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A noite púrpura do paraíso

13 set

Tenho um amigo, Limeira, que é louco por cinema, vê um filme atrás do outro, se possível dez num dia, e, no entanto, estou em dúvida se posso chamá-lo de cinéfilo. Vou contar o caso, e vocês decidem.

Não o vejo sempre, mas, dia desses, nos encontramos e conversamos um bocado sobre cinema; ele, que fala mais que eu, foi logo me dizendo dos filmes que tem visto.

E qual foi o último que viu? perguntei.

E ele: Não lembro o nome, mas adorei aquela cena em que a Scarlett O´Hara está desnutrida e doente e Shane a arranca da cama e a põe na garupa do seu cavalo e vai pedir ajuda a Dr Jivago, que, irresponsavelmente, nada faz porque, na ocasião, está de transa com a bela Ilsa Lund, aquela que era casada com o Charles Foster Kane.

Se você não entendeu, não se preocupe: eu também não entendo quase nada que meu amigo Limeira fala.

Vivien Leigh como Scarlett O´Ohara.

Só tentando desembaralhar: Scarlett, como vocês lembram, é a protagonista de “E o vento levou”, filme de 1939, enquanto que Shane é o herói de “Os brutos também amam” (1953). Já “Dr Jivago” é um filme de 1965 sobre a revolução russa, onde não poderia estar Ilsa Lund, a heroína de “Casablanca” (1942), a qual nem conheceu o magnata da imprensa americana, chamado por Orson Welles, de “Cidadão Kane” (1941).

Tentando ordenar a memória fílmica de meu amigo Limeira, perguntei se ele sabia que “Um corpo que cai” estava sendo considerado o melhor filme do mundo pela crítica internacional. Ele disse que não sabia, mas que adorava esse filme. Não é aquele, de suspense, – perguntou – em que Elizabeth Taylor pula daquela torre alta, depois de saber que seu noivo, Montgomery Clift, tinha assassinado, afogada, a Shelley Winters?

Fi-lo ver que estava falando de outro filme, “Um lugar ao sol”, que nem torre nem pulo de torre tinha, e lembrei que a atriz de “Um corpo que cai” era Kim Novak. E ele emendou: ah, é mesmo. Então é aquele em que ela dança com William Holden, às margens do rio, numa noite de festa, mas, aí, o vilão do Robert Mitchum, que era vidrado em Kim, não gosta da dança e jura matar os dois, não sem antes tatuar nos dedos a palavra “hate” que significa ´ódio´…

Kim Novak

Tentei barrá-lo, mas ele, entusiasmado, continuou:

Ainda hoje eu vibro com aquela cena em que Mitchum estrangula Kim, naquele parque de diversão, a gente vendo o seu corpo desabar por cima da gente, até a grama, tudo mostrado pelos óculos dela, que tinham caído no chão.

E foi adiante:

Depois Mitchum foge, de trem, para uma cidadezinha do interior, para se juntar a um bando de malfeitores que o esperavam com o intento de matar o  Xerife, Gary Cooper. Com a ajuda da mulher, Rhonda Fleming, o xerife vence a querela e o episódio todo fica conhecido como ´O tiroteio no OK Curral´.

A essa altura, dei-me conta de que não adiantava consertar e que talvez fosse melhor mesmo deixar que meu amigo Limeira prosseguisse em suas viagens cinematográficas. Para ser franco, o nome dele é outro, e o chamo aqui de “Limeira” em associação ao nosso poeta do absurdo, Zé Limeira. Aliás, sua desorganização mnemônica, e talvez mental, pode ser surrealista, mas, confesso que, em certos momentos, admiro seus relatos, no mínimo, criativos.

Robert Mitchum

Gostei, por exemplo, quando ele me resumiu o roteiro de… Bem, vejamos.

