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A última aventura de Robin Hood

9 abr

Quem ainda lembra Errol Flynn, o espadachim bonitão que, nas matinées de antigamente, vencia todos os inimigos, sobretudo ao encarnar a bravura de Robin Hood?

Pois é, parte de sua estória está veridicamente contada em “A última aventura de Robin Hood” (2013), filme que, se não veio ao circuito comercial de exibição, está disponível em DVD e na programação da televisão paga.

Como diz o título, é sua última aventura o que nos conta o filme, mas uma aventura predominantemente amorosa. Em 1957, já cinquentão e decadente, Flynn andava entregue ao álcool e outras drogas, quando conheceu essa mocinha, aluna de um curso de dança, chamada Beverly Aadland. Saem e, num momento mais íntimo, acontece o inevitável; afinal o apelido de Flynn, nos meios artísticos, sempre foi sintomático: “pênis ambulante”. Complicações se avolumam quando Flynn vem a saber que Beverly não tinha os 18 anos que dizia ter, e sim, 15. Ocorre, porém que o ator se apega à garota e chega a convencer a mãe de que poderia lhe dar uma carreira de atriz de cinema, e, que, portanto, poderia também ficar com ela. A contra gosto, a mãe acede e a farsa sobre a idade da garota é mantida até que…

Errol Flynn como Robin Hood, anos 1930...

Errol Flynn como Robin Hood, anos 1930…

O affair Errol/Beverly não durou muito, pois ele vem a falecer em 1959, mas digamos que foi eterno enquanto durou. O apego desse casal improvável foi recíproco e vingou, ao meio de tramas e escândalos hollywoodianos. Na verdade, a roupa suja só veio a público, depois da morte do ator, quando o mundo do show business, a imprensa e, consequentemente, a justiça descobriram a idade de Beverly e outros detalhes do acordo sigiloso entre Flynn e a mãe, a qual perde a guarda da filha e, mais tarde (sem o consentimento desta) publica um livro contando o caso todo.

Dedicado a Beverly Aadland, o filme claramente toma seu partido e mostra como, nos seus 15 a 17 anos, ela era uma pessoa mais madura que a mãe. Vivendo no meio fútil de Hollywood, não entregou-se à busca da fama, e, de Errol Flynn, só quis o melhor, seu lado descontraído e engraçado, e claro, o seu amor e sua dedicação. Depois de sua morte, não lutou por herança e não se importou quando soube que o testamento dele, que a beneficiaria, não possuía validade jurídica.

Embora trate-se apenas de um filme mediano, “A última aventura de Robin Hood” prende o espectador,  um pouco mais se porventura ele for um cinéfilo, interessado nos bastidores da era clássica. Algumas cenas desses bastidores são impagáveis, por exemplo: é curioso saber que o primeiro nome cogitado para ser o Humbert Humbert no “Lolita” de Stanley Kubrick foi justamente Errol Flynn, o qual fez o que pôde para empurrar Beverly Aadland como a protagonista. Não deu certo porque o próprio Kubrick se opôs, mas teria sido interessante ver na tela um caso que já tinha existência na vida real.

Cena de "A última aventura de Robin Hood" (2013),

Cena de “A última aventura de Robin Hood” (2013),

Dirigido pela dupla Richard Glatzer e Wash Westmoreland (a mesma de “Para sempre Alice”, 2014), o filme tem pelo menos dois pequenos trunfos: a agudez do diálogo e as interpretações de Kevin Kline, como Flynn, e Susan Sarandon, como a mãe da menor. Já a atriz Dakota Fanning, no importante papel de Beverly Aadland, não passa a emoção esperada.

Com relação ao diálogo, os roteiristas parecem se divertir, contrapondo a saudável ingenuidade de uma mocinha de menor à suposta experiência de um ator profissional cinquentão. É o que ocorre, por exemplo, naquela cena na cama quando, já tendo feito amor, Beverly quer mais e Flynn não consegue. “Esta é a monstruosidade no amor – justifica ele – que o desejo seja ilimitado e que o ato seja escravo do limite”. “Quem disse isso, William Shakespeare?” pergunta ela. “Sim, responde ele, como você adivinhou?” E ela, sincera: “Pareceu brega”. Flynn estava citando “Troilo e Créssida”, mas Beverly não era familiarizada com o inglês semi-arcaico do Bardo.

Para quem não sabe, Flynn também foi um destacado ator de teatro, só que, em final de vida, especialmente na fase Bervely, entre um escândalo e uma crise de alcoolismo, nem a ribalta lhe devolvia as glórias do passado. Sintomaticamente, seus últimos papéis na tela foram de alcoólatras, como se viu em “E agora brilha o sol (1957), “O gosto amargo da glória” (1958), e “Raízes do céu” (1958). Faleceu numa tarde fria de outubro de 1959.

