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A viagem de Yoani

7 maio

 

A blogueira cubana Yoani Sanchez seria uma agente da CIA a serviço do imperialismo americano… ou uma heróica batalhadora pelo direito de expressão em seu país?

Em cartaz na cidade, o documentário “A viagem de Yoani” (2014) faz a pergunta e, claro, tem o cuidado de não insinuar respostas.

Respostas, não, mas interesse pelo caso Yoani existe, sim, e muito.

Não há nenhuma dúvida de que os diretores Raphael Bottino e Peppe Sifredi se entregaram com gosto à missão de acompanhar a blogueira cubana em sua visita ao Brasil, em 2013, o mais de perto possível, desde o desembarque no aeroporto de Salvador, passando por sua hospedagem em Feira de Santana, até o desastroso confronto com imprensa e público, na sede do Jornal do Estado, em São Paulo.

4 yoanni

Eis aí um exemplo de documentário de roteiro aberto, mais que isso, escancarado, para o que der e vier. Com certeza, os seus autores não previam o tamanho do tumulto que a presença de Yoani causaria em solo brasileiro. Previam o tumulto, mas não o tamanho.

Como se sabe, há muito a jovem cubana vem escrevendo, em seu já afamado blogue “Geração Y”, crônicas e artigos desfavoráveis à situação política em Cuba, o que a tornou uma persona non grata em seu país, mas, como se vê no documentário em questão, não só em seu país…

Divulgados virtualmente, traduzidos para dezenas de idiomas, os seus textos ganharam leitores no mundo todo, em muitos casos, tomando o formato de livros. E vieram os prêmios e, consequentemente, a fama internacional.

Como os escritos de Yoani enfatizam o lado negativo do regime castrista, quase sempre passando ao largo dos positivos, os simpatizantes desse regime se vêem na urgência de denunciar a escritora como traidora. E de traidora de Cuba para agente da CIA foi um pulo…

A blogueira Yoani no Brasil

A blogueira Yoani no Brasil

O fato é que chega a ser assustador o nível de violência verbal com que Yoani é agredida na recepção paulista, ela, e os promotores de sua visita, como o deputado Eduardo Suplicy. No caminho para a entrevista coletiva ela prevê que o que vai acontecer será (sic) “intenso”. O que não prevê é que a intensidade será tal ao ponto de inviabilizar a entrevista…

Com enquadramentos precários, fotografia casual e som pouco audível, o filme mostra o confronto todo, mas não faz só isso. Junta trechos dos escritos virtuais da autora, com textos alheiros sobre ela, mais imagens virtuais e/ou televisivas em que seu caso foi tratado – os estrangeiros e os cubanos – mistura tudo, dando ao conjunto um tratamento cibernético, cheio de recursos eletrônicos sofisticados, figuras e sons virtuais em jogo, que dão ao espectador a impressão de estar, não diante da tela cinematográfica, mas de um computador.

Esse recurso de “cibernetizar” ao extremo, eu sei, combina com o meio pelo qual a protagonista se comunica com o mundo, a internet, além de compensar a ostensiva precariedade das filmagens documentais, porém, há momentos em que a velocidade dos jogos cibernéticos cansa a vista e dá vontade de… desligar o computador.

Tumulto no debate...

Tumulto no debate…

Voltando a Yoani, com ela concordando ou dela discordando, um fato que impressiona, no documentário que a seguiu fisicamente tão de perto, é a sua tranquilidade, sempre mantida, mesmo nos momentos mais “intensos”. Como naquela ocasião limite em que, indagada sobre o assunto, revela o modo como os seus textos são traduzidos por uma jornalista americana, e, irada, a platéia, aos gritos, a impede de continuar falando… e, como já dito, a coletiva, sem condição de comunicabilidade, é encerrada.

Naturalmente, o que as pessoas pensam de Yoani está relacionado ao que as pessoas pensam de Cuba, e isso que pode, eventualmente, determinar a apreciação e o julgamento do filme, em detrimento de seu valor, se tem algum, estritamente cinematográfico.

O filme se fecha com a informação de que, no recente – e tão desejado – desbloqueio americano a Cuba, Yoani teria elogiado os irmãos Castro.

