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Fazendo (melo)drama

4 ago

Como se faz um melodrama? Hoje em dia não sei, mas nos velhos tempos da Hollywood clássica havia uma fórmula corriqueira e… eficaz. Ou fórmulas que se combinavam.

O tema, obviamente, tinha que ser o amor, e, claro, amor com conflito. Quanto mais intenso o amor, melhor; quanto mais ameaçador e intransponível o conflito, melhor.

A estória funcionava bem se fosse assim: os dois, homem e mulher, se conheciam por acaso, ficavam amigos e, dentro de pouco tempo, apaixonavam-se perdidamente. Depois de apaixonados é que o conflito ia se intrometendo – por exemplo: ela era solteira, porém, ele era casado.

Um acidente aéreo pode ser conveniente ao melodrama...

Um acidente aéreo pode ser conveniente ao melodrama…

O cenário ideal era um lugar romântico, se possível no exterior; a Itália, por exemplo. Mas, o que fariam na Itália esses dois americanos? Estavam de férias, livres de compromissos e rotinas, e por isso, mais abertos a novas experiências, ora.

Até aqui, todos estes itens estão dentro do roteiro de um monte de filmes que você já viu…

Mas, atenção: os roteiristas mais tarimbados tinham o direito de ampliar os contornos da fórmula e, por vezes, metiam desdobramentos narrativos mais complicados e mais ousados.

Suponhamos, portanto, que no dia do retorno à América – o dia do adeus – o casalzinho apaixonado, entre beijos, drinques e passeios turísticos, chegasse atrasado ao aeroporto e… perdesse o avião.

Elaboremos mais: suponhamos que no dia seguinte, os dois, tomando o seu café da manhã na pousada, lesse no jornal, abismados, que o avião sofrera um acidente do qual ninguém, ninguém mesmo, escapara.

Roma, cenário romântico de muitos melodramas...

Roma, cenário romântico de muitos melodramas…

Vejam só: de repente, os dois davam-se contas de que estavam “mortos” (entre aspas) para os seus respectivos familiares nos Estados Unidos e – assim quis o destino – vivinhos da silva na bela Itália, apaixonados e dispostos a viver um grande amor.

Pois é, vamos supor que ousassem fazer o gesto supremo de assumir novas identidades e nova vida, bem longe dos proibitivos grilhões domésticos. E assim, vão ser felizes para sempre, nesse paraíso romântico que é a bela e acolhedora Itália.

Como se trata de melodrama, naturalmente não serão felizes para sempre. E é aqui que entrará a parte mais grossa do conflito.

Que tal se, algum tempo depois de curtir o luto, a esposa dele – digo, a pseudo viúva – decidisse, junto com o filho adolescente, conhecer o país que o marido havia escolhido para gozar suas férias solitárias? E, evidentemente, por maior que seja a Itália, os roteiristas darão um jeito de perpetrar o desastroso encontro.

Não será muito legal que a “viúva” encontre o marido. Será bem mais efetivo que ela, por algum acaso, venha a conhecer a sua rival, a qual, por sua vez, depois do encontro, vai sofrer com a culpa e providenciar, para o filme, o desenlace melodramático que ele requer.

Um trabalho adicional da produção de um filme desses vai ter a ver com a música. Sim, terá que haver uma trilha sonora bem romântica, falando de perda, saudade e dor, alguma coisa assim como “September Song”, ou como o segundo concerto para piano de Rachmaninoff. Ou os dois juntos, combinados em arranjo perfeito.

Joan Foantaine e Joseph Cotten poderiam estar no elenco...

Joan Foantaine e Joseph Cotten poderiam estar no elenco…

Um lance interessante será dar à amante a profissão de pianista, de modo que isto facilite a intromissão da música no enredo.

O elenco terá que ser também bem especial, para agradar ao público pagante. Que tal Joan Fontaine e Joseph Cotten para o casal fujão e Jessica Tandy para a esposa chorosa? Acho que daria certo.

Não sei se, a essa altura dos acontecimentos, você identificou, mas o melodramático enredo aqui construído, com música, elenco e tudo mais, é de um filme existente. Talvez seja muito pedir a identificação do filme, mas, com certeza, os cinéfilos de carteirinha, já chegaram lá.

La vai: o filme é “Paraíso proibido” (“September affair”), uma produção em preto-e-branco da Paramount que o mestre William Dieterle dirigiu em 1950.

O interessante não é tanto que “Paraíso proibido” caiba, inteiro, dentro de fórmulas. O interessante é que, do jeito que está feito, as fórmulas funcionam. E muito bem.

Revi há pouco, e confirmo.

Na abertura desta matéria, digo que não sei como se fazem melodramas hoje. Na verdade, desconfio que não se fazem mais.

O cartaz original de "Paraíso Proibido".

O cartaz original de “Paraíso Proibido”.

Um lugar ao sol

19 jul

 

Quantas vezes vou escrever sobre “Um lugar ao sol”? Já o fiz outras vezes, e esta, provavelmente, não será a última. Um clássico é assim – já dizia Ítalo Calvino – a ele a gente sempre retorna.

Acho que vocês lembram, “Um lugar ao sol” (“A place in the Sun”, de George Stevens) conta uma estória trágica, de paixão, crime e culpa, acontecida na época da realização do filme, 1951, porém, a rigor, a origem de sua  trama é bem mais remota.

Começa, na verdade, com um caso real. Foi em 1906, em Nova Iorque. Um operário matou a sua namorada, que estava grávida e o pressionava por um casamento que ele não queria. O crime foi cometido num lago nos arredores da cidade. O rapaz, Chester, atingiu a moça, Grace Brown, com um dos remos e a deixou afogar-se. O crime foi facilmente descoberto, Chester julgado e condenado à morte.