Com o mesmo entusiasmo de antes, foi me contando este novo enredo: o filme agora se passa numa cidadezinha da Itália e o garotinho do lugar é ajudante do projecionista. O povo da cidade adora cinema, e a sala está sempre lotada. Pois uma certa noite, houve uma confusão danada porque – não se sabe como – o personagem do filme que estava sendo exibido, um galã hollywoodiano, simplesmente saiu da tela e foi namorar uma espectadora, uma mulherzinha pobre e desajeitada que trabalhava numa lanchonete, coitada, casada com um cara rabugento e mulherengo que só fazia explorá-la. Segundo meu amigo Limeira, o filme era dirigido por François Truffaut e, o tempo todo, a gente não assistia só ao filme; assistia também às filmagens sendo feitas na hora. Era muito interessante – disse ele – poder ver a câmera e os atores (ele lembrava bem a deslumbrante Jacqueline Bisset) em ação, e, afinal, no fundo, era uma aula de cinema em que ele próprio aprendeu, por exemplo, que certas cenas noturnas, em cinema, são filmadas durante o dia, com um filtro colocado na lente, para dar a impressão de estarmos à noite.

Quando lhe perguntei que filme era esse, ele disse que não lembrava bem o título, mas que era alguma coisa como… “A noite púrpura do paraíso”.

Jacqueline Bisset

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Desperdício

17 set

Muita gente boa vai a cinema, ou vê filme em casa, por causa do elenco. É um bom critério, mas pode ter seus problemas.

Vamos supor que você é – como eu – fã do ator inglês Michael Caine, até porque já o viu em muitos grandes desempenhos em filmes memoráveis. E aí você se depara com um troço chamado “Feitiço do Rio” (1984), Caine no meio dos créditos, e corre para assistir. Bem, tomara que não lhe tenha acontecido isto, pois, se aconteceu, a decepção foi enorme.

Na verdade, se você é fã de Caine deve estar cansado de saber que o rol de porcarias na filmografia desse ator é um pouco maior que a de filmes bons. Indagado, uma vez, sobre o motivo pelo qual ele aceitava projetos irrisórios, ele deu uma respostinha cínica: “Eu adoro dinheiro!”.

O ator Marlon Brando, aqui visto em "Sayonara".

O ator Marlon Brando, aqui visto em “Sayonara”.

Por dinheiro ou não, essa prática de atuar em projetos nada promissores vem de longe.

Acho que o exemplo mais ostensivo é o do ator Marlon Brando, como se sabe, considerado o melhor ator cinematográfico de todos os tempos. Vocês já se deram ao trabalho de contar em quantos filmes ruins Brando atuou? Eu contei, e não vou listá-los para não tomar espaço. Fiquemos aqui apenas com dois: “Desirée” (1954) e “Duelo de gigantes” (1976).

Caso clássico similar é o de Orson Welles, mais conhecido pela direção de “Cidadão Kane”, mas um ator de envergadura shakespeariana, advindo dos palcos de Nova Iorque. Pois Welles esteve, sim, em um monte de filmezinhos fracos e, nisso, compete com Brando. Um exemplo solto é “A dama de negro” (1952), mas deixo ao leitor a incumbência de checar o restante. A alegação conhecida é que ele aceitava esses papéis para arrebanhar grana para seus projetos de direção, aliás, nem sempre realizados, ou, nem sempre bem sucedidos.

Para continuar entre os clássicos, não seria o caso de citar também a atriz Ingrid Bergman? Dêem uma espiada na filmografia dela e vão comprovar. Um exemplo só é “Flor de cacto” (1969), comediazinha tola em que ela é uma atendente de dentista igualmente tola. Em alguns casos, eu sei, foi puro azar; por exemplo: por ser a adaptação de um grande romance, ela acreditou piamente que “Por quem os sinos dobram” seria um grande filme… e a gente sabe que não é, até porque o diretor Sam Wood nunca teve talento para tanto.

A estupenda Olivia de Havilland

A estupenda Olivia de Havilland

Digam-me uma coisa: o que é que a grande atriz Olivia de Havilland, uma das maiores da Hollywood clássica, está fazendo em “A dama enjaulada” (1964)? Ou o que faz Ava Gardner em “Vênus, deusa do amor” (1948)? Ou Richard Burton em “O manto sagrado”? (1953) Ou Gary Cooper em “Agora estamos na marinha” (1951)? Ou James Stewart em “Papai não sabe nada” (1963)? A lista é infinda, todos casos em que os atores ou as atrizes toparam projetos duvidosos.

