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Adoráveis mulheres

20 jan

Quando, em 1869, a escritora americana Louisa May Alcott (1832-1888) molhou a pena no seu tinteiro doméstico para rabiscar as últimas palavras de seu romance semi-autobiográfico, “Little women”, seguramente não poderia ter imaginado duas coisas: primeiro, que o livro seria um sucesso, e segundo, que com ele, estaria inaugurando uma modalidade muito particular de recepção literária. Embora só o tenha concebido por exigência dos editores, que queriam um “livro de mulheres”, enquanto ela própria se dizia mais identificada com homens, com este romance Alcott, com efeito, criava uma espécie de protótipo de romance que geraria infinitas imitações, como o faz até hoje, e provavelmente continuará fazendo.

Trata-se do romance de ambientação doméstica, onde o ponto de vista tem que ser de uma mulher, se possível muito jovem ou mesmo criança, que enxerga o mundo em torno de si a partir de seus anseios, expectativas, dúvidas, temores e esperanças femininas, o enredo implicando normalmente uma lição de vida que eleva o espírito. As eternas leitoras das M. Delly da vida estão por demais acostumadas às convenções do gênero.

Naturalmente, vai uma grande distância estética entre as inúmeras e intermináveis imitações e o modelo original. Enquanto por trás das imitações não havia, e não há, nada a não ser a vontade de ganhar dinheiro em cima de um gosto feminino, o “Little women” de Alcott, arrastava no seu bojo, toda uma tradição literária e filosófica do melhor Romantismo americano: ali estava o “transcendentalismo” de Emerson e Thoreau, figuras basilares com quem a própria Alcott conviveu pessoalmente; ali estava a abertura ideológica de um Walt Whitman cujos versos ela sabia de cor; ali estava a angústia puritana de um Hawthorne, seu vizinho na pequena Concord, Massachussets. Essa convivência enriquecedora é que faz do romance algo muito mais que um mero “diário feminino”, sentimental e ingênuo, como queriam os seus editores.

Inevitavelmente, o romance de Alcott gerou adaptações cinematográficas. Até o momento três, cada uma com a cara de sua época.       A primeira é de 1949 e, no Brasil se chamou “Quatro destinos”. Com direção de Mervyn LeRoy, tinha June Allison, Elizabeth Tayor, Margareth O´Brien e Janet Leigh no elenco. A segunda, de 1994, se chamou “Adoráveis mulheres” e teve direção da australiana Gilliam Armstrong, com Winona Ryder, Trini Alvarado, Kirsten Dunrst e Clare Dane. E, concorrendo ao Oscar neste 2020, estreia este outro “Adoráveis mulheres” (2019), com direção de Greta Gerwig, e no elenco, Saoirse Ronan, Emma Watson, Florence Puh e Elisa Scanlen.

No grosso, os três filmes contam uma parte da vida em comum de quatro irmãs, suas relações entre si, com o sexo oposto, com a sociedade e seus valores adversos, enfim, seus caminhos e descaminhos na linha tortuosa da existência. O momento histórico é o da Guerra de Secessão (1860-1865), quando o pai, militar da União, é convocado aos campos de batalha, deixando o encargo da casa para a esposa e as quatro filhas. A protagonista Josephine March luta, como o fizera a própria Alcott, entre o apego à família e o afã de realizar seus sonhos de escritora, tudo isso sendo narrado de tal forma que as surpresas de roteiro cedem lugar aos bem mais familiares fatos da vida: paixões, doenças, casamentos, nascimentos, mortes, realizações profissionais, etc. No desenlace, Josephine, alterego de Alcott, supera o seu entrave em escrever “do fundo do coração” – um princípio do transcendentalismo de Thoreau – e, como se não bastasse, se define amorosamente com o homem que lhe abriu os olhos para isso, mas nem sequer esse necessário encaminhamento ao final feliz (que serviria de modelo para as “lições de vida” dos pastiches ) tem cheiro de chichê.

Em que pesem as diferenças estilísticas, as três adaptações são mais ou menos fiéis ao original. E dão bons resultados, cada uma a seu modo. Naturalmente, é a versão de Gerwig que está em evidência no momento, mas, um estudo mais acurado, e mais rentável do ponto de vista cinematográfico, seria o de confrontar as três versões e, em cada caso, checar as perdas e ganhos estéticos, trabalho a ser feito, evidentemente, com o romance de Alcott a tiracolo. Um ponto eventualmente pertinente nesse estudo poderia ser, por exemplo, investigar as diferenças nos enfoques dos/das cineastas: um homem na primeira versão, uma mulher estrangeira (australiana) na segunda, e uma mulher americana na terceira. Fica a sugestão.

Em tempo: Depois desta matéria postada, me informa o cinéfilo e crítico de cinema Rolf de Luna Fonseca que existe uma versão do romance de Alcott, anterior às três aqui mencionadas. Trata-se de “As quatro irmãs”, de 1933, dirigida por George Cukor, com Catherine Hepburn no papel de Josephine March.

Secessão e rancor

19 jun

Neste ano de 2015 está se comemorando o término da Guerra Civil americana, conhecida como Guerra de Secessão (1861-1865).

