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Hiroshima

11 jul

Sessão nostalgia – noite de domingo chuvoso e frio, no Cine Banguê, para rever, sozinho, “Hiroshima, meu amor” (Alain Resnais, 1959).

Claro que valeu a pena.

No viés nostálgico, reportei-me aos dois momentos, bem diferentes, em que havia visto o filme de Resnais.

O primeiro foi no Cine Bela Vista, no bairro de Cruz das Armas, comecinho dos anos sessenta. Soube depois que tinha sido uma das primeiras sessões do projeto “Cinema de Arte”, da então nascente ACCP, a Associação de Críticos Cinematográficos da Paraíba. Mas, na época, adolescente, eu era verde demais para entender dessas coisas. Apenas assisti àquele filme estranho com a impressão de que jamais o esqueceria. E nunca esqueci.

O segundo foi já nos anos oitenta, na ocasião do fechamento do Cinema Rex. Se não me engano organizada pelo setor cultural da ADUF, houve uma celebração do evento, uma semana de exibição de filmes clássicos, entre os quais “Hiroshima”.

Depois disso, não o revi mais e a oportunidade foi bem vinda. Na minha lembrança, o filme de Resnais era mais abstrato e mais vanguardista. Talvez eu estivesse influenciado pela sua associação com a Nouvelle Vague, ou com o seu realmente abstrato “O ano passado em Marienbad” (1961). Esta sessão me ajudou a corrigir uma impressão errônea.

Sim, afinal de contas, o filme relata uma estória com começo meio e fim. É cheio de flashbacks e contém muitas daquelas cenas em que a câmera “abandona” os protagonistas e vai passear pelas ruas e outros logradouros da cidade, porém, nada disso perturba a lógica da estória contada: o caso de amor entre um arquiteto japonês (Eiji Okada), casado, e uma atriz francesa (Emmanuelle Riva), também casada, no momento rodando um filme sobre a paz em Hiroshima.

A narração começa investindo forte na metonímia e acho que foi isso que me deu a impressão de “cinema abstrato”. Por um bom tempo, não se mostram os rostos do casal na cama, só partes de seus corpos nus, filmados tão de perto que a identificação é dificultada. E suas falas são todas em “voice over”, como disse, enquanto se veem as ruas de Hiroshima, ela insistindo em que viu tudo de Hiroshima, ele, contestando que ela não viu nada. Para completar, essas vozes soltas no espaço e no tempo, são articuladas como se se tratasse, não de um diálogo, mas, de declamação poética. E neste momento, a gente lembra que o diálogo ficou ao encargo de Marguerite Duras.

Mais de meia hora de projeção decorre assim, nisto que chamei de cinema abstrato, mas, em seguida, fica o filme mais – digamos – convencional, sobretudo a partir do momento em que nos são dados os rostos dos dois protagonistas, momento também a partir do qual eles começam a falar como se fala, sem recitação.

Esse tom de recitação só vai voltar na cena final, quando – depois de muita luta interior – o casal se reencontra entre quatro paredes e encerra o filme com a dedução inevitável, toda articulada devagar, sílaba por sílaba:

Ela: Hi – ro – shi – ma. C´est ton nom.

Ele: Oui, c´est mon nom. Et ton nom à toi est Nevers, Nevers en France.

No meio termo, digo, entre a parte inicial e este desenlace, fica uma estória de amor cheia de conflitos, com direito a todos os elementos que compõem um melodrama cinematográfico: um casal adúltero apaixonado e uma estória pregressa, de paixão e desespero. Não creio, por exemplo, que seja gratuito o fato de o hotel da protagonista se chamar CASABLANCA.

Um dos lances da narração que não posso deixar de anotar é o seguinte. Prestem atenção: na parte inicial, a voz over da mulher sempre se refere a um “tu” que deduzimos ser o homem a quem ela ama no presente, e com quem está fazendo amor no momento. Mais adiante, quando ela retrocede no tempo para, em flashbacks repetidos, contar a este homem de hoje, a sua estória de amor com o soldado alemão do passado, notamos que aquele “tu” era, o tempo todo, uma remissão ao passado. Um pouco mais adiante, vamos nos dar conta do melhor: é que esses dois “tus” – o referido ao passado e o referido ao presente – se confundem e se transformam, magicamente, em um mesmo “tu”. Esta fusão é o recurso fílmico maior para indicar que a atriz francesa está, sim, tão apaixonada pelo arquiteto japonês – esse que, de si para si, ela chama de “um desconhecido” – quanto estivera, durante a guerra, pelo soldado alemão. Genial.

