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“Outro sertão” ou A lista de Guimarães Rosa

29 maio

Nos primeiros anos da Segunda Guerra, quando a situação, na Alemanha, tornou-se inviável para quem não fosse ariano, aumentaram consideravelmente as tentativas de fuga da população judia. Uma delas era via Consulados estrangeiros que pudessem fornecer, a esses cidadãos desesperados, passaportes para o exterior, e qualquer país serviria.

Evidentemente, nem todos os Consulados prestaram um serviço desses, escuso e perigoso, porém, um houve, em Hamburgo, que o fez com certa generosidade e muita coragem. No segundo semestre de 1939, pelo menos 96 cidadãos de origem semita puderam escapar para o Brasil com passaporte de “turista”, e esta rubrica era, naturalmente, falsa.

O responsável por esta “lista” de salvos do Holocausto? O vice-cônsul brasileiro em Hamburgo João Guimarães Rosa.

Eis do que trata o belo documentário “Outro sertão” (2013) da dupla Adriana Jacobsen e Soraia Vilela, recentemente em exibição no Cine Banguê, em João Pessoa.

Mas, atenção, para além de seu lado meramente jornalístico – o de fazer um furo histórico – o filme reconstitui, e o faz com lirismo e beleza, toda a trajetória alemã do autor de “Grande sertão: veredas”, da sua chegada deslumbrada com a vida em Hamburgo, em 1938, até seu retorno desencantado, em 1942.

Guimarães Rosa foi um germanófilo apaixonado, paixão que – segundo ele mesmo revela – surgiu já na infância, quando deixava de jogar futebol com os coleguinhas de classe, para se debruçar sobre páginas de livros alemães, com suas palavras cheias de combinações consonantais que o fascinavam. Foi certamente essa germanofilia de vida inteira que o entusiasmou, ao ser nomeando vice-cônsul em Hamburgo, e foi ela também que produziu o conflito íntimo, ao dar-se conta das barbaridades do nazismo, que passou a presenciar com um pouco mais de ênfase a partir do estouro da guerra.

Para reconstituir cinematograficamente esses difíceis quatro anos de convivência do escritor com o nazismo, foi preciso uma pesquisa monstruosa que cascavilhou toda uma documentação oficial, alemã e brasileira, cartas do autor, fotos, filmes e depoimentos de ex-amigos do biografado, sem falar nos oportunos testemunhos dos “salvos do holocausto” ou de seus parentes. Professores e pesquisadores da obra do escritor também depõem e comentam a possível relação de sua vivência alemã com o seu fazer literário.

Segundo consta, as diretoras passaram mais de uma década pesquisando nas fontes mais variadas, produzindo mais de três horas de filmagem, depois operando o corte criterioso para os 70 minutos com que o documentário foi lançado. Ao material da pesquisa, acrescentaram o que lhes pareceu doar substância poética à estória contada, em alguns casos, imagens de arquivo e trilhas sonoras que estivessem na mesma isotopia dos fatos descritos. As imagens iniciais e finais do oceano ao som de canções brasileiras são um exemplo que vem ao caso.

Foi recusado aquilo que é comum em documentários – uma voz autoral narrando os fatos – e as diretoras preferiram que essa narração fosse, em linhas gerais, feita pela “voz” do próprio Guimarães Rosa, no caso, a partir de trechos de suas cartas, dirigidas a seus familiares no Brasil. O que permitiu dividir o filme em partes cronológicas (a chegada, o amigo, o diário, o escritor, o diplomata, etc), cada uma com uma epígrafe retirada das cartas. E, claro, homologando a voz do escritor, as imagens e os sons escolhidos para costurar o andamento da estória.

Uma cena tocante é a descrição (com acompanhamento de imagem adicionada pelas diretoras) de um parque infantil onde as crianças se divertem e que mantém uma placa ostensiva: “Parque de diversão para crianças arianas”. Depois vêm os relatos das restrições ao povo judeu, sem liberdade de locomoção, sem alimentos, sem aquecimento para o rigoroso inverno alemão, sem voz e sem direitos.

De modo tal que, depois de metade da projeção decorrida, quando nos deparamos com o que não sabíamos antes de entrar no cinema (pelo menos, foi este o meu caso) – o heroico fornecimento dos passaportes de turistas para famílias judaicas – já não temos grande surpresa. Ou temos? O fato é que, nesse momento, e a partir dele, para sempre, a estatura do homem cresce para ficar do mesmo tamanho da grandeza do escritor.

Descoberto pelas investigações da Gestapo, o escritor seria, mais tarde, deslocado para Baden-Baden, onde, junto com outras “figuras suspeitas”, permaneceria por cerca de cem dias, em estado de prisão domiciliar, sendo em seguida reenviado ao seu país de origem, por sorte, intocado e ileso.