Estou falando de atores clássicos, porém, os modernos não fogem à regra do desperdício. É só você prestar atenção às últimas aparições na tela de dois atores mais que reconhecidos, ao longo da segunda metade do século XX: Robert De Niro e Dustin Hoffman, de uns tempos para cá, desperdiçados em uma série de comediazinhas idiotas que só fazem macular suas respectivas brilhantes carreiras. Isto para não citar o descaminho dramatúrgico de Jon Voight.

Um pouco diverso, mas com o mesmo corolário, é o caso em que o projeto, antes das filmagens, não pareceu – e não era – nada irrisório, mas o filme não deu certo.

Montgomery Clift, desperdiçado em "Quando a mulher erra".

Montgomery Clift, desperdiçado em “Quando a mulher erra”.

Nestes casos o diretor tem tanto peso quanto o elenco. Dois exemplos que me ocorrem no momento: um filme com Marlon Brando e Sophia Loren, dirigido por Charles Chaplin, era para ser esplendoroso, ou não era? E, no entanto, “A condessa de Hong Kong” não passa de um desastroso fracasso estético. Um filme com Montgomery Clift e Jennifer Jones, com direção de Vittorio DeSica, tinha que ser ótimo, e, na verdade, é fraco e chato: “Quando a mulher erra”.

Um caso extremo do que aqui estou chamando de desperdício é quando o projeto era ambicioso e o elenco quilométrico… e o filme, um desastre. Pelo menos dois exemplos me ocorrem, no momento em que escrevo: de 1968 “Candy” (com Marlon Brando, Richard Burton, James Coburn, John Huston, Walter Matthau, Ringo Starr, Elsa Martinelli, Florinda Bolkan, etc); de 1976 “O deserto dos tártaros” (com Vittorio Gassman, Fernando Rey, Jean-Louis Trintingant, Phillipe Noiret, Max Von Sydow, Francisco Rabal, Giuliano Gemma, Jacques Perrin, Laurent Terzief, etc)

Talvez o fã alegue que atores talentosos, em quaisquer circunstâncias, salvam quaisquer filmes… mas essa é outra história, que fica para depois.

Orson Welles: atuando em filmes ruins, para poder fazer os seus.

Orson Welles: atuando em filmes ruins, para poder fazer os seus.

 

Da série velhos faroestes: “Choque de ódios”

5 dez

A essa altura, todo mundo sabe como o Oeste americano foi conquistado. Com violência, injustiça e crimes. No meio desse pandemônio, houve, contudo, justiceiros que se destacaram pela honradez e pela coragem. Um deles foi Wyatt Earp (1848-1929), cujos feitos heróicos transformaram-se em lenda, na boca do povo, nos livros, nos gibis, e no cinema.

O mais conhecido desses feitos ocorreu ao tempo em que Earp era delegado em Tombstone, Arizona. Foi o duelo no Curral OK, onde, junto com os irmãos e Doc Holliday – outro mito vivo do Oeste – venceu a famigerada gangue dos Clanton, e trouxe a paz ao lugar. De tão evocado, esse feito apareceria, mais tarde, numa série de filmes hollywoodianos, dos quais o primeiro foi o belo “Paixão dos fortes”, de John Ford (1946).

wichita 2

Mas, bem antes de Tombstone, houve Wichita, no Kansas, e é disso que trata o bom western de Jacques Tourneur “Choque de ódios” (“Wichita”, 1955), que acabo de ver.

Nesse tempo de mocidade Wyatt Earp havia deixado a profissão de caçador de búfalos e, com um bom dinheiro no bolso, cavalgava Oeste afora, com o propósito de entrar de sócio em algum promissor empreendimento comercial. Assim chegou a Wichita, mas, as circunstâncias mudaram o seu propósito. Cidade pecuária, progressista, mas extremamente violenta, Wichita fervilhava de saloons onde vaqueiros, bêbados e armados, faziam badernas que terminavam nas ruas, com gente ferida ou morta.

Instado, logo que chegou, a pôr a insígnia de delegado no peito, Earp recusou peremptoriamente. Recusou até ver um garoto de dez anos morto por uma bala advinda dos tiroteios. Nesse momento dramático, assumiu a missão de pôr ordem no lugar, custasse o que custasse. Sua primeira medida de delegado foi o desarmamento obrigatório, o que causou um rebuliço, não apenas entre vaqueiros, mas também junto a cidadãos de bem que, comercialmente, dependiam da atividade pecuária, e portanto, dos vaqueiros.

