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DORIS DAY

13 maio

Aos 97 anos de idade, faleceu hoje, dia 13 de abril de 2019, a atriz e cantora americana Doris Day. Aqui recordo alguns de seus filmes mais apreciados. Confira:

ÊXITO FUGAZ, 1950, Michael Curtiz

DILEMA DE UMA CONSCIÊNCIA, 1951, Stuart Heisler

ARDIDA COMO PIMENTA, 1953, David Butler

CORAÇÕES ENAMORADOS, 1954, Gordon Douglas

AMA-ME OU ESQUECE-ME, 1955, Charles Vidor

O HOMEM QUE SABIA DEMAIS, 1956, Alfred Hitchcock

UM PIJAMA PARA DOIS, 1957, Stanley Donen

UM AMOR DE PROFESSORA, 1958, George Seaton

CONFIDÊNCIAS À MEIA NOITE, 1959, Michael Gordon

A TEIA DE RENDA NEGRA, 1961, David Miller

CARÍCIAS DE LUXO, 1962, Delbert Mann

NÃO ME MANDEM FLORES, 1964, Norman Jewison

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“STAN & OLLIE” – O Gordo e o Magro

16 abr

Acho que, na minha infância, vi mais o Gordo e o Magro do que Carlitos. Eram filmezinhos curtos, que passavam antes da película principal, nas matinées dos cinemas de João Pessoa – alguns, suponho, da fase muda da dupla – mas o pouco tempo das projeções era suficiente para fazer a sala estrondar com as gargalhadas da plateia.

Era o aperitivo para o longa a ser visto, e nunca me preocupei com os créditos,  nem sei se eram mostrados. Sequer os nomes dos personagens interessavam: para mim – e para a garotada toda, acho – tratava-se de “o gordo e o magro” e isso bastava. Só muito tempo depois, já um cinéfilo em formação, é que ouvi falar, ou li sobre, Stanley Laurel e Oliver Hardy – os Stan & Ollie das plateias americanas, sempre nesta ordem (o magro e o gordo), contrária à nossa.

Steve Coogan e John C Reilley no papel da dupla famosa

Pois foi com os olhos alegres da infância (mas também com um pouco de desconfiança) que fui assistir a esse “Stan & Ollie – o Gordo e o Magro” (2018), produção anglo-americana-canadense sobre essa dupla imortal, possivelmente a mais famosa e a mais querida da sétima arte. Imagino o trabalho que deve ter tido a produção para localizar atores que exibissem os respectivos “physiques du rôle”. Steve Coogan e John C Reilley foram os escolhidos, e acho que funcionou bem, apesar de o nariz de Reilly ser bem maior que o de Hardy.

Com direção de Jon S. Baird e roteiro do escritor Jeff Pope, o filme começa em 1937, fase áurea da dupla, quando estavam rodando um dos seus maiores sucessos, “Dois caipiras ladinos” (“Way out West”), um faroeste musical em que, na rua, de frente a um saloon, eles performatizam um número de dança engraçadíssimo.

Mas, logo logo pula o filme para 1953, quando o prestígio comercial e artístico da dupla já não era mais o mesmo. Aliás, estava longe de ser. A cena em que, passando por acaso na frente de um cinema, Laurel vê o cartaz de um filme com Abbot e Costello é um sintoma bem claro de que a concorrência os afetava, como nunca afetara antes, mesmo no tempo do cinema mudo com, por exemplo, Chaplin e Buster Keaton.

Agora, digo, no começo dos anos cinquenta, com meia década fora das telas, Stan e Oliver vivem de apresentações em palcos de teatros que nem sempre lotam suas cadeiras. É nessa época de decadência franca que fazem uma turnê pelo Reino Unido, porém, o peso da idade, as dificuldades com os produtores e a eventual indiferença dos espectadores vão minando sua disposição, e pior, vão alimentando um inoportuno clima de hostilidade entre os dois que, num momento de crise, desabafam e se ferem mutuamente.

