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Cine Tambaú

4 jun

 

Por que nunca escrevi sobre o extinto Cinema Tambaú, eu que tanto escrevo sobre cinemas extintos? Alguns amigos já reclamaram e eu não soube o que responder.

É, de fato, estranho, pois fui, desde a sua abertura, no começo dos anos setenta, um frequentador assíduo daquela elegante casa de espetáculos, tão elegante quanto o Hotel todo.

Não sei que filme o inaugurou e não devo ter comparecido a essa estreia festiva, porém fui lá, sim, nas primeiras semanas de seu funcionamento, entusiasmado de estar adentrando um novo cinema em João Pessoa, numa época em que os mais antigos já estavam fechando suas portas.

Eu morava em Jaguaribe, bairro afastado da praia, e naquela época, as distâncias em João Pessoa eram bem maiores. Devo ter ido de ônibus, mas não me arrependi. Ao contrário, adorei o cinema e o filme, e logo senti que aquela trajetória de ônibus iria se repetir muitas vezes.

Vista parcial do Hotel Tambaú, que abrigava o cinema.

Vista parcial do Hotel Tambaú, que abrigava o cinema.

Anos depois, mudei-me para Manaíra e o acesso ficou mais fácil.

Das minhas boas lembranças cinematográficas fazem parte coisas ocorridas no Cinema Tambaú, quase todas nos anos oitenta, por exemplo: uma mostra Glauber Rocha, quando do falecimento do cineasta baiano; uma mostra do alemão Fassbinder, também recém falecido; e uma mostra Hitchcock, na ocasião da liberação dos seus filmes embargados, entre os quais “Janela Indiscreta” e “Um corpo que cai”. E, enfim, exibições de outros tantos clássicos (“Vidas amargas”, por exemplo) que a gente – ainda sem a invenção do VHS – não tinha chance de ver ou rever de outro modo.

Nada mais agradável do que sair da sessão do Tambaú, atravessar a rua e ir tomar umas cervejas com amigos, na Lanchonete Nutritiva, ou então, comer ou beber em qualquer barraca da então chamada Feirinha de Tambaú.

Eu falei em cinema extinto, mas o caso do Tambaú é atípico: o cinema morreu, mas a sala ainda está no mesmo lugar, hoje com o nome do construtor do hotel, Sérgio Bernardes. Sala que, aliás, acolheu, durante quatro ou cinco anos, o nosso querido “Fest-Aruanda”.

Cartaz de "O passageiro da chuva" (1970).

Cartaz de “O passageiro da chuva” (1970).

Voltando ao início da crônica, o filme que vi na minha primeira visita ao Cinema Tambaú foi um delicioso thriller francês do veterano René Clément, “O passageiro da chuva” (“Le passager de la pluie”, 1970), cujo charme, na minha cabeça sonhadora, associei ao charme do cinema, como se um tivesse sido feito para o outro.

Na estória, essa dona de casa (a pequenininha e frágil Marlene Jobert) era estuprada dentro de casa por um estranho e o matava, jogando seu corpo num lago. Logo em seguida, aparecia esse Mr Dobbs (o grandão e forte Charles Bronson), dando a pinta de que sabia de tudo o que ocorrera, embora “Love-love”, como ele a chamava (por causa de uma inscrição em sua camiseta) negasse o crime até o fim. O resto era uma interminável briga de gato e rato, e o delineamento de um caso de amor mais escondido que o próprio crime.

Eu conhecia René Clément de longas datas. Ele foi um daqueles cineastas franceses execrados pela Nouvelle Vague, e, no entanto, tinha talento, tanto ou mais, que muitos nouvellevaguistas. Além de talento, era – como os mesmos nouvellevaguistas – um fã incondicional de Hitchcock, e a ele fez várias homenagens. Aliás, uma ironia do destino é que o filme com que presta homenagem ao mago do suspense fez, no mesmo período da inauguração da Nouvelle Vague, muito mais sucesso que os lançamentos de Truffaut, Godard, ou Chabrol. Digo sucesso, ambos, de crítica e de público: refiro-me a “O sol por testemunha” (1960).

Marlene Jobert e Charles Bronson em ação.

Marlene Jobert e Charles Bronson em ação.

Pois é, não dá para entender a indisposição dos nouvelleguistas para com Clément, pois os seus filmes dos anos quarenta e cinquenta são clássicos que honram a história do cinema francês, basta citar “Brinquedo proibido” (1952) e “A batalha dos trilhos” (1946).

Em “O passageiro da chuva” o intertexto hitchcockiano perpassa tudo; por exemplo, é com bebida que Mr Dobbs tortura Love-love (Cf “Intriga Internacional”), a qual sofre de lampejos culposos da infância (Cf “Marnie”). Esse intertexto é indicado pelo próprio cineasta, ao dar ao criminoso o nome de Macguffin. Confesso que, na época em que vi o filme eu não conhecia esse curioso conceito teórico, tão importante em Hitchcock, e, como todo mundo por aqui, teria que esperar anos pelo lançamento do livro “Truffaut/Hitchcock: entrevistas”… Não disponho de espaço para explicá-lo, e deixo ao leitor a curiosidade de pesquisar o significado do termo “macguffin” em linguagem cinematográfica.

Revi agora em DVD “O passageiro da chuva”, para mim, um retorno ao Cinema Tambaú e, com “macguffin” e tudo mais, um prazer em partilhar a brincadeira hitchcockiana de René Clément.

Um serial killer chamado Macguffin...

