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“I HAVE A POEM”

13 nov

Filmezinho interessante este “A professora do jardim de infância” (Sara Colangelo, 2018) que acabo de assistir em DVD. Nada especial, mas acho que merece um comentário.

Na Nova Iorque de hoje, uma professora primária se entusiasma com o comportamento de um aluno de sete anos que “fala” poesia. Digo “fala” porque o garoto não escreve as belas frases que, inexplicavelmente, lhe saem da boca – ele simplesmente diz os “poemas”, sem mais nem menos, nos momentos menos previsíveis. Fascinada com essa misteriosa manifestação lírica numa criatura tão tenra e frágil, ela, a professora é que toma notas e, mais que isso, estimula o quanto pode o potencial poético do pequeno aluno.

Até aí tudo bem. O problema é que a coisa não fica por aí. Na verdade, a professora vai se tornando obsessiva com o surpreende talento do aluno – um talento que, para o espectador às vezes parece de natureza sobrenatural – e passa a ter um comportamento um tanto e quanto fora do comum.

Sendo casada e com dois filhos adolescentes, ela começa a exibir em casa uma certa atitude hostil. Dá-se bem com o marido, porém, a filha começa a lhe parecer vulgar e o filho, alienado. E essas impressões terminam aparecendo nas relações familiares e motivando conflitos.

Mesmo antes do aluno poeta, a nossa professora já frequentava um Curso de Poesia para adultos, onde os poemas que escrevia e apresentava nunca tinham boa acolhida. O que faz ela? Passa a levar para a classe os poemas do aluno, como se seus fossem, e, previsivelmente, é aplaudida por colegas e, sobretudo, pelo professor.

Com dificuldade, ela faz contato com o pai do garoto, um empresário que não vê com bons olhos esse lance de poeta na família. Mas, enfim, quanto mais objeções à poesia, mais ela se empenha em estimular o garoto e a ficar perto dele, até mesmo quando o pai o muda de escola.

No dia em que ocorre, na cidade, um evento literário com recital de poesia, ela praticamente rapta o garoto e o leva para o evento onde ele, para surpresa e encanto dos presentes, recita os seus poemas e é calorosamente aplaudido. É aí que o professor da professora descobre que sua participação no Curso de Poesia era fake – que os poemas que ela recitava não eram de sua autoria.

Estranhamente, ela não se incomoda muito com isso, e o sem sentido de seu comportamento vai crescendo, até beirar algo parecido com insanidade. Mas, vamos parar por aqui no relato do enredo.

Maggie Gyllenhaal and Parker Sevak in The Kindergarten Teacher by Sara Colangelo,

Uma coisa boa no filme é a colocação do contraste entre, de um lado, o mundo prosaico, material, vulgar da vida cotidiana, e do outro, o mundo criativo, inovador, misterioso, dos voos poéticos. Em dado momento, a professora explica ao aluno que as pessoas em geral vão tentar conduzi-lo para a materialidade e coibir seu pendor poético, e completa: “como fizeram comigo”. O que faz o espectador imaginar que nossa professora seria uma personalidade frustrada, uma poeta de nascimento, tolhida pelas circunstâncias da vida.

Se é ou não, o desempenho dado pela atriz Maggie Gyllenhaal é extremamente eficiente em nos passar o drama dessa mulher atormentada que se entrega a uma causa perdida com o heroísmo dos suicidas e, por que não, dos poetas.

E por falar em poesia, o comportamento do garoto poeta, em si mesmo, nos faz pensar nas teorias românticas e místicas que estão em Wordsworth, especialmente no seu “Intimations of immortality” em que se defende o encanto da infância como uma lembrança do paraíso onde a criança estava antes de vir ao mundo. Essa lembrança (e foi talvez o que quis explicar a professora a seu aluno) é, com o passar dos anos e com o contato com os adultos, logo cedo anulada e, na maior parte das pessoas, desaparece para sempre.

Tanto é assim que a cena que mais dói no filme é o seu último fotograma, quando o garoto, resgatado pela polícia e jogado no banco do carro, sozinho, diz o que já dissera várias vezes ao ser atacado pela inspiração: “I have a poem”. E o espectador, entristecido, deduz que este novo poema não será mais ouvido nem anotado por ninguém…

Uma crítica que li de “A professora do jardim de infância” foi que, a rigor, o comportamento da protagonista não tem lógica. Concordo, mas será que essa falta de lógica não seria um recurso expressivo, no caso, uma alegoria diegética para a própria poesia? Não sei, mas que o filme é interessante, isto lá é. E legal para se pensar o ensino de literatura no nível elementar… e, se for o caso, em quaisquer níveis.