Para piorar, no meio da turnê, Hardy sofre um ataque cardíaco, enquanto Laurel se envolve num projeto à parte, fazendo par com um comediante novato. Quando a separação entre os dois parece coisa definitiva, Laurel desiste do novo projeto e procura “Babe”, que era o seu apelido carinhoso para Hardy: quase entre lágrimas, os dois refazem as pazes e, se não fazem mais filmes, nunca mais se separam, mesmo sabendo que a carreira da dupla estava inevitavelmente no fim. Ou por isso mesmo. Com exceção dos seus primeiros filmes, antes da formação da dupla, Laurel nunca filmou sem Hardy, que veio a falecer logo depois, em 1957. E ele, oito anos depois, em 1965. Como muito bem disse em verso o poeta Sérgio de Castro Pinto: “do gordo é o magro / continuação intensa / um ponto dentro / de uma circunferência”.

Entre curtas e longas, mudos e sonoros, num período de 36 anos – de 17 a 53 – a dupla rodou 106 filmes que encantaram o planeta, infantil e adulto, e que, ainda hoje, de alguma maneira, encanta.

Dessa filmografia, destaco um aspecto que só notei em retrospecto, a partir de reflexões próprias sobre a história do cinema e dos movimentos cinematográficos: é que ela foi quase toda surrealista no sentido próprio da palavra, em alguns casos, bem mais que os filmes assim chamados, com a vantagem de – ao contrário dos filmes assim chamados – fazer rir.

“Duelo de titãs” no Arte 1

14 ago

Assisti a “Duelo de titãs” (“Last train from Gun Hill, 1959, de John Sturges) pela primeira vez em torno de 1960, no Cine Sto Antonio, e, fã de faroestes, junto com a garotada toda de Jaguaribe, torci feito louco pra Kirk Douglas sair ileso da briga com Anthony Quinn e seus malfeitores.

Hoje, quase sessenta anos depois, o vejo exibido na televisão, com a rubrica “cineclube”, num canal chamado Arte 1, que, como o nome diz, só exibe obras artísticas de alto nível.

O tempora, o mores… Naquela época de sua estreia local, jamais “Duelo de titãs” seria considerado arte. Jamais seria mostrado, por exemplo, no “Cinema de arte” do Cine Municipal, cuja programação era selecionada pela Associação de Críticos Cinematográficos da Paraíba. Afinal, “Duelo” era só um faroeste hollywoodiano, mais um – cinema comercial, feito pra entreter a gurizada.

Hoje no Canal Arte 1, ele é arte, sim, senhor. O reconhecimento demorou sessenta anos, mas valeu.

De minha parte, confesso que me sinto bem em perceber que, nos meus treze anos de idade, eu já intuía que “Duelo de titãs” era tão bom, ou melhor, que alguns dos petardos vanguardistas que nos atingiam, vindos da Europa, e que os críticos locais tanto elogiavam.

Uma experiência maravilhosa, revê-lo agora só confirma o que eu sempre soube. Com um elemento adicional: o filme de Sturges confirma uma tese que defendo – sempre defendi – o de que, ao contrário do que julgam algumas feministas – o gênero faroeste deu um papel mais que destacado às mulheres.

Vejam o papel dessa Linda (a ótima Carolyn Jones) na estória toda. Na pequena Gun Hill, ela é só uma mulher de vida mais ou menos fácil, ex-amante do chefão Craig Belden (Anthony Quinn), mais respeitada pelos marmanjos locais por essa relação que por outra razão. E, no entanto, correndo todos os riscos do mundo, é ela a única no local a ajudar o enrascado Matt Morgan (Kirk Douglas), que veio da cidade vizinha com uma missão impossível: prender o filho do Chefão Belden, de quem era amigo de longas datas.

O imbróglio é o seguinte. Dias atrás, uma mulher fora estuprada e morta numa estrada deserta. Índia de origem, acontece que essa mulher era ninguém menos que a esposa de Matt Morgan, Xerife da cidade. Depois de alguma busca, Morgan descobre que o culpado era filho de Craig Belden, seu amigo do passado, hoje um poderoso dono de terras e gentes na vizinha Gun Hill. O que faz? Toma o trem para Gun Hill, disposto a impor a lei.

É claro que o amigo protesta, e não só isso, monta um esquema para impedir a prisão do filho. De todo jeito, o rapaz é capturado por Morgan e, devidamente algemado, é conduzido a um quarto de hotel, onde, amarrado ao leito, com Morgan de seu lado, deve esperar o último trem que deixa Gun Hill… com destino à forca. Lembrar que, no original, o título do filme é justamente “Last train from Gun Hill” (´o último trem de Gun Hill´).

