fotografia escura (de Nestor Almendros) que reflete o clima de obscurantismo na França ocupada, com seu moralismo dúbio, onde, por toda parte, paira o fantasma feio do colaboracionismo. Neste sentido, o porão do Sr Steiner ganha foros simbólicos, com suas velas e seu silêncio obrigatório.

À parte a questão da fidelidade à história, no plano da expressão, verdade estética prevalece sobre realismo, como, aliás, é comum acontecer em Truffaut. Por exemplo: sabemos que, no verão europeu, os dias são mais longos, mas Truffaut faz noite logo cedo, pois a noite, no filme é um tema, e não uma mera etapa do dia. Outro exemplo: o dispositivo elétrico que Steiner engendra para, do porão, poder escutar tudo o que se fala no palco do teatro pode não convencer o espectador mais afeito ao realismo tout court, porém, Truffaut não resiste em, com ele, incrementar o drama amoroso que fará esse mesmo espectador aceitar, mais tarde, quando Steiner disser a Bernard que sua esposa, Marion, está apaixonada por ele, Bernard.

No geral, a vida dos franceses sob o jugo alemão parece ilusória, como ilusória é a ficção teatral, e, nesse aspecto, a roteirização soube criar um desenlace apropriado (não vou contar) que, por um tempo, “ilude” o espectador como um passe de mágica, para só depois lhe oferecer a verdade.

Belo filme que, no seu tempo, arrebatou nada menos que dez Césars. Mui merecidamente.

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Bertrand e Rebeca

13 set

Experiência agradável ver, em tela grande, “Rebeca, a mulher inesquecível” (1940), o primeiro filme americano do mestre Alfred Hitchcock.

O filme foi exibido no Cine Bangüê, quinta-feira passada, dia 8, ocasião em que também foi lançado o livro do fotógrafo e cineasta Bertrand Lira, “Cinema Noir – a sombra como experiência estética e narrativa”.

Coube-me a missão dupla de apresentar livro e filme, mas, como tive pouco tempo para a apresentação, aqui completo o que faltou dizer.

Parte de sua tese de doutorado, o livro de Bertrand analisa o funcionamento artístico da fotografia no filme noir, e o faz à luz das propostas contidas na obra de Gilbert Durand, “As estruturas antropológicas do imaginário”, onde se investiga a simbologia das sombras na cultura universal.

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Grade teórica escolhida com sabedoria e aplicada com sensatez e competência. E vejam que Bertrand não escolheu bem somente a grade teórica, como também o corpus. Para close reading, privilegiou cinco filmes que foram particularmente importantes na formação do gênero, a saber “Relíquia macabra” (John Huston, 1940), “Almas perversas” (Fritz Lang, 1945), “Envolto nas sombras” (Henry Hathaway, 1946), “Maldição” (Lang, 1950) e “A marca da maldade” (Orson Welles, 1958).

Os filmes de Huston e Welles são emblemáticos no sentido de estarem nos extremos do período atribuído à vigência do cinema noir. Contando a estória de uma secretária que ajuda o patrão a se livrar de uma acusação criminosa, o filme de Hathaway ilustra o gênero de modo exemplar. E por fim, “Almas perversas” e “Maldição” são de autoria de uma figura chave, Lang, alemão de origem que foi, nos anos vinte, cabeça do Expressionismo e que, de modo pessoal, trouxe para Hollywood as sombras desse movimento artístico.

Em suma, um belo livro, bem montado e bem escrito, que deve ficar como referência para os estudiosos da arte cinematográfica, em nível local e nacional.

Laurence Olivier e Joan Fontaine

Laurence Olivier e Joan Fontaine

Como já disse, adorei ver “Rebeca” em tela grande, porém, a meu ver, o ideal seria que o filme escolhido para exibição tivesse sido um daqueles estudados no livro de Bertrand. Para o espectador presente à sessão e futuro leitor do livro, “a aula”, então, teria sido completa.

A rigor, “Rebeca” nem é um noir típico. Como se sabe o filme noir era “B”, ou seja, tinha orçamento baixo, o que, aliás, dava a seus realizadores mais liberdade para criar, sem a fiscalização que recebiam os projetos de alto custo. Eram filmes para completar cardápio, geralmente curtos (entre 70 a 90 minutos), exibidos em dias de semana, entre segunda e quarta-feira. O cenário era quase sempre urbano e noturno, cheio de sombras, iluminação oblíqua, e trilha sonora desconcertante, para dar certo com a temática disfórica. Tratando de crime, sedução, culpa, e castigo, seus personagens podiam ser bandidos, policiais ou o cidadão comum envolvido em trama maldosa.

“Rebeca”, por sua vez, foi rodado com pompa e circunstância.

O grande produtor americano David Selznick convidou o grande cineasta inglês Hitchcock, e lhe ofereceu condições privilegiadas para filmar, em seus estúdios hollywoodianos, um romance que estava virando best-seller, e isto com um elenco de primeira: o shakespeariano Laurence Olivier, a estrela em ascensão Joan Fontaine, e até os coadjuvantes eram chique: o refinado George Sanders e a impressionante Judith Anderson, que faz a governanta mais assombrosa da história do cinema, no papel da Sra Danvers.

Capa do livro de Bertrand e convite ao lançamento.

Capa do livro de Bertrand e convite ao lançamento.

Selznick havia acabado de produzir o estrondoso “E o vento levou…” (1939) e ainda estava na tarefa da distribuição e exibição, quando Hitchcock – que havia muito já ganhara prestígio internacional com suas produções inglesas – aportou em Hollywood, com um contrato e a perspectiva de grande trabalho em comum.

O filme começa com o casamento de uma moça pobre com um aristocrata, mas esse cheiro de “Cinderela” vai, aos poucos, sumindo e tomando os tons de terror a que nos conduzem, tanto o cenário (a suntuosa mas funesta mansão de Manderley), como o mistério da trama, suscitado pelo espírito da ex-esposa, e encarnado de modo concreto, na governanta.

Segundo a biógrafa de Daphne du Maurier – a autora do livro adaptado por Hitchcock – antes de escrever “Rebeca”, ela havia lido os originais de um certo livro intitulado “A sucessora”, enviado para a sua editora, e que contava mais ou menos a mesma estória. A autora? A brasileira Carolina Nabuco. Mas este é outro problema, que fica para outra hora.

Por enquanto é bom lembrar: “Rebeca” continua em cartaz no Bangüê, e o livro de Bertrand está à venda na Livraria do Luiz e na Livraria do CCHLA, na UFPB.

Patroa e governanta, em "Rebeca, a mulher inesquecível" (1940)

Patroa e governanta, em “Rebeca, a mulher inesquecível” (1940)