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Paris pode esperar

5 dez

Sabe aquele filmezinho que começa leve, prossegue leve e vai leve até o final? Além de leve, bonito, charmoso e gostoso. Falo de “Paris pode esperar” (“Paris can wait”, 2016)

O roteiro é suave como uma pluma. Com a estrutura frouxa de um road-movie, conta a estória desse casal de meia idade que, num automóvel particular, se desloca do Sul da França em direção a Paris. Americana e casada, Anne é uma mulher atraente, cujo esposo, produtor de cinema, a espera na capital francesa. Francês, solteiro, charmoso e sedutor, Jacques é sócio do esposo dela.

Uma viagem de amigos, portanto.

Viagem para ser feita em sete ou oito horas, se não houver problemas. Bem, problemas não os há, mas para um francês experiente como Jacques… não é nada difícil inventá-los. E é o que vamos ter na viagem o tempo todo – bem entendido, maravilhosos problemas que vão estender o percurso a três ou quatro dias.

Coisas assim: tomar desvios de estrada para conhecer as belas paisagens da província francesa; contornos para ver as ruinas que os imperadores romanos construíram na velha Gália; interrupções para visitar feirinhas públicas onde se compram os melhores temperos; atrasos para frequentar castelos antigos que hoje funcionam como restaurantes, que são pontos da alta culinária francesa, lugares sofisticados onde se comem e bebem as melhores comidas e os melhores vinhos da terra…

Para encanto do cinéfilo, uma das cidades visitadas no caminho é Lyon, terra dos inventores do cinematógrafo, Auguste e Louis Lumière. E Anne, junto com a gente, tem direito a uma pequena aula de cinema primitivo, enquanto, noutro compartimento do Museu Lumière, Jacques e a diretora do Museu confabulam.

São esses “problemas” que o casal vai enfrentando ao longo do tortuoso caminho, todos cuidadosamente providenciados por Jacques e, com certa relutância, mas não tanta, aceitos por Anne. Sim, a coisa toda tem o desenho sofisticado de um longo gesto de sedução – nunca explicitado, mas tampouco recusado.

A ideia subjacente aparece em alguns pontos do diálogo. Por exemplo: meio preocupado com a duração da viagem, e falando ao telefone com Anne, o esposo a alerta, meio brincalhão: “cuidado com Jacques, ele tem a fama de conquistar as esposas dos amigos”. Ela cala, ri, e desliga.

E qual seria mesmo a ideia subjacente? Quem a coloca é próprio Jacques para sua companheira de viagem. Vocês americanos – explica ele, com jeito filosófico – são bem conservadores e gostam de preservar a ideia de família, marido, mulher e filhos. Nós franceses também, só que somos mais práticos (sic) e levamos muito em conta o amor, a experiência amorosa, as oportunidades que a vida nos ofrece. A partir daí, vai sugerindo que os casados, homens e mulheres, podem ter relações fora… sem que o mundo desabe. A rigor, Anne já estava a par da ideia subjacente, pois sem que Jacques a visse, ela percebeu que ele, se ajeitando por trás de uma porta, havia transado com a diretora do Museu Lumière, apenas sua amiga.

Na despedida a diretora do Museu a parabeniza pela companhia de Jacques, e meio à surdina maliciosa, lhe diz que…”aproveite”.

Como fizera ao telefone com o marido, ela ouve, ri e cala.

Quem cala consente? Que nada. Chegados a Paris, o sutil e longo jogo sedutor (se é que esta é a expressão) de Jacques a Anne não vai, em termos práticos (sic), muito além de um ligeiro beijo, e o filme se fecha com Anne, só no seu apartamento, se deliciando com o último ´cadeau´ do amigo – uma chique caixa de chocolates em formato de rosas. Mastigando e rindo como se estivesse êxtase, seu olhar malicioso nos avisa que a estória acabou.

O filme é uma homenagem dupla: à França provençal (afinal, quase tão sofisticada quanto a urbana) e ao ´French way of life´, com tudo que ele tem de atraente e perturbador.

De minha parte, tive um gozo adicional depois da sessão: é que fui checar a ficha técnica e descubro que um filme desses, belo, sutil delicado foi rodado por uma idosa de 80 anos. Sim, em seu primeiro longa de ficção, ninguém menos que a Sra Eleanor Coppola – esposa octagenária do cineasta de “O poderoso Chefão”.