Vinte anos depois de tudo passado, em 1962, Guimarães Rosa concederia uma entrevista a um canal de televisão alemão, mas o assunto foi exclusivamente literatura. Interrogado por um crítico literário, ele discorre um pouco sobre seus livros publicados, suas origens, suas motivações e o sentido que lhes quis dar. Completamente desconhecida até então, essa entrevista é mais uma das muitas preciosidades que a realização de Jacobsen e Vilela generosamente nos oferta.

“Outro sertão”: além de poético, um filme importante, que não interessa apenas a literatos e cinéfilos, mas a todo cidadão que se preocupa com o conceito expresso naquela palavrinha que o poeta francês Paul Éluard – uma outra vítima do nazismo – queria escrever em todo lugar: liberdade.

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Grande sertão

24 set

Ao ler minha matéria “Cinquentões em 2015”, um amigo me perguntou por que, no parágrafo dedicado aos filmes brasileiros, não incluí “Grande Sertão” (1965), a adaptação do romance de João Guimarães Rosa.

Minha justificativa foi simples: não conhecia o filme.

Não sei em que plagas o amigo viu “Grande sertão”, mas, que eu saiba não foi exibido localmente, e não aparece como referência na bibliografia de cinema da época. Sequer está citado no fundamental “História do Cinema Brasileiro”, de Fernão Ramos. Em suma não creio que essa realização dos irmãos Geraldo e Renato Santos Pereira tenha sido importante no contexto do seu tempo, o do Cinema Novo Brasileiro.

De todo jeito, depois do toque do amigo, fiquei atento a sua existência, até porque “Grande sertão: veredas” é um dos meus romances prediletos, sobre o qual, aliás, escrevi longo ensaio, analisando o seu uso curioso de foco narrativo, ensaio publicado no suplemento “Augusto”, do Jornal da Paraiba, com o título de “O narrador incauto” (2006).

Cena de "Grande sertão" (1965).

Cena de “Grande sertão” (1965).

Agora, afinal me deparo com cópia em DVD do filme “Grande sertão” e vejo a chance de, se fosse o caso, reparar uma lacuna.

Ora, depois de assistir ao filme, dou-me conta de que, ainda que já o conhecesse quando redigi a matéria sobre os cinquentões de 2015, não o teria incluído.

Irrisória é o mínimo que pode ser dito dessa adaptação, que tenta pegar duas caronas ao mesmo tempo: na força de um romance publicado havia apenas nove anos (o livro de Guimarães Rosa é de 1956), e no tema do cangaço que chamava a atenção para o cinema brasileiro, desde “O cangaceiro” de Lima Barreto (1953), passando por “Deus e o diabo na terra do Sol” de Glauber Rocha (1963), e outros mais.

Para casar as duas coisas, digo, importância literária do romance e apelo popular do tema, os roteiristas bolaram um enredo que só nos nomes dos protagonistas lembra o original adaptado.

Todo mundo sabe que o melhor do romance rosiano está na ambiguidade da situação Riobaldo/Diadorim, sustentada até o desenlace. Pois, no filme, essa ambiguidade se evapora no ar, junto com a poeira das muitas cavalgadas dos muitos jagunços que enchem a tela o tempo todo.

Vocês não vão acreditar, mas, bem antes da metade da projeção, Diadorim, ferido, (a atriz Sônia Clara) é socorrido por Riobaldo (Maurício do Valle) que, abrindo sua camisa para tratar do ferimento, lhe descobre os belos seios. E em todo o restante da estória – mais da metade do filme! – o par vira o casal comum, homem e mulher, como em qualquer filme de amor. Apenas Diadorim pede ao amado que não revele o seu sexo aos outros jagunços, e o segredinho é mantido até o final.

Final que é um pouco mais ridículo, quando a luta para vingar o pai de Diadorim, como num faroeste americano, toma o formato de um duelo: Diadorim e o rival mor se digladiam em praça pública em mal encenada luta de faca, enquanto Riobaldo, desfalecido, nada pode fazer para salvar a amada.

As cavalgadas intermináveis...

As cavalgadas intermináveis…

Eu sei, eu sei: em adaptação cinematográfica fidelidade não garante nada. Mesmo infiel ao livro, o filme poderia ter sido bem sucedido esteticamente. O problema é que não foi.

Uma curiosidade sobre o filme de Geraldo e Renato Santos Pereira: hoje quem lê os créditos de “Grande sertão” se intriga com o fato de que, rodado e lançado – não esqueçamos – em 1965, apresenta-se como uma produção da Vera Cruz, quando se sabe que a famosa companhia paulista estava aposentada, e supostamente de portas fechadas, desde 1954.