Com praticamente a cidade inteira armada contra ele, é improbabilíssimo que Morgan consiga a proeza de, carregando o seu prisioneiro, tomar o trem. É aí que entra a participação de Linda. Mas não dá pra contar o resto do enredo. Lembro só a cena em que ela, furtando a espingarda no balcão do hotel, esconde-a debaixo de suas muitas saias e sobe as escadas, decidida a ajudar esse quase desconhecido que ela, por razões óbvias, admira, e sofrer todas as consequências.

O filme é narrado num ritmo apropriadamente acelerado, com um fato seguindo o outro de modo lógico, no melhor estilo fluente da chamada “decupagem clássica”. Sem ser propriamente um mestre, Sturges era um artesão experiente que sabia tirar emoção, tanto da ação, como dos jogos psicológicos que um diálogo inteligente e ferino enriquecia.

Toda a sequência, por exemplo, no quarto do hotel onde estão Morgan e seu prisioneiro é uma lição de cinema que está, plasticamente, no uso do espelho do guarda-roupa para ver o corredor e a escadaria, e, verbalmente, no embate oral entre os dois personagens, aquele primeiro, por exemplo, fazendo para o outro, a longa e horripilante descrição psico-fisiológica de como será sua morte no cadafalso.

Enfim, vamos ao Arte 1, que só mostra arte!

Eu sempre tive nove anos

21 ago

Eu era criança quando fui apresentado aos filmes de Jerry Lewis (1926-2017).

Morávamos na Rua Alberto de Brito, no bairro de Jaguaribe, em João Pessoa, e eu era aluno do Grupo Escolar Sto Antônio, vizinho ao saudoso Cine Teatro Sto Antônio. Aos domingos, éramos obrigados pela direção da Escola a assistir à missa matinal (às 7:00), na também vizinha Igreja do Rosário. Na ida ou na volta da missa, eu passava na calçada do cinema e já checava o cartaz da matinal.

Pois muitas vezes o cartaz era de um filme com Jerry Lewis…

A sessão era de 9:30 e dava tempo, muito bem, de correr para casa, tomar banho, tomar café, trocar-se de novo e correr para comprar o ingresso.

De sua fase com Dean Martin já peguei o final, e o Jerry Lewis que mais lembro é de filmes em que ele esteve solo, com suas caretas e suas trapalhadas infindáveis, a maior parte deles – soube muito tempo depois – dirigida por Norman Taurog ou Frank Tashlin.

O que eu pensava de Jerry Lewis naquela época é difícil saber, mas hoje, reconsiderando-o na perspectiva da minha experiência de espectador, acho que ele se alinhava no conceito de anti-herói que já assimilara com Carlitos e com o Gordo e o Magro. Um conceito que, na minha cabecinha de menino, se opunha ao do heroísmo nos faroestes da vida. Sim, Roy Rogers, Hopalong Cassidy ou Bill Eliot, com seus cavalos velozes e seus gatilhos relâmpagos, eram figuras altaneiras, admiradas, porém inatingíveis.

Atabalhoados, precários e ridículos os anti-heróis pareciam comigo. Ao rir deles, eu também ria de mim mesmo.

Jerry Com Dean Martin

Não sei até onde foi minha identificação com Jerry Lewis, mas sei dizer que o curti com muito gosto, e não perdi nenhuma de suas comédias localmente exibidas: “O rei do circo” (1954), “O meninão” (1955), “O bamba do regimento” (1957), “Bancando a ama seca” (1958), ”O rei dos mágicos” (1958), “O mensageiro trapalhão” (1960), “O terror das mulheres” (1961), “O mocinho encrenqueiro” (1961), “O professor aloprado” (1963), “O otário” (1964)…

Ainda hoje sinto prazer em revê-lo. Em “Bancando a ama seca”, por exemplo, que revi há pouco, ele é, nessa cidadezinha pequena, o técnico desajeitado de antenas de televisão que um dia encontra, na soleira da sua porta, nada menos que três bebês chorões, os quais ele – sem saber a quem pertencem – se vê forçado a adotar. Os trigêmeos eram, na verdade, filhos de uma ex sua, hoje grande atriz de Hollywood, que não podendo se dar ao luxo de estragar a carreira criando trigêmeos, tivera a ideia de os enviar ao ex-namorado sempre bondoso. O melhor do filme são, naturalmente, as trapalhadas de um ama seca para fazer uma tarefa dessas, completamente inusitada. Claro, algumas cenas nos fazem lembrar Carlitos criando “o garoto”.