Liz e Monty, juntos pela primeira vez nesta cena.

Liz e Monty, juntos pela primeira vez nesta cena.

O caso todo foi à imprensa, e o escritor Theodore Dreiser o acompanhou com interesse. Não apenas o enredo era instigante, como ilustrava os malefícios do capitalismo, ponto importante para um socialista como Dreiser: a vítima era pobre, e Chester, namorando uma outra moça da sociedade, ambicionava ascender socialmente. Logo viu Dreiser que aquilo era matéria para um romance de muitas páginas, que laboriosamente escreveu e chamou de “An American Tragedy” (“Uma tragédia americana”), livro editado em 1925.

Em 1930, a Paramount pensou em filmar e comprou os direitos autorais: a tarefa foi para o cineasta russo Sergei Eisenstein, especialmente contratado depois do sucesso de “O Encouraçado Potemkin”. Muito “comunista”, o roteiro de Eisenstein não agradou aos produtores, que o descartam, e, em seguida, contrataram o alemão Josef von Sternberg. Com o mesmo título do romance, o filme de Sternberg foi rodado e lançado: não fez sucesso de público nem de crítica e deu um bom prejuízo ao Estúdio.

Quase vinte anos depois do filme de Sternberg, o cineasta George Stevens demonstrou-se interessado numa refilmagem, com a qual a Paramount, lembrada do prejuízo anterior, só concordou meio a contragosto. Enfim, o filme de Stevens foi realizado em 1949, mas teve que esperar para ser lançado em 1951, pois os estúdios não queriam a sua competição ao Ocar com outro grande projeto da casa, “Crepúsculo dos deuses” (1950).

"É um Eastman" diz o outdoor...

“É um Eastman” diz o outdoor…

O papel do rapaz tímido mas ambicioso – no romance de Dreiser chamado de Clyde Griffiths e agora renomeado de George Eastman – que se apaixonava por moça rica, depois de haver engravidado colega de trabalho, foi dado a Montgomery Clift, ator em ascensão que vinha do Actors Studios e dos palcos de Nova Iorque. A moça rica vai ser Elizabeth Taylor, que então só era conhecida como a típica jovem ingênua que aparecia na tela ao lado de cavalos de corrida e cães, tipo “a garota Lassie”. Para fazer a vítima foi escolhida a atriz Shelley Winters, em seu primeiro papel de ´moça feia e desinteressante´, condição que ela só aceitou de mau grado, embora a pecha lhe tenha caído bem, como veríamos nos seus próximos filmes.

Grande romântico, a primeira coisa que Stevens fez foi abrandar a inclinação ideológica do original. Se traz os ecos sociais do livro adaptado, seu filme é, antes de tudo uma grande estória de amor; trágica, sim, mas de todo jeito uma estória de amor.

Operários trabalhando: Alice Tripp e George Eastman.

Operários trabalhando: Alice Tripp e George Eastman.

Pela vigésima vez, revi-o há pouco entre amigos e ainda me tocam três cenas que aqui destaco. (1) Alice Tripp, a operária grávida, no consultório do médico, primeiro mentindo sobre seu estado civil, e depois, em prantos, contando a verdade sobre sua situação de mãe solteira. (2) A demorada cena no lago escuro, o barco flutuando com o casal, até o momento dramático do afogamento, percurso doloroso onde se percebe as etapas psicológicas de George Eastman, na ordem, seu plano criminoso, sua desistência, e, finalmente, sua crise provocada pela fala inconveniente da companheira. (3) Mais tarde, a simulação do afogamento durante o júri, com um barco que é trazido para o recinto, onde o advogado de acusação faz o que pode e o que não pode para provar que o réu teve a intenção de matar a moça, e que o teria feito impiedosamente.

Se for para citar uma cena mais leve, adoro aquela no salão de bilhar da mansão dos Eastman, quando Angela Vickers e George se conhecem, ela lhe perguntando se ele era “dramático, melancólico ou exclusivista”. A filmagem dessa cena foi o primeiro momento profissional entre Elizabeth Taylor e Montgomery Clift, ela nervosa por se considerar uma novata a contracenar com um ator já experiente e conceituado. Deu tudo certo e, por sinal, ficaram amigos para o resto da vida.

Uma vez perguntaram a Charles Chaplin, qual seria o filme que ele mais amava. Sua resposta inequívoca: “Um lugar ao sol”. Vejam como estou bem acompanhado.

Em tempo: esta matéria é dedicada a José Mário e Ilma Espínola.

Uma grande estória de amor trágico.

Uma grande estória de amor trágico.

Jornalismo no cinema

8 out

Prometendo dar o que falar, o recém lançado livro de Paulo Henrique Amorim “O quarto poder” (Hedra, 2015) me faz lembrar a sempre fértil relação entre o jornalismo e o cinema.

O livro de Amorim nada tem a ver com cinema, porém, em uma de suas páginas, o autor registra que, em 1993, a televisão britânica exibiu o documentário “Beyond Citizen Kane”, sobre Roberto Marinho, onde o poderoso jornalista brasileiro era comparado ao protagonista do clássico de Orson Welles (1941).

Este dado em si remeteu meu espírito cinéfilo, por tabela, aos filmes que, ao longo de toda a história do cinema, tiveram o jornalismo como tema. No final desta matéria arrolo pelo menos dez filmes clássicos com esta temática, mas, por enquanto quero tratar de duas pequenas películas dos anos cinquenta que abordaram a profissão do jornalista de modo mais que interessante.

O primeiro é “Cidade cativa” (“The captive city”, 1952) do mestre Robert Wise, que discute a relação entre o poder e a liberdade de imprensa.

Cena de "Cidade Cativa".