De minha parte, saí do cinema pensando no que sempre pensei, mesmo antes de ter visto o filme: qual será o futuro de Cuba, esse “país-ilha” em mais de uma acepção da expressão? E o que dirá de Yoani a posteridade? Ajudou? Desajudou? Não influiu?

Por enquanto estamos sem pistas, mas, com certeza, o filme de Bettino e Sifredi poderá vir a ser, no futuro, um pequeno documento histórico a considerar.

No momento de sua estreia, é só um filme “quente” sobre uma questão “quente”.

Yoani e seu computador.

Yoani e seu computador.

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Walesa

19 fev

Quem ainda lembra Lech Walesa, o líder polonês que, nos anos setenta e oitenta, revolucionou o país com o movimento operário “Solidariadade” e, pela coragem de desafiar o regime soviético, ficou conhecido no mundo inteiro?

Pois é, ironicamente, depois do prêmio Nobel e da presidência, Walesa saiu da berlinda e dele não temos tido notícias há anos.

Agora o vejo biografado no filme de um cineasta tão “desaparecido” quanto ele. Introduzido à programação da televisão paga, o filme é “Walesa” (2013) e o diretor é o grande Andrzej Wajda, considerado pela crítica o maior cineasta da Polônia em todos os tempos.

lech o poster

Pelo roteiro, algum tempo depois do sucesso do “Solidariedade”, Walesa relata a uma jornalista italiana a sua vida de operário, desde o tempo em que não passava de um pobre pai de família, empregado nos estaleiros de Gdansk, até a liderança do movimento.

Na medida em que Walesa fala, as imagens substituem sua voz e aí passamos a ver os fatos como supostamente teriam acontecido: as muitas prisões, as seguidas demissões, os problemas domésticos, a querela com os poderosos, o catolicismo, a ascensão vertiginosa como líder em Gdansk e no país, etc…

Se o retrato fílmico do personagem for fiel, Walesa foi um líder inato, um pai de família dedicado, um cidadão consciente, mas, um pensador simplório, empírico, avesso a conceituações, e às vezes autoritário e arrogante por trás de seu cigarro sempre aceso.

Uma cena recorrente costura bem o lado privado do personagem com o público: nas muitas vezes em que a polícia batia em sua porta, Walesa, sabendo que o paradeiro de um prisioneiro era sempre incerto, tinha sempre, antes de entregar-se, o cuidado de deixar com a esposa, Danuta, seus pertences de mais valor, um relógio e um anel, para que ela vendesse, no caso de ele não mais voltar.

Cena do filme: as repetidas prisões.

Cena do filme: as repetidas prisões.

Numa dessas vezes em que é procurado pelos agentes, a família inteira, e mais a vizinhança, assiste na televisão caseira, o seriado americano que fez sucesso nos lares europeus da época, “Rich man, poor man”, com, entre vários outros astros de Holllywood, Dorothy Malone e Ray Miland – um pequeno sintoma de que o capitalismo exercia sua atração num país comunista.

Com o sucesso do movimento operário, quando Walesa retorna daquele que seria seu último cárcere, a cena em que a esposa, orgulhosa de si mesma e dele, lhe devolve o relógio e lhe põe no dedo de volta o anel de casamento… é quase um happy ending de seriado americano…

Trata-se de um filme importante por reconstituir uma parte da história do Século XX, porém, para dizer a verdade, nele não há novidades. Mesmo para quem não conhecia de perto a carreira de Walesa, o filme soa como algo previsível, conferindo com o que se imaginava da vida de um grande líder político, e pronto; não há choques, nem surpresas, nem impactos, muito menos arrebatamentos.

No fundo, é só uma homenagem – mais que merecida, é verdade – ao líder polonês que fez história… mas é só isso. Um filme que se vê por curiosidade (meu caso) e depois – suponho – se esquece.

A previsibilidade de “Walesa” incomoda mais ainda a quem conhece a brilhante carreira do diretor Andrzej Wajda. Hoje com 88 anos de idade, Wajda foi o representante do cinema polonês no mundo, bem antes de Polanski e Kielowski.

