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Um espectro ronda a Europa…

14 nov

Nesse tempo de comemorações do centenário da Revolução bolchevique, acho que um filme oportuno é este, recém lançado, “O jovem Marx” (“Der junge Karl Marx”, 2017), do haitiano Raoul Peck. Como promete o título, o filme de Peck se reporta à juventude do autor de “O capital”, ao tempo em que suas ideias eram apenas conceitos em formação.

Quando o filme começa Marx não passa de um jovem judeu prussiano, banido de uma família classe média e cheio de vontade de mudar o mundo. Com uma filha pequena, está casado com uma moça aristocrática, Jenny von Westphalen, também banida da família, de forma que o casal sobrevive em digna miséria.

Mais ou menos fiel à história, o filme reconstitui a trajetória de Marx, desde sua participação na “Gazeta renana”, em Colônia, Alemanha, 1843, até a escritura do Manifesto do Partido Comunista, em 1848. São cinco anos de dureza, mas também de espantoso progresso intelectual.

O sustento da família vem dos escritos que o jovem Marx publica em revistas de filosofia, mas, claro, a remuneração por esses escritos mal paga o aluguel da casa. Dificuldades financeiras e políticas o removem à França, onde termina conhecendo um pensador jovem como ele, que seria fundamental em sua vida pessoal e intelectual: Friedrich Engels.

Em 1844, em Paris, ele conhece pessoalmente Proudhon, além de Bakunin e outros pensadores sociais, mas, de fato, o ponto alto de sua trajetória conceitual está no dia em que vem a conhecer, pessoalmente, Engels. A cena em que os dois jovens pensadores se encontram e se falam, pela primeira vez, na antessala de um jornal é um ponto alto no filme. A primeira reação é de hostilidade recíproca, porém, não demora muito para os dois se renderem um ao outro. Ocorre que cada um conhecia e admirava o trabalho do outro, e não foi necessária muita conversa para se darem conta de que esses respectivos trabalhos, não eram apenas importantes, mas complementares.

Enquanto Marx, com o seu materialismo dialético, teorizava a condição do trabalho da época, Engels (filho rico de proprietário de fábricas, na Inglaterra) procedera, por conta própria – e claro, à revelia do pai – a pesquisas de campo sobre as condições de operários, em fábricas europeias, incluindo as de sua família. Assim, a prática se unia à teoria e dava os melhores resultados.

O jovem casal Karl e Jenny (August Diehl e Vicky Krieps)

Reuniões acaloradas nos bairros de Paris, com trabalhadores e artesãos, além de artigos considerados subversivos, por exemplo, aquele sobre o atentado ao rei da Prússia, logo tornam Marx uma persona non grata em território francês, do qual vem a ser sumariamente expulso. A essa altura, Engels, que o apoiava financeiramente, já voltara a seu país de origem, e Marx e família estão à mercê do acaso, situação piorada com a notícia de que Jenny está, mais uma vez, grávida.

Em 1845 vamos encontrar o casal em Bruxelas, em estado de penúria, ele pedindo emprego e sendo recusado por causa da má caligrafia, e ela, fragilizada, aguardando o momento de descansar. A salvação, de novo, vem de Engels que envia dinheiro ao casal, pelos Correios.

No ano seguinte, 1846, Marx é convidado a ir a Londres, participar da recém fundada por Weitling, “Liga dos Justos”. Em desastrosa reunião, Marx se desentende com Weitling e seus seguidores. Debates vêm, debates vão, e a tal “Liga dos Justos” termina por se transformar em “Liga comunista”, agora ostentando os dizeres que a tornariam famosa: “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos”.

Engels e Marx, nas ruas de Paris.

Se Marx era um judeu empobrecido, casado com uma aristocrata, Engels era um alto burguês casado com uma operária irlandesa: esse “quiasmo social” parece que deu sustentação ao quarteto, que viveu em comunhão, afetiva e intelectual, pelo resto da vida. Foi essa convivência crítica que propiciou um dos escritos mais importantes do pensamento da época, redigido em conjunto enquanto o quarteto passava férias em Ostende, uma praia isolada da Bélgica. Refiro-me, naturalmente, ao “Manifesto do Partido Comunista”, elaborado e publicado em 1848.

“Um espectro ronda a Europa…” – assim começava o texto.

De alguma maneira, sente-se que o roteiro do filme foi bolado de forma a que tudo na estória do quarteto referido desaguasse na criação do Manifesto – espécie de apoteose conceitual, depois da qual… Bem, depois da qual vão vir as lacunas que o espectador, conhecedor da História subsequente, deverá preencher por conta própria. Se for o caso, de acordo com suas próprias inclinações ideológicas…

Para “ajudar” ironicamente nesse preenchimento, o filme se finda com uma longa cadeia de tristes imagens do Século XX, tudo ao som do “Like a rolling stone” de Bob Dylan.

Para o bem ou para o mal, um efeito devastador.

Uma foto da época, mostrada no filme de Peck.