Notei que ao terminar a exibição, com o “FIN” na tela e as luzes acesas, a jovem plateia presente ficou meio confusa, esperando, meio decepcionada, o que se tem hoje em dia: a longa lista dos créditos. Eu, que sou do tempo dos créditos no início do filme, ri comigo mesmo: de fato, eu era o único nostálgico da noite.

Em tempo: a exibição de “Hiroshima meu amor” não foi promoção da ACCP, mas do Cineclube Charles Chaplin, do Liceu Paraibano, conforme oportunamente nos informa o  estudioso de cinema Paulo Melo.Eem

 

 

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Últimas sessões

12 ago

Esta semana a televisão paga mostrou “Síndrome de Caim” (“Raising Cain”, 1992), de Brian DePalma,

Bem dentro daquela obsessão intertextual de DePalma, o filme é uma imitação de vários outros, entre os quais, “O terceiro homem” (Carol Reed, 1948), “As três máscaras de Eva” (Nunnally Johnson, 1957), “Psicose” (Alfred Hitchcock, 1960), e “A tortura do medo” (Michael Powell, 1960), uma mistura interessante que, infelizmente, não deu lá muito certo, para não dizer que deu completamente errado.

Eu já conhecia o “Síndrome” de DePalma, mas não lembrava bem, e revi-o por um motivo meramente saudosista, talvez também um pouco masoquista: foi o último filme a que assisti no saudoso Cine Plaza. Para quem é de fora, ou jovem demais, o Plaza foi, nos velhos tempos, um dos elegantes cinemas do centro da cidade de João Pessoa.

Fachada do Cine Plaza, nos anos oitenta.

Fachada do Cine Plaza, em foto dos anos oitenta.

O filme é de 1992 e deve ter sido exibido aqui em 93 ou 94, época em que a programação normal do Plaza já era, havia algum tempo, quase que só pornográfica. No meio dos pornôs, os proprietários às vezes empurravam um filme que tivesse bastante violência (caso de “Síndrome”), como se os apreciadores de sexo explícito necessariamente também gostassem de violência.

Lembro que me senti triste dentro do cinema. Física e de outra natureza, a decadência daquela casa de espetáculo me deprimia e, o tempo todo, eu me recordava de sua época áurea, tanto a do Plaza ´novo´ – (re)inaugurado em 1963 – como a do ´velho´, que tanto frequentei, e onde vi filmes maravilhosos que moldaram o meu perfil de cinéfilo.

Na minha cabeça perturbada, a má qualidade do filme de DePalma se confundia com o clima decadente do cinema, e acho que foi isso que me fez esquecê-lo, como a gente tende a esquecer uma experiência desagradável.

Não sei em que ano o Plaza fechou as portas, e, revendo “Síndrome” na televisão fiz esforços para lembrar se vi lá algum filme depois dele. Não consegui e, portanto, fica ele mesmo como a minha triste despedida do Plaza.

O Cinema Rex, em foto também nos anos oitenta.

O Cinema Rex, em foto também nos anos oitenta.

O que, de uma forma mais genérica, me remete às minhas últimas sessões nos outros cinemas da cidade.

O Cine Rex, outro elegante cinema central na cidade, foi a única casa de espetáculos que fechou honrosamente. O pessoal da minha faixa etária deve lembrar o evento: no fechamento houve, organizada se não me engano pela ADUF, uma semana especial de despedida, meio ´cult´, onde foram (re)exibidos grandes clássicos do passado, como “Hiroshima, meu amor” e companhia limitada. Foi melancólico como tinha de ser, mas foi chique.

Já o Cine Municipal fechou sem celebrações, e pior, o fechamento teve duas etapas: o do cinema inteiro, e mais tarde, depois da drástica reforma subtrativa, o do cinema pela metade. Para quem não sabe, ou não lembra, em 1995 o prédio foi literalmente partido ao meio, metade vendida ao comércio, e a sala de projeção ficou sufocantemente estreita como um corredor.

Não estou certo, porém, calculo que meu último filme visto no ´Municipal inteiro´ (chamemo-lo assim) foi a comédia de Chris Columbus “Uma babá quase perfeita”, com Robin Williams no papel título. Se o filme tinha porventura alguma graça, parte dela se perdeu na péssima qualidade da projeção, a fita quebrando várias vezes e o som inaudível. O ano deve ter sido também 94, já que o filme é de 93. Não sei que dia da semana era, mas, é claro que eu me reportei, por doloroso contraste, a toda aquela animação, nos tempos das sessões de quinta-feira do Cinema de Arte, organizado pela Associação dos Críticos Cinematográficos da Paraíba.