Vera Miles e Joel McCrea em cena

Vera Miles e Joel McCrea em cena

Baseado em fatos históricos, o roteiro do filme vai por aí, mas não quero contar mais. Só dizer que, depois de muita bala trocada, a ordem é imposta e o filme termina com Earp, casado com garota local, indo embora para outra cidade do Kansas, Dodge City, onde, mais tarde, os anais da História registrariam mais um dos seus grandes feitos, também antes de Tombstone.

Outro fato histórico que o filme recria é o encontro de Earp com o então jovem e ainda inexperiente Bat Masterson, como se sabe, mais um mito da vida no Oeste. Aqui Masterson é, por enquanto, um mero jornalista que, corajosamente, cobre as desavenças do lugar e, eventualmente, ajuda Earp na sua missão ordeira.

O filme tematiza bem a hesitação entre barbárie e civilização, típica daquela fase da vida americana que vai do pós-guerra civil (1865) até a consolidação da indústria (cerca de 1890), período histórico de tantos outros faroestes.

“Choque de ódios” não é nenhum grande western, mas, de todo jeito, é bom ver como Hollywood clássica sabia, quando queria, fazer um filme menor com competência e mesmo com bom gosto. Afinal de contas, era preciso atrair um público pagante que apreciasse uma estória bem contada, ainda que esse público porventura nem soubesse quem tinha sido a figura verídica de Wyatt Earp. Por isso mesmo a direção foi dada ao competente e seguro Jacques Tourneur.

Violência e desordem em Wichita

Violência e desordem em Wichita

O ator que faz Wyatt Earp é o famoso Joel McCrea, bem conhecido dos fãs do gênero, e a namorada e depois esposa é a ótima Vera Miles. Já o vilão mor, Gyp Clemens, que enfrenta Earp no duelo final, é Lloyd Bridges, sim, aquele que os espectadores tinham visto, três anos antes, como o adverso subdelegado de Gary Cooper em “Matar ou morrer”. Ainda jovem e desconhecido, quem faz uma ponta é o futuro cineasta Sam Peckimpah, que aparece naquela cena inicial do assalto ao banco, no papel do caixa que efetua o depósito de Earp. Seis anos mais tarde – vocês lembram – Peckimpah daria início ao soerguimento do gênero, com o seu “Pistoleiros do entardecer” (1961)…

“Choque de ódios” foi o primeiro cinemascope da pequena Allied Artists, um recurso técnico que, como se viu, caiu como uma luva no gênero western. E neste caso não é só nas paisagens a céu aberto que dele se tira proveito estético, mas também em cenas na cidade de rua larga, onde sempre se mostra uma verdadeira multidão de vaqueiros e cavalos, cortando a tela de um lado a outro. Ao tempo da estréia do filme – imagino -, um belo espetáculo para a criançada, ou, se for o caso, para os adultos que não haviam deixado de ser.

 

Finais impostos

3 nov

Numa arte de feição industrial como o cinema, não é nada incomum que o autor de um filme seja obrigado a fazer concessões aos setores de produção. Foi sempre assim, desde os primórdios, e assim continua sendo.

 Uma concessão bem recorrente diz respeito ao modo como o filme termina. Final feliz? Final infeliz? A segunda opção pode até ganhar Oscar, porém, a primeira é uma garantia muito maior de bilheteria.

Aqui, junto com o leitor, repasso alguns casos em que grandes diretores, trabalhando em Hollywood, foram forçados a modificar os finais de seus filmes que, segundo os estúdios, se veiculados, pareceriam extremamente desagradáveis ao público pagante.

Suspicion-Poster

Começo em 1941 com “Suspeita” (“Suspicion”, Alfred Hitchcock), em que o final feliz imposto tem o efeito de, para o bem ou para o mal, redimensionar a significação do filme por inteiro. No roteiro original, conforme o livro adaptado “Before the fact” de Francis Iles, o marido (Cary Grant) está mesmo envenenando a esposa (Joan Fontaine) em doses compassadas e ela, ao perceber, aceita resignada a morte. Como vocês lembram, isto tudo foi distorcido para caber o final feliz em que todos os sintomas de envenenamento eram meras impressões errôneas, e o casal termina aos beijos.

