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Bertrand e Rebeca

13 set

Experiência agradável ver, em tela grande, “Rebeca, a mulher inesquecível” (1940), o primeiro filme americano do mestre Alfred Hitchcock.

O filme foi exibido no Cine Bangüê, quinta-feira passada, dia 8, ocasião em que também foi lançado o livro do fotógrafo e cineasta Bertrand Lira, “Cinema Noir – a sombra como experiência estética e narrativa”.

Coube-me a missão dupla de apresentar livro e filme, mas, como tive pouco tempo para a apresentação, aqui completo o que faltou dizer.

Parte de sua tese de doutorado, o livro de Bertrand analisa o funcionamento artístico da fotografia no filme noir, e o faz à luz das propostas contidas na obra de Gilbert Durand, “As estruturas antropológicas do imaginário”, onde se investiga a simbologia das sombras na cultura universal.

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Grade teórica escolhida com sabedoria e aplicada com sensatez e competência. E vejam que Bertrand não escolheu bem somente a grade teórica, como também o corpus. Para close reading, privilegiou cinco filmes que foram particularmente importantes na formação do gênero, a saber “Relíquia macabra” (John Huston, 1940), “Almas perversas” (Fritz Lang, 1945), “Envolto nas sombras” (Henry Hathaway, 1946), “Maldição” (Lang, 1950) e “A marca da maldade” (Orson Welles, 1958).

Os filmes de Huston e Welles são emblemáticos no sentido de estarem nos extremos do período atribuído à vigência do cinema noir. Contando a estória de uma secretária que ajuda o patrão a se livrar de uma acusação criminosa, o filme de Hathaway ilustra o gênero de modo exemplar. E por fim, “Almas perversas” e “Maldição” são de autoria de uma figura chave, Lang, alemão de origem que foi, nos anos vinte, cabeça do Expressionismo e que, de modo pessoal, trouxe para Hollywood as sombras desse movimento artístico.

Em suma, um belo livro, bem montado e bem escrito, que deve ficar como referência para os estudiosos da arte cinematográfica, em nível local e nacional.

Laurence Olivier e Joan Fontaine

Laurence Olivier e Joan Fontaine

Como já disse, adorei ver “Rebeca” em tela grande, porém, a meu ver, o ideal seria que o filme escolhido para exibição tivesse sido um daqueles estudados no livro de Bertrand. Para o espectador presente à sessão e futuro leitor do livro, “a aula”, então, teria sido completa.

A rigor, “Rebeca” nem é um noir típico. Como se sabe o filme noir era “B”, ou seja, tinha orçamento baixo, o que, aliás, dava a seus realizadores mais liberdade para criar, sem a fiscalização que recebiam os projetos de alto custo. Eram filmes para completar cardápio, geralmente curtos (entre 70 a 90 minutos), exibidos em dias de semana, entre segunda e quarta-feira. O cenário era quase sempre urbano e noturno, cheio de sombras, iluminação oblíqua, e trilha sonora desconcertante, para dar certo com a temática disfórica. Tratando de crime, sedução, culpa, e castigo, seus personagens podiam ser bandidos, policiais ou o cidadão comum envolvido em trama maldosa.

“Rebeca”, por sua vez, foi rodado com pompa e circunstância.

O grande produtor americano David Selznick convidou o grande cineasta inglês Hitchcock, e lhe ofereceu condições privilegiadas para filmar, em seus estúdios hollywoodianos, um romance que estava virando best-seller, e isto com um elenco de primeira: o shakespeariano Laurence Olivier, a estrela em ascensão Joan Fontaine, e até os coadjuvantes eram chique: o refinado George Sanders e a impressionante Judith Anderson, que faz a governanta mais assombrosa da história do cinema, no papel da Sra Danvers.

Capa do livro de Bertrand e convite ao lançamento.

Capa do livro de Bertrand e convite ao lançamento.

Selznick havia acabado de produzir o estrondoso “E o vento levou…” (1939) e ainda estava na tarefa da distribuição e exibição, quando Hitchcock – que havia muito já ganhara prestígio internacional com suas produções inglesas – aportou em Hollywood, com um contrato e a perspectiva de grande trabalho em comum.

O filme começa com o casamento de uma moça pobre com um aristocrata, mas esse cheiro de “Cinderela” vai, aos poucos, sumindo e tomando os tons de terror a que nos conduzem, tanto o cenário (a suntuosa mas funesta mansão de Manderley), como o mistério da trama, suscitado pelo espírito da ex-esposa, e encarnado de modo concreto, na governanta.