Um pôster que mostra Walesa e a esposa, Danuta.

Um pôster que mostra Walesa e a esposa, Danuta.

Sem dúvida nenhuma, o filme em questão está longe de ter a força e a beleza que marcaram os filmes que Wajda rodou no passado, começando nos anos cinquenta, primeiramente sob a influência do neo-realismo italiano, e mais tarde, encontrando o seu particular caminho estilístico, onde temário e plástica se confundiam de modo genial. Refiro-me a filmes belos e fortes como “Canal” (1957), “Cinzas e diamantes” (1958), “Terra prometida” (1975), “O homem de mármore” (1977), “O homem de ferro” (1981), “Um amor na Alemanha” (1983)…

Lembro que, no meu primeiro texto publicado sobre cinema, (Revista Oficina, 1981) incluí “O homem de Ferro” no rol dos filmes que cabiam no paradigma de, sendo disfóricos, terminarem com uma cena “de esperança”, no caso, a primeira pedra lançada pelos trabalhadores contra a janela envidraçada dos patrões – uma promessa de mudança num filme que mostrava o desabrochar das lutas operárias no país. Outros filmes com final de alguma forma “esperançoso”, mutatis mutandis, eram: “A fonte da donzela” (Bergman), “Noites de Cabíria” (Fellini) e “Deus e o diabo na terra do sol” (Glauber Rocha).

Enfim, depois disso, a filmografia de Wajda parece ter perdido o vigor; ao menos é o que sugere esse simpático mas burocrático “Walesa”.

O Walesa verídico, no tempo do "Solidariedade"

O Walesa verídico, no tempo do “Solidariedade”

 

Meus dez

4 abr

Não tem jeito: cinéfilo que se preza adora fazer a sua listinha de filmes preferidos, e o número padrão é dez.

No mundo literário pode ser diferente, mas, no território do cinema, o hábito é tão generalizado que até os profissionais da crítica se entregam a ele, aproveitando para, no cruzamento dos escolhidos por muitos, elegerem os melhores filmes do mundo. A mais prestigiada dessas listas internacionais é a da Revista inglesa “Sight & Sound” que, a cada dez anos, desde 1952, apresenta os dez filmes mais perfeitos já feitos em todos os tempos e espaços, e isto em ordem qualitativa.

Mas, no caso dos espectadores comuns, digo, não-profissionais, ninguém quer saber de perfeição, e as escolhas recaem mesmo sobre o gosto pessoal… e pronto!

Todos, ou quase todos, os meus amigos cinéfilos têm a sua listinha e eu não fujo à regra. A depender do cinéfilo e de suas idiossincrasias, a lista pode ser fixa, imutável, ou pode ser mais ou menos flexível, móvel. No meu caso, acho que fico numa espécie de meio termo: entre os meus dez preferidos, uma parte é fixa e outra vem se modificando com o passar do tempo e do meu processo constante de revisitação fílmica.

Por coincidência, há poucos dias, me caiu nas mãos um número da Revista “A Tela Demoníaca”, onde, no ano do centenário do cinema, 1995, dei entrevista à jornalista Thamara Duarte, e lá ela me cobrava a minha dezena preferida. Pois, cotejando a lista que divulguei à Thamara na época – portanto, dezoito anos atrás – com a atual, a que tenho na cabeça agora, constato o que já disse acima: seis filmes permanecem os mesmos nas duas listas e quatro, saíram para dar lugar a outros. Os que saíram, não porque os ame menos, mas porque outros se impuseram ao meu afeto com maior força, são: “Luzes da cidade”, “Crepúscuplo dos deuses”, “Morangos silvestres” e “Jules et Jim”.

Em ordem cronológica (e não hierárquica), e seguidos de alguns dados da ficha técnica, eis, portanto, a quem interessar possa, a lista atual dos meus dez filmes mais amados.

Casablanca (Idem, 1942), de Michael Curtiz, com Ingrid Bergman e Humprhey Bogart.

1 Casablanca

Desencanto (Brief encounter, 1945), de David Lean, com Celia Johnson e Trevor Howard.