Cena de “Cidade Cativa”.

Baseado em caso real, o filme de Wise mostra bem o drama de um editor de jornal que, mexendo daqui, mexendo dali, como lhe cabe, vai descobrindo uma rede de corrupção cujas teias recobrem praticamente a cidade inteira, no caso a pequena Kenninston. Na medida em que mexe e remexe, o bravo editor, ansioso por noticiar, vai constatando o envolvimento dos cidadãos mais respeitados do lugar – e isto para não falar da polícia! – e, na mesma medida, vai recebendo, primeiramente tentativas de suborno, e em seguida, ameaças de morte cada vez mais explícitas… até sua situação pessoal tornar-se completamente inviável… no posto que ocupa e, mais que isso, no lugar onde mora.

Bem roteirizado e bem dirigido, o filme começa pelo fim, com o editor e a esposa perseguidos, fugindo de carro para uma cidade vizinha onde, na delegacia local, ele relata a um gravador a trama toda, desde o começo, e, ao fazê-lo, a estória nos é mostrada em flashbacks cronológicos.

Curiosamente documental, o desenlace expõe o senador americano Estes Kefauver pronunciando um discurso verídico sobre o assunto, mas, nem esse ´prólogo pedagógico´ compromete a qualidade do filme, com certeza, um dos melhores no seu gênero.

O outro que destaco é uma comédia romântica de 1958, chamada “Um amor de professora” (“Teacher´s pet”, de George Seaton).

Doris Day e Clark Gable

Doris Day e Clark Gable

A estória gira em torno dos muitos percalços no caso de amor entre uma professora universitária de jornalismo (Doris Day) e um profissional da imprensa, veterano e tarimbado (Clark Gable), que é obrigado pela empresa onde trabalha a fazer um curso de atualização. Mas não se enganem com a faceta romântica do roteiro: nunca vi, em cinema, tão bem discutidas as relações entre a teoria do jornalismo e a sua prática.

O que vale mais, o aprendizado no batente, ou os muitos livros que se leem sobre os conceitos gerais de imprensa? De onde vem o talento que supera a mera obediência aos lides? Como se redige um texto jornalístico que transcenda a informação óbvia? Onde ficam os limites entre imparcialidade e compromisso pessoal com a notícia? Até que ponto a vida particular do jornalista interfere na sua atividade profissional? Praticamente todas as grandes questões relativas ao métier do jornalismo vêm à tona no enredo desta comediazinha de amor que, por trás de seu romantismo, esconde o enfrentamento sério de uma das profissões mais fascinantes do mundo moderno. Sem favores, um pequeno filme que pode ser extremamente útil a quem faz ou a quem ensina jornalismo.

Barbara Stanwyck e Gary Cooper em "Meet John Doe", de 1941.

Barbara Stanwyck e Gary Cooper em “Meet John Doe”, de 1941.

Resenhados estes dois títulos, faço seguir, em ordem cronológica, uma lista de dez outros filmes clássicos que abordaram o tema da imprensa.

 

A primeira página (The front Page, 1931, Lewis Milestone,)

Nada é sagrado (Nothing sacred, 1937, William Wellman)

Jejum de amor (His girl Friday, 1940, Howard Hawks)

Adorável vagabundo (Meet John Doe, 1941, Frank Capra)

Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941, Orson Welles)

A montanha dos sete abutres (Ace in the hole, 1951, Billy Wilder)

A embriaguez do sucesso (Sweet smell of success, 1957, Alexander McKendrick)

Viver por viver (Vivre pour vivre, 1967, Claude Lelouch)

Todos os homens do presidente (All the president´s men, 1976, Alan Pakula)

O homem de mármore (Czlowieki z marmuru, 1977, Andrey Wajda).

"His girl Friday": Cary Grant e Rosalind Russell.

“His girl Friday”: Cary Grant e Rosalind Russell.

Os 100 melhores filmes americanos

29 jul

Para alvoroçar a cinefilia do planeta, está circulando na imprensa mundial mais uma lista de filmes. É que a BBC resolveu fazer a relação dos cem melhores filmes americanos (isso mesmo) de todos os tempos, e para tanto, congregou 62 votantes, especialistas da crítica cinematográfica. O resultado é o esperado, e não é. Senão, vejamos.

Vamos começar nosso comentário com o topo da lista, digo, os dez mais. Entre esses dez estão pelo menos três dos filmes que sempre visitam a lista decenal da Sight & Sound, aquela que circula desde 1952, e que, para o cinema internacional, tem estatuto de cânone. Se considerarmos apenas a última edição, a de 2012, os três filmes comuns às duas listas são: Cidadão Kane, Um corpo que cai e Aurora.

Cidadão Kane, o número um.

Cidadão Kane, o número um.

Nesta apertada posição dos dez mais, os diretores variam em estilo e época. Orson Welles, como nas listas da Sight & Sound, está em primeiro lugar, mas em compensação, um diretor moderno, ainda vivo, Francis Ford Coppola, tem dois filmes na lista (O poderoso chefão e O poderoso chefão II), um deles num privilegiado segundo lugar. Alfred Hitchcock é outro diretor com dois filmes entre os dez melhores: Um corpo que cai em terceiro lugar, e Psicose em oitavo. Os outros diretores que comparecem são: Kubrick (com 2001 uma odisséia no espaço, no quarto lugar), John Ford (com o western Rastros de ódio em quinto); a dupla Stanley Done e Gene Kelly (com Cantando na chuva) e Michael Curtiz (com o indefectível Casablanca). A surpresa da lista deve ser o expressionista F.W. Murnau, com o seu belo Aurora. Digo, surpresa porque o cineasta é alemão, e o filme de Hollywood só tem mesmo a produção.

