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Idílio perigoso

21 nov

Como continuo enjoado do cinema de hoje em dia, fui refugiar-me, mais um vez, em mais um clássico do passado, desta feita o noir de Jacques Tourneur “Idílio perigoso” (1944), em que a bela Hedy Lamarr está no topo do elenco.

Estória de época, o filme é um thriller psicológico cujo enredo pode ser resumido de várias maneiras. Se quisesse, eu poderia resumi-lo assim: marido contrata profissional para seguir de perto sua bela esposa, que suspeita louca, mas, na verdade, o plano esconde uma intenção de assassinato. Pois é, não parece “Um corpo que cai”, catorze anos antes dele?

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Outra forma de resumir o enredo, mais detalhada, começaria assim: em viagem de trem, numa noite de tempestade, o Dr Bailey faz amizade com essa senhora que diz estar escrevendo a biografia do irmão, o conhecido milionário Nick Bederaux. Sendo, mais tarde, apresentado aos Bederaux, o médico ficará sabendo que a tal senhora do trem falecera no dia seguinte à viagem. Outra descoberta do médico tem a ver com o mistério envolvido na figura da esposa do milionário, a bela Allida, cujo retrato ele já admirara no Museu da cidade. Allida é dada como “fatal”, mas, o cada vez mais intenso adentramento do médico na estranha família Bederaux vai mostrar que não é bem assim.

Suspendo o resumo, mas acho que vale lembrar as curiosas semelhanças de “Idílio perigoso” com três filmes rodados no mesmo ano: “Um retrato de mulher” (Fritz Lang), “Laura” (Otto Preminger) e “À meia luz” (George Cukor).

Embora um filme de época (a estória se passa em 1903), “Idílio perigoso” tem todos os ingredientes do gênero noir, uma especialidade da companhia produtora, a RKO, e mais que isso, do diretor Jacques Tourneur, conhecido pela crítica como o mestre do “horror implícito”, aquele que tem mais força porque, embora sempre sugerido, não aparece na tela.

Uma cena em flashback: Allida ainda jovem

Uma cena em flashback: Allida ainda jovem

Como em todo bom noir, o seu ponto alto é a fotografia, no caso o belo preto-e-branco assombroso do grande Tony Gaudio que já nos impressiona na antológica cena de abertura, com a poderosa e incrivelmente fotogênica imagem do trem em velocidade, debaixo de torrentes de água, deslizando célere na paisagem molhada, cortada de relâmpagos e trovões, como a prenunciar os horrores do desenlace.

E vejam que efetiva antinomia plástica: se o filme se abre com muita água, é com muito fogo que se fecha, quando incendeia-se a luxuosa mansão Bederaux.

Para quem não lembra, Gaudio foi o fotógrafo de filmes importantes da época, de gêneros diversos, entre os quais, “A vida de Émile Zola” (1937), “As aventuras de Robin Hood” (1938), “A carta” (1940), “Seu último refúgio” (1941) e “À noite sonhamos” (1945).

Como os seus semelhantes (todos aqueles citados mais acima, inclusive “Um corpo que cai”), “Idílio perigoso” é um filme de atmosfera, e, por isso mesmo, a sua estrutura narrativa é relativamente frouxa, comportando improbabilidades que podem passar despercebidas aos espectadores em geral, mas não à análise.

Vejam que parte da vida privada do milionário Nick vem à tona a partir da leitura que faz o médico Bailey dos escritos da irmã dele, a senhora do trem, escritos estes que foram parar no seu apartamento por acaso. Na medida em que Bailey lê, a câmera substitui as palavras por imagens e, logo acontece o inevitável: de repente, estamos, nós espectadores, vendo mais do que teria sido fisicamente possível à autora do texto. Tudo bem, este é só o recurso narrativo a que os teóricos da linguagem dão o nome de paralepse (fornecer informação diegética a quem não poderia detê-la), porém, de todo jeito, num filme em que a descoberta da verdade depende do rigor da investigação, feita – não esqueçamos – por um médico…

O diretor Jacques Tourneur

O diretor Jacques Tourneur

Aliás, é a profissão do protagonista que justifica o título do filme, digo o original, com o adjetivo posposto ao substantivo, uso incomum em inglês: “Experiment perilous” / ´Experimento perigoso´. É que a expressão consiste em um fragmento de uma frase famosa – citada por Bailey em certa ocasião – do pai da medicina, o grego Hipócrates: “Life is short, art is long, decision difficult, and experiment perilous” / “A vida é breve, a arte é longa, a decisão difícil, e o experimento perigoso”. (Trocando ´experimento´ por ´idílio´, os distribuidores brasileiros preferiram, evidentemente, enfatizar o lado sentimental da relação entre os personagens).

Por falar em experimento, o filme de Tourneur é, de alguma maneira, também um experimento, e também perigoso. Se a gente ainda gosta dele setenta anos depois de seu lançamento, é porque deu certo.

Eita, agora me dou conta de que não houve espaço para falar da beleza de Hedy Lamarr no papel chave de Allida, a esposa vitimada pelo marido (o ator Paul Lukas) e salva pelo amigo, médico e amante Bailey (George Brent); mas, precisa?

A beleza de Hedy Lamarr.

A beleza de Hedy Lamarr.

Se não fosse Hedy Lamarr, você não teria o seu celular

4 dez

Hoje quase ninguém mais lembra quem foi Hedy Lamarr (1914-2000), mas, para o cinéfilo que tem idade e memória, ela foi uma das maiores musas do universo cinematográfico, considerada por muitos um dos rostos mais belos da história do cinema.