2 brief encounter

A felicidade não se compra (It´s a wonderful life, 1946), de Frank Capra, com Donna Reed e James Stewart.

3 its a wonderful life

Um lugar ao sol (A place in the Sun, 1951) de George Stevens, com Elizabeth Taylor e Montgomery Clift.

4 a place in the sun

Matar ou morrer (High Noon, 1952) de Fred Zinnemann, com Grace Kelly e Gary Cooper.

5 high noon

Janela indiscreta (Rear window, 1954) de Alfred Hitchcock, com Grace Kelly e James Stewart.

6 rear window

Vidas amargas (East of Eden, 1955) de Elia Kazan, com James Dean e Raymond Massey.

7 east of eden

Noites de Cabíria (Le notti di Cabíria, 1957) de Federico Fellini, com Giulietta Masina.

8 le notti di cabiria

Se meu apartamento falasse (The apartment, 1960) de Billy Wilder, com Shirley MacLaine e Jack Lemmon.

9 the apartment

O homem que matou o facínora (The man who shot Liberty Valence, 1962) de John Ford, com Vera Miles e James Stewart.

10 the man...

Como se percebe, não são os filmes mais destacados na história do cinema, e não foram escolhidos pela importância, e sim, por motivos subjetivos. Que motivos são estes, nem eu mesmo sei, e acho que até meu analista – se eu tivesse um – teria dificuldade em dizer. Em uma coisa ao menos creio que todos concordam: a nenhum deles falta qualidade artística. O que deve chamar a atenção do leitor desta matéria são as datas. De fato são filmes antigos, quase todos da primeira metade do Século XX. Nisso sou, sim, um assumido “classicista” que encontra certa dificuldade em empolgar-se com a produção contemporânea.

Uma angústia de quem elabora sua lista é, pressionado pela restrição numérica, ter que deixar de fora tantos filmes maravilhosos. Como pude retirar, da lista anterior, “Crepúsculo dos deuses”? Meu pretexto é que o substituí por outro do mesmo autor, “Se meu apartamento falasse”. Como manter fora filmes como “Aurora”, “O anjo azul”, “Os incompreendidos”, “A balada do soldado” “Rocco e seus irmãos”, “Vidas secas”? Em outras palavras, não dá para escapar do efeito “escolha de Sofia”.

Enfim, os meus dez escolhidos são estes, com tendência – confesso – a tornar-se esta lista imutável a partir de agora.

E você, caro leitor, quais são os dez filmes que você mais ama? Comente esta matéria, apresentando a sua lista. Que tal?

A filmar

28 nov

`Dá um filme!`. Quantas vezes já não se disse esta frase, depois de se ouvir certas estórias da vida real. Eu mesmo já disse, pois muitas estórias ouvi, algumas boas, que nunca vi filmadas. Uma pena.

A mais recente, e das mais fortes e impressionantes, não a ouvi, mas foi como se tivesse ouvido, pois, embora rigorosamente verídica, está narrada em papel com a desenvoltura e a paixão de um autêntico contador de histórias.

Refiro-me ao livro “A morte do fotógrafo” (Casa da Memória, 2006) do historiador paraibano Humberto Fonseca, que devorei de um só fôlego, como se estivesse escutando tudo da boca do autor.

Ao terminar, fechei o livro com pena de ter chegado à última página, e, “no cinema dos meus olhos” (obrigado, Vinicius) passei a reconstituir o filme inteiro, com direito a flashback e tudo mais.

Araruna, PB, cenário do drama

Araruna, PB, cenário do drama

Na pequena Araruna de 1958 um crime é cometido, que abala a cidade. Numa traiçoeira emboscada de estrada, um cidadão mata outro, simulando acidente. O automóvel do criminoso teria se chocado com a motocicleta da vítima, e o choque foi fatal. Residentes em Araruna, ambos eram fotógrafos, mas, claro, não houve foto do acidente.

O criminoso é preso e o seu genro, co-autor do crime e presente na ocasião, foge. A partir daí, vamos acompanhar as descrições dos muitos júris, com as transcrições fiéis dos documentos processuais, em todos os seus detalhes, com nomes completos de juízes, promotores, advogados, jurados e demais envolvidos.