Aurora, a obra prima de Murnau, 1927.

Aurora, a obra prima de Murnau, 1927.

Veja os dez primeiros da lista:

 

1. Cidadão Kane Orson Welles 1941
2. O Poderoso Chefão Francis Ford Coppola 1972
3. Um Corpo Que Cai Alfred Hitchcock 1958
4. 2001 – Uma Odisséia no Espaço Stanley Kubrick 1968
5. Rastros de Ódio John Ford 1956
6. Aurora FW Murnau 1927
7. Cantando na Chuva Stanley Donen e Gene Kelly 1952
8. Psicose Alfred Hitchcock 1960
9. Casablanca Michael Curtiz 1942
10. O Poderoso Chefão – Parte II Francis Ford Coppola 1974

 

Terceiro lugar para Um Corpo que Cai.

Terceiro lugar para Um Corpo que Cai.

Até aqui estive me referindo aos dez mais, porém, a lista inteira é de 100, lista que traz algumas surpresas. Lá estão os óbvios, os que imaginamos que estariam, mas também alguns filmes obscuros. Caso, por exemplo, de: O matador de ovelhas (Charles Burnett, 1978); As três noites de Eva (Preston Sturges, 1941); Tramas do entardecer (Maya Deren, 1943) e Gray Gardens (Albert Maisles et alii, 1975). Se o documentário Koyaanisqatsi, de Godfrey Reggio, 1982, é surpresa ou não, deixo para o leitor decidir.

No meu entender, estão de fora filmes que não deveriam estar, por exemplo, o emblemático A rosa púrpura do Cairo. Pensando bem, a relação dos ilustres ausentes é enorme. (Veja adiante meu comentário sobre os diretores ausentes) Alguns filmes foram mal posicionados, caso de E o vento levou, que aparece no nonagésimo oitavo lugar. Acho que outros foram mal escolhidos, como, no meu entender, é o caso de Marnie, um dos cinco hitchcockianos presentes, quando o mestre do suspense tinha mais de vinte realizações mais acabadas que ele.

Cantando na chuva é um dos dez mais.

Cantando na chuva é um dos dez mais.

Mas quem são os cineastas favoritos, os mais recorrentes na lista inteira? Como houve empates, cito-os pela ordem de antiguidade: Alfred Hitchcock, Billy Wilder, Stanley Kubrick, Steven Spieberg (com cinco filmes mencionados), Howard Hawks, FF Coppola, Martin Scorsese (com quatro), Charles Chaplin, John Ford e Orson Welles (com três).

Inevitavelmente ou não, alguns dos grandes diretores do passado só compareceram uma única vez, casos de William Wyler (com Os melhores anos de nossas vidas), Frank Capra (com A felicidade não se compra) e George Stevens (com Um lugar ao sol). Em alguns casos, o único filme escolhido de um grande diretor não era o esperado: vejam o caso de Ernst Lubitsch que está presente, não por causa do badalado Ninotchka, e sim, pelo menos conhecido A loja da esquina.

201 uma odisseia no espaço, de Kubrick.

201 uma odisseia no espaço, de Kubrick.

Uma lista dessas (ou qualquer uma) vai sempre provocar sustos, estranhamentos e mesmo indignações. No item das indignações é o caso quando se pensa em grandes cineastas que fizeram a história do cinema americano, contribuindo com algumas obras primas, e que não foram contemplados com um único título. Estou pensando em nomes com o gabarito de Fred Zinnemann (de, por exemplo, Matar ou morrer), de John Huston (O tesouro de Serra Madre), de Otto Preminer (Laura), de Elia Kazan (Vidas amargas). Ao se constatar que, na lista em questão, está A noite dos mortos vivos, fica difícil entender por que os filmes dos cineastas mencionados foram descartados.

Uma constatação interessante diz respeito às décadas, principalmente se considerarmos que a lista, em princípio, recobre os 120 anos da história do cinema. Tanto é que nela está o primevo Nascimento de uma nação (1915) e o recente Doze anos de escravidão (2013).

Um dos poucos westerns da lista completa está entre os dez mais: Rastros de Ódio.

Um dos poucos westerns da lista completa está entre os dez mais: Rastros de Ódio.

A década mais recorrente é a dos anos setenta (20 filmes) seguida dos anos cinquenta (14 filmes), anos quarenta e oitenta (13 ambas), anos sessenta e noventa (8 ambas), anos trinta (7) e anos vinte (5). É significativo saber que aquele período da história chamado de Hollywood Clássica – dos anos trinta aos cinquenta – ficou com um pouco mais de um terço do total: 34 filmes, enquanto que o cinema do novo milênio, de 2001 em diante, só compareceu com 6 filmes.

Enfim, eis a lista completa. Veja se aí estão os seus filmes preferidos.

 