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A soma de todos os ódios

18 ago

A ocasião em que, nos Estados Unidos dos anos cinquenta, passou a vingar a lei federal que obrigava as escolas de segundo grau a aceitarem a matrícula de alunos de cor ficou conhecida como “o Dia da Integração”.

Ora, às vésperas desse dia, chega a essa pequena cidade do sul americano, racialmente segregada como muitas outras, um desconhecido misterioso que se hospeda no hotel local, informando que deve ficar por duas ou três semanas. E logo saberemos: ele veio com o fim precípuo de incitar a população do lugar a posicionar-se contra a lei e rechaçar os estudantes negros de suas salas de aula.

Um filme que começa assim, não dá para parar de ver, dá? Pois é, nos States dos anos cinquenta/sessenta, especialmente no Sul racista, o clima era tenso por toda parte, e, em cada tomada do filme “O intruso” (“The intruder”, 1962), o espectador sente isso: que está no meio de um paiol prestes a explodir, um paiol a que essa figura misteriosa – a mando não se sabe de quem – veio disposto a atear fogo.

Adam Cramer, a soma de todos os ódios...

Adam Cramer, a soma de todos os ódios…

Adam Cramer (esse o nome do ´intruso´) fala à população em nome de uma ´democracia limpa´ (leia-se: sem negros) e acusa comunistas e judeus de estarem por trás da Lei da Integração.

Os habitantes do lugar o ouvem e aplaudem, e os ânimos vão se acirrando cada vez mais. Até se partir para a ação, que é o que Cramer visivelmente tem em mente. Com efeito, no dia seguinte, quando os jovens negros deixam as suas favelas e, de livros e cadernos debaixo dos braços, se dirigem à Escola da cidade, uma multidão branca, ostensivamente fechando a entrada da Escola, encena um amplo e ruidoso protesto, com cartazes, faixas, e gritos agressivos.

Antes de Cramer, as pessoas brancas do lugar, indagadas sobre a Integração, respondiam, com uma ambiguidade sintomática, que não gostavam da ideia, mas que a aceitavam, já que agora era lei. Depois dele, o conceito de lei dissipa-se e o ódio toma a dianteira.

A massa agitada pelo "intruso"...

A massa agitada pelo “intruso”…

Não sei até que ponto o roteiro baseou-se em fato acontecido, porém, é evidente que a construção do maligno protagonista é uma chave simbólica na estrutura semântica do filme – não tenham dúvidas de que ele, Adam Cramer, não é só uma pessoa; ele é uma condensação ideológica, “a soma de todos os ódios”.

Enfim, o clima de agitação na cidade cresce ao ponto de o seu mentor perder o controle da situação, mas, não quero contar mais, e fica a sugestão para o leitor assistir a esse forte e grande filme que o mestre Roger Corman dirigiu em momento de corajosa inspiração.

Estranhamente – ou talvez não – o filme de Corman foi um fracasso de bilheteria. Algum tempo depois da estreia a produção chegou a mudar o título, primeiro para o idiomático “I hate your guts” (ao pé da letra: ´odeio suas tripas´) e mais tarde para o mais abstrato “Shame” (´vergonha´), mas essas medidas em nada melhoraram a resposta de público.

O interessante é que outros filmes denunciando o racismo tiveram, antes dele, boas bilheterias, como “Acorrentados” (Stanley Kramer, 1958), “Imitação da vida” (Douglas Sirk, 1959) e “Audazes e malditos” (John Ford, 1960).

A essa altura dos acontecimentos, não sei quem ainda lembra quem é Roger Corman. Chamei-o acima de mestre porque, de fato, ele, com sua produtora independente – provavelmente a maior no país – e sua garra de ativista artístico, formou uma escola de cinema que ensinou a toda uma geração. Francis Ford Coppola, Ron Howard, Martin Scorsese e James Cameron estão entre os seus alunos, além de atores como Peter Fonda, Jack Nicholson e Robert De Niro.

Nem todo mundo ´engole´ Cramer: o jornalista desconfiado.

Nem todo mundo ´engole´ Cramer: o jornalista desconfiado.

Seus grandes sucessos de direção foram filmes de terror e ficção científica, muitos deles adaptações de Edgar Allan Poe, com o seu ator preferido, Vincent Price.

