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Café com pão

10 jan

 

Algum tempo atrás, assisti, na televisão paga, a uma entrevista com uma renomada gourmet, que discorreu sobre os pratos mais refinados do planeta e a arte de prepará-los e servi-los.

Infelizmente não gravei o nome da gourmet, mas isto não me impede de citá-la, principalmente na sua fala final. Depois de conversarem, ela e o jornalista entrevistador, sobre a alta cozinha, seus ingredientes e seus deliciosos segredos, o jornalista fez a pergunta que o espectador, de água na boca, queria que ele fizesse.

“Para finalizar – indagou ele – gostaria que a senhora nos dissesse qual o seu prato preferido.” A entrevistada, então, esboçou um sorriso malicioso e foi dizendo: “Acho que você vai se decepcionar, porque, para mim, não há nada melhor do que café com pão”. Diante da cara de espanto do entrevistador, completou: “um bom café e um pão de qualidade são a melhor comida do mundo”.

Cena de "Quem matou Vicky?"

Cena de “Quem matou Vicky?”

Nunca esqueci a entrevista e o tanto de verdade que ela contém, sobretudo na sua defesa da simplicidade; nem esqueci o quanto a sua conclusão é aplicável a outras esferas da vida humana.

Claro que pensei logo no cinema.

Vejam bem: Eisenstein, Orson Welles, Bergman, Antonioni, Resnais, Godard, Kurosawa, Kubrick… tudo isso é culinária sofisticada para ser consumida devagarinho em ocasiões especiais, com comedimento para não enjoar, ou, se for o caso, para não causar algum tipo de indigestão existencial.

A esses pratos finos contraponho o “café com pão” que consumo quase todo dia, barato, e sem efeitos colaterais, só os propostos. Refiro-me a toda aquela gama de filmezinhos B que Hollywood produziu nos anos quarenta e cinquenta, os hoje chamados filmes noir, que nunca ganharam Oscar, nem pretenderam ganhar. São estórias simples, envolvendo quase sempre crime, mulher fatal, polícia, e muita sombra…

Lee J Cobb em "Por uma mulher má".

Lee J Cobb em “Por uma mulher má”.

O elenco não precisava ser famoso, nem ninguém da equipe, sequer os diretores. Eram produções de baixo orçamento que os grandes estúdios permitiam que fossem rodados para as exibições do meio da semana, e por isso, não fiscalizavam as filmagens, deixando os cineastas à vontade para lances criativos, impossíveis nas superproduções. O resultado é que com pouco dinheiro e um pouco de liberdade, se rodavam filmes intrigantes e inovadores para a época. Às vezes, um diretor famoso assumia esses projetos modestos, mas esta não era a regra. Fritz Lang, Otto Preminger, John Huston e Howard Hawks foram alguns, mas, na maior parte dos casos as assinaturas desses filmes só são reconhecidas pelos poucos que curtem “café com pão”.

Como na citação da nossa gourmet, trata-se de café com pão, porém, não de qualquer café ou qualquer pão: é café do bom e pão de qualidade.

Para não ficar no vazio, cito uma listinha de deliciosas refeições que fiz ao longo da vida e adoro repetir. Veja se você já saboreou esses filmezinhos “café com pão”. Se não, não sabe (nos dois sentidos da palavra) o que está perdendo:

"Moeda falsa", 1947, de Anthony Mann.

“Moeda falsa”, 1947, de Anthony Mann.

Quem matou Vicky? (I Wake up screaming, 1941, Bruce Humberstone). Com Victory Mature e Betty Grable.

Cilada mortífera (Murder by contract, 1958, Irving Lerner). Com Vince Edwards e Phillip Pine.

Mata-me por favor (Please, murder me, 1956, Peter Godfrey). Com Raymond Burr e Angela Lansbury.

Dúvida (The suspect, 1944, Robert Siodmak). Com Charles Laughton e Ella Raines.

A maleta fatídica (Nightfall, 1957, Jacques Tourneur). Com Aldo Ray e Anne Bancroft.

Trágico alibi (My name is Julia Ross, 1945, Joseph H. Lewis). Com Nina Foch e George MacReady.