Pride

21 abr

Nos anos oitenta, sob o regime da dama de ferro Margareth Thatcher, a Inglaterra conheceu um fato digno de estudos sociológicos: uma greve de mineiros do Interior recebe o apoio voluntário de um grupo de homossexuais de Londres.

A greve é frustrada, mas, um ano depois, quando os gays e lésbicas organizam um grande evento em defesa da diversidade sexual, os mineiros ex-grevistas – para surpresa de todos – comparecem e, publicamente, manifestam o seu apoio, igualmente voluntário.

Histórico, o fato foi, na época, entendido como um sintoma de que é possível a solidariedade entre homossexuais e heterossexuais, cada um na sua, e cada um respeitando as inclinações e os direitos do outro.

Pois agora o fato histórico virou filme. Em “Pride” (2014), o diretor Stephen Beresford reconstitui, ficcionalmente, a estória toda da greve de 1985, e pode se dizer que o faz muito bem.

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O tempo de tela fica dividido entre, de um lado, os gays e lésbicas que em Londres coletam, nas ruas, o dinheiro em apoio à greve mineira, e, do outro, os poucos cidadãos do lugarejo de Onllyin, no vale galês de Dulais, que ousam recebê-los – a eles e à sua grana coletada – claro, de bom grado e com gratidão. E a narração, com bom senso, procura o equilíbrio entre o coletivo e o individual. Assim, ora o grupo é visto como um todo, ora vão se ter as estórias privadas de alguns dos participantes do movimento, quer do lado homo, quer do lado hetero. Um deles é esse rapaz que, ao longo do movimento grevista, adquire a coragem de assumir sua condição homo e enfrentar a família conservadora. Do outro lado (digo, o hetero), temos a estória dessa modesta dona de casa que, no mesmo processo grevista, se descobre uma líder com destino político.

Claro, num filme desses, cenas sobre o preconceito são obrigatórias, um pouco mais ainda em um tempo em que a Aids ainda era um mistério assombroso e sem controle. Por exemplo, quando os gays que apoiam os mineiros grevistas são chamados pela imprensa de ´pervertidos´, a gente lembra que na Inglaterra de vinte anos atrás, ou seja, anos sessenta, a homossexualidade ainda era, por lei, considerada crime.

Lésbicas e gays apoiam mineiros em greve

Lésbicas e gays apoiam mineiros em greve

Mas, um cuidado todo especial do filme é não parecer tendencioso. Homos ou heteros, todos são descritos como seres humanos, capazes de gestos nobres e vis. Como, segundo consta, a roteirização foi elaborada a partir de pesquisa de campo, supomos que o filme faça justiça aos personagens reais.

Uma coisa boa é a reconstituição de época, e, nela, a música tem um papel decisivo. Sucessos dos anos oitenta se repetem em série, sempre acompanhando as cenas coletivas, aquelas em que a ação conjunta, e não os diálogos, mais interessam. Inevitavelmente, a dança, mesmo sendo um elemento pontual, ganha um papel sintomático. Caso daquela cena no baile, em que as mocinhas do lugar ficam fascinadas com um gay que “arrasa” dançando, e esquecem os machos locais que mal conseguem mexer os ombros. Agora, atenção: dando certo com a tentativa de distanciamento do diretor sobre a questão sexual, observemos que não é um grupo de gays que dança: o dançarino que dá seu show é um único gay, enquanto os outros o observam de longe, tão admirados e intrigados quanto os machões presentes.

É verdade que a cena final parece apoteótica, com os ônibus chegando ao local da manifestação Gay Pride, deles desembarcando os mineiros, que vêm do Interior só para apoiar um evento homossexual, mas, nisso o autor do filme tem um atenuante em seu favor: como já dito, o fato aconteceu!

Os bastidores do movimento

Os bastidores do movimento

Nos créditos finais, são acrescidas informações sobre o destino dos personagens principais. Por exemplo: o jovem homossexual que encabeçou o movimento pro-mineiros grevistas morreu de Aids dois anos depois, e a aquela humilde dona de casa, acima referida, que entrou de corpo e alma na greve, fez brilhante carreira política e ainda hoje ocupa importante cargo no Parlamento Britânico.

Para quem já conhecia a história verídica da greve inglesa, “Pride” deve talvez parecer previsível. Por sua vez, previsível vai ser a sua recepção, a depender das tribos. Com certeza, a tribo dos homófobos vai subestimá-lo e, mutatis mutandis, a dos homossexuais vai superestimá-lo.