Agrário e racista, o Sul queria a manutenção da escravidão negra, enquanto o Norte, mais urbano e liberal, pedia a sua abolição. Nem a clarividência de Lincoln conseguiu evitar o conflito. Propondo a separação (secessão) do país, os estados sulistas se auto-denominaram Confederação e partiram para a briga, forçando os estados nortistas a lutar pela União. A guerra foi sangrenta e fez, de lado a lado, um número apavorante de vítimas. Depois de quatro anos de lutas, a vitória, para o Norte, se pôs fim à guerra, nunca apagou o rancor sulista.

Inevitavelmente, essa guerra, junto com esse rancor, teve representações no cinema. A lista de filmes americanos sobre a guerra civil americana é enorme e aqui me limito a citar apenas alguns, os que considero mais importantes.

the birth of a nation

O primeiro a mencionar é de 1915, apenas 50 anos após o conflito. Assumidamente racista, a superprodução de três horas e meia de duração, “Nascimento de uma nação” (“The birth of a nation”) fazia a apologia do Ku klux klan e dava a presença da raça negra como a desgraça do país. Em suas exibições nos cinemas do Norte, provocou protestos, tantos e tão inflamados que o seu diretor D. W. Griffith rodou, no ano seguinte, um filme ´humanitário´, (“Intolerância”, 1916), como que para desculpar-se do erro cometido.

O segundo filme de citação obrigatória também foi uma superprodução, mas desta vez ideologicamente bem mais moderada. Baseado no romance de Margareth Mitchell, “E o vento levou” (“Gone with the Wind”, 1939) contava a estória dos efeitos da guerra sobre uma aristocrática família sulista, mas não tomava partido. Com um elenco de primeira, fotografia e música grandiosas, o filme do produtor David Selznick (assinado por Victor Fleming) fez um sucesso tão avassalador que chegou a inibir a representação da guerra civil em outras realizações hollywoodianas.

Cena de ...E o vento levou.

Cena de …E o vento levou.

Produção bem mais modesta, o terceiro filme que cito também foi baseado em literatura, no caso, o desencantado romance de Stephen Crane “The red badge of courage”, que deu o filme homônimo de John Huston, no Brasil chamado de “A Glória de um covarde” (1951). Sem endosso dos executivos de Hollywood, esse filme sombrio sobre a crueldade nos campos de batalha, foi cortado e, infelizmente, o que dele resta não corresponde ao talento do seu diretor.

O quarto filme que gostaria de citar é pouco lembrado, até pelos cinéfilos. Refiro-me a “Sublime tentação” (“Friendly persuasion”, 1956), de William Wyler, que narra o drama de uma família Quaker, no estado de Indiana, que sendo pacifista por princípio religioso, é obrigada a decidir o que fazer no dia em que, em plena guerra, tropas sulistas invadem o seu aparentemente neutro território.

Encerro minha lista com estes quatro clássicos e deixo ao leitor o exercício de lembrar os filmes mais recentes que abordaram a temática. Com certeza, o leitor não vai esquecer, por exemplo, “Tempo de glória” (1989), “Cold Mountain” (2003) e, naturalmente “Lincoln” (2012).

Afirmei, acima, que a vitória do Norte pôs fim à guerra de secessão mas nunca apagou o rancor sulista. Pois esse rancor teve talvez um número maior de representações cinematográficas que a própria guerra, representações sutis, em alguns casos, subliminares, mas, nem por isso, menos efetivas.

Audie Murphy em "A glória de um covarde"

Audie Murphy em “A glória de um covarde”

Vejam, por exemplo, o caso de todo um gênero do cinema americano, o chamado Western, ou faroeste, cujas estórias geralmente ocorrem num período histórico pós-guerra de secessão, mais ou menos em torno da década de 1880. Pois bem, muitos de seus heróis, e muitos de seus bandidos, gente de meia idade – os conhecidos conquistadores do Oeste bravio – carregam um passado que tem a ver com os tempos duros da guerra, geralmente sulistas rancorosos que nunca engoliram a derrota.

Não vou dar exemplos, pois não disponho de espaço, mas resumo tudo na figura emblemática de Ethan Edwards, o matador de índios de “Rastros de ódio” (“The searchers”, 1956), feito por um John Wayne de physique de role impecável. Se você lembrar bem o filme de John Ford, vai dar-se conta de que o amargor perene de Ethan não vem apenas da querela com os índios, mas muito mais, da frustração de estar do lado dos perdedores numa guerra que, finda, não pôs fim ao orgulho sulista de ser branco e dominador. Em alguns momentos chave do diálogo, esse rancor vem à tona, e, repito, não é só neste filme, nem só em John Ford, que ele vem à tona.

Os melhores autores de westerns tiveram a coragem de encená-lo em momentos pontuais de seus filmes, com certeza por saberem que esse rancor ainda estava vivo em, geograficamente falando, metade do país.

John Wayne e Natalie Wood na obra prima de John Ford, "Rastros de Ódios".

John Wayne e Natalie Wood na obra prima de John Ford, “Rastros de Ódios”.