Para refrescar a memória do leitor, o seu papel mais conhecido, possivelmente o mais lembrado, foi, ao lado de Victor Mature, o da protagonista em “Sansão e Dalila”, a superprodução bíblica de Cecil B. DeMille que encantou multidões, em 1949 e muitos anos adiante. Quem pode ter esquecido a paixão convulsa entre esse herói danita e essa bela filistéia que descobre onde reside a sua força – no cabelo – e o trai por puro despeito? No Brasil dos anos cinqüenta, – vocês lembram – era um dos filmes que se exibiam na Semana Santa, em cidades do interior, quando “A paixão de Cristo” não estava disponível.

Outros desempenhos de Hedy Lamarr que o leitor pode talvez lembrar são: com Charles Boyer em “Algéria” (1938); com Clark Gable em “Fruto proibido” (1940); com James Stewart em “Pede-se um marido” (1941); com Spencer Tracy em “Boêmios errantes” (1942); com Walter Pidgeon em “Demônios do Congo”; com John Hodiak em “A mulher sem nome” (1950).

Aos quarenta e quatro anos, em 1958, Hedy Lamarr roda o seu último filme, “Naufrágio de uma ilusão” e nunca mais retorna ao mundo cinematográfico. Sintomaticamente, o filme era a estória trágica de uma atriz em fim de carreira.

Com o sobrenome de Kiesler, Hedy nasceu em Viena, Áustria, e, muito jovem, abandonou a escola secundária para atuar no cinema alemão, na companhia do expressionista Max Rheinhardt. Filma daqui, filma dali, terminou atuando numa película checo-austríaca, “Êxtase”, que lhe daria fama internacional. É que nesse filme ela aparecia completamente despida e o ano era apenas 1933.

Em 1937 foge de um casamento mal sucedido para Londres, onde é contratada pela MGM e, imediatamente, embarca para Hollywood, com o novo sobrenome dado por Louis B Meyer, e a promessa – também de Meyer – de vir a ser uma nova Greta Garbo.

Apesar da beleza e do talento, Hedy Lamarr nunca teve a fama da Garbo, o que é atribuído pelos seus biógrafos à falta de um agente que administrasse a sua carreira, cheia de erros inconvenientes ou mesmo drásticos. Por exemplo, em 1941, tendo sido a atriz cogitada pela equipe da Warner Brothers para ser a Ilsa Lund de “Casablanca”, simplesmente recusa o papel.

De qualquer forma, a história do show business ainda hoje mantém o seu nome nas alturas, e o seu rosto continua ilustrando os mais belos álbuns da Hollywood clássica.

E, no entanto, me desculpem, mas não é propriamente da atriz famosa que quero tratar aqui. Poucos sabem disso, mas, Hedy Lamarr foi, nas horas vagas, entre um casamento escandaloso e outro (foram seis ao todo), uma grande cientista.

Sim, isso mesmo: uma grande cientista. Quando estoura a Segunda Guerra Mundial, ela e um vizinho hollywoodiano, o músico de vanguarda George Antheil, começam a pensar numa maneira de ajudar a combater o nazismo. Ainda em Viena, Hedy havia sido casada com um homem mais velho que negociava com armamento e, por tabela, adquirira ela uma certa familiaridade com a produção de armas.

Pois bem, junto com o seu vizinho, ela passa a imaginar uma maneira de tornar mais eficaz o movimento e a pontaria dos torpedos e desenvolve um mecanismo que vem a ser chamado de “frequency hopping”, mais ou menos ´frequência alternada´, cujo objetivo era justamente este: o de direcionar o movimento dos torpedos a fim de que atingissem o alvo com o mínimo de erro.

Concebe o mecanismo com extrema precisão, e submete o invento aos militares americanos, que o recusam, alegando que ela seria mais útil ao país vendendo beijos aos soldados para levantar fundos de guerra. O que ela faz, sem desistir da ideia do invento, devidamente patenteado no “National Inventors Council” – o conselho nacional de inventores.

Ora, mais de uma década depois disso, engenheiros americanos redescobrem o invento de Lamarr que é, com novo nome, “spread spectrum” (´espectro de abertura´), utilizado com sucesso na crise dos mísseis cubanos nos anos sessenta.

Com o advento da eletrônica, o invento de Lamarr e seu amigo músico ganha nova dimensão e novo emprego, sendo fundamental para o desenvolvimento de micro-chips, mas, sobretudo, sendo essencial no aperfeiçoamento da tecnologia relativa à telefonia celular. Segundo consta, a tecnologia celular não teria tido o desenvolvimento que teve no final do século XX sem o invento básico de Lamarr, tanto é assim que, em 1998, ela recebe, da importante E.F.F. (Electronic Frontier Foundation) o prêmio máximo pelo invento.

Idosa e reclusa, ela fica em casa e manda o filho receber o prêmio, a quem comenta quando lhe chega a notícia do reconhecimento: “Já era tempo”.

Pois é, desculpem as rimas, mas de uns tempos para cá, toda vez que faço uso do meu celular, fico pensando em Hedy Lamarr.

Com um pequeno adicional de ironia lingüística: hoje em dia, como se sabe, as mensagens entre celulares se chamam, metaforicamente, “torpedos”, quando os torpedos reais estiveram na origem do invento científico de Lamarr. Caprichos da linguagem.