1. Cidadão Kane Orson Welles 1941
2. O Poderoso Chefão Francis Ford Coppola 1972
3. Um Corpo Que Cai Alfred Hitchcock 1958
4. 2001 – Uma Odisséia no Espaço Stanley Kubrick 1968
5. Rastros de Ódio John Ford 1956
6. Aurora FW Murnau 1927
7. Cantando na Chuva Stanley Donen e Gene Kelly 1952
8. Psicose Alfred Hitchcock 1960
9. Casablanca Michael Curtiz 1942
10. O Poderoso Chefão – Parte II Francis Ford Coppola 1974
11. Soberba Orson Welles 1942
12. Chinatown Roman Polanski 1974
13. Intriga Internacional Alfred Hitchcock 1959
14. Nashville Robert Altman 1975
15. Os Melhores Anos das Nossas Vidas William Wyler 1946
16. Quando os Homens são Homens Robert Altman 1971
17. Em busca do Ouro Charlie Chaplin 1925
18. Luzes da Cidade Charlie Chaplin 1931
19. Taxi Driver Martin Scorsese 1976
20. Os Bons Companheiros Martin Scorsese 1990
21. Cidade dos Sonhos David Lynch 2001
22. Ouro e Maldição Erich von Stroheim 1924
23. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa Woody Allen 1977
24. Se Meu Apartamento Falasse Billy Wilder 1960
25. Faça a Coisa Certa Spike Lee 1989
26. O Matador de Ovelhas Charles Burnett 1978
27. Barry Lyndon Stanley Kubrick 1975
28. Pulp Fiction: Tempo de Violência Quentin Tarantino 1994
29. Touro Indomável Martin Scorsese 1980
30. Quanto Mais Quente Melhor Billy Wilder 1959
31. Uma Mulher Sob Influência John Cassavetes 1974
32. As Três Noites de Eva Preston Sturges 1941
33. A Conversação Francis Ford Coppola 1974
34. O Mágico de Oz Victor Fleming 1939
35. Pacto de Sangue Billy Wilder 1944
36. Star Wars George Lucas 1977
37. Imitação da Vida Douglas Sirk 1959
38. Tubarão Steven Spielberg 1975
39. O Nascimento de uma Nação DW Griffith 1915
40. Tramas do Entardecer Maya Deren e Alexander Hammid 1943
41. Rio Bravo (Onde Começa o Inferno) Howard Hawks 1959
42. Dr. Fantástico Stanley Kubrick 1964
43. Carta de Uma Desconhecida Max Ophüls 1948
44. Sherlock Jr. (Buster Keaton 1924
45. O Homem que Matou o Facínora John Ford 1962
46. A Felecidade Não se Compra Frank Capra 1946
47. Marnie – Confissões de uma Ladra Alfred Hitchcock 1964
48. Um Lugar ao Sol George Stevens 1951
49. Cinzas no Paraíso Terrence Malick 1978
50. Jejum do Amor Howard Hawks 1940
51. A Marca da Maldade Orson Welles 1958
52. Meu Ódio Será Sua Herança 5Sam Peckinpah 1969
53. Grey Gardens Albert e David Maysles, Ellen Hovde e Muffie Meyer 1975
54. Crepúsculo dos Deuses Billy Wilder 1950
55. A Primeira Noite de um Homem Mike Nichols 1967
56. De Volta para o Futuro Robert Zemeckis 1985
57. Crimes e Pecados Woody Allen, 1989
58. A Loja da Esquina Ernst Lubitsch 1940
59. Um Estranho no Ninho Milo? Forman 1975
60. Veludo Azul David Lynch 1986
61. De Olhos Bem Fechados Stanley Kubrick 1999
62. O Iluminado Stanley Kubrick 1980
63. Amantes John Cassavetes 1984
64. Johnny Guitar Nicholas Ray 1954
65. Os Eleitos Philip Kaufman 1983
66. Rio Vermelho Howard Hawks 1948
67. Tempos Modernos Charlie Chaplin 1936
68. Interlúdio Alfred Hitchcock 1946
69. Koyaanisqatsi Godfrey Reggio 1982
70. A Roda da Fortuna Vincente Minnelli 1953
71. Feitiço do Tempo Harold Ramis 1993
72. Tensões em Shangai Josef von Sternberg 1941
73. Rede de Intrigas Sidney Lumet 1976
74. Forrest Gump – O Contador de Histórias Robert Zemeckis 1994
75. Contatos Imediatos do Terceiro Grau Steven Spielberg 1977
76. O Império Contra-Ataca Irvin Kershne 1980
77. No Tempo das Diligências John Ford 1939
78. A Lista de Schindler Steven Spielberg 1993
79. A Árvore da Vida Terrence Malick 2011
80. Agora Seremos Felizes Vincente Minnelli 1944
81. Thelma & Louise Ridley Scott 1991
82. Os Caçadores da Arca Perdida Steven Spielberg 1981
83. Levada da Breca Howard Hawks 1938
84. Amargo Pesadelo John Boorman 1972
85. A Noite dos Mortos-Vivos George A Romero 1968
86. O Rei Leão Roger Allers e Rob Minkoff 1994
87. Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças Michel Gondry 2004
88. Amor, Sublime Amor Robert Wise e Jerome Robbins 1961
89. No Silêncio da Noite Nicholas Ray 1950
90. Apocalypse Now Francis Ford Coppola 1979
91. ET: O Extraterrestre Steven Spielberg 1982
92. O Mensageiro do Diabo Charles Laughton 1955
93. Caminhos Perigosos Martin Scorsese 1973
94. A Última Noite Spike Lee 2002
95. Diabo a Quatro Leo McCarey 1933
96. Batman – O Cavaleiro das Trevas Christopher Nolan 2008
97. E o Vento Levou Victor Fleming 1939
98. O Portal do Paraíso Michael Cimino 1980
99. 12 Anos de Escravidão Steve McQueen 2013
100. A Montanha dos Sete Abutres Billy Wilder 1951

 

O único filme de Michael Curtiz na lista: Casablanca.

O único filme de Michael Curtiz na lista: Casablanca.