Pois esse dado termina sendo sintomático para entender o filme e, eventualmente, julgá-lo. Sua estética é, sim, em tudo uma “estética vera cruz”, o que significa dizer que, como o fez a companhia paulista, imitava de modo subserviente, o estilo hollywoodiano de fazer cinema.

Daí o seu ar meio démodé – certamente já notado na estreia – , que não deu certo com o espírito pretensamente revolucionário do Cinema Novo, e muito menos ainda com o espírito mágico e imaginativo do romance adaptado.

Para não dizer que não haja lucro no consumo do filme “Grande sertão”, digamos que consiste numa “curiosidade”.

Interessante para historiógrafos, mas um aborrecimento para o espectador comum.

Em tempo: na recente edição em DVD, o filme de Geraldo e Renato Santos Pereira foi reintitulado como o romance adaptado: “Grande sertão: veredas”.

A capa do DVD, com ênfase em

A capa do DVD, com ênfase em “Veredas”, palavra inexistente no título original do filme.

Quero ser Stanley Kubrick

17 out

Por razões que nem a psicanálise explica satisfatoriamente, a troca de identidades – em outros termos, a impostura – foi sempre um tema que fascina a mente humana, tema que vem do folclore universal e está na arte de todos os tempos. Em “Chapeuzinho Vermelho” o Lobo Mau já se disfarçava de Vovozinha; na Odisséia de Homero, Ulisses se travestia de mendigo, e as comédias de Shakespeare estão cheias de trocas de identidade. O “Cyrano de Bergerac” consiste numa “impostura”, assim como o nosso “Grande sertão: veredas”.

São ficções que – sei lá – estimulam talvez nossa pulsão de ser outro, mas curioso mesmo é quando a coisa acontece na vida real – caso a que vou me referir aqui.

O caso aconteceu na Inglaterra, mais ou menos entre os anos de 1996 e 1998, período em que o cineasta americano Stanley Kubrick rodava, nos Estados Unidos, o que viria a ser o seu último filme “De olhos bem fechados” (“Eyes wide shut”), lançado em 1999.

Pois bem, Kubrick devia estar mesmo de olhos bem fechados, porque, do outro lado do Atlântico um certo senhor inglês, de nome Alan Conway, dizia ser Stanley Kubrick e, por incrível que pareça, era acreditado. Digo por incrível que pareça porque Conway, nem parecia tanto com o cineasta de “2001: uma odisséia no espaço”: seis anos mais novo, o único traço que assemelhava o seu sósia era a acentuada calvície e quase mais nada. Por exemplo: para produzir o sotaque americano de Kubrick, Conway fazia esforços consideráveis que lhe distorciam o rosto.

 

Ilustração de PHILLIP FIVEL NESSEN*

Claro que Conway não assumia a persona de Kubrick diante da imprensa, nem de órgãos públicos. Suas vítimas eram, geralmente, jovens que ficavam fascinados em estar em contato com um diretor de cinema tão famoso e, aí, lhe brindavam com presentes ou lhe pagavam bebidas, almoços e jantares. Na maior parte dos casos Conway/Kubrick lhes prometia participações em seus hipotéticos novos projetos cinematográficos, e, naturalmente, quanto mais promessas, mais mordomias para o suposto cineasta. Quando possível, entre essas mordomias estava sexo, pois Conway era homossexual assumido.

Pobre e sem renda fixa, Conway vivia – não se sabe ao certo desde quando – dessas circunstanciais benesses, sem planos para o futuro, e sem muito cuidado em ser pertinente no seu fingimento. Sabia o risco que corria e nem se importava em pesquisar a vida de Kubrick para ser um sósia mais conseqüente. Uma vez foi desmascarado num bar ao confirmar que, entre os filmes que dirigira também estava “Julgamento em Nuremberg”, como se sabe, filme dirigido por outro Stanley, o Kramer. Fugiu do local e nunca mais lá voltou.

Uma de suas estratégias era dar, aos novos enganados, um endereço num bairro rico de Londres e, na hora marcada para ser apanhado de carro, esperar as novas vítimas na calçada da residência. Normalmente, depois de haver explorado a sua vítima até a exaustão, desaparecia das redondezas e ia procurar outras, em outros setores da cidade.