12 anos de escravidão

17 mar

Duas décadas antes da Guerra de Secessão, em plena Washington, D.C., um homem de bem, pai de família e cidadão respeitado, é seqüestrado e, por causa da cor, vendido como escravo no Sul do país, onde vai trabalhar nas plantações de algodão, sob o jugo pesado de vários patrões.

Com extrema contundência o filme “12 anos de escravidão” (“12 years a slave”, de Steve McQueen, 2013) exibe o lado mais perverso da escravatura negra nos Estados Unidos e o faz de forma documental, já que é fielmente baseado no livro que o cidadão em questão, o negro Solomon Northup, teve a boa idéia de publicar, ainda em 1853, nele contando todo o seu calvário de escravizado, do dia do sequestro ao instante da libertação, doze anos depois.

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À parte a premiação, o filme tem dois motivos para chamar a atenção do público, especialmente do americano. Primeiramente o fato de ser baseado em um relato real, que hoje vale como documento histórico: poucos sabiam, por exemplo, que esses sequestros de negros livres foram freqüentes no Nordeste americano.

Em segundo lugar, por tocar numa ´ferida nacional´, apesar da eleição do atual presidente negro, nunca plenamente sarada – o racismo, esse mal desastroso que, desde sempre, dividiu o país em dois, o Norte progressista e liberal, e o Sul atrasado e conservador, onde a guerra civil e a abolição, foram só detalhes, porque a derrota dos confederados – sabe-se muito bem – só fez acirrar o preconceito de cor. Não esqueçamos que há apenas cinquenta anos, em 1963, estudantes negros ainda eram barrados em portas de universidades sulistas pelos governadores de estado, e isto com apoio da população branca local (conferir o documentário “Crise”, de Robert Drew, 1963).

Mas, voltemos ao filme. Na difícil tarefa de resumir doze anos em duas horas, percebe-se que o diretor McQueen apelou para uma roteirização onde ficassem claros, para o espectador, os turning points que dão andamento à narrativa, mas sobretudo uma roteirização onde se sobressaíssem os momentos mais dramáticos da trajetória de Solomon (Chiwetel Ojiofor).

Nyongó, Fassbender e Ojiofor em cena do filme

Nyongó, Fassbender e Ojiofor em cena do filme

Só para ilustrar, dois desses momentos são: (1) o instante em que, mal chegado ao seu primeiro patrão, e em conversa com outros escravos, Solomon se dá conta de que não perdeu apenas a liberdade, mas com ela, a sua identidade, perda sintomática na assunção obrigatória do novo nome, Platt; (2) a ocasião em que, traído por um empregado branco da fazenda, precisou tocar fogo na carta que, a duras penas, escrevera a Washington, sua única chance de reaver à liberdade perdida.

Um fator forte na vida dramática do filme está na amizade entre Solomon e a escrava Patsy (Lupita Nyong´o), cuja imposta posição de amante do patrão e, consequentemente, rival da dona da fazenda, a torna um alvo especial da violência racista: um ponto crítico dessa doída amizade acontece no dia em que Solomon é obrigado a chicotear a moça, esta amarrada a um tronco de árvore, o chicoteamento assistido pelos donos da casa.

As interpretações estão excelentes, especialmente as de Chiwetel Ojiofor, Lupita Nyong´o (premiada com o Oscar) e Michael Fassbender, este no papel do desequilibrado e sádico proprietário de escravos Edwin Epps. A narrativa flui sem muitos problemas e – como não? – prende o espectador do começo ao fim.

Chiwetel Ojiofor é Solomon Northup

Chiwetel Ojiofor é Solomon Northup

E, no entanto, é só isso: ao meu ver, um bom filme, sem maiores qualidades além das referidas, e que ganhou o Oscar de melhor realização de forma justa, não porque possua méritos extraordinários, mas pelo simples fato de 2013 ter sido um ano cinematográfico em que nada se sobressaiu acima da média.

A rigor, “12 anos de escravidão” é aquele tipo de filme em que o conteúdo corre o perigo de apagar a forma – e a relevância da temática tender a ser confundida com outras relevâncias.

De minha parte, posso estar enganado, mas uma impressão que me passou foi a de que faltou aprofundamento ao personagem principal, como se o empenho em descrever os horrores da escravidão tivesse levado a direção a negligenciar um pouco na caracterização psicológica do protagonista Solomon, quase sempre só ´um negro assustado que esconde sua alma´. Que ele esconda sua vida interior dos patrões, tudo bem, mas não acho que devia escondê-la tanto de nós.

Nos créditos finais do filme informa-se que, depois de reencontrar a família em Nova Iorque, Solomon Northup entregou-se de corpo e alma a uma corajosa campanha pública em prol da abolição da escravatura, dando palestras por toda parte e divulgando o seu livro. Essa força de personalidade não aparece no Solomon do filme. Enfim, uma grande estória, quase épica, cujo herói parece não possuir a grandeza correspondente.

Ou será que estou exigindo demais do filme de McQueen? Os leitores desta matéria que decidam.

A equipe do filme na cerimônia do Oscar 2014

A equipe do filme na cerimônia do Oscar 2014