 

Mal lembradas

6 mar

Conversando com amigos cinéfilos, não é raro que o assunto recaia sobre as grandes divas do passado: Greta Garbo, Ingrid Bergman, Vivien Leigh, Hedy Lamarr, Ava Gardner, Grace Kelly… Nessas conversas apaixonadas, os nomes que vêm à tona são sempre os mesmos. São de fato belas mulheres e grandes atrizes, porém, sempre sinto falta de nomes menos espectaculares. Estou querendo dizer que, nessas rodas de espectadores que amam o cinema clássico, nunca vêm à tona nomes como Anne Baxter, ou Donna Reed, ou Joan Bennet, ou Teresa Wright… E quando vêm, há sempre alguém que desconhece, ou então, que ouviu falar, mas não lembra bem quem seja, ou em que filme esteve. E a lista de estrelas mal lembradas não fica nestas quatro. São atrizes que, se não estiveram no topo da fama internacional das Divas, de qualquer forma encantaram milhões de espectadores durante décadas, no mundo todo – espectadores que eventualmente gostavam dos filmes que viam, mas que, certamente, não se davam ao trabalho de saber quem estava no elenco. Ou sabiam e simplesmente esqueceram.

A beleza, nem sempre vista, de Anne Baxter.

A beleza, nem sempre vista, de Anne Baxter.

No meu entender, ou seria no meu sentir, Anne Baxter é tão linda e tão talentosa quanto as atrizes citadas na abertura desta matéria. Basta vê-la em “A malvada” (1950), “Céu amarelo” (1948) e no papel de Nefertiti em “Os dez mandamentos” (1956). Por que, quando falo em Donna Reed ninguém lembra? Ela foi – para só citar três exemplos – a esposa providencial de James Stewart em “A felicidade não se compra” (1946), a prostituta e companheira dos pracinhas em “A um passo da eternidade” (1953), e a rival de Elizabeth Taylor em “A última vez que vi Paris” (1954). Joan Bennet foi outra grande atriz tão bela quanto, e muito pouco lembrada, que esteve em filmes importantes como “Um retrato de mulher” (1944), “Almas perversas” (1945) e “Chamas que não se apagam” (1956). Theresa Wright pode não ter sido tão bela, mas seu charme foi grande, e seu talento idem. Se tiverem chance, revejam-na em “A sombra de uma dúvida” (1943), “A rosa da esperança” (1942), ou como a namorada de um Marlon Brando paraplégico, em “Espíritos indômitos” (1950).

Donna Reed, outra lindona.

Donna Reed, outra lindona.

Acho imperdoável que alguém deixe de lembrar Barbara Stanwyck, que fez alguns dos melhores filmes do período clássico, entre os quais – cito de lembrança – “Aliança de aço” (1939), “Pacto de sangue” (1944), “Stella Dallas, mãe redendora” (1937), e “Adorável vagabundo” (1941). Alguém mais charmosa que Eva Marie Saint? Pois alguns dos meus companheiros de cinefilia só lembram dela quando cito. Até parece que não viram (e sei que viram!) “Sindicato de ladrões” (1954), “Intriga internacional” (1959) e “Exodus” (1960). E Jean Simmons? Hum, no momento em que escrevo me ocorre sua atuação ao lado de Gregory Peck em “Da terra nascem os homens” (1958), ao lado de Burt Lancaster em “Entre Deus e o pecado” (1960), e ao lado de Kirk Douglas em “Spartacus” (1960)… Esposa de Paul Newman, Joanne Woodward foi talvez obscurecida pelo marido, ao menos na memória de meus interlocutores. Seu desempenho triplo em “As três faces de Eva” (1957) já seria garantia de eternidade sob qualquer critério, mas, citemos também: “O mercador de almas” (1958), e “Paixões desenfreadas” (‘960). Olivia De Haviland, por exemplo, abrilhantava tudo que fazia, e, no entanto, poucos falam dela. De filmes de aventura a dramas, ela dava show e encantava, sim, com sua beleza, até quando fazia papel de feia, como no soberbo “Tarde demais” (“The heiress”, 1950, de William Wyler).

Entre as esquecidas, uma das mais belas, Joan Bennet.

Entre as esquecidas, uma das mais belas, Joan Bennet.

Outra que marcou época e de quem se fala pouco é Jane Wyman, que foi protagonista nos grandes melodramas de Douglas Sirk, como “Sublime obsessão” (1954) e “Tudo que o céu permite” (1955). Lembro dela bem mais nova como a namorada do alcoólatra Ray Miland em “Farrapo humano” (1945). Gloria Grahame foi uma das louras que fez sucesso nos velhos tempos, trabalhando com diretores de peso: com Elia Kazan em “Os saltimbancos” (1953), com Fritz Lang em “Os corruptos” (1953), e com Vincente Minnelli em “Assim estava escrito” (1952). Precisa dizer mais? Eleanor Parker é outra mal lembrada. Como a esposa do policial Kirk Douglas, seu desempenho é magistral no drama “Chaga de fogo” (William Wyler, 1950), mas também me ocorrem: “Melodia interrompida” (1955), com Glenn Ford, e, no mesmo ano, “O homem do braço de ouro” (1955), ao lado de Kim Novak e Frank Sinatra.

Mais alguns nomes semi-esquecidos: Lili Palmer, June Allison, Jean Arthur, Patricia Neal, Janet Leigh, Jean Peters, Debbie Reynolds, Judy Holiday, Debra Paget, Veronica Lake, Lizabeth Scott, Ida Lupino, Vera Miles, Nancy Olson, Linda Darnell, Martha Hyer, Deborah Kerr, Lee Remick…  A lista é grande e meu espaço acabou. Em tempo: esta matéria é dedicada às mulheres, as bem e as mal lembradas… neste 8 de março, Dia da Mulher, e sempre.

Quem disse que Teresa Wright não era bonita?

Quem disse que Teresa Wright não era bonita?

Beber, fumar…

27 set

 

Em “Um corpo que cai” (1958), o detetive aposentado Scotty é convidado pelo amigo Elster a comparecer ao seu escritório. Logo que entra, Scotty recusa a bebida oferecida, alegando que não bebe pela manhã. Algum tempo depois, visivelmente perturbado pela assombrosa estória da esposa suicida de Elster, ele volta atrás com relação à bebida e admite: ´Now I need a drink´ e engole o conteúdo do copo com sofreguidão.