Para aqueles – como eu – sem tribo, trata-se de uma boa realização fílmica, feita com talento e humor, com o adicional de trazer à tona questões importantes para a construção disso que se chama cidadania, essa palavra que, hoje em dia, circula de boca em boca, sem que aparentemente os seus usuários compreendam bem a extensão de seu significado.

Mineiros em greve contra o terror Thatcher

Mineiros em greve contra o terror Thatcher

 

Limite

11 jul

Qual o melhor filme brasileiro de todos os tempos, o mais perfeito já feito, a nossa obra prima cinematográfica insuperável?

Os americanos têm lá o seu “Cidadão Kane”, e nós?

Se, para eleger tal filme, uma enquete fosse feita com os espectadores, não tenho a menor ideia do resultado a que chegaríamos, porém, se os votantes forem críticos, historiados e cineastas, o palpite é fácil: o nosso “Kane” iria ser “Limite”, o longa mudo que Mário Peixoto (1908-1992) lançou em 1931.

Lançou é exagero. Houve uma estreia no Cine Capitólio, na Cinelândia, Rio de Janeiro, e pronto: ninguém mais viu o filme, que continuaria desconhecido para sempre, não fossem as facilidades eletrônicas de hoje em dia.

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Restaurado por uma equipe de pesquisadores nos anos setenta, “Limite” foi, mais tarde, lançado em VHS e cheguei a comprar uma cópia, que, lamentavelmente, o fungo, inimigo da cinefilia, destruiu. Por sorte, ao montar o vídeo “Imagens amadas”, com 100 cenas de filmes, para celebrar o centenário da Sétima Arte em 1995, incluí uma cena de “Limite”. Como, mais tarde, o vídeo foi transposto para DVD, a cena está salva.

Mas, de que trata a nossa suposta obra prima?

Resumir seu enredo é tarefa a que não me arrisco, até porque não parece existir, em “Limite”, uma estória com começo, meio e fim. Há, no melhor das hipóteses, uma extensiva situação dramática: num barco à deriva, em extremo desolamento, um homem e duas mulheres, sem aparente relação entre si, relembram momentos passados de suas vidas. Quase tudo se resume a um conjunto de imagens que mostram essas pessoas desoladas, sem rumo num mar misterioso, por fim parando de remar e aceitando um fim comum. E isso, durante quase duas horas de silêncio. A fotografia preto e branco de Edgar Brasil é bela, mas, para o espectador acostumado com o cinema narrativo, a suprema e difícil abstração plástica e filosófica de “Limite” – convenhamos – pode se tornar pouco digerível.

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Contam que, ao escrever o criativo e inovador roteiro, Peixoto teria procurado gente do mundo cinematográfico para dirigir o filme, e todos (entre eles, Humberto Mauro e Adhemar Gonzaga) lhe disseram que um roteiro com aquele nível de invenção, só poderia ser rodado pelo próprio autor. E foi o que ele fez: com apoio financeiro da família, juntou uma pequena equipe, e se mandou para os lados de Mangaratiba, praia fluminense que lhe serviu de cenário.

Recém chegado da Europa, onde passara praticamente toda a sua juventude, o inquieto Mário havia bebido nas fontes vanguardistas que eclodiam naquele tempo no velho mundo, e o roteiro de “Limite” brotou de sua imaginação com a força de uma brain storm. É ele mesmo quem explica a temática do filme, alegando que o realizou para provar que o tempo não existe. Aliás, é o que afirma literalmente a epígrafe: “Em nenhum lugar existe tempo algum”.

Mário Peixoto fez “Limite” em 1931, e nunca mais fez mais nada em cinema. Não que não tenha tentado.

Quem conta toda a frustrada trajetória do cineasta carioca, é Sérgio Machado no seu filme de 2001, “Onde a terra acaba”.

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Esse título, “Onde a terra acaba”, foi, na verdade o nome do filme que Peixoto tentou rodar depois de “Limite”. A atriz principal e produtora era a então famosa Carmem Santos, cujo estrelismo serviu primeiramente de estímulo à produção, e em seguida, de empecilho. É que, no meio das filmagens, a atriz, afundada em problemas pessoais, afastou-se e sua ausência terminou por instaurar o desânimo, de forma que o filme nunca foi concluído, dele restando hoje breves tomadas.