Cai, finalmente, em desgraça ao passar por Kubrick para um famoso comediante e cantor inglês: empanturrando-o com promessas de uma carreira de sucesso em Las Vegas, é hospedado em luxuoso hotel com tudo que merece uma celebridade no nível de Kubrick, e quando está no cúmulo da boa vida, é subitamente desmascarado pelo agente do comediante. Lançado literalmente ao mar, faz-se então de louco e, convencendo os médicos de seu estado mental (mais uma impostura), vai parar num chique hospital psiquiátrico londrino onde passa a viver com relativo luxo.

Por ironia do destino, Alan Conway vem a falecer no mesmo ano de 1999, poucos meses depois de Stanley Kubrick.

Bem, a estória que conto teria se encerrado aí, se dois membros da equipe cinematográfica de Stanley Kubrick – o seu assistente de direção Brian W. Cook e o seu co-roteirista Anthony Frewin – não tivessem tido conhecimento do caso Alan Conway e, melhor ainda, não tivessem ficado impressionados com o potencial ficcional de um caso verídico.

Tão impressionados ficaram que se uniram para quê? Sim, para produzir um filme sobre a figura de Alan Conway. Tiveram a sorte de conseguir ninguém menos que John Malkovich para o papel principal e o filme foi lançado, em 2005, com um título irônico e cheio de trocadilhos: “Colour me Kubrick: a true…ish story”. No Brasil, os distribuidores preferiram simplificar, ou complicar mais: “Totalmente Kubrick”.

Inspirados no personagem, fizeram um filme “falso”, um falso Kubrick, digamos, no sentido positivo do adjetivo, se é que isto é possível. Inevitavelmente, o filme está contaminado de uma atmosfera comicamente kubrickiana, que vai das indumentárias à trilha sonora (sim, a valsa de Strauss, a nona sinfonia de Beethoven, etc…), sem falar nas muitas referências, diretas ou indiretas, à filmografia de Kubrick, naturalmente todas de propósito incorretas ou equívocas.

Um exemplo sintomático: depois de constatar o lado gay desse “Kubrick” que, admirados, acabaram de conhecer, dois rapazes londrinos passam a delirar sobre “2001”, propondo um deles que o Hal do filme seria, na verdade, um homo-computer, no caso, a senha deixada pelo cineasta, para a posteridade, sobre a sua secreta opção sexual. Ao tratar do elenco de “Spartacus” – o que ele faz várias vezes – o nosso falso Kubrick sempre se refere ao ator principal como “a Senhorita Kirk Douglas”, o que deixa, naturalmente, os seus interlocutores perplexos. E nós, espectadores, mais ainda, quando se sabe que o ator referido – ao contrário de muita gente em Hollywood – nunca foi gay.

E Conway/Kubrick conta a seus interlocutores abismados vários segredos de sua própria vida e carreira. Teria feito um papel infantil no filme “Grandes esperanças” de David Lean (1946). Ao começar a dirigir quis fazer uma refilmagem de “Sansão e Dalila” de Cecil B DeMille (1949). e ainda alimentava planos de rodar um remake de “Darling, a que amou demais” (1965), com ou sem o consentimento de John Schlessinger.

Mas não é só às suas vítimas que Conway/Kubrick fala. Composto de vários sketchs com os golpes do protagonista e seus ora bem sucedidos ora desastrosos resultados, o roteiro intercala elementos de reportagem, em que os personagens se dirigem à tela e depõem. Trata-se de uma farsa sobre um impostor e, portanto, de propósito, não há aprofundamento, nem psicológico, nem de outra ordem, e o papel de Malkovich é basicamente caricaturesco, com a complicação adicional de que o que temos, a rigor, é um grande ator fingindo ser um péssimo ator.

Filmes bem conhecidos como, “O grande impostor” (Robert Mulligan, 1961), “Kagemusha” (Akira Kurosawa, 1980) e “Prenda-me se for capaz” (Steven Spielberg, 2002) levaram o tema da impostura a sério. “Totalmente Kubrick”, ao contrário, é uma comedia camaleônica que brinca com o assunto ao ponto de beirar a irresponsabilidade.

O fã de Stanley Kubrick tem duas alternativas diante do filme, a depender de suas inclinações temperamentais: uma é relaxar e se divertir; a outra, indignar-se e irritar-se. Fica a seu critério.

De minha parte, não consegui me desvencilhar de um sentido irônico a mais que “Totalmente Kubrick” adquire por causa da mera presença de John Malkovich. Como se sabe, tanto prestígio tem o ator, em Hollywood e no mundo, que há não muito tempo foi lançado um filme sobre uma viagem no interior de sua mente, que se chamou “Quero ser John Malkovich” (Spike Jonze, 1999).

Ora, não é este o título mais apropriado para a estória de Alan Conway: “Quero ser Stanley Kubrick”?

 

* Ilustração publicada no site: http://www.thestranger.com/seattle/Content?oid=297435