Tag Archives: gênero noir

Eu e Jules Dassin

5 abr

Foi em 1983 que a escritora e pesquisadora americana Joan Dassin visitou João Pessoa. Fora convidada para um breve curso na Pós-graduação em Letras da UFPB e ficou conosco durante ao menos uma semana. Como membro daquela Pós, fiquei encarregado de ciceroneá-la cidade afora, o que fiz com muito prazer.

Ficamos amigos e antes de partir, ela me garantiu que, fosse eu um dia aos States e passasse em Nova Iorque, ela me hospedaria. Dito e feito, três anos depois, recebi bolsa de pesquisa da Fulbright e fui estudar a poesia americana do Século XX na Universidade de Indiana, em Bloomington. Nas férias, dei uma esticada até Nova Iorque e fui, sim, muito bem hospedado por Joan Dassin, no seu apartamento – um luxo que nunca pensei ter – em plena Broadway.

Algum tempo depois de ter voltado dos States, conversando com o coordenador da Pós, fui pego de surpresa por um comentário dele: “Você e Joan devem ter conversado muito sobre cinema, não é?” E eu, sem entender: “Sobre cinema? Por que?” E ele: “Ela não é sobrinha de um grande diretor americano?” E só então a minha ficha caiu: Joan Dassin era sobrinha de Jules Dassin, um cineasta que eu tanto admirava. Meu deus, como é que isso me escapou?

O cineasta Jules Dassin (1911-2008)

Preciso explicar que a minha mancada teve razão de ser. Desde a adolescência, sempre ouvi o nome de Jules Dassin pronunciado à francesa, um oxítono de sílaba final aberta, assim: /dassán/. Ouvia e repetia, claro. Acho que a pronúncia francesa consagrou-se pelo fato de ter Dassin vivido tanto tempo na Europa e ter ficado mais conhecido no mundo inteiro como o autor de um filme francês de grande sucesso entre a crítica, o noir, “Du rififi chez les hommes”, no Brasil, apenas “Rififi” (1955). Ora, quando Joan Dassin apareceu por aqui, seu sobrenome foi pronunciado, evidentemente, à americana: um paroxítono inequívoco, com sílaba final dita como escrita: /dássin/. E, resultado, não fiz a associação.

Mais tarde, em carta a ela, referi-me ao fato e, brincalhona, ela me respondeu que “não sou sobrinha de Jules Dassin; ele é que é meu tio”.

Não sei se Joan iria querer conversar sobre o tio, mas, com certeza, estivesse eu na ocasião já sabendo de quem ela era sobrinha, teria puxado o assunto para a obra de um cineasta que considero um dos mais importantes do Século XX.

O seu “Rififi” devo tê-lo visto em algum cineclube pessoense, um thriller maravilhoso sobre o roubo de uma joalharia parisiense, ainda lembro, com uma cena silenciosa – justamente a execução do roubo – que é de tirar o fôlego.

Cidade nua, 1948.

Quando por aqui estreou o seu maior sucesso de público, “Nunca aos domingos” (1960) foi quase uma festa. Tocada em todas as rádios e radiolas, a música era um convite à dança, e todo mundo queria ver a bela Melina Mercouri como a prostituta do cais do porto de Pireu, que trabalhava todos os dias da semana, menos aos domingos.  Embora não o realize à altura, o filme tinha um roteiro interessante: um intelectual americano, especialista em cultura e arte gregas, viajava à Grécia e lá conhecia essa prostituta que não queria saber de Sófocles nem de Aristóteles e preferia ir à praia e curtir a vida.

Mas, esperem, estou começando a estória pelo final, ou pelo meio. O grande Dassin, aquele cuja obra vai perpetuar-se na história do cinema, fica lá atrás, anos quarenta, até começo dos cinquenta, período em que rodou os seus melhores. Em particular, penso em quatro filmes que, juntos, configuram o ápice do gênero noir, a saber, “Brutalidade” (“Brute force”, 1947), “Cidade nua” (“Naked city”, 1948), “Mercado de ladrões” (“Thieves Highway”, 1949) e “Sombras do mal” (“The night and the city”, 1950).

Esses filmes, conheço-os bem, mas destaco especialmente “Cidade nua” que venho de rever  há pouco. Todo rodado em estilo documental, o filme conta a estória do desvendamento de um assassinato de uma modelo, encontrada morta na banheira de seu apartamento. Disse ´documental´ porque o filme faz duas coisas ao mesmo tempo: enquanto narra o caso do crime, descreve a cidade de Nova Iorque, uma personagem tão importante quanto as outras.