A minha última e única sessão do ´meio-Municipal´ (chamemo-lo assim) foi tão deprimente que nem gosto de lembrar – em 1996 foi o “Tieta do agreste” de Cacá Diegues que me deixou partido ao meio, como a sala onde me achava. Era a inauguração da ´meia sala´, porém, nunca mais pisei lá, nem quis saber quando fechou.

E os outros cinemas do centro da cidade, quando fecharam e com que filmes? O Cine São Pedro, o Cine Brasil, o Filipéia, o Astória… Valei-nos, Wills Leal!

Elizabeth Taylor e Spencer Tracy em "O pai da noiva" (1953).

Elizabeth Taylor e Spencer Tracy em “O pai da noiva” (1953).

Quanto aos cinemas do meu bairro, Jaguaribe, cinemas que, desde criança, frequentei com tanta assiduidade e com tanto amor, sinto vergonha em dizer que não estive no fechamento de nenhum deles – o Cine Teatro Sto Antônio, o Cine São José e o Cine Jaguaribe – e, pior, sequer lembro que últimos filmes neles vi antes de fecharem. Afinal de contas, foram cinemas que desapareceram sem alarde, como as criaturas humildes que se vão anonimamente…

A essa altura, suponho que o leitor já deve ter entendido que estou me referindo, sempre, a um modelo de casa exibidora que deixou de existir há muito tempo; sim, cinemas que tinham calçada e endereço próprio, coisas que faltam às atuais salas de Shopping Center.

Fechamento de casa de espetáculo… Quem fez um filme singelo e bonito sobre o assunto foi o cineasta Peter Bogdanovich, aliás, imperdível para cinéfilos e que se chama justamente “A última sessão de cinema” (“The last Picture show, 1971). Não tem as lágrimas dos italianos “Cinema Paradiso” e “Splendor”, mas também comove ao remontar a uma pequena cidade do interior que vê a sua única tela grande apagar-se… para nunca mais acender.

Em uma cena melancólica do filme, a juventude assiste, nas poltronas surradas desse cinema moribundo, as confusas preparações da festa de casamento da jovem Elizabeth Taylor, sem saber que nunca mais veriam a atriz na tela cinematográfica – pelo menos na sua cidade, não. O “filme dentro do filme” era, evidentemente, a comédia do grande Vincente Minnelli, “O pai da noiva” (1950).

No filme de Bogdanovich, os cinemas americanos já começaram a apagar suas telas na remota década de cinquenta, época em que, nos lares americanos, se acendiam as milhares de telinhas dos aparelhos televisivos.

Entre nós, demorou mais, porém, a melancolia é a mesma.

 

Em tempo: segundo o nosso imprescindível oráculo cinematográfico, Ivan Cineminha, o derradeiro filme apresentado no Cinema Plaza foi o pornô “No verão de 72”, em 31 de outubro de 1996; e o último no Cinema Municipal foi o terror “Fred versus Jason”, em 20 de novembro de 2003. Fica feito o registro.

O Cine Teatro Sto Antônio, no bairro de Jaguaribe, João Pessoa.

O Cine Teatro Sto Antônio, no bairro de Jaguaribe, João Pessoa.

 

 

 

Vocês ainda não viram nada

12 jul

Por telefone, um a um, grandes atores e atrizes do teatro francês são convidados a comparecer ao enterro do dramaturgo Antoine D´Anthac, com o qual todos eles, em épocas diferentes, trabalharam em várias encenações da peça de Jean Anouilh, “Eurídice”.

Surpresa ao chegar à mansão do morto! Não há corpo a velar, e sim, um testamento visual, previamente filmado. Em tela de cinema armada no grande salão da mansão, a imagem de D´Anthac se dirige aos presentes e lhes propõe assistirem, nessa mesma tela, a uma nova montagem de “Eurídice”, encenada por uma trupe novata.

Até aqui, espaço, tempo e lógica estão respeitados no filme de Alain Resnais, exibido entre nós, “Vocês ainda não viram nada” (“Vous n´avez encore rien vu”, 2012), mas só até aqui.