Sonha, meu amor (Sleep, my love, 1948, Douglas Sirk). Com Claudette Colbert e Robert Cummings.

A maldição da sombra (The second woman, 1950, James V. Kern). Com Robert Young e Betsy Drake.

Moeda falsa (Raw Deal, 1947, Anthony Mann). Com Dennis O´Keefe, Alfred Ryder.

O beijo da morte (Kiss of death, 1947, Henry Hathaway). Com Victor Maturee e Brien Donlevy.

Os quatro desconhecidos (Kanzas City Confidential, 1952, Phil Karson). Com John Payne e Coleen Gray.

Por uma mulher má (The man who cheated himself, 1950, Felix E. Feist). Com Lee J. Cobb e Jane Wyatt.

"Dúvida", com Charles Laughton, 1944.

“Dúvida”, com Charles Laughton, 1944.

Amor e espaguete

2 jan

Não costumo ler bestsellers, mas, às vezes não é possível evitar. Um inevitável é este “Ontem, hoje e amanhã” (2014) que está em todas as vitrines, a autobiografia de ninguém menos que Sophia Loren.

Aproveitei a chatice do Natal para devorá-lo, o que fiz em dois dias seguidos, e não me arrependo. Uma pessoa como Sophia Loren não conseguiria, mesmo que quisesse, contar sua vida sem contar parte da história do cinema, uma história que, por tabela, também é nossa.

o livro

E para completar, o livro está bem escrito, com dosagens certas de informação privada e de informação pública. O que não é de domínio popular e o que já é, está tudo lá, bem dito e bem arranjado. Alguns dos tópicos mais interessantes são:

A infância pobre da menina Sofia (ainda com “f”) Sciocolone, em Pozzuoli, Nápoles, durante a guerra, toda ela marcada pela fome, uma fome tão grande que lhe gerou o apelido de ´Sofia palito´.

Na adolescência, os primeiros passos para a fama nacional, através da participação nas fotonovelas dos anos 50, ainda com o seu primeiro nome artístico de Sofia Lazzaro.

As primeiras pontas em filmes da Cinecittà, e o primeiro papel de protagonista, em 1957, na superprodução “Orgulho e paixão”, ao lado de Cary Grant e Frank Sinatra.

Agora já com o nome de Sophia Loren (com “ph”), a formação do trio famoso: ela, Vittorio De Sica e Marcello Mastroiani, que ela chama de ´os três mosqueteiros´. Como se sabe, com cada um dos dois, ou com os dois juntos, ela rodou inúmeros filmes, inclusive aquele que dá nome ao livro (“Ontem, hoje e amanhã, 1964), no qual ela executa um delirante striptease, ainda hoje comentado.

O Oscar por “Duas mulheres” (1961) e a projeção internacional, que lhe abre o caminho inevitável a Hollywood. E aí vamos ter os seus depoimentos emocionados dos primeiros contatos com gente do show business, que antes, ela só conhecia das telas. De Cary Grant (que, sem sucesso, a havia pedido em casamento depois das filmagens de “Orgulho e paixão”) até Charles Chaplin a lista é enorme.

O rosto latino perfeito

O rosto latino perfeito

Um espaço todo especial no livro vai haver para duas figuras que foram as mais decisivas em sua vida, a mãe e, mais tarde, o marido. A mãe foi uma bela mulher que, na juventude, lutou por uma carreira de sucesso, mas que caiu na armadilha de um amor não correspondido, e esse amor veio a ser o pai de Sophia, um homem ausente e mesmo hostil. O marido, que Sophia calorosamente denomina de “o homem da minha vida”, foi o produtor Carlo Ponti, vinte e dois anos mais velho, com quem se envolveu quando ele ainda era casado, e com quem viveu toda uma existência de amor e harmonia.

Pelo menos três grandes dramas são narrados com certa tristeza. Na ordem: o desejo frustrado de ser mãe, em dois abortos consecutivos, até ser finalmente ´curada´ da suposta esterilidade por um médico mais competente que o médico da família. O exílio forçado, quando a justiça italiana e a Igreja interpretam o seu casamento como bigamia, uma vez que Ponti, embora separado havia anos, continuava casado com a primeira esposa. E, já em idade madura, a prisão na Itália, por suposta sonegação de imposto de renda.