O filme de Sérgio Machado relata as outras poucas e frágeis tentativas cinematográficas de Peixoto, seu isolamento no “Sítio do Morcego”, a partir de 1966, e suas igualmente frustrantes experiências com outras artes, entre as quais a literatura. O seu romance “O inútil de cada um”, por exemplo, só veio a ser publicado em 1984, e apenas o volume I.

Pelo menos três cineastas – Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues e Walter Salles – depõem sobre Mário Peixoto no filme de Machado, todos ressaltando sua importância para a história do cinema brasileiro, mas, quem sugere uma boa pista para o sentido de “Limite” é Diegues, ao formular a suposição de que “aquele era o rumo que o cinema teria tomado, não fosse o advento do som”.

Voltando à questão do melhor filme brasileiro de todos os tempos, faltou dizer que, na verdade, “Limite” já foi agraciado com este prêmio duas vezes: em 1988, concedido pela Cinemateca Brasileira, e em 1995 – ano do centenário do cinema – concedido a partir de um inquérito nacional do jornal Folha de São Paulo.

Em tempo: este post é oferecido a Glória Gama.

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Obrigado, Marília

10 set

Marília querida, muito obrigado pelo presente, que você teve a delicadeza de me trazer em casa, com uma simpática dedicatória. Sou grato em tê-lo merecido e o ter consumido me deu enorme prazer; por isso estou lhe escrevendo. Vão aqui meus agradecimentos sinceros e também meus parabéns: o seu romance “Suíte de silêncios” (Rocco, 2012) é um testemunho ostensivo do seu imenso talento de escritora.

Nele, em tudo se percebe o seu cuidado obsessivo com a linguagem, não só com as palavras, mas também com a estrutura como um todo. Não apenas as construções frasais são resultado de teimoso burilar, como a montagem dos capítulos revelam uma reflexão de quem sabe o que é efeito literário. Sua arte de descrever metaforicamente e sua estratégia de revezar os tempos narrativos se homologam e fazem milagres, permitindo, via manutenção discreta de campos semânticos (dois deles: água e música) que o leitor viaje, com prazer, de uma época a outra, dentro de uma espécie de lógica interna imposta pela textualidade.

Os seus personagens são tão bem construídos que parecem gente de carne e osso, especialmente essa arrebatadora Duína que, menina ou mulher, nos envolve e, perdidamente, nos arrasta para o seu mundo privado, pluvial e mesmérico (“Dentre todas as coisas que existem no mundo, chuva e música são as que mais gosto” – diz ela), e, contudo, feito de silêncios doídos e sombras apavorantes.

Encantei-me tanto com ela que dei-me ao luxo de ler o livro com a entrega de um leitor comum, aquele que não se importa de confundir ficção com realidade e que se emociona como se o drama narrado fosse seu. Sim, mergulhei na estória de Duína e, coitado de mim, vi-me de repente, perdido como ela, à mercê da vida e do mundo, às portas da loucura destruidora… E essa incondicional conquista do leitor é mérito seu.

Acho que posso dizer que o seu grande tema nesse belo romance responde pelo nome de perda. Na vida dura de Duína há pelo menos duas: a perda da mãe, que foge de casa quando ela ainda era uma garotinha de cerca de dez anos, e, bem mais tarde, a perda do seu grande amor, João Antônio, o amante adorado e devastador que, sendo casado, é um dia premido a encerrar tudo e retornar aos muros fechados do casamento. Aliás, a rigor, são três perdas, pois, desde a fuga da mãe, ela também, de alguma forma, “perde” o pai, sempre emocionalmente distante.

A inexplicável ausência da mãe, na infância, teria determinado a natureza amarga e mesmo hostil dessa menina que se recusa a brincar com as crianças da redondeza e que volta da escola de olhos fechados, no intento de, assim, corrigir os erros da existência. Ou não houve essa determinação? De todo jeito, a igualmente inexplicável ausência do amante vai, cruelmente, consolidar essa amargura e essa hostilidade, que só se suavizam na escritura dessas páginas do que seria um diário inconfesso, ou uma epístola sem futuro.

Por isso mesmo, tão importante quanto a perda é um segundo tema, o da incomunicabilidade. Com a miraculosa exceção da escritura dessa pseudo-(diário)-epístola, que afinal de contas, não será lid(o)a pelo destinatário – o amante que a abandonou – Duína não se revela a ninguém; seus dramas mais íntimos se revolvem irremediavelmente dentro de si mesma, em algum desvão esconso e sujo de sua alma, e lá desaparecerão quando ela se for, solitária e perplexa, na sua desventura de ser irremediavelmente uma criatura frustrada.