Para mim, por exemplo, o que da filmografia de Corman guardo são horror movies que vi na adolescência e que me tiravam o sono com seus cenários mal-assombrados e seus personagens doentios e atormentados. Engraçado, filmes que, mais tarde, na vida adulta, me conduziriam à leitura de Poe, como “O solar maldito” (1960) que adaptava “A queda da casa de Usher”.

Neste aspecto, ‘O intruso”, com sua ênfase na ideologia, seria um Corman atípico, mas acho que nem tanto. Em certa medida, também é um filme sobre o medo (ódio e medo, como sabemos, andam de mãos dadas) – um medo mais concreto do que o que tirara o meu sono de adolescente, mas de todo jeito, medo. Além do mais, é o próprio Corman quem afirma  (cito): “em todos os meus filmes existe, sim, uma subcamada política”.

Sobre “O intruso”, não hesito em afirmar: um filme (tristemente) atual… e, pior, universal.

Protestos brancos em frente à Escola.

Protestos brancos em frente à Escola.

Tudo sobre os gringos

11 fev

Quem são os americanos, afinal de contas? Gente materialista e obtusa que só pensa em dinheiro e poder? Um povo laborioso e empreendedor que construiu a primeira democracia do planeta e a maior potência econômica do mundo? Uma nação ambiciosa e autoritária que vive de intervir nos destinos alheios? Uma civilização liberal que acolhe pensadores de toda parte do mundo? Um país etnocêntrico e racista que não tem visão para a alteridade? Uma raça de gênios que já abocanhou 320 prêmios Nobel?

Enfim, seriam os Estados Unidos o leito maligno do capitalismo selvagem, ou “o país das oportunidades”?

Quem nos convida a refletir sobre esse assunto instigante é o historiador brasileiro Antônio Pedro Tota, no seu livro “Os americanos” (2009), na verdade, um item na série “Povos e Civilizações” que, mui oportunamente, a Editora Contexto vem publicando.

Nada mais complicado – e também arriscado – do que definir uma civilização, o que, aparentemente, só poderia ser feito através de estratégias conceituais. Se assim é, a de Tota foi recontar a história dos Estados Unidos, do começo até hoje, mas isto, driblando a historiografia tradicional e atacando a questão com um enfoque novo e interessante.

Assumindo o recurso criativo do ensaio, Tota privilegia uma abordagem que se equilibra entre o pessoal e o imparcial, e que torna a leitura, não apenas instrutiva, mas também saborosa, às vezes divertida.  Havendo residido nos Estados Unidos, não hesita em incluir experiências particulares, que são eventualmente contrapostas a experiências alheias, retiradas de trechos obscuros da bibliografia consultada.

No geral, o seu enfoque é predominante comparativo, e Tota não se incomoda de quebrar a cronologia da narração para confrontar fenômenos equivalentes ou tematicamente relacionados, embora distantes no tempo (exemplo: a escravidão negra e a eleição de Obama); do mesmo modo que desmonta o espaço (no caso, o território americano) para cotejar fatos ou atitudes americanas com – por exemplo – fatos ou atitudes brasileiras.

Um dos cotejos que opera com certa graça é o da realidade com a ficção. Com freqüência, marcas de produtos comerciais, quadrinhos, pinturas, letras de música, desenhos animados, propagandas e slogans são evocados como textos que iluminam problemas sociais, econômicos e/ou políticos de modo esclarecedor.

Às vezes as suas explicações são verdadeiras aulas de semiótica, como quando convida o leitor a considerar a ironia na expressão “Cuba Libre”, a famosa bebida cubana, surgida ao tempo do ditador Batista, e composta, como se sabe, do rum autenticamente cubano com a americana Coca Cola. Tudo isso, para ilustrar o nada discreto intervencionismo dos Estados Unidos na ilha vizinha.

Um cotejo usual é com o cinema, a quem, aliás, Tota dedica um capítulo final. Mas, na verdade, o interessante não é vê-lo tratar do “país do entretenimento”, coisa já sabida do leitor; o mais interessante é quando, ao longo do livro, Tota evoca cenas ou sequências cinematográficas para explicar a formação do país.