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Boa sorte, Aragão

26 set

Gostei do preto-e-branco cinemascope de “Boa sorte, meu amor” (Daniel Aragão, 2012), porém, confesso, depois de meia hora de projeção, a minha mente começou a retroceder no tempo. Na medida em que o filme corria (corria não, se arrastava), experimentei a sensação esquisita de estar em uma daquelas velhas sessões do velho Cine Municipal, vendo um “filme de arte”, lá pelo começo dos anos sessenta, quando todas as vanguardas cinematográficas estavam eclodindo. Embora a paisagem fosse Recife e os atores, brasileiros, tudo me parecia Antonioni, o de “O eclipse”, por exemplo.

boa 1

Há uma cena que pode ilustrar a minha sensação a contento. O enquadramento em plano de conjunto mostra uma sala de estar de um apartamento classe média, com alguém presente, no caso, o protagonista, Dirceu. Depois de algum tempo, ele deixa a sala por uma porta lateral. A sala ficando vazia, esperamos naturalmente um corte e a introdução de uma nova tomada, que dê continuidade à estória. Que nada! Os segundos decorrem e ficamos, nós espectadores, sem saber o que fazer da imagem prolongada dessa sala vazia. Lá para as tantas é que alguém (a outra protagonista, Maria) adentra o quadro e, pela mesma porta, vai ter com Dirceu off-screen. Não contei o tempo, mas a demora é enorme entre a saída de um personagem e a entrada de outro. O que significa essa sala vazia?

Sem querer, lembrei-me do filósofo irlandês George Berkeley que afirmava que, embora só a nossa percepção conceda existência e sentido às coisas, uma sala vazia continua existindo e fazendo sentido porque, se não a vemos, Deus a vê. Aqui, nós somos o Deus que vê o vazio da sala, porém, diferentemente do Deus de Berkeley, o nosso olhar salvador não lhe atribui nenhum sentido.

A cena é paradigmática do filme todo, cheio de planos excessivamente longos, sem a intercalação de outros, porventura menores, que amarrem a narrativa, esta se construindo de modo propositadamente precário, fragmentado, disforme. (para fazer justiça ao diretor: notem que eu disse ´propositadamente´).

Recife e sua selva de pedra

Recife e sua selva de pedra

Ao chegar em casa, por curiosidade, fui checar a idade do diretor Aragão e constatei que, ao rodar o filme, estava com 30 anos. E me dei conta do seguinte: para o pessoal jovem de hoje em dia, cinéfilo e ansioso por inovações semióticas, “Boa sorte, meu amor” parece novo; para o pessoal coroa da minha geração, ele – qualidades à parte – parece velho. Em vista do exposto acima, acho que não preciso explicar por que.

E mesmo assim explico. Acontece que há modos e modos de inovar, um deles, como aqui, sendo a retomada (consciente ou não – pouco importa!) do que, no passado, já foi novo. Algo triste de admitir é que vanguarda também congela, e algo ainda mais triste de admitir é que o modelo tradicional de cinema – aquele narrativo, ficcional e representacional, com começo, meio e fim – já foi, faz muito tempo, assumido no mundo inteiro como universal e – tudo indica – insuperável.

Tematicamente, o filme tem dois caminhos – por um lado é uma estória de amor, no tradicional modelo fabular ´rapaz conhece moça´, com o desenvolvimento afinal não tão inusitado, do tipo ´rapaz perde moça´; por outro lado é uma ensaio sobre uma classe social bem marcada, a classe média urbana nordestina, descendente da velha aristocracia rural.

A paisagem rural é o segundo cenário do filme

A paisagem rural é o segundo cenário do filme

Uma coisa que o filme faz bem é misturar os dois caminhos, tornando-os único, sem saída e sem futuro. É, por exemplo, muito boa a idéia de que o protagonista Dirceu trabalhe como engenheiro justamente de demolição, sugerindo a negatividade de seu ofício, e a destruição de um Recife que em pouco tempo vai desaparecer para dar lugar a arranha-céus e nada mais. Também é boa a idéia de que Maria, sabendo-se grávida, desapareça da vida de Dirceu e o filme termine sem que a encontremos. Dá certo com a longa fala com que o filme se abre em que o pai explica a Dirceu a origem, digamos, “ilegítima” da família: o filho de Maria (referência bíblica?) vai ser um “ilegítimo”, como os descendentes da índia que originou a família de Dirceu. Por aí.

Ou seja, o filme sem dúvida tem bons lances; o que o atrapalha um pouco é a pretensão de repetir as vanguardas sessentistas, ao invés de inventar suas próprias invenções. Quem sabe, talvez se fosse narrado de forma mais saudavelmente convencional, seria um filmaço.

Mas, convenhamos, é o primeiro longa-metragem de um jovem cineasta em começo de carreira, e, a quem visivelmente demonstra tanto entusiasmo com a expressão cinematográfica, vale dar as boas vindas. Portanto: Boa sorte, Aragão.

Em tempo: “Boa sorte, meu amor” está em cartaz na cidade.