Em “Desencanto” (1945), é noite e uma mulher corre pelas ruas desertas da cidade, aos prantos: casada e apaixonada por um homem também casado, ela aceitara o seu convite para um encontro furtivo no apartamento de um colega dele, o qual aparece na hora H e a faz fugir, feito uma marginal, pela porta dos fundos. Física e moralmente esgotada, ela senta em um banco de praça e, na tentativa de aliviar o sufoco… acende um cigarro e traga fundo.

Audrey Hepburn fumando de piteira no cartaz de "Bonequinha de Luxo"

Audrey Hepburn fumando de piteira no cartaz de “Bonequinha de Luxo”

Estes são apenas dois exemplos de como o consumo do álcool e do fumo foi, no período clássico (dos anos trinta aos sessenta, mais ou menos) incentivado pelo cinema. Em ambos os casos, a bebida alcoólica e o cigarro aparecem como “saídas” oportunas, e as duas cenas – tenham os autores dos filmes assim querido ou não – certamente funcionaram como estimulantes para os espectadores.

Não creio que seja necessário citar outros exemplos, pois o cinema clássico, especialmente o americano, está repleto de cenas do mesmo tipo. É só você relembrar, ou, se for o caso, consultar sua videoteca e rever os velhos filmes da Hollywood da época.

Em quantos desses filmes oferecer uma bebida ou um cigarro não era mostrado como um gesto de solidariedade para quem precisava, podia ser um doente fragilizado, um amigo em dificuldade, ou um estranho sem recursos. Em filmes de guerra, por exemplo, quantos soldados feridos não recebiam, na boca, o cigarro do companheiro de batalha…

Lee Remick e Jack Lemmon em cena de "Vício Maldito"

Lee Remick e Jack Lemmon em cena de “Vício Maldito”

No caso do fumo então era comum que houvesse um fator adicional, que era o charme todo especial das encenações, as quais faziam do cigarro um objeto tão desejado quanto o próprio fumante, até porque, na figura do fumante, se misturavam, naturalmente, personagem e ator/atriz. Quem é que não queria imitar Rita Hayworth expelindo fumaça sensual em “Gilda” (1945)? Ou Marlon Brando de fálico cigarro no bico em “Uma rua chamada pecado”? Ou James Dean tragando rebeldia em “Juventude transviada” (1955)?

O charme do tabagismo era tão avassalador que muitas vezes já vinha na propaganda dos filmes, como é o caso da enorme piteira, pendente dos lábios de Audrey Hepburn e elegantemente segurada por sua mão enluvada, no cartaz do filme “Bonequinha de luxo” (1961).

Se vocês lembrarem bem, um lance bastante comum de roteiro era fazer um caso amoroso começar através de uma dose partilhada, ou de um trago. No segundo caso, a cena era assim: alguém tirava o cigarro da carteira e, antes de acendê-lo, o desconhecido ao lado, solicitamente estendia a mão com o providencial fósforo ou isqueiro. Ou então o fogo podia ser solicitado de propósito: foi assim que tudo começou entre Lauren Bacall e Humphrey Bogart em “Uma aventura na Martinica (1944), lembram?

James Dean de cigarro acesso em "Juventude Transviada"

James Dean de cigarro acesso em “Juventude Transviada”

Nessa época remota não existia o conceito moderno de “politicamente correto” e as grandes Companhias de bebida e cigarro viviam de mãos dadas com os executivos de Hollywood.

Ao rever esses filmes do passado, às vezes me ocorre pensar quantos jovens da época não aderiram, mundo afora, ao álcool ou ao fumo, ou às duas coisas juntas, por pura influência. Não é sem coincidência que “Hollywood” no Brasil virou marca de cigarro. Imagino que alguma tese de doutorado já deve ter tomado o assunto como objeto de estudo sociológico, porém, nem precisamos de estatísticas para supor…

Estou falando do passado, mas, consciente de que o cinema da atualidade não aboliu cenas de álcool e fumo, e até acrescentou outras drogas: só que hoje em dia a freqüência dessas cenas é muito menor e menor ainda o seu poder de sedução.

Com seu rigoroso Código Hays de Censura, Hollywood clássica foi calvinista no que tange, por exemplo, ao sexo, e contudo, extremamente permissiva no incentivo ao alcoolismo e ao tabagismo. Contradições da época.

Rara denúncia do alcoolismo em "Farrapo Humano"

Rara denúncia do alcoolismo em “Farrapo Humano”

É verdade que o alcoolismo foi denunciado em dois filmes da época, “Farrapo humano” (1945) e “Vício maldito” (1962), porém, estes filmes corajosos são duas grandes exceções que, aliás, – a gente sabe hoje – as Companhias de bebida americanas fizeram o possível para retirar das telas.

Em tempo: “Desencanto” é uma produção inglesa, o que não muda o teor de nossa constatação, significando apenas que o mundo imitava Hollywood.

 

Canastrões clássicos

21 abr

Quando estava nos Estados Unidos fazia o que não costumava fazer aqui: via televisão, só para checar como era a TV do primeiro mundo. Com isso, pude assistir, e em horários perfeitamente viáveis, a trechos de filmes clássicos do passado que se exibidos no Brasil, seriam empurrados para tarde da noite.

Mas, dessa programação antiga, um filme havia que um certo canal repetia praticamente toda manhã e me enchia o saco. Era uma comédia tola sobre um cientista que criava um macaco em casa e este lhe trazia um bocado de problemas. De início, não entendi por que a repetição daquele filme idiota, mas, prestando mais atenção ao elenco, matei a charada: o ator que fazia o cientista atrapalhado residia, no momento, na Casa Branca: era Ronald Reagan, e a exibição repetida não era uma homenagem, e sim, uma gozação, como se a dizer: “vejam como o macaquinho trabalha melhor que ele”.