Nas primeiras sessões, o réu é condenado a vinte e quatro anos de reclusão, porém, depois disso os julgamentos seguintes vão tomando contornos diferentes. Lá para o quarto júri, o réu é, surpreendentemente, isentado de culpa, embora ainda vá permanecer preso por muitos anos, sem que a justiça alcance uma unanimidade.

Na prisão, definha a olhos vistos e o seu estado debilitado comove os habitantes do lugar, e, parece, também os membros dos júris seguintes. A família do réu se muda para uma casa perto da cadeia, de modo a dar melhor assistência ao parente.

Outra vista de Araruna

Outra vista de Araruna

Quanto à família da vítima, esta, sem recursos nem amparo depois dessa perda irreparável, deixa a cidade quando do acontecido: vai embora para Recife, e, com a ajuda de uma parenta, passa a viver nas dependências de uma casa de praia distante, praticamente como mendigos, sem ter o que comer, não fosse pela iniciativa de um dos garotos de ir ao centro de Recife, vender folhetos de cordel onde, em versos, relata a morte do pai. Mais tarde é que um militar encontra o cordelista na rua, faz amizade, se compadece e termina por ajudar a família toda.

Não vou contar o resto da história, para não tirar a graça de quem ainda não leu “A morte do fotógrafo”, mas devo apenas dizer que o autor – como é costume acontecer em um filme – a inicia pelo final, quando ele e a esposa, passando dias em um hotel em Recife, não muito tempo atrás, vem a conhecer um garçom – surpresa para todos! – que era casado com uma das filhas do fotógrafo assassinado em Araruna.

Segundo o próprio Fonseca, foi esse encontro casual e tardio (quase cinqüenta anos depois do episódio) que o instigou a ir atrás dos documentos do processo jurídico e, enfim, relatar imparcial e objetivamente, a história completa do crime e seus desdobramentos dramáticos, coisas de que ele só se recordava parcialmente, por ser, na época dos tristes acontecimentos, um adolescente em Araruna.

Humberto Fonseca de Lucena, o autor

Humberto Fonseca de Lucena, o autor

Finda a leitura do livro de Fonseca, foi inevitável que me lembrasse de filmes que vi ao longo da vida e que marcaram minha imaginação de cinéfilo. Três pelo menos me vieram à mente, a saber, o francês “Dois são culpados” (André Cayatte, 1962), o americano “A visita da velha senhora” (Bernard Vicki, 1964) e o brasileiro “O caso dos irmãos Nave (Luis Sérgio Person, 1967).

Bem entendido, os enredos destes filmes sombrios são diferentes, tanto entre si, como em relação à estória de Araruna narrada por Fonseca, porém, o que os une no meu imaginário privado é o fato de, até certo ponto, possuírem, junto com “A morte do fotógrafo”, ao menos três ingredientes essenciais: (1) uma análoga situação diegética – crime e castigo em uma cidade pequena; (2) uma semelhança temática – a ambiguidade da lei na sua relação direta com os cidadãos de carne e osso; e (3) mais que qualquer outra coisa, uma mesma pesada atmosfera de disforia, desperdício e tragédia.

Fica, assim, feito o registro.

Se você é porventura um cineasta à cata de argumento, que se habilite. Não garanto que o autor do livro o queira filmado, mas, de todo jeito, não custa a tentativa.

De minha parte, eu adoraria ver esse livro na tela.

A capa do livro, que nos promete outras histórias

A capa do livro, que nos promete outras histórias

Emoção à flor da tela – um livro ao seu dispor

28 dez

Não sou historiador, mas sempre quis escrever um livro que recobrisse a história do cinema.

Normalmente, meus textos são ensaios que abordam um único filme. Apaixonado pelo exercício da análise, nunca gostei de tratar de fases, escolas, épocas, ou períodos mais longos, e quando o fiz foi meio acidentalmente.

O meu grande prazer foi sempre deter-me em um dado filme e tentar, verticalmente, desvendar o que, no fundo de sua forma e na forma de seu fundo, ele tem a nos dizer, ou mais que isso, a nos fazer sentir.