Um serial killer chamado Macguffin…

 

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Cinema francês

15 maio
 

Sempre bem-vinda é essa Mostra Varilux de Cinema Francês, que nos traz a produção recente de uma das cinematografias estrangeiras mais ativas e cuja distribuição vive esmagada pela hegemonia americana. Com alguns filmes bons e outros nem tanto, esta terceira versão da Mostra agitou a cinefilia pessoense, que, em sete dias consecutivos, quase sistematicamente lotou a Sala 1 do Cinespaço.

O que caracteriza o cinema francês de hoje? Eis uma pergunta que pode ocorrer ao freqüentador dessas Mostras. Obviamente, é difícil dizer a partir de um número limitado de filmes exibidos (em João Pessoa foram 16), porém, quer me parecer que a Mostra atual pode suscitar uma pista interessante.

Se o espectador ainda recorda, cada exibição foi precedida de um clipe de comerciais de patrocinadores da Mostra. Um deles “vendia” um hotel situado no Rio de Janeiro e, com imagens deslumbrantes da cidade, nos fazia ver a paisagem carioca, para, em seguida, passar às luxuosas dependências do hotel, cujo nome não lembro. Não lembro, mas lembro bem uma discreta inscrição no lado direito da tela, garantindo: “sofisticação francesa”, como a dizer: o local é Brasil, mas a sofisticação é outra.

Cena de Adeus minha rainha, estreia da Mostra Varilux em João Pessoa

Cena de Adeus minha rainha, estreia da Mostra Varilux em João Pessoa

Pois, justamente a “sofisticação francesa” me ocorre como um ponto comum entre, se não todos, pelo menos a maior parte dos filmes exibidos nesta terceira versão da Mostra Varilux. Bem entendido, essa sofisticação não está relacionada à qualidade cinematográfica (se assim fosse, todos os filmes seriam excelentes): ela aparece, isto sim, como um ou outro ingrediente da diegese, ou seja, do universo ficcional dos filmes. Explico-me.

Na verdade, ela já é evidente nas temáticas escolhidas por alguns, que referem grandes artistas: Renoir, Camile Claudel, Molière, Victor Hugo, mas mesmo quando não se adapta nem biografa vultos dessa dimensão, os filmes – em muitos casos tratando de gente como a gente – estão impregnados, em pontos diversos de seus roteiros, da chamada ´alta cultura´, ou seja, poesia, teatro, literatura, filosofia, música clássica, cinema de arte, gastronomia, etc.

Dou alguns exemplos.

“Feito gente grande” é, aparentemente, um filme simples sobre crianças, mas só aparentemente: a pequena narradora ganhou uma máquina de escrever e redige, ao longo do filme, um discurso cheio de ironias sutis a quem? A sua psicanalista.

Cena de Feito Gente Grande (Du vent dans mes mollets, 2011)

Cena de Feito Gente Grande (Du vent dans mes mollets, 2011)

Aliás, uma estória muito banal poderia ser a de “A datilógrafa”, sobre um concurso de datilografia, mas lembram o método sugerido pelo patrão e “técnico” à mocinha que concorre? Leia os grandes clássicos da literatura (Flaubert, Balzac, Stendhal…) para ficar preparada para as construções de linguagem mais inusitadas! – o que ela faz de bom grado e tem sucesso.

Em “Adeus, minha rainha”, a mocinha que cuida de Maria Antonieta não é uma mera aia: ela é lotada na biblioteca do palácio de Versailles e a sua função precípua é aprimorar os ouvidos da Rainha, lhe lendo livros e mais livros.

“Anos incríveis” trata de um rapaz que se mete com televisão (pirata e não pirata), mas o seu sonho, sempre referido no diálogo, é Rosselini, Nouvelle Vague, Truffaut, Godard, etc, ou seja, o suprassumo do que se entende por cinema de arte.

A Datilógrafa (Populaire, de Régis Roinsard, 2012)

A Datilógrafa (Populaire, de Régis Roinsard, 2012)

“Além do arco-iris” tem uma narrativa que entrecruza, de modo tragicômico, vários personagens de famílias diversas, tudo gente simples, porém, vejam qual é a profissão dos jovens protagonistas – músicos, e de grupos que, claro, só executam clássicos no nível de Beethoven.

Neste último caso, tenho a impressão de que, se essa comédia simplória sobre encontros e desencontros entre pessoas comuns, fosse americana, a profissão do rapaz seria bem outra – provavelmente ia variar de pizza boy a técnico em computação, passando por frentista de posto de gasolina, por aí.

Esses lances de ´cultura clássica´ enxertados nos roteiros, como dito, não melhoram nem pioram a qualidade estética dos filmes, porém, já que existem e são recorrentes, chamam a nossa atenção como uma marca produtiva de foro nacional.

Como sabemos, o passado do cinema francês se divide entre muito acadêmico (anos cinqüenta para trás) e muito vanguardista (Nouvelle Vague para frente). O de hoje demonstra, no geral, ter encontrado um equilíbrio interessante entre convenção e experimento, produzindo filmes que, bons ou ruins, o espectador comum entenda, embora, como estamos na França, se espere que esse espectador comum conheça os segredos de estilo que deram vida à Madame Bovary, mesmo que ele, como o personagem masculino de “A datilógrafa”, não passe de um modesto contador. Ou que ainda se angustie com a frase de Godard sobre a moralidade do traveling, mesmo que ele, como o protagonista de “Anos incríveis”, não passe de um office boy de um comercial canal televisivo.

Poster de Anos Incríveis (Michel Leclerc, 2012)

Poster de Anos Incríveis (Michel Leclerc, 2012)