Christiana Ubach faz o papel da protagonista Maria

Christiana Ubach faz o papel da protagonista Maria

A visita

3 abr

Imaginem uma cidade pequena, digamos, nos anos trinta ou quarenta. Vivendo uma aventura amorosa, essa mocinha pobre e ingênua engravida do rapaz que ama. Acontece que, já comprometido com uma garota mais abastada, o rapaz forja, com a ajuda de amigos, uma farsa para se livrar do problema. Sem meios e sem apoio, a mocinha pobre, coberta de vergonha e decepção, vai embora, para uma cidade maior, onde, depois de abortar, é forçada a abraçar a profissão de prostituta.

Por sorte, um dia conhece um senhor mais idoso, um magnata do petróleo que, fascinado com sua beleza, a pede em casamento, e ela vai viver uma vida de tranqüilidade e luxo. Ocorre, porém, que ela nunca esqueceu o passado.

Décadas mais tarde, o magnata morto, a viúva milionária retorna à cidadezinha de sua origem, com um só intento na cabeça: exterminar o homem que, trinta anos atrás, a engravidara e traíra, hoje um senhor respeitado.

Querem enredo cinematográfico mais arrebatante? Mais ainda se você considerar que quem faz a vingativa senhora Karla Zachanassian é ninguém menos que Ingrid Bergman, e que o seu algoz no passado e vítima no presente, Sr Serge Miller, é ninguém menos que Anthony Quinn.

the visit poster

Dirigido pelo alemão Bernard Wicki em 1964, o filme se chama “A visita” (“The visit”), ou, alternativamente, ´A visita da velha senhora´, título da peça adaptada. Coprodução internacional (Alemanha, França, Itália, Estados Unidos), distribuído pela Fox, ainda inclui no elenco a grande Valentina Cortese no papel da esposa perplexa de Miller.

Eu vi o filme no Plaza ao tempo de sua estreia local e nunca esqueci. Lembro que, com um entusiasmo sempre renovado, o contei e recontei a meus filhos e outras pessoas, em várias ocasiões. Agora ele me cai nas mãos em DVD.

Para tornar o drama mais lancinante, a rica Sra Zachanassian chega à pequena Golan com um plano bem definido – primeiro, promete aos habitantes locais uma quantia fabulosa de dinheiro que vai, uma parte para a prefeitura, e a outra, para cada cidadão; em segundo lugar, coloca suas condições: que, em tribunal popular, se leve o caso do Sr Miller a julgamento e que o resultado seja a condenação e sumária execução.

Ingrid Bergman como a Senhora idosa em A Visita

Ingrid Bergman como a Senhora idosa em A Visita

De início os habitantes do lugar protestam, mas, quem é que não quer dinheiro, sobretudo se for muito? Aos poucos, os amigos vão hostilizando Miller, e no final… bem não vou contar o final.

Digo apenas que a estória (que começa com a chegada da ´visita´) nos é narrada como se fôssemos um dos habitantes do lugar, mas um não identificado. De modo que ´a visita da velha senhora´ permanecerá, por algum tempo de projeção, como um mistério. Segundo os comentários locais, ela vivera aqui, mas, por que retorna, por que tão rica e o que pretende?

A instância narradora tem o cuidado de sonegar as informações diegéticas que ´matariam a charada´ antes do tempo, e de só as fornecer em doses compassadas, sempre em ritmo geométrico. Ao vermos, por exemplo, a Sra Zachanassian e Miller juntos, em cenas quase íntimas, um pouco antes de ela formular suas intenções para a cidade, supomos alternativas para o desenvolvimento da estória bem diferentes das que vão se seguir.

Anthony Quinn, o alvo da vingança em A Vsita

Anthony Quinn, o alvo da vingança em A Vsita

Quando esse desenvolvimento vai despontando, o que mais dói é acompanhar a derrocada moral de Miller, que começa com os fregueses de sua loja descaradamente comprando fiado… porque sabem que não vão ter a quem pagar: afinal de contas, muito brevemente, o proprietário vai estar morto. Sua primeira crise explícita é quando ele se dá conta disso e, emocionalmente descontrolado, lança as mercadorias na rua… Aquele momento em que confessa à esposa que casara com ela por interesse é um clímax de desespero. Em outras palavras, trata-se de um filme sobre vingança, mas também de um filme sobre culpa. Insisto em não contar o que ocorre pós-tribunal, mas, garanto, esse último turning point confirma a duplicidade da temática.

Confesso, porém, que gostei mais de “A visita” quando o vi pela primeira vez. Hoje o acho meio arrastado, sem o nível de suspense que, com o passar do tempo, minha memória de cinéfilo lhe atribuíra. Sem dúvida nenhuma, o filme que – visto quase cinquenta anos atrás – tantas vezes contei aos amigos e parentes tinha mais impacto e mais vigor.

Em outras ocasiões já tratei do fato de certos filmes serem, em termos qualitativos, menores que elementos de sua própria constituição, como: uma cena, uma sequência, a música, o elenco, a fotografia, etc. De “A visita” suponho poder dizer que ele é menor que seu enredo. Não muito, mas é.

Bergman e Quinn em cena de A Visita

Bergman e Quinn em cena de A Visita