Não será ao pai que ela contará as suas angústias e os seus medos, sequer o medo de perdê-lo; não será à amiga Domênica que ela revelará suas inseguranças; nem mesmo ao professor de música, Ramon, com quem partilhou tanta intimidade física; não será à avó Quila, que, afinal, não teria o discernimento para entendê-la; muito menos ao namorado de juventude, Victor, cujo apego doentio lhe causa certa repugnância… Sim, será a João Antônio que Duína descortinará, toda a sua desolação e desespero, porém, como já dito, um desabafo assumidamente inútil, na medida em que nunca chegará ao receptor.

Obviamente, somos nós, leitores do romance, os receptores privilegiados da história completa de Duína. Completa, disse eu? Ironicamente, nunca chegaremos a saber tudo, pois, parte da vida de sua personagem, nos chega por parcelas, por subterfúgios, retardada, camuflada, ou apenas de modo implícito, e, nisso, Marília, digo, na arte de esconder, você é uma mestra. Daí a propriedade do título do livro, onde o termo ´silêncio´, depois da leitura, exibe toda a sua eloquência. E vejam que ´suíte´ – termo do universo da música – é outra incompletude, já que a própria Duína, ainda que amante dessa arte, nunca foi, na condição de intérprete, capaz de nela expressar-se plenamente.

Você deve estar consciente das grandes lacunas entre as quais nos movemos no seu livro. Por exemplo, se quisesse, o leitor poderia se indagar: como foi a vida de Duína entre a infância e adolescência, e, num périplo ainda maior, entre a adolescência e o conhecimento do amante João Antônio? Por que sabemos tão pouco da vivência entre ela e a mãe, digo, antes da fuga desta? O que nos é dado da vida secreta do pai, salvo aquela visita furtiva à casa suspeita daquelas três mulheres que Duína apenas divisa de longe, uma visita que sugere tanto e informa tão pouco? O que sabemos da existência mesma do amante, salvo que é médico, casado e residente em Pedra Santa? Evidentemente, tais perguntas não fazem sentido, ou fazem, para evidenciar o não dito proposital. Sim, Marília, enquanto construtora da narrativa, você domina muito bem o jogo entre informação e sonegação e sabe o tanto que isso influi no efeito estético final.

Não é sem razão que, na infância, um dos esportes preferidos de Duína fosse, justamente, o de seguir gente desconhecida rua afora, achando que as pessoas são mais interessantes ao agirem assim, sem presença alheia, supondo-se ignoradas. Aqui lacuna e incomunicabilidade se complementam – nem Duína conhece essas pessoas, nem vice-versa, e por isso, segundo a protagonista, a relação é perfeita. Precisa dizer mais?

E não apenas no fornecimento do material diegético você é parcimoniosa. Suas descrições são pérolas de subentendidos, bem mais efetivas do que se nomeassem o descrito.

Poderia citar exemplos e mais exemplos de sua virtuosidade no esconder, de sua perícia em ser inexplícita. Conformo-me em reproduzir apenas aquele trecho em que você nos oferece essa sutil aproximação à loucura de um orgasmo, experimentado – não esqueçamos – por uma menina de doze anos de idade:

(…) o professor Ramon dedilhando acordes e pizziacatos na pauta da minha pele, uma música que começava com sua mão avançando lentamente pela parte interna da coxa, até os dedos encontrarem a extremidade da calcinha e afastá-la, tocando-me, então, com firmeza e suavidade, ali onde se guardava o pequeno e latejante coração de odor penetrante – seriam minhas entranhas banhadas por um oceano? – fazendo-me desabar num precipício de curtos-circuitos que me conduziam para longe, para muito longe, para um espaço onde eu me afogava – choveria dentro de mim? – onde não havia nada nem ninguém, onde o tempo parava e o mundo inteiro deixava de existir.

Mas esta é uma das raras imagens eufóricas no livro todo. Creio que, finda a leitura, o leitor vai ficar mais com as tristes, que são muitas e fortes. Se me for permitido citar mais, cito, entre tantas belas imagens, aquela em que Duína relata o estado do pai, algum tempo após a partida da mãe, tão dolorido nele quando nela que o testemunha.

Sobrevivemos. Meu pai sobreviveu, assim como sobrevive um pássaro a quem arrancam as asas e furam os olhos com espinhos. Um pássaro consumido de tanto saber que lhe tiraram tudo, saltitando em círculos sobre as patas e pipilando, ainda estou vivo, ainda estou vivo, ainda estou vivo.