Um segundo caso, do mesmo ano, se deu com “Adorável vagabundo” (“Meet John Doe”, Frank Capra) quando o anunciado suicídio do personagem de Gary Cooper – que está no roteiro original e faria toda a força dramática da estória – não acontece e o filme termina com uma “boa vontade” que nem sequer o otimista Capra aprovou. E considerem que Capra era um cara bastante otimista!

Joan Bennet, a tentação onírica de "Um retrato de mulher"

Joan Bennet, a tentação onírica de “Um retrato de mulher”

Um outro grande clássico modificado que lembro é “Um retrato de mulher” (“The woman in the window”, Friz Lang, 1944). Nesse filme, toda a desventura noturna desse homem casado que saiu dos trilhos, sofreu a queda e deveria pagar por isso com a morte… vira um sonho, e essa qualidade onírica da estória toda é inventada somente para podermos ter um final feliz.

Uma pequena mas significativa modificação de final foi operada no hitchcockiano “Os pássaros” (“The birds”, 1963) que termina – vocês lembram – com a família deixando a casa em Bodega Bay ao meio dos pássaros em estado de repouso, espalhados por toda parte, e pronto. Bem mais ameaçador, o último fotograma do filme deveria ter sido uma imagem da Golden Gate, a famosa ponte de São Francisco, superlotada de pássaros…

Como não disponho de muito espaço, pulo aos anos oitenta, com o hoje clássico science-fiction “Blade runner” (Ridley Scott, 1982) que – todo cinéfilo está cansado de saber – no original, não tinha o happy end que tem, um acréscimo dos produtores que, junto com a voz over explicativa, o diretor foi obrigado a engolir, depois de algumas sessões com as plateias cobaia do estúdio.

Glenn Close e Michael Douglas em "Atração fatal"

Glenn Close e Michael Douglas em “Atração fatal”

Um caso menos conhecido do grande público talvez seja o de “Atração fatal” (“Fatal attraction”, Adrian Lyne, 1987): na primeira cópia do filme, a amante neurótica feita por Glenn Close comete suicídio de uma forma tal que sua morte pudesse parecer um crime cometido pelo personagem de Michael Douglas, e este é incriminado e termina preso. Era um final que imitava o desenlace de um filme antigo, “Amar foi minha ruína” (“Leave her to heaven”, John M Stahl, 1945), porém, as platéias cobaia de Hollywood não gostaram e Lyne foi pressionado a inventar o final que conhecemos – vocês lembram – a esposa traída é que dispara o revolver contra a amante, quando a tentativa de afogamento na banheira não funciona.

Um estouro de bilheteria como “Uma linda mulher” (“Pretty woman”, Gary Marshall, 1990) talvez deva seu sucesso à modificação imposta pelos produtores: na estória original, a prostituta (Julia Roberts) terminava abandonada pelo seu amante rico (Richard Gere), derramando lágrimas amargas em cima de um pacote de dólares que, deixado em seu modesto apartamento, deveria pagar pelo divertimento que ela havia proporcionado ao companheiro de aventura amorosa… Nada de casamento, nada de príncipe encantado.

Evidentemente, a lista de finais impostos não termina aqui, e deixo ao leitor o esforço de lembrar, ou pesquisar, outros casos, talvez mais escandalosos.

Uma pergunta possível é se esses filmes modificados pelos produtores ficaram – qualitativamente falando – piores ou melhores, depois de refeitos, embora, claro, a comparação caso a caso só venha a ser viável se uma cópia original – com os finais dos diretores – tivesse sobrevivido aos filmes distribuídos. De qualquer forma, como os finais originais de que temos notícia eram sempre disfóricos e os impostos são eufóricos, cabe, de uma forma geral, ao menos refletir sobre a função mítica do “final feliz” no imaginário do cinema.