Por outro lado, a história do cinema é feita de filmes, digo, de filmes individuais. Julguei, portanto, que se dispusesse de um número significativo de comentários críticos sobre filmes individuais e os distribuísse num mesmo espaço em ordem rigorosamente cronológica, ficaria implicitamente delineada uma “história”.

Foi o que andei fazendo nestes últimos quinze anos – fui catando e juntando ensaios já escritos, e escrevendo outros, organizando-os em ordem cronológica, até ter um número razoável para a confecção de um livro.

Ao chegar ao número 150, achei que o livro estava pronto. A escolha do título foi trabalhosa, mas creio que o escolhido, “Emoção à flor da tela – escritos sobre cinema”, se não sugere a perspectiva ´histórica´, ao menos tem a vantagem de ressaltar um dos aspectos mais fascinantes do consumo da sétima arte, que é o recepcional. Como já foi dito tantas vezes por tanta gente boa, sem espectador não há cinema.

capa de Emoção à flor da tela

O leitor desse livro poderá se indagar por que os filmes discutidos são estes, e não outros. Confesso que o acaso pode ter tido, até certo ponto, o seu papel. De fato, muitos são filmes sobre os quais escrevi porque estrearam nos cinemas locais, ou porque foram lançados em DVD, ou porque os vi, ou os revi, na TV paga, etc… Lembro ao leitor, porém, que na montagem do livro houve muitos ´cortes´, pois o número de textos a constar do livro superava em muito os 150 escolhidos. A rigor, portanto, nenhum filme está no livro gratuitamente.

Na seleção que fiz houve mesmo certo grau de intencionalidade. Achei que um livro desses não podia deixar de fora certos cineastas fundantes ou com propostas bem particulares, por exemplo, Orson Welles, Sergei Eisenstein, Jean Vigo, etc. Além disso, alguns ensaios foram escritos diretamente para o livro, como aqueles que tratam do cinema primitivo dos irmãos Lumière.

Tive, obviamente, o cuidado de não pular décadas, o que comprometeria o sentido “histórico” do livro. A questão era só decidir que filmes de tal década lhe seriam representativos. Espero ter sido, neste particular, sensato e pertinente no meu modo de enfocar.

Eis alguns exemplos, citados ao acaso: no século dezenove não poderia faltar: “O regador regado” dos irmãos Lumière; na década de dez, tinha que ter “O grande roubo de trem” de Porter; na de vinte, era necessário incluir “A última gargalhada” de Murnau; na de trinta, precisava ter o “King Kong” de Merien C Cooper (1933); na de quarenta, achei que era importante “O terceiro homem” de Carol Reed; na de cinqüenta, julguei essencial não descartar “Vidas amargas” de Elia Kazan; na de sessenta, impossível pular o “Easy Rider” de Denis Hooper; na de setenta, fiz questão de por o “Lacombe Lucien” de Louis Malle; na de oitenta, não quis passar ao largo de “A rosa púrpura do Cairo” de Woody Allen; na de noventa, achei conveniente resguardar “Tudo sobre minha mãe” de Pedro Almodovar; na 2000, fiz questão de incluir “Os sonhadores” de Bernardo Bertolucci.

Sei que ninguém lê um livro inteiro no computador, porém, não me preocupo com isso. Acho que, para o internauta cinéfilo, o grande lance é fuçar, de cima para baixo, de baixo para cima, e ler aos poucos, em momentos diferentes, de acordo com os seus próprios interesses. Aliás, apesar do sentido “histórico” que a cronologia concede ao livro – ele também foi concebido… para consulta.

Enfim, o livro está pronto, e, a partir desta data, a seu inteiro dispor. Para o acesso, tudo que você tem a fazer é clicar, acima, na categoria INÉDITOS, e, em seguida na imagem icônica da capa do livro. Divirta-se e, se for o caso, comente.

Aulas de cinema

5 mar

Em cartaz na cidade, o filme “A invenção de Hugo Cabret” (“Hugo”, Martin Scorsese, 2011) é uma ´aula de cinema´, e não apenas metaforicamente, por ser um excelente filme, mas, no sentido literal da expressão de: ´ensinar ao espectador sobre uma determinada fase primitiva da história da sétima arte´.