Segundo a biógrafa de Daphne du Maurier – a autora do livro adaptado por Hitchcock – antes de escrever “Rebeca”, ela havia lido os originais de um certo livro intitulado “A sucessora”, enviado para a sua editora, e que contava mais ou menos a mesma estória. A autora? A brasileira Carolina Nabuco. Mas este é outro problema, que fica para outra hora.

Por enquanto é bom lembrar: “Rebeca” continua em cartaz no Bangüê, e o livro de Bertrand está à venda na Livraria do Luiz e na Livraria do CCHLA, na UFPB.

Patroa e governanta, em "Rebeca, a mulher inesquecível" (1940)

Patroa e governanta, em “Rebeca, a mulher inesquecível” (1940)

Filosofia e crime

3 set

Aos 79 anos de idade, o cineasta americano Woody Allen não para de filmar. Depois de longa peregrinação europeia, volta aos Estados Unidos e comete este “O homem irracional”, com algumas idéias e situações requentadas de filmes anteriores, seus ou alheios.

Recém contratado para o departamento de filosofia em uma universidade de Rhode Island, o professor Abe Lucas (Joaquin Phoenix) vive entediado e, em sala de aula, passa aos alunos o seu tédio. Filosofia, segundo ele, seria masturbação intelectual, e Kant, com sua noção de um mundo sem mentiras, seria um grande mentiroso, desmascarado todo dia pela realidade mais banal. Encantadas com o seu tédio e seu charme as mulheres se entregam fácil, mas, ele, depressivo, prefere roleta russa. Até o dia em que descobre a saída, e a saída é o crime perfeito… e útil. O turning point de sua vida também vai ser o turning point do filme, que, no momento dessa descoberta, passa de drama existencial a thriller.

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Um dia ele está numa lanchonete com uma aluna, e, por acaso, entreouve a conversa na mesa vizinha: uma mãe está sofrendo horrores por causa de um juiz de má fé que não lhe concede a guarda dos filhos. Pronto: nesse momento Abe decide que o mundo será melhor sem o juiz Spangling, e ele mesmo – um completo desconhecido de todos os envolvidos no caso – será o autor de um crime, não apenas perfeito, mas também ético. É claro que o fato de a vítima vir a ser um representante da justiça tem significação especial, que não lhe ocorre, mas ocorre ao espectador.

Praticado exatamente como planejado, o crime deixa o professor Abe de bem com a vida e o tédio vai embora, como se nunca tivesse existido. Até o dia em que… E o exercício de fazer thriller prossegue.

Com certeza os comentaristas de “O homem irracional” vão apontar o seu pano de fundo literário (Dostoievski, aliás, referido no diálogo), porém, a mim chamou-me a atenção a dívida do filme para com o gênero noir, em especial para com três filmes antigos que Allen com certeza conhece muito bem, embora deles possa não ter lembrado no gesto de confeccionar o roteiro.

Entreouvindo uma conversa, na lanchonete.

Entreouvindo uma conversa, na lanchonete.

Vejam bem. Há, no filme em questão, três situações dramáticas bem particulares, já construídas em três clássicos noir do passado, a saber:

(1) A disposição de praticar um assassinato baseada no fato de que o seu autor jamais será descoberto porque a vítima lhe é desconhecida, além de não ter ele interesse pessoal em sua morte (o álibi dos álibis, já que não existe o chamado “motivo”!). Tal situação já estava em “Pacto sinistro” (Alfred Hitchcock, 1951).

(2) Depois do assassinato praticado, a situação em que o autor vai se achar entre amigos que com ele fazem suposições sobre o modo como o assassino teria agido, e ele próprio, querendo ou não, é levado pela conversa a ajudar nas pistas que conduzem à solução do caso. Se vocês lembrarem bem, essa mesma situação já estava no noir “Um retrato de mulher (Fritz Lang, 1944).

(3) No decorrer das investigações, a polícia chega, erroneamente, a um outro suspeito – este com motivos para o crime – que, tudo indica, será condenado e pagará por um crime não cometido, livrando assim o verdadeiro culpado da prisão perpétua ou da pena de morte. Mais uma vez, esta situação também já esteve em um dos grandes noir do passado, “Dúvida” (Robert Siodmak, 1944).

Além desses intertextos alheios, há os próprios, por exemplo, a idéia de que tudo na vida depende do acaso, explicitamente formulada em “Match Point”. Vejam que o que vai condenar Abe à morte não será algum processo judicial, e sim, um flashlight ganho no tiro ao alvo.

Joaquin Phoenix como o professor Abe Lucas.