Assim, os filmes de Frank Capra lhe servem para ilustrar a fé do povo americano no New Deal de Roosevelt, o pacote governamental que teria tirado o país da depressão de 29. Às películas “Adorável vagabundo” e “A mulher faz o homem” Tota dedica uma discussão da vida americana, como se os personagens fílmicos fossem verídicos. Do mesmo modo, as ficções científicas dos anos cinqüenta (mais o “Doutor Fantástico” de Stanley Kubrick) ajudam o leitor a entender a guerra fria e o marcartismo.

De modo extremamente pertinente, os faroestes de John Ford exemplificam pontos chave, não apenas na conquista do Oeste, mas noutra conquista maior, a dos direitos civis, que mais tarde desaguariam na instituição da democracia, num país que sequer unidade territorial possuía. Citado em várias instâncias, o personagem Ransom Stoddard (James Stewart), o advogado que vem ao Oeste bravio com um livro de direito debaixo do braço, parece ser, para Tota, uma figura tão significativa quanto qualquer líder real da história política americana.

Na mesma linha comparativa, “O poderoso chefão I” de Francis Ford Coppola é citado a propósito da imigração do começo do século XX, e “Touro indomado” de Martin Scosese, a respeito da obsessão americana por entretenimento.

Os paradoxos da vida americana despontam em toda parte e enriquecem a discussão. Um exemplo pequeno, mas bem sintomático: quem diria que o grande pensador, estadista e democrata Abraham Lincoln planejou – assim que a abolição da escravatura estivesse devidamente confirmada – enxotar a população negra do país, (cerca de quatro milhões de ex-escravos!)  para a nossa Amazônia, e só não o fez por causa da reação negativa do governo brasileiro?

Muito bem explicado está por que é que os avançados democratas de hoje eram republicanos, e os retrógrados republicanos do momento, eram democratas no passado. Pois é, antes, durante e mesmo um pouco depois da Guerra de Secessão, os aristocráticos ruralistas do Sul, que defendiam o sistema de escravidão, se auto-denominavam “democratas”, e a população esclarecida do Norte que, antenada com Lincoln, lutou pela abolição, se auto-intitulava “republicanos”. Pode?

Um tópico que não podia faltar é o da opinião alheia sobre os americanos. A esse respeito Tota argumenta que “o antiamericanismo anda de mãos dadas com o americanismo”. E cita o caso do Líbano onde, segundo pesquisa internacional, 60% da população é francamente hostil aos Estados Unidos, e onde, no entanto, o consumo de filmes hollywoodianos é avassalador. E, claro, o leitor sabe que o Líbano é apenas um caso entre muitos, no meio dos quais está o Brasil.

Correndo as páginas de “Os americanos”, em momento algum o leitor sente que está lendo um maçante Livro de História. Tudo nele parece mais um depoimento inteligente, vivaz, diversificado, rico, profundo – um depoimento de quem vivencia na pele as questões tratadas, no caso a pele de um brasileiro, ao mesmo tempo fascinado e intrigado (vários sentidos da palavra ´intrigado´) com esse povo tão antropologicamente diferente de nós.

À guisa de conclusão, Tota levanta algumas palavras que poderiam resumir o perfil antropológico do povo americano: “fé”, “perseverança”, “segurança”, “patriotismo”, “nacionalismo”, “eficiência”, “engenhosidade”, “autoestima”, “excepcionalidade” – explicando cada uma na perspectiva do já exposto ao longo do livro. A impressão que o leitor tem, contudo, é que algumas dessas palavras podem estar no corpo antropológico de outros povos: vejam o caso da última: será que todo povo, se comparado a outros, não se revela excepcional?

De minha parte, senti falta de uma discussão da expressão “o sonho americano”, conceito tão inerente à realidade dos Estados Unidos. Considerem que nunca se ouviu falar do “sonho brasileiro” ou do “sonho francês”, ou do “sonho russo” e, no entanto, o sonho americano é uma expressão-conceito que faz parte da civilização desse povo: está no folclore, na literatura, na música, nas artes em geral, na política e, sobretudo, no imaginário americano, assim como o carnaval, ou o futebol está no nosso imaginário. Acho que, num livro desses, cabia uma retomada da expressão.

Em tempo: com um pouco de ironia, o título desta matéria faz referência ao título do filme americano “All about Eve”, ou seja, ´tudo sobre Eva´. Para ficar mais clara a ironia: no Brasil, a ´Eva´ do filme é “A malvada”.