Um assunto recorrente no livro é a gastronomia, um prazer que advém da comidinha que a avó materna improvisava nos tempos duros da guerra. Sem coincidência, Loren é autora de um livro de receitas que ainda hoje é popular na Europa, o “Ricordi e ricette” (´Recordações e receitas´), acho que sem edição brasileira.

E por falar em gastronomia, passo a um episódio que não está no livro, mas que conheço de outra fonte e aqui menciono para explicar o título que, preservando a isotopia do afeto e do paladar, quis dar a esta matéria.

Em 2001, os ingleses fizeram uma votação geral para eleger a mulher mais bela do Século XX e, disparada, Sophia Loren ganhou. Entregue o prêmio, a imprensa a procurou para uma coletiva e, na entrevista, um jornalista fez a pergunta óbvia: como era que, naquela idade (então, setenta e sete anos) ela exibia tanta beleza e vitalidade? A resposta veio curta e fina: “Amor e espaguete!”.

Sophia em "El Cid".

Sophia em “El Cid”.

Voltando a “Ontem, hoje e amanhã”, um livro simples, sincero, sentido, escrito com a serenidade de quem soube – e sabe – viver. Com amor e espaguete, naturalmente.

 Se contarmos todas as suas aparições na tela, podemos dizer que, até o momento, Sophia Loren trabalhou em noventa e quatro filmes. Aqui faço seguir uma lista de dez que, de alguma forma, foram importantes na sua carreira e na boa lembrança que dela mantemos:

Desejo (Desire under the elms, 1958) de Delbert Mann, com Anthony Perkins e Burl Ives

Começou em Nápoles (It started in Naples, 1960) de Melville Shavelson, com Clark Gable

Duas mulheres (La ciociara, 1961) de Vittorio De Sica, com Jean-Paul Belmondo e Eleonora Brown

El Cid (1961) de Anthony Mann, com Charlston Heston e Raf Valone

Ontem, hoje e amanhã (Ieri, oggi, domani, 1964) de Vittorio De Sica, com Marcello Mastroiani

A condessa de Hong Kong (A countess from Hong Kong, 1967) de Charles Chaplin, com Marlon Brando

Os girassóis da Rússia (I girassoli, 1970) de Vittorio De Sica, com Marcello Mastroiani

A mulher do padre (La moglie del prete, 1971) de Dino Risi, com Marcello Mastroiani

O homem de La mancha (Man of La Mancha, 1972) de Arthur Hiller, com Peter O´Toole

Um dia muito especial (Una giornatta particolare, 1977) de Ettore Scola, com Marcello Mastroiani.

Com Mastroiani, em "Um dia muito especial", obra prima de Ettore Scola.

Com Mastroiani, em “Um dia muito especial”, obra prima de Ettore Scola.

 

Cinema francês

15 maio
 

Sempre bem-vinda é essa Mostra Varilux de Cinema Francês, que nos traz a produção recente de uma das cinematografias estrangeiras mais ativas e cuja distribuição vive esmagada pela hegemonia americana. Com alguns filmes bons e outros nem tanto, esta terceira versão da Mostra agitou a cinefilia pessoense, que, em sete dias consecutivos, quase sistematicamente lotou a Sala 1 do Cinespaço.

O que caracteriza o cinema francês de hoje? Eis uma pergunta que pode ocorrer ao freqüentador dessas Mostras. Obviamente, é difícil dizer a partir de um número limitado de filmes exibidos (em João Pessoa foram 16), porém, quer me parecer que a Mostra atual pode suscitar uma pista interessante.

Se o espectador ainda recorda, cada exibição foi precedida de um clipe de comerciais de patrocinadores da Mostra. Um deles “vendia” um hotel situado no Rio de Janeiro e, com imagens deslumbrantes da cidade, nos fazia ver a paisagem carioca, para, em seguida, passar às luxuosas dependências do hotel, cujo nome não lembro. Não lembro, mas lembro bem uma discreta inscrição no lado direito da tela, garantindo: “sofisticação francesa”, como a dizer: o local é Brasil, mas a sofisticação é outra.