Nova Iorque é personagem em Cidade Nua.

Não é nada gratuito que se chame “Cidade nua”. Supostamente inspirado no Neo-realismo italiano, ele está repleto de personagens por assim dizer “extra-diegéticos”, na medida em que são personagens que não servem para fazer a narração andar, mas que são essenciais para a descrição sociológica de Nova Iorque. Vistos em pontas – conversando na frente de uma vitrine, nas ruas, nos restaurantes, dentro do metrô lotado, são tantos, que seria cansativo mencioná-los. E para completar o quadro descritivo, lembremos também que o filme todo foi rodado in loco e que os transeuntes reais fizeram parte da encenação.

Por falar em personagem, um aspecto da construção do enredo que não pode deixar de ser mencionado está na galeria de coadjuvantes, especialmente as femininas, talvez para fazer lembrar que a vítima era uma mulher. De cômicas a dramáticas, essas mulheres são marcantes: (1) a faxineira da vítima, que descobre o corpo na banheira do apartamento; (2) a velhota maluca que se apresenta à polícia com “a solução para o crime”; (3) a modelo amiga da vítima e namorada do maior suspeito; (4) a mãe dessa modelo; (5) a secretária do médico que, no desenlace, será descoberto como pivô do crime: (6) a mãe da modelo morta, maldizendo a filha e mudando de emoção no momento do contato com o corpo.

Reforça o sentido sociológico da descrição a voz over de um narrador onisciente que nos conta a estória e nos descreve a cidade, como se estivesse produzindo um ensaio. Esse narrador – que, aliás, veridicamente falando, é o próprio produtor do filme, Mark Hellinger – fala ao espectador e curiosamente também fala aos personagens. Cito um exemplo entre muitos: quando o jovem detetive Halloran chega ao arranha-céu onde fica o consultório do médico da vítima, antes de ser atendido, olha pela janela e se distrai com a paisagem lá fora. Nesse momento, ouve-se a voz over do narrador: “Aí está sua cidade, Halloran. Olhe bem. Jean Dexter está morta. E a resposta pode estar em algum lugar lá embaixo”.

Howard Duff faz o papel do suspeito Frank Niles.

Sociologia à parte, “Cidade nua” não deixa de ser um noir completo e extremamente satisfatório. Por exemplo, brinca com a noção de pista falsa o tempo inteiro, fazendo crer que o criminoso é X quando, na verdade, só saberemos no final, era Y. Como nos melhores policiais, desenvolve o conceito de “whodunit” (corruptela de “who has done it?”: “quem fez isso?”) a contento e, aliás, comete uma brincadeira com o gênero que, indiretamente, lembra o mestre Hitchcock. Ao desconhecido autor do crime, durante o filme todo, o encarregado das investigações, o Tenente Muldoon, dá o nome fictício, por ele inventado, de “Mr McGillicuddy” (nome que, segundo ele, vale para todos os criminosos desconhecidos). O que lembra o famoso conceito de “Macguffin” em Hitchcock, só que aqui referido, não a um motivo, mas a um personagem.

Dassin fechou a “quaderna” noir a que me referi acima quando, em 1951, teve seu nome soprado para a lista negra do Senador McCarthy e foi, assim, compelido a deixar o país. No seu exílio europeu, fez o excelente “Rififi”, mas, depois disso, ao ligar-se à grega Melina Mercouri, sua carreira decaiu vertiginosamente. Mas esta é outra história, que não me proponho contar.

Jules Dassin faleceu em 2008, aos 96 anos de idade. Fico pensando por onde andará sua sobrinha Joan. Qualquer dia desses, abro o Google e a encontro.

Joan Dassin, a sobrinha do cineasta.

Anúncios

Notas sobre o “Noir”

6 set

 

Eis uma questão em que a crítica diverge: qual o gênero cinematográfico mais autenticamente americano, aquele em que a Hollywood histórica mais deu de si do ponto de vista artístico?

Segundo a crítica Pauline Kael teria sido a “comédia maluca” (´screball comedy´) dos anos trinta; para o crítico André Bazin, teria sido o Western; já na opinião do crítico Roger Ebert teria sido o “noir” (pronuncia-se /nuár/).

Quem tem razão, não sei, porém, conheço de perto tantos cinéfilos apaixonados pelo gênero noir que me inclino a eleger, aqui, a opção de Ebert.