Ronald Reagan em "Bedtime for Bonzo".

Ronald Reagan em “Bedtime for Bonzo”.

Pois é, por motivos saudosistas, aqui pretendo relembrar com o leitor quem foram os grandes canastrões do cinema clássico americano, e já começo a lista com ele, Ronald Reagan.

A relação é, na verdade, enorme e me limito a citar os que, casualmente, me acorrem à memória.

Se fosse para compor a lista pela categoria dos mais famosos, acho que todo mundo começaria com Charlston Heston, que – coitados de nós – tivemos que aguentar, não apenas nas superproduções de Cecil B De Mille, mas em dramas, westerns, policiais e outros gêneros. Para citar um único título, lembro só o seu esforço de ganhar noblesse ao ser dirigido por Orson Welles em “A marca da maldade”.

Charlston Heston com Orson Welles em "A marca da maldade"

Charlston Heston com Orson Welles em “A marca da maldade”

Um igualmente famoso foi John Wayne, só que este teve a sorte de, desde o início de carreira, cair nas graças de diretores geniais, como John Ford e Howard Hawks, que souberam moldá-lo até o ponto de seus limitados dotes interpretativos serem suficientes para não atrapalhar o conjunto do filme. E hoje, quem assiste a “Rastros de ódio” ou “Rio Vermelho”, nem se indaga se John Wayne trabalhou bem ou não.

Outro destacado foi Victor Mature, de cuja canastrice já se fez mil piadas, até ele mesmo fez, ao afirmar, para um clube que não queria aceitá-lo por ser ator, que não o era e tinha 60 filmes para provar. O que não impede de encontrarmos desempenhos convincentes em sua carreira, o mais evidente sendo o de “Paixão dos fortes” onde ele muito bem encarna a figura verídica de Doc Holiday e, em cena chave, até Shakespeare recita. Vejam que Hollywood fez várias versões da estória real do famoso OK Curral, mas, com certeza, o melhor Doc Holiday de todos foi Mature.

Victor Mature, o Doc Holiday do fordiano "Paixão dos fortes".

Victor Mature, o Doc Holiday do fordiano “Paixão dos fortes”.

Um outro que não pode faltar à nossa lista é Vincent Price, que, com sua carona comprida, voz rouca e pausada, fazia o mesmo tipo em qualquer filme. Foi coadjuvante em grandes clássicos (“Laura”, “Amar foi minha ruina”, “A canção de Bernadete”), até passar a ator principal nos filmes de terror de Roger Corman, filmes que, com o passar dos anos, viraram cult e em cult transformaram tudo que deles fazia parte, inclusive Vincent Price.

E passo para John Gavin. Não sei quem hoje ainda o lembra, mas esteve em filmes importantes, como “Psicose” de Hitchcock, e “Spartacus” de Kubrick. Alto, cabelos e olhos negros, bonitão, foi pescado pelos estúdios para ser uma espécie de concorrente de Rock Hudson, com quem tinha mesmo traços físicos comuns. Foi posto para trabalhar com grandes estrelas (com Lana Turner em “Imitação da vida”, com Doris Day em “A teia de renda negra”…), mas, o resultado não deu em nada, a não ser na comprovação de que estávamos diante de um estupendo canastrão.

Salvo por Ford e Hawks: John Wayne

Salvo por Ford e Hawks: John Wayne

Da mesma época foi o caso de Troy Donahue, que, com jeito ariano de garotão americano típico, prometia virar um ícone e… gorou. Ganhou o papel principal ao lado de Sandra Dee em “Amores clandestinos”, um melodrama ousado que deu o que falar na época, e, em seguida, esteve no elenco de um dos maiores sucessos comerciais do começo dos anos sessenta, “Candelabro italiano”… Depois disso, foi a decadência, até o seu desaparecimento completo das telas.

Esses atores sem dotes eram os Keanu Reeves, os Nicholas Cage, ou os Nick Nolte da época, mas a época também teve os seus Stallone, digo, atores que, compensando suas canastrices, se impuseram pela musculatura e força física. Refiro-me a Steve Reeves (Lembram dele em “Os últimos dias de Pompeia”?) de quem se dizia, depois de assistir a um filme seu: “estive horrível”. Isto para não ir mais para trás no tempo, com os Johnny Wessmuller, os Lex Barker e todos os Tarzans da história do cinema.

Pretenso rival de Rock Hudson: John Gavin

Pretenso rival de Rock Hudson: John Gavin

Quem talvez possa ser perdoado por não atuar tão bem são os que tinham outros dotes artísticos compensadores, por exemplo, os que cantavam e/ou dançavam na tela, casos clássicos de Fred Astaire, Bing Crosby e Gene Kelly.

Infelizmente não tenho espaço para comentar todos e encerro com a citação de alguns nomes – uns protagonistas, outros meros coadjuvantes – que o leitor, pelo menos o mais coroa, deve recordar: Tyrone Power, Jeff Chandler, Stewart Granger, Van Johnson, Jack Palance, Stuart Whitman, Yul Brynner, George Peppard, Dean Martin, Rod Taylor… e, enfim, quem mais o leitor achar que cabe entrar na galeria dos “canastrões clássicos”.

Como esta matéria é assumidamente saudosista, devo dizer que muitos desses canastrões tinham seu charme e que ainda hoje os curto – exceção feita talvez a Ronald Reagan e seu macaco.

Troy Donahue, com Sandra Dee em "Amores clandestinos".

Troy Donahue, com Sandra Dee em “Amores clandestinos”.

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