Mas, convenhamos, no final dos anos cinquenta não era só Errol Flynn que caía. Aos poucos os grandes estúdios de Hollywood desabavam, um após o outro, como em série de dominó. Da Europa e de outras partes do mundo surgiam os grandes movimentos de vanguarda e os gostos dos espectadores, no mundo todo, se adaptavam a novos conceitos.

Para trás, muito para trás, ficou o audaz espadachim das matinées de domingo.

O ator americano Errol Flynn em foto antiga...

O ator americano Errol Flynn em foto antiga…

Poetry

8 ago

Movie criticism is full of paradoxes. Or is it the critic himself? Sometimes bad movies lead me to writing, and, sometimes, a very good movie suggests I should be silent.

A suggestion of silence – respectful silence! – has given me this excellent “Poetry” (“Shi”, 2012) by South-Korean Chang-dong Lee, which I was luck enough to watch on paid tv.

Yes, I do have the feeling that writing about this sweet and tender film is like maculating it. And, paradoxally, I write for, of course, I intend  to publicize it. Actually, if I could, instead of writing, I would get copies, and, kindly, distribute with dear friends.

poetry poster

I should begin by saying that, within this Third Millenium Cinema I happen to know, very few times I came across such a captivating and true character, so well built, as this Mrs Mija, a lady of sixty-six who, with problems of memory, enrolls in a poetry course. Going slowly through the sidewalks of Seoul, Mija makes a difference, with her elegancy and finesse – her old face is still beautiful, her body is still slim and her slightly old-fashioned white hat, which she insists in wearing, gives her a vaguely aristocratic look.

I wonder if I will be able to convey her interior beauty, but, I start with that which is obvious – whatever the plot offers me, and the plot is another enormous merit in the film.

A widow for some time, Mija would live alone, were it not for this grandson, the son of separate parents, whom she practically is forced to lodge – a hostile teenager whom she can not understand, despite the many daily efforts.

One day Mija hear the news that a young girl had committed suicide, throwing herself from the bridge into the waters of the Han river. Not only this, but, going to the hospital for exams, she witnesses a terrible scene: the desperate dead girl´s mother, out of control, crying and throwing herself on the ground like a mad woman.

poetry 2

Very soon came the worst: Mija is secretly visited by a committee of male parents, whose sons had raped the girl, and Mija´s grandson was one of them. The parents went to her because, all togehter, they are collecting a certain amount of money for an indemnity, and, of course, the Police and the press are not supposed to know about it.

Without much means, Mija does not know how to raise the money. She lives on a poor allowance and, an on eventual work as sitter. At present, she takes care of an old man who had a stroke, and lives all by himself in his middle class apartment.

All these problems – including the blanks of memory, diagnosed as Alzheimer – do not stop Mija from attending the poetry course, where the teacher ensures that everybody is able to write poems, for poetry is within every one of us. Mija has always been fond of flowers and of strange words, and this gives her the illusion she may one day be able to write a poem. She spends time with Nature, looking for an inspiration that never comes. Or  does it too late. (Should I tell the end of the story?).

Meanwhile, troubled by the girl´s death, Mija goes as far as the suicide place, the bridge over the Han river, and – sad prolepsis – the wind blows her hat, which falls down on the dark waters.

By suggestion of the parents committe, she visits the dead girl´s mother, in the field, but, the visit is aimless: the two women talk about ripe fruits, and things like these, and Mija comes back without solutions.  Except for the fact that, not knowing what to do, she steals a picture of the dead girl, and takes it home, putting it over the table, for her delinquent grandson to see.

poetry 6

Through not very honorable means – a kind of painful consented rape – Mija gets the money for the indemnity with the old man she takes care of – and, however, a few days later, inevitably, the police appear on her street, and take her grandson to prison.

By the end of the poetry course, none of the students had fulfilled the task of writing a poem, except Mija, who does not come to class, and, together with a bouquet of flowers, sends her written poem to be read – her first (remember the hat on the river?) and last one. While one hears the voice-over that reads Mija´s poem (first the teacher´s, than hers, than the dead girl´s), the camera moves toward the suicide bridge and, we then understand that another suicide occurred. Not only the frighteningly dark waters of the Han river, closely shot, tell us this, but also the strange and beautiful words in the poem we hear.

I turned off the TV set kind of choking, remembering another female victim of men´s world, one that always makes me cry: Fellini´s Cabiria.

I began this post by mentioning the paradoxes of movie criticism. An additional one is not attaining, in the composition of the text, the same level of quality as the movie discussed – which is the case here. So, dear reader, see the movie, and forget this piece of criticism.

poetry 1