Cartaz do filme de Resnais

Cartaz do filme de Resnais

De repente, para surpresa do espectador do filme, a plateia que assiste ao filme-testamento começa a participar da encenação que é mostrada na tela doméstica. De início são só fragmentos de falas que se repetem entre os atores, os da tela doméstica e os convidados do morto; depois, os espaços e tempos ficcionais se confundem, e os atores-espectadores viram personagens de uma peça maior cujo cenário se multiplica numa diegese indefinida e indeterminada. Os próprios papéis (Eurídice, Orfeu, amantes, familiares, etc) se reduplicam, já que, dentre os presentes, houve repetições de desempenhos, ou seja, dois ou três deles, fizeram um dia, no palco de D´Anthac, o mesmo papel.

Para complicar, uma curiosidade ainda não dita é que esses atores e atrizes convidados a viver essa experiência inusitada são pessoas reais, chamadas pelos seus nomes verídicos, cada um desempenhando o papel de si mesmo. Por exemplo, Michel Piccoli na peça a que os atores assistem é o pai de Orfeu, porém, no filme a que assistimos é Michel Piccoli mesmo.

Mistura de teatro e cinema, de ficção e documentário, de literatura e plástica, de linguagem e metalinguagem, o filme de Resnais surpreende até a quem está acostumado a sua eterna teimosia de inventar – isso desde o “Hiroshima, meu amor” (1959) até o penúltimo “Erva daninha” (2011), passando por – para citar só uns poucos, mais conhecidos – “O ano passado em Marienbad” (1961), “Providence” (1977), e “Melo” (1986).

Os convidados à mansão de Antoine D`Anthac

Os convidados à mansão de Antoine D`Anthac

Na peça-filme a que se assiste, a personagem de Eurídice, angustiada perante o seu Orfeu amado, repete várias vezes a expressão “é difícil”. Ora, a expressão vale para o espectador do filme de Resnais, que corre o risco de se perder na teia de intertextos e não conseguir manter em mente uma linha diegética que guie sua compreensão. Mesmo lembrando o enredo do mito de Orfeu, a dificuldade persiste.

Um elemento complicador a mais é que os roteiristas, o próprio Resnais e Laurent Herbet, não se limitaram a “adaptar” (entre aspas) um texto só, no caso o “Eurídice” de Anouilh, e com ele, misturaram o enredo de outra peça do mesmo autor, bem menos conhecida do público em geral, “Cher Antoine ou l´amour raté”.

Um corolário inescapável é que “Vocês ainda não viram nada” se torna um filme tão fácil de elogiar quanto fácil de destratar – a depender da inclinação estética do espectador. Ao fã do chamado “cinema de arte europeu” ele com certeza parece perfeito em seu exercício extremo de desconstruir a narrativa e se apresentar como “discurso”, naquela acepção que ao termo dão os teóricos da linguagem – no caso, a de ser um filme que, a todo instante, lembra ao espectador que ele está vendo um filme, digo, um artefato estético, e não a realidade.

Eurídice e Orfeu não podem se olhar de frente até o dia amanhecer

Eurídice e Orfeu não podem se olhar de frente até o dia amanhecer

Já para o fã do cinema clássico tradicionalmente narrativo, ele pode soar rebuscado e artificial, confuso e principalmente frio, na medida em que a estória que conta nunca toma corpo visível, o mesmo podendo ser dito dos seus personagens, que vivem dramas tocantes entre si, mas não para o espectador. Não ocorre a identificação e o envolvimento típicos do filme tradicional, que constrói uma diegese nítida e coerente onde os personagens parecem gente de carne e osso.

Neste particular, proposital ou não, uma pequena ironia se dá no desenlace, quando o falso morto (re)aparece e tudo se explica como uma modalidade altamente imaginativa de ´practical joke´, ainda que a ´anedota´ nada tenha de ´prática´. Neste momento final, o código do “cinema de arte europeu” é – suavemente que seja – quebrado e, se pensarmos nos dois modelos de espectador acima divisados, uma certa inversão de efeito pode talvez acontecer.

Uma coisa não pode deixar de ser dita: seja qual for o modelo de recepção, “Vocês ainda não viram nada”,  é uma obra convicta e séria, a pedir estudos igualmente sérios. Não apenas porque Resnais a fez aos noventa anos, mas porque ela resume uma das propostas de cinema mais originais do século.

Em tempo: na foto abaixo, o hoje idoso Michel Piccoli no papel do pai de Orfeu.

Michel Piccoli