Cena de Adeus minha rainha, estreia da Mostra Varilux em João Pessoa

Cena de Adeus minha rainha, estreia da Mostra Varilux em João Pessoa

Pois, justamente a “sofisticação francesa” me ocorre como um ponto comum entre, se não todos, pelo menos a maior parte dos filmes exibidos nesta terceira versão da Mostra Varilux. Bem entendido, essa sofisticação não está relacionada à qualidade cinematográfica (se assim fosse, todos os filmes seriam excelentes): ela aparece, isto sim, como um ou outro ingrediente da diegese, ou seja, do universo ficcional dos filmes. Explico-me.

Na verdade, ela já é evidente nas temáticas escolhidas por alguns, que referem grandes artistas: Renoir, Camile Claudel, Molière, Victor Hugo, mas mesmo quando não se adapta nem biografa vultos dessa dimensão, os filmes – em muitos casos tratando de gente como a gente – estão impregnados, em pontos diversos de seus roteiros, da chamada ´alta cultura´, ou seja, poesia, teatro, literatura, filosofia, música clássica, cinema de arte, gastronomia, etc.

Dou alguns exemplos.

“Feito gente grande” é, aparentemente, um filme simples sobre crianças, mas só aparentemente: a pequena narradora ganhou uma máquina de escrever e redige, ao longo do filme, um discurso cheio de ironias sutis a quem? A sua psicanalista.

Cena de Feito Gente Grande (Du vent dans mes mollets, 2011)

Cena de Feito Gente Grande (Du vent dans mes mollets, 2011)

Aliás, uma estória muito banal poderia ser a de “A datilógrafa”, sobre um concurso de datilografia, mas lembram o método sugerido pelo patrão e “técnico” à mocinha que concorre? Leia os grandes clássicos da literatura (Flaubert, Balzac, Stendhal…) para ficar preparada para as construções de linguagem mais inusitadas! – o que ela faz de bom grado e tem sucesso.

Em “Adeus, minha rainha”, a mocinha que cuida de Maria Antonieta não é uma mera aia: ela é lotada na biblioteca do palácio de Versailles e a sua função precípua é aprimorar os ouvidos da Rainha, lhe lendo livros e mais livros.

“Anos incríveis” trata de um rapaz que se mete com televisão (pirata e não pirata), mas o seu sonho, sempre referido no diálogo, é Rosselini, Nouvelle Vague, Truffaut, Godard, etc, ou seja, o suprassumo do que se entende por cinema de arte.

A Datilógrafa (Populaire, de Régis Roinsard, 2012)

A Datilógrafa (Populaire, de Régis Roinsard, 2012)

“Além do arco-iris” tem uma narrativa que entrecruza, de modo tragicômico, vários personagens de famílias diversas, tudo gente simples, porém, vejam qual é a profissão dos jovens protagonistas – músicos, e de grupos que, claro, só executam clássicos no nível de Beethoven.

Neste último caso, tenho a impressão de que, se essa comédia simplória sobre encontros e desencontros entre pessoas comuns, fosse americana, a profissão do rapaz seria bem outra – provavelmente ia variar de pizza boy a técnico em computação, passando por frentista de posto de gasolina, por aí.

Esses lances de ´cultura clássica´ enxertados nos roteiros, como dito, não melhoram nem pioram a qualidade estética dos filmes, porém, já que existem e são recorrentes, chamam a nossa atenção como uma marca produtiva de foro nacional.

Como sabemos, o passado do cinema francês se divide entre muito acadêmico (anos cinqüenta para trás) e muito vanguardista (Nouvelle Vague para frente). O de hoje demonstra, no geral, ter encontrado um equilíbrio interessante entre convenção e experimento, produzindo filmes que, bons ou ruins, o espectador comum entenda, embora, como estamos na França, se espere que esse espectador comum conheça os segredos de estilo que deram vida à Madame Bovary, mesmo que ele, como o personagem masculino de “A datilógrafa”, não passe de um modesto contador. Ou que ainda se angustie com a frase de Godard sobre a moralidade do traveling, mesmo que ele, como o protagonista de “Anos incríveis”, não passe de um office boy de um comercial canal televisivo.

Poster de Anos Incríveis (Michel Leclerc, 2012)

Poster de Anos Incríveis (Michel Leclerc, 2012)