Joaquin Phoenix como o professor Abe Lucas.

Já afirmei alhures que Allen é um desses cineastas de estilo forte, onde as redundâncias, formais ou temáticas, são coisas positivas. Mas ora, repetições sempre trazem riscos, principalmente quando soam viciosas, ou mesmo preguiçosas.

É o caso neste “O homem irracional”, por exemplo, com as entregas amorosas entre os personagens, todas fáceis demais, como se fosse para não perder tempo de tela; como se o cineasta estivesse nos dizendo: ´vocês já viram isso em outros filmes meus e, portanto, pulemos detalhes e vamos ao que interessa´. O resultado é que os relacionamentos entre os personagens soam esquemáticos, para não dizer que o ´tédio´ da parte inicial também já soara esquemático, manjadamente woodyalliano.

No mais, é só mais um Woody Allen em nossas telas, para chatear os antipatizantes e satisfazer os fãs. Um filme mediano que nem melhora nem piora a brilhante carreira do autor.

Em tempo: “O homem irracional” (“Irrational man”, 2015) está em cartaz na cidade e no país.

O professor Abe e sua aluna apaixonada.

O professor Abe e sua aluna apaixonada.

Espectadores (1) Joaquim Inácio Brito

1 out

 

Com esta matéria, dou início a um projeto sobre recepção cinematográfica onde pretendo entrevistar, como diz o título, espectadores de cinema. Não críticos, nem cinéfilos, nem profissionais da área, mas apenas espectadores, ou seja, pessoas que adoram assistir a um bom filme e que fazem, ou fizeram, disso um hábito especial, enfim, os chamados amantes do cinema.

Eventualmente, são pessoas que nunca leram um livro de teoria fílmica, que nunca estiveram por trás das câmeras, e que nunca escreveram sobre a sétima arte. E, para quem, no entanto, o cinema tem uma importância – ou influência – avassaladora em suas vidas.

Um dos objetivos do projeto é demonstrar o quanto a recepção cinematográfica é mais complexa, mais rica e mais interessante do que aparenta à primeira vista. Para que as entrevistas pudessem render mais, senti a necessidade de arguir espectadores que já conheço e cujas reações ao cinema – idiossincráticas ou convencionais – me inspirassem questões pertinentes. De tal forma que, não apenas das respostas, mas também das perguntas, pode se deduzir um perfil do entrevistado.

Assim, inicio a série com Joaquim Inácio Brito.

"Casablanca" é um dos filmes preferidos do entrevistado.

“Casablanca” é um dos filmes preferidos do entrevistado.

 

Entre amigos, você é conhecido por não gostar de filmes com final infeliz. No entanto, em enquete que fiz para o Correio das Artes sobre o cânone pessoense de cinema, você escolheu, como os seus três mais amados, “Casablanca”, “Pacto de sangue” e “Tubarão”, filmes que estão longe de um final feliz. Como explicar a contradição?

 

Realmente, não gosto e não assisto mais a filmes com temas tristes, que abordam dissolução de família, injustiças irreparáveis, sofrimento de crianças, isso nem pensar. Agora, os três filmes aqui citados não são tristes. Em “Pacto de sangue” o final é espetacular: o corretor tinha que pagar pelo crime e pagou; Em “Tubarão”, a fera é morta e o sossego volta à praia: Já no final de “Casablanca”, Bogart é acometido de burrice patológica. Deixar Ingrid Bergman ir embora daquela forma. Meu Deus!!!
Acho que se pode dizer que o gênero que você mais ama e conhece é o noir. Há razões especiais para isso? Alguma forma inconsciente, ou talvez consciente, de identificação? Enfim, o que é que o noir tem que os outros gêneros não têm?

 

O filme noir me proporciona 80, 90 minutos de puro deleite. Sem maiores pretensões (nunca um noir ganhou nada, prêmio algum) o filme tem tiro, bandido, detetive, cabaré, loiras belíssimas, sempre com enredos de fácil percepção e entendimento. Veja bem; os críticos em suas variadas análises, afirmam que ele veio do expressionismo alemão, entre outras complicações. Eu adoro filme noir; não sei o que é expressionismo alemão e nem quero saber…

 

Sobre o problema da adaptação cinematográfica você também tem uma posição bem definida: como leitor assíduo e apaixonado da grande literatura universal, você se recusa a assistir a filmes que adaptaram obras literárias. Fale um pouco sobre essa recusa.

O nosso entrevistado, Joaquim Inácio Brito, aqui visto ao lado do cronista Gonzaga Rodrigues.

