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Losers we love (or Never mind the Oscar)

12 fev

Until 1989, the Hollywood Academy announced the Oscar results with the sentence: “And the winner is…”, which, from that year on, was changed to: “And the Oscar goes to…”

The linguistic change seems to have occurred out of a conscience crisis. The Academy suddenly realized that pronouncing the word ´winner´ implied, by inevitable contrast, the notion of ´loser´, a notion which is highly negative within the capitalistic and competitive context of American life.

Well, the sentence changed, but not the situation: the one who does not win is still a loser…

No Oscar for "It´s a wonderful life".

No Oscar for “It´s a wonderful life”.

The fact is: since the Academy foundation, in 1927, History has been giving Hollywood some rough lessons.

Take the case of “Citizen Kane”, for instance. Despite its high quality, Orson Welles´ 1941 movie had a single award for Herman Mankiewicz´ script; ironically enough, the movie gained the position, given by international criticism, of best movie ever made, and kept this position for half a century.

Another typical case is director John Ford, who always described himself as a ´western maker´. Ford won some Oscars throughout his career, but, never won any for the making of his great westerns, like, “Stagecoach”, “My darling Clementine”, “The searchers”, “The man who shot Liberty Valence”.

Kim Novak and William Holden in "Picnic"

Kim Novak and William Holden in “Picnic”

But I don´t intend to write about the mistakes of the Academy; I have done it already, so many times, and I don´t want to repeat myself.

I´d rather do as follows: since the word ´loser´ carries such a weight, I´d like to present here a certain list of movies which, although nominees at their times, were not awarded, were the elections fair or not. They are all great movies of the classical era which lost the Oscar for best movies of the year, but, in compensation, won in the category that matters most for the passionate moviegoer: the category of time, for, even today, we think of them as great unforgetable films.

Who would consider losers movies like, say, “It´s a wonderful life” (1946), or “Sunset Boulevard” (1950), or “Picnic” (1955)? And yet, the desired prize did not go to the hands of their respective authors, Frank Capra, Billy Wilder and Joshua Logan.

"Sunset Boulevard" (Billy Wilder, 1950).

“Sunset Boulevard” (Billy Wilder, 1950).

So, check here some of the ´losers we love´, which I list by decade.

The Forties:

“The great dictator” (Charles Chaplin, 1940); “The little foxes” (William Wyler, 1941); “Double indemnity” (Billy Wilder, 1944); “Great expectations” (David Lean, 1947); “The treasure of Sierra Madre” (John Huston, 1948); “The heiress” (William Wyler, 1949).

The Fifties:

“High Noon” (Fred Zinnemann, 1952); “Shane” (George Stevens, 1953), “Seven brides for seven Brothers” (Stanley Donen, 1954); “Giant” (George Stevens, 1956); “Twelve angry men” (Sidney Lumet, 1957); “Anatony of a murder” (Otto Preminger, 1959).

The Sixties:

“Elmer Gantry” (Richard Brooks, 1960); “America, América” (Elia Kazan, 1963); “Zorba” (Michael Cacoyannis, 1964); “Dr Jivago” (David Lean, 1965); “Who is afraid of Virginia Woolf?” (Mike Nichols, 1966); “Bonnie and Clyde” (Arthur Penn, 1967); “The graduate” (Mike Nichols, 1967).

And notice I have not mentioned all the losers of the period.

Ava Gardner, one of our dear ´losers´...

Ava Gardner, one of our dear ´losers´…

Well, I´d stop here, but, if you wish to be more extensive, you can think of the other Oscar categories. For instance, great actors and actresses who never won an Oscar at all. Here are some names of the classic era:

Ava Gardner, Marilyn Monroe, Natalie Wood, Janet Leigh, Richard Burton, Peter Sellers, Steve McQueen, Joseph Cotten, etc…

All this losing stuff reminds me of the Russian plot in Claude Lelouch´s “Bolero” (“Les uns et les autres”, 1981). In this French film, the one who deserves to have her life narrated all over is not the girl that wins the famous Ballet Contest, shown at the opening scene: this winner disappears from the screen in the next shot. The one who ´wins the film´ is exactly the girl who loses the Contest. For some reason, losers seem to be far more captivating than winners. Lelouch knew it when he conceived the scene.

So, on coming February 28, if your preferences are not favored, just don´t make a fuss about it.

A seven times nominee who never won the Oscar.

A seven times nominee who never won the Oscar.

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Antes de High Noon

27 nov

Na historiografia do gênero faroeste, “High Noon”, (“Matar ou morrer” Fred Zinnemann, 1952) é sempre dado como um marco. Além de perfeito na sua confecção cinemática, o filme de Zinnemann era o primeiro western a, de forma sistemática, introduzir psicologia ao meio do excesso de ação, típico do gênero. Não é que o faroeste, nascido ao tempo do cinema mudo, não tivesse psicologia. Apenas os seus elementos eram simplificados, na maior parte dos casos, se resumindo à dualidade entre os bons e os maus. “High Noon” implodiu esse maniqueísmo e o fez de modo radical.

Naturalmente “High Noon” teve precursores no emprego da psicologia ao faroeste, basta checar certos filmes chave de John Ford, como “No tempo das diligências” (1939) e “Paixão dos fortes” (1946).