Gostaria de citar o livro todo, para que você, me lendo em voz alta, escutasse o ritmo encantatório de sua própria escrita. Na impossibilidade, aqui vai mais este trecho, aquele em que Duína, havendo se indagado sobre o que a impediu de ter um lar “normal”, responde com sua desalentadora inconvicção e, nisso, termina por recapitular sua existência em detalhes significativos:

Sem respostas, envelheci e ainda tenho nove anos.

Ouço o arrulhar de pombos em um quintal alvejado de manhã, um soluçar monocórdico de dor e espanto, o ladrar de uma cadela, vejo um armário de portas abertas, acenando-me do seu vazio, um piano fechado, uma cadeira desocupada, sinto o aroma de naftalina e lavanda, o gosto travoso das minhas lágrimas, e quase posso tocar o abandono nas sianinhas e bordados dos meus vestidos de menina.

Estou lá, no ontem profundo, confusa e baldamente percorrendo ruas de olhos fechados, buscando algo que nem ao menos sei o que é, perseguindo o inominado, quem sabe, a própria vida, que passa ao lado sem que eu possa retê-la, como uma composição de notas inexequíveis, uma música impossível.

Sim, continuo lá, enquanto a minha dor esfacela-se diante dos meus olhos em mil degradadas dores.

Algumas coisas, meu amor, são tão devastadoras, que nem a melhor parte que há em nós, nem mesmo a mais encouraçada, consegue resistir.

Pois, acredite, a vida segue me humilhando com a mesma força.

Perda, isolamento, frustração, desespero… Até parece que o seu livro seria uma representação monolítica de toda a negatividade humana, quando, na verdade, não é. Por trás desses temas, há um maior, ou mais subterrâneo, que é o tema do amor.

Sim, não tenho dúvidas de que “Suíte de silêncios” pode ser dado como uma grande estória de amor. Nele não há uma só palavra que não seja direcionada ao amado ausente, cada uma pulsando com o sangue de uma mulher, uma mulher agonizante, mas ainda apaixonada, que, mesmo sem esperança de reencontro, não tem outro desejo senão o de rever e amar o homem que perdeu para outra. Como ela diz nas primeiras páginas “… como é doce morrer de lembrar. (…) Não nasci para o esquecimento. Se me faltassem as lembranças, estaria disposta a mendigar, de esquina em esquina, prato na mão”.

É essa paixão forçosamente contida, lembrada e revivida, que dá força a Duína para anotar sua desventura e a estrutura emotiva do livro se sustenta nesse pilar, definitivo e decisivo. É na vida, portanto, e não na morte, que ela vai buscar motivação, se não para viver, ao menos para (re)escrever a vida. “Recomeçar? Por onde?” pergunta em dado momento e explica, ao amante ausente e a nós:

A vida não é uma casa abandonada, da qual se podem remover os entulhos e pintar as paredes de branco. Quem esquece mata e morre. Sim, a memória tem sido meu candeeiro em noites de breu, e se um dia o tempo apagar o que resta de nós dois, saberei inventar-lhe um rosto, a intensidade de um olhar, uma boca de beijos e palavras sussurradas, um corpo onde atracar o meu querer.

E, acredite, qualquer um que possa vir a me amar será ainda você. Esta é a minha forma de loucura, minha força, meu delírio de salvação, meu código de sobrevivência.

Antes de encerrar, volto a uma questão já tocada por mim: o incomum, o estranho, o (talvez para o leitor do seu livro) esquisito na natureza de Duína nasceu de suas perdas, ou existiria independentemente delas? Em várias instâncias, o seu romance parece querer sugerir a segunda alternativa e um resumo delas está no fechamento de um dos capítulos, na página 73, quando, Duína recapitula sua opção por não viver e, dirigindo-se ao ex-amante, conclui, aparentemente convicta: “Acredite no que lhe digo, meu amor, a normalidade é monstruosa”. Ou isto não passaria de um desabafo frustrado? Você, Marília, é sábia em não decidir e, de modo aberto, deixar a questão para o seu leitor.

Como você sabe, Marília, sou leitor de seus escritos desde sua primeira publicação em livro, e sempre gostei do estilo de seus contos, onde diviso a paixão pelo métier, o prazer da contenção na imagem certa e a busca renitente da originalidade. Agora que você lança ao mundo este projeto maior, o seu primeiro romance, vibro com a empreitada, tão esperada pelos seus leitores, e faço questão de aplaudir o brilhante resultado.

Mais uma vez, obrigado.