O falcão maltês: considerado o primeiro noir (1940)

O falcão maltês: considerado o primeiro noir (1940)

E, claro, eu mesmo sou um fã incondicional desse gênero onde – o dito mantém – não podem faltar ´arma, mulher e chapéu´. Só isso? Que nada: os ingredientes do noir são muitos e variados.

Formalmente, são filmes em preto-e-branco, cheios de sombras e angulações fora do comum, com ambientações urbanas e música sombria. Na perspectiva do conteúdo, os filmes noir são estórias policiais envolvendo crime, sexo, culpa, mistério, e punição; os protagonistas podem ser detetives particulares, policiais, gangsteres, ou mesmo cidadãos comuns vítimas de ciladas…

Desculpem o cabotinismo, mas gosto da súmula descritiva que eu mesmo inventei para o gênero: “num mundo mau, pessoas más fazendo coisas más e se dando mal.”

Barbara Stanwyck e Fred McMurray em Pacto de sangue.

Barbara Stanwyck e Fred McMurray em Pacto de sangue.

O período áureo do noir foi a vintena que vai de 1940 até os finais dos anos cinquenta. O que se fez depois disso, nos parâmetros do gênero, foi derivação, e, o que se fizera antes tinha sido premonição. Tanto é que “Relíquia macabra” (1940) é dado como sendo inaugural e “A marca da maldade” (1958) é considerado um dos últimos noirs autênticos.

Para historiadores e estudiosos, o gênero noir brotou da combinação estética de duas coisas diferentes: de um lado a literatura policial americana dos tempos da Depressão, tipo: Dashiel Hammet, Raymond Chandler, James M. Cain, etc; de outro, o movimento expressionista alemão dos anos vinte, trazido a Hollywood por imigrantes como Fritz Lang e outros. Da primeira, ele herdou a narrativa hardboiled, pessimista e de final infeliz; do outro, a plástica gótica.

Salvo exceções, eram produções B, ou seja, de orçamentos limitados, mas, o engraçado é que, ao tempo em que se produziam os filmes noir em Hollywood, o termo não existia, pelo menos não na acepção hoje conhecida. Foi o crítico francês Nino Frank quem primeiro o usou com esta acepção, em 1946: “Noir” (´negro´ em francês) era a cor da capa das publicações policiais em que esses filmes eram baseados, e o crítico francês achou que era um termo bem apropriado para definir o gênero. O termo, porém, não pegou logo, pois, segundo consta, os próprios cineastas americanos não gostaram dele. Só veio a pegar muito mais tarde, dos anos 70 em diante, quando os historiadores do cinema passaram a usá-lo de forma retroativa.

Humphrey Bogart e Lauren Bacall em À beira do abismo.

Humphrey Bogart e Lauren Bacall em À beira do abismo.

Dentre os grandes cineastas atuando na Hollywood clássica, poucos são os que não cometeram filmes noir. Como a lista é enorme, prefiro citar atores que encarnaram bem os protagonistas nesses filmes: Humphrey Bogart, Dana Andrews, Edward G. Robinson, Richard Conte, Robert Mitchum, Robert Ryan, Fred McMurray, Alan Ladd, Glenn Ford… foram alguns deles.

Evidentemente, há controvérsias sobre o estatuto de gênero doado ao noir. Para alguns, ele seria só um sub-gênero do filme policial, para outros, trata-se de um gênero sólido, completo, semioticamente definido. Uma coisa é certa, mesmo no período clássico, se todo noir era policial, nem todo policial era noir.

Bem, o assunto é por demais vasto e pretendo a ele retornar em outras ocasiões. Por enquanto, façamos apenas uma lista dos pelo menos dez filmes noir mais ilustrativos do gênero, não os melhores, mas aqueles mais citados pela crítica e historiografia. Se fôssemos nos ater à década de quarenta, os filmes poderiam ser estes:

 

Relíquia macabra (John Huston, 1940)

Um retrato de mulher (Fritz Lang, 1944)

Laura (Otto Preminger, 1944)

Pacto de sangue (Billy Wilder, 1945)

A beira do abismo (Howard Hawks, 1946)

O destino bate a sua porta (Tay Garnett, 1946)

Interlúdio (Alfred Hitchcock, 1946)

Fuga do passado (Jacques Tourneur, 1947)

Amarga esperança (Nicholas Ray, 1948)

O terceiro homem (Carol Reed, 1948)

A marca da maldade (A touch of evil, 1958) direção de Orson Welles.

A marca da maldade (A touch of evil, 1958) direção de Orson Welles.