Pois, incrivelmente próximo no tempo, na temática e mesmo na construção, um dos precursores mais curiosos de “High Noon” é esse modesto faroeste B que o cineasta André de Toth co-roteirizou e que Henry King dirigiu para a Columbia, dois anos antes, em 1950. Refiro-me ao obscuro e por muito tempo pouco prestigiado “O matador” (“The gunfighter”, 1952)

Ao invés de contar a estória de um Xerife, “O matador” conta o drama desse pistoleiro afamado, Jimmy Ringo, que, em 1880, chega à pequena Cayanne onde, com outro sobrenome e incógnitos, residem a mulher e o filho, que ele não vê há cerca de oito anos. O objetivo de Ringo é aposentar as armas e viver uma vida normal, ao lado da amada e do filho, em algum sítio afastado de tiroteios e violências, porém, a sua fama o persegue e, onde quer que ele vá, os que dele se aproximam, ou estimulam sua valentia com bajulações, ou a questionam com desacatos, geralmente fatais para os desafiadores.

Como “High Noon”, “O matador” trabalha com a unidade de espaço e tempo. Depois de chegado a Cayenne, Ringo permanece recluso à circunscrição de um hotel, e o resto da narrativa é cronologicamente marcado – também em um relógio – pelo prazo de ir embora que lhe dá o Xerife – o momento em que vir o filho. Vejam só: como o Will Kane de”High Noon”, Ringo é um homem pressionado a partir, e como o mesmo Kane, momentaneamente abandonado pela esposa. Aliás, com forma de quiasmo, a simetria entre os dois personagens é curiosa: Kane seria um cidadão de bem agindo como bandido (isto é, apelando para a violência), enquanto Ringo seria um bandido agindo – ou tentando agir – como cidadão de bem.

Outro elemento de afinidade entre os dois filmes está na construção do suspense, gradativa e crescente, até um ponto de ebulição. Na medida em que corre o tempo, vão surgindo, cumulativamente, os fatores desfavoráveis ao sonho de paz doméstica de Ringo. Para citar alguns poucos: (1) os três cavaleiros que vêm de Santa Fé, no seu encalço, para vingar a recente morte do irmão; (2) aquele senhor que perdeu um filho em duelo e pensa ter sido Ringo o autor do tiro; (3) esse rapaz de Cayenne que não vê a hora de mostrar que Ringo “não é assim tão durão”; (4) embora ex-colega de aventuras, o Xerife Mark, que não compreende os seus planos e não o quer na cidade; (4) a esposa, que não acredita na possibilidade de uma recuperação; (5) os habitantes de Cayenne, que se prostram na frente do hotel para espiar o mito Ringo, e, assim, inviabilizam a sua estada na cidade; (6) a Liga Feminina, que exige do Xerife uma medida efetiva contra a presença desse malfeitor em Cayenne.

Com tantos pontos em comum, uma pergunta inevitável para o espectador que compara os dois filmes é se Zinneman e sua equipe conheceram o filme de King, e se nele porventura se inspiraram. Se assim foi, não vejo problemas: os dois filmes são excelentes.

Na época de seu lançamento, por alguma razão estranha, “O matador” não chamou a atenção, e nem a indicação ao Oscar de roteiro original (William Bowers) despertou o interesse da crítica. Somente nas ultimas décadas, com o advento das cópias eletrônicas, o filme de King tem sido revisto e reavaliado como merece. Hoje, a crítica revisora atribui a “O matador” uma estrutura de tragédia grega e o faz com razão, o que, aliás, marca uma diferença básica com “High Noon”, que tem – para incômodo de alguns comentadores – um relativamente arranjado “happy end”.

Outros elementos destacados pela revisão são a fotografia e as interpretações. Daquela primeira diz, por exemplo, o crítico Robert Warshow: “o filme está feito em tons parados e frios de cinza, e todo objeto nele – rostos, roupas, mesas, o pesado bigode do herói – sugere aquelas opacas fotografias do Oeste do século dezenove”. Faço questão de citar a observação, não só pela pertinência, mas porque faz justiça ao genial profissional da iluminação que foi Arthur Miller, sem coincidência, já na época o detentor de três Oscar: por “Como era verde o meu vale” (1941), “A canção de Bernadete” (1943), “Ana e o rei” (1946).

Com relação às interpretações, todo o elenco está ótimo, do interesseiro dono do hotel (o grande Karl Malden) ao “pistoleiro vindouro” com cuja imagem o filme se fecha (Skip Homeier), mas, o destaque é mesmo para Gregory Peck – hoje a crítica concorda – em um de seus melhores desempenhos. Peck foi um dos atores preferidos de Henry King, com quem fez seis filmes no período de dez anos. Em “O matador” é possível sentir que a química entre diretor e ator principal foi perfeita e fluiu, se se puder dizer, como uma arma sacada por uma mão profissional.

Entre os reavaliadores de “O matador”, o crítico Tom Milne o dá como “soberbo, clássico, trágico” para concluir que está num patamar qualitativo acima de “High Noon”. Concordo com os adjetivos, mas não com a sua conclusão. No meu entender, é exagero, mas, vale a chamada para um faroeste por tanto tempo e tão injustamente subestimado.