Richard Gere não dá o fora em Julia Roberts em "Uma linda mulher"

Richard Gere não dá o fora em Julia Roberts em “Uma linda mulher”

Estreia de “O homem que vê no escuro”: um registro verbo-visual

2 jan

 Faço aqui o registro verbo-visual da estréia do filme O homem que vê no escuro (Mirabeau Dias, 2012), para quem não pôde comparecer, e também para quem compareceu, os muitos amigos, colegas e conhecidos que ocuparam as 150 cadeiras do recém fundado Cine Linduarte Noronha, nas dependências do prédio da Funjope, rua Duque de Caxias, 352, em João Pessoa, na noite de 28 de dezembro de 2012, dia Mundial do Cinema.

Cena do filme

Cena do filme

O homem que vê no escuro é um longa documental (101 minutos) sobre a minha pessoa, meu trabalho, minha militância na crítica cinematográfica e minha vida.

Concebido, roteirizado, dirigido, editado e produzido por Mirabeau Dias, o filme faz um passeio por minha linha existencial, a partir de entrevistas que, em momentos diferentes, concedo ao professor Luiz Antônio Mousinho, aos jornalistas Renato Felix e Astier Basílio e ao próprio Mirabeau Dias.

Cena do filme

Cena do filme

Nessas entrevistas fica delineada a minha trajetória de ser humano, de escritor e de pensador do cinema, os dados pessoais (o primeiro filme que vi, por exemplo) se misturando ao embate conceitual (livros que li, pessoas que me influenciaram, etc) que me conduziu à posição teórica que caracteriza meus escritos e minha maneira de interpretar o cinema. Naturalmente, toda a minha fala é emoldurada por cenas de filmes, imagens amadas de nós todos.

Do filme também fazem parte lances criativos, nada documentais – evidentemente, todos soluções expressionais do diretor – que ilustram a minha paixão pelo cinema de várias formas, em alguns casos de forma brincalhona. James Stewart enredando de mim por telefone a Hitchcock em “Janela indiscreta”, ou, eu, na pele de Gary Cooper, dando meia volta na carroça para ir pegar o livro “Imagens amadas” (começo de “Matar ou morrer”) são dois lances que vêm ao caso. Cito mais dois: uma dramatização que, a pedido do diretor, faço do mini-conto “Flor de Cacto” (conferir neste blog meu livro “Um beijo é só um beijo”) e minha enxerida ingerência no ato de desenhar, um hobby secreto que sempre escondi de todos.

Cena do filme

Cena do filme

A exibição do filme fez parte do evento que celebra o Dia Mundial do Cinema, evento este organizado pela Academia Paraibana de Cinema, sob a presidência do jornalista e historiador Wills Leal. Na ocasião, foram entregues prêmios aos melhores filmes paraibanos realizados em 2012, que passo a citar em suas respectivas categorias:

Presidente da APC, Wills Leal

Presidente da APC, Wills Leal

“Tudo que Deus criou” de André da Costa Pinto (Longa metragem de ficção); “Radegundis Feitosa” de Anthur Lins e Niu Batista (Longa metragem documental); “Ato instituicional” de Helton Paulino (curta de ficção); “Fogo pagou” de Ramon Batista (curta documental).

A atriz Marcélia Cartaxo

A atriz Marcélia Cartaxo

Houve ainda a entrega dos troféus do Festcine Digital do Semiárido, para: “A Ninhada” de Nivaldo Miranda (ficção) e “Quebra quilos” de Haroldo Vidal. O produtor e realizador Durval Leal recebeu um prêmio especial pelo conjunto de sua obra, e a atriz Marcélia Cartaxo fez o anúncio oficial do prêmio Walfredo Rodriguez, recém instituído pela Funjope.

Após a exibição de O homem que vê no escuro foi servido um coquetel aos presentes. (Confira fotos).

JBBrito entre amigos

JBBrito entre amigos

JBBrito entre amigos

JBBrito entre amigos

JBBrito entre amigas

JBBrito entre amigas

JBBrito, Sérgio de Castro Pinto, Mirabeau Dias e Suely

JBBrito, Sérgio de Castro Pinto, Mirabeau Dias e Suely

Silvino Espínola, JBBrito e o diretor Mirabeau Dias e esposa, Suely.

Silvino Espínola, JBBrito e o diretor Mirabeau Dias e esposa, Suely.

Coquetel

Coquetel

Coquetel, vendo Wills Leal à direita, de costas

Coquetel, vendo-se Wills Leal à direita, de costas