Em “Bancando a ama seca”

Sem coincidência, na medida em que eu crescia suas comédias se sofisticavam, sobretudo naquela fase – já começo dos anos sessenta – em que ele assumiu, por conta própria, a direção de seus filmes. Fase em que o casamento de mímica e mise-en-scène fica cada vez mais feliz.

Lembro, por exemplo, o meu estranhamento ao ver “O terror das mulheres”. Bem, no primeiro contato foi só estranhamento, mas, com o passar do tempo – e o consequente aprendizado sobre os mistérios da sétima arte – fui me dando conta de que o que estava feito ali, em plena convencional Hollywood, era puro surrealismo.. e surrealismo dos bons, que mais tarde eu associaria a um Buñuel ou a um Salvador Dali. Vejam bem: uma enorme mansão repleta de jovens belíssimas, e lá trabalhando um único empregado, um pobre coitado que sofrera decepção amorosa e, por isso, tinha horror a mulheres. Um desmonte dos códigos machistas e, por tabela, do American way of life…

Já em idade madura, Jerry Lewis disse uma vez essa frase singela, com que intitulo esta matéria : “Eu sempre tive nove anos”.

Lendo isso – como não? – reportei-me a mim mesmo, aos nove anos, saindo da Igreja do Rosário, ansioso para ver seus filmes na tela do Cine Sto Antônio.

 

Em tempo: esta matéria é dedicada ao jornalista e crítico de cinema Sílvio Osias.

Lewis como o professor aloprado… Um dos seus melhores trabalhos.

Montgomery Clift

15 ago

Catando filme velho por aí – não digo onde – encontro, esta semana, esse “Talvez seja melhor assim” (Raoul Levy, 1966), um filmezinho sem importância de um diretor idem.

E por que me dei ao trabalho de vê-lo? Só porque foi o último filme do ator americano Montgomery Clift (1920-1966), e não resisti a curiosidade de espiá-lo em seu derradeiro papel. Clift morreria nesse mesmo ano, em 23 de julho.

A estória se passa nos dois lados do muro de Berlim, com a guerra fria no auge, e o filme é bem típico da época, com todos aqueles ingredientes de espionagem, perseguições, micro-filme roubado, deserção, CIA, etc… Mas claro, sem a qualidade de “O espião que saiu do frio”, ou coisas assim…

Porém, não foi ao filme que assisti: assisti a Montgomery Clift, um dos meus atores preferidos, no tempo da Hollywood clássica, um ator cuja carreira acompanho desde sempre. Em “The defector” (título original do filme) ele está irrisório, burocrático, decadente, mas que importa? Por contraste, o filme serviu para eu remomorar sua brilhante carreira, antes e depois do acidente de automóvel, em 1956, que quase deformou o seu belo rosto.

E, na minha mente de cinéfilo viciado, fui relembrando os seus filmes, ao menos os que mais amei.

Lembrei o filho adotivo rebelde que ele foi em “Rio Vermelho”, contracenando com o pai durão John Wayne, nesse faroeste inesquecível de Howard Hawks, de 1948.

Veio-me à mente o seu papel em “Tarde demais” (Willliam Wyler, 1949) como o rapaz ambicioso que, com seu charme discreto, planeja um ´golpe de baú´ em cima da feiosa Olivia de Havilland, e quebra a cara, primeiro pela astuta oposição do futuro sogro, e depois, por um motivo bem mais desolador…

Com Liz Taylor em “Um lugar ao sol”.

Como esquecê-lo, ao lado de Elizabeth Taylor, em “Um lugar ao sol” (George Stevens, 1951), como o jovem Eastman, parente pobre dessa família rica, com ajuda da qual pensa ascender socialmente. E assim seria, se não tivesse