O nosso entrevistado, Joaquim Inácio Brito, aqui visto ao lado do cronista Gonzaga Rodrigues.

 

Sua colocação é um tanto radical. Não me recuso a assistir a filmes que adaptaram obras literárias. Alguns romances que considero excepcionais, entretanto, prefiro mantê-los como os pintei na imaginação e guardá-los sem a reprodução de terceiros.

 

Muitas vezes você é pego justificando a boa qualidade de uma interpretação, ou de uma música, ou de uma direção, pela conquista que tiveram do Oscar. O prêmio da Academia de Hollywood é importante mesmo?

 

Vários amigos meus, que sabem ler e escrever, esnobavam a Academia Paraibana de Letras sob as mais diferentes justificativas. No entanto, quando convidados para a imortalidade, raríssimos não aceitaram. Guardado o devido tamanho, suponho que o mesmo se verifica com o prêmio da Academia de Hollywood.

 

Em conversa, você demonstra uma invejável familiaridade com música, inclusive, referindo sempre compositores que musicaram filmes. Como você conceituaria a importância que tem a música no cinema? Pode dar exemplos?

 

Vou responder com uma pergunta. O que seria de “Suplício de uma saudade” sem a canção de Alfred Newman “Love is a many-splendored thing”?
Você pertence a uma geração que foi jovem nos esfuziantes anos sessenta, em João Pessoa. Na época, você deve ter frequentado as famosas sessões de quinta-feira do Cinema de Arte no Cine Municipal, projeto da ACCP – Associação dos Críticos Cinematográficos da Paraíba. Que lucros retirou dessas sessões e desse convívio?

Nenhum.
Uma característica sua enquanto espectador é o desprezo pelo Cânone. Embora sejam do seu conhecimento as listas dos filmes canonizados pela Crítica Internacional, estes nunca conquistaram sua preferência. De alguma maneira, pode se dizer que você passa muito bem sem os “Encouraçado Potemkin”, “A regra do jogo” ou “Cidadão Kane” da vida. Há algo de proposital nesse desprezo, ou ele é apenas uma reação natural? Comente.

 

Diz o cachaceiro que beber é arte e comer é vício. Diz o crítico que cinema é arte e eu vejo cinema como diversão. Como posso, então, engolir “A Regra do jogo”, “Ladrões de bicicletas”, “A Fonte da donzela”? A Nouvelle Vague, o neo realismo e outros desses monstrengos alimentam sempre o meu bem querer pelo cinema americano das décadas de 40/50. Evoé!

 
Você é do tipo de espectador que elegantemente “dispensa” o cinema que se produz e exibe hoje em dia… Algo a dizer sobre esse aparente ´passadismo´ assumido?

Cena de "Pacto de sangue", citado pelo entrevistado.

Cena de “Pacto de sangue”, citado pelo entrevistado.

 

Vou tentar justificar esse “passadismo”. A violência em excesso, os diálogos sempre chulos, a falta de bons roteiros, os maus atores, dentre outras mazelas, mataram o bom filme. Um óbito assinado há dezenas de anos, sem qualquer tentativa de uma ansiada ressurreição.

 Se não lhe for incômodo, gostaria que citasse sete filmes que você, de coração e mente, recomenda a nossos leitores. Se quiser, pode justificar suas escolhas.

É sempre muito difícil listar os melhores. Ficam os três já citados (“Pacto de sangue”, “Casablanca’ e “Tubarão”) e acrescento três diretores: Alfred Hitchcock, Robert Siodmak e Friz Lang.

Essa relação não elenca vários dos mais importantes diretores do cinema americano. Concorda? Por que a omissão?

Realmente, você está certo. No início da nossa conversa sou apresentado como fã do cinema negro. Já agora, no final do papo, vem a pergunta sobre os melhores filmes que vi. Vou manter a coerência e me ater somente ao noir, excetuando Hitchcock, que é o maior dos diretores. Já Lang e Siodmak são os reis desse gênero: “Os assassinos”, “Baixeza”, “Fúria”, “A dama fantasma”, “Espelhos d´alma”, “Os corruptos”, “Um retrato de mulher”, “A gardênia azul”, “Silêncio nas trevas”, “Dúvida”, entre outros, não me deixam mentir.

Na lista dos preferidos de Joaquim Inácio está "Tubarão".

Na lista dos preferidos de Joaquim Inácio está “Tubarão”.