Imagino mesmo quantas vezes esse filme não vai, a partir de agora, ser utilizado em salas de aula em cursos de cinema. Mas, vamos com calma: o professor vai precisar fazer a distinção entre o que nele é Ficção e o que nele é História.

A Ficção fica por conta de toda a longa aventura desse garoto órfão, Hugo Cabret, que vive escondido numa estação ferroviária, na Paris de 1931, e todo o complicado episódio de como ele vem a conhecer e redimir o grande cineasta – agora inativo, decadente e amargo – George Méliès. Quem faz o elo entre o garoto fictício e o Méliès verídico é um robô que, para funcionar, precisa de uma certa chave em forma de coração…

Já a História (em oposição à Ficção) diz respeito à vida de Méliès, de fato, digo, veridicamente falando, o primeiro grande cineasta que o mundo conheceu.

Quando o cinematógrafo foi inventado, em 1895, ninguém sabia que destinação esse aparelho teria. Para os seus inventores, os irmãos Lumière, tratava-se somente de um recurso técnico para o registro do real e nada mais.

Ora, foi o prestidigitador George Méliès quem teve a ideia brilhante de que ali estava a arte do futuro. Ao invés de limitar-se a copiar o real, Méliès investiu na fantasia, e inventado e desdobrando trucagens, criou centenas e centenas de pequenos filmes maravilhosos, extravagantemente surreais, em que, por exemplo, um homem podia, a seu bel prazer, aumentar e diminuir o tamanho de sua cabeça inflável, ou em que, um foguete empurrado da terra podia atingir a cara sorridente da Lua.

Essas fantasias fílmicas fizeram, na época, um sucesso estrondoso e daí a pouco Méliès já dispunha de um enorme Estúdio, o Star Films, com equipes de profissionais em todas as áreas a sua disposição.

Com o advento da Primeira Guerra Mundial, contudo, a produção de Méliès entrou em crise, até o extremo da falência completa, quando o cineasta, em desespero de causa, ateou fogo às películas e ao set de filmagem.

Baseado no romance de Brian Selznick, o filme de Scorsese mistura o verídico e o ficcional, e o faz muito bem, tão bem que eventualmente poderá ficar difícil ao nosso referido professor de cinema fazer os alunos separarem uma coisa da outra. Exemplo: a grande homenagem que, no final, Méliès recebe realmente ocorreu, mas claro, sem ter sido motivada pela atividade do garoto Cabret.

 De todo jeito, momentos há no roteiro em que a distinção se explicita por conta própria. Cito dois. Em certa ocasião, Hugo e a amiga Isabelle vão à biblioteca em busca de livros sobre a história do cinema, e o espectador tem, então, uma reconstituição dessa história, exatamente como se estivesse lendo o livro, página a página. Noutro momento, é o próprio Méliès quem conta a história da sua vida e, de novo, o espectador acompanha a carreira do cineasta como se estivesse assistindo a um documentário em voz over.

Semioticamente distintos das aventuras ficcionais do protagonista Cabret, estes são trechos do filme que soam – não sei até que ponto pejorativamente – como “aulas expositivas de cinema”, as quais os espectadores em geral podem achar cansativas, mas que os cinéfilos com certeza adoram.

O cinema da fantasia plástica que Méliès defendeu e praticou foi importantíssimo para contrapor-se ao realismo cego dos irmãos Lumière, e ainda hoje é referência para cineastas inovadores – como o próprio Scorsese, aliás – que recusam a convenção, porém, a verdade seja dita: não foi só a Primeira Guerra que pôs em crise recepcional esse cinema essencialmente definido pela plástica. Num ano sintomático, 1915, muito distante de Paris, o americano D.W. Griffith cometeria o fundante “Nascimento de uma nação” para demonstrar que a arte cinematográfica a perdurar nem seria cópia do real, nem abstração fantasiosa, e sim, uma grande narrativa com começo, meio e fim.

Mas essa é outra questão, que não cabe aqui tocar, a não ser que seja só para lembrar que “A invenção de Hugo Cabret” ilustra a contento o modelo narrativo de Griffith. E como!