Mancada de mestre

11 jan

“Ninguém é perfeito” foi o que disse aquele senhor apaixonado à sua nova namorada, ao saber que ela não era “ela” e, sim “ele”. Última fala em “Quanto mais quente melhor” (Billy Wilder, 1958), a frase é hilária, mas – a gente sabe – faz sentido, e não só neste caso.

Recorro à frase para tratar de grandes cineastas que admiramos e amamos e que, no entanto, cometeram lá as suas “imperfeições” – as quais, perdoadas ou não, grosseiramente poderíamos muito bem chamar de mancadas de mestres.

Pois é, repassando a história do cinema, é difícil – quase impossível – encontrar uma carreira de cineasta que não contenha uma ou outra mancadinha. Em ordem cronológica, aqui faço um passeio maldoso por obras que, mesmo estando assinadas por grandes nomes da cinematografia universal, nem os corações mais apaixonados e benevolentes considerariam de alguma qualidade estética.

Vejam o caso de Fritz Lang, que foi, em Hollywood, um mago do filme noir, talento que ele trazia de seu passado alemão e expressionista. Perguntemos: por que a mão que dirigiu, por exemplo, a obra prima “Um retrato de mulher” (1944), também dirigiu, três anos depois, essa porcaria sem sentido “O segredo da porta fechada” (1947)?

Malgrado os seus atropelos com o maccartismo, Elia Kazan construiu, ao longo do século, uma carreira cinematográfica admirável em todos os aspectos. E, no entanto, em 1947, fez, e fez mal, essa coisinha chata e sem sentido de título “Mar verde” – um filme menor em todos os aspectos.

O meu cineasta preferido é Alfred Hitchcock, mas, digam-me lá, existe algo mais intragável do que aquele “Sob o signo de capricórnio” que o velho Hitch rodou em 1949, essa infame estória de época australiana que nos aborrece desde os primeiros minutos de projeção? Nem as suas explicações em depoimentos e entrevistas nos convencem, embora, claro, ele mesmo admita que o filme é muito ruim.

Revendo “Belíssima” (1951) hoje em dia, você só acredita que foi dirigido por Luchino Visconti porque os créditos do filme lhe asseguram. Não fossem eles, a impressão é que estaríamos assistindo a uma empreitada de um novato sem nenhum talento.

John Huston é outro que amo, porém, aqui para nós, ninguém pode negar que, em “O diabo riu por último” (1954), apesar do elencão e tudo mais, a coisa desandou. Foi ou não foi?

Quem poderia dizer o que foi que aconteceu quando o grande Vincente Minnelli rodou, em1955, apeça-musical que foi sucesso na Broadway “Kismet”. Ninguém sabe – sabe-se somente que o filme, “Um estranho no paraíso”, ficou insosso.

Querem ver um Stanley Kubrick ruim? Assistam a “A morte passou por perto” (“Killer´s Kiss”, 1955), um amontoado de defeitos num filme precário e insatisfatório.

François Truffaut podia muito bem ter pulado de “Os incompreendidos” (1959) para “Jules e Jim” (1962), sem passar por esse inconveniente e inconvincente “Atirem no pianista” (1960), não podia?

Em 60, 61 e 62, o mestre do tédio burguês, Michelangelo Antonioni, já havia nos dado a sua básica trilogia preto-e-branco “A aventura”, “A noite” e “O eclipse” – precisava, no ano seguinte, botar cores na tela e cometer esse chatérrimo “Deserto vermelho”? Não precisava.

Se for para ficar no começo dos anos sessenta, de Federico Fellini, assistimos, maravilhados, “A doce vida” (1960) e logo em seguida, “Oito e meio” (1963), só para depois, sermos obrigados a aguentar (ufa!) esse tal de “Julieta dos espíritos” (1965).

O grande John Ford de “Paixão dos fortes” (1946) e “Rastros de ódio” (1956) precisava ter rodado esse filmezinho anódino que não leva a nada, “O aventureiro do pacífico” (1963)?

O que tinha em mente o gênio Orson Welles quando concebeu e parcialmente realizou o seu “Dom Quixote” (s/d)? Tudo bem, nunca conseguiu terminar o filme, mas, do que está feito lá já dá para ver que a coisa é ruim mesmo, e não adianta ir atrás de outras palavras.

Bem que o nosso Glauber Rocha podia ter encerrado a sua filmografia antes de “A idade da terra” (1980): teríamos ficado livres de um dos mais aborrecidos e equivocados filmes da cinematografia nacional, em todos os tempos.

Jean-Luc Godard é um cineasta controverso que, ou você detesta ou você ama. Porém, pergunto, há quem ame “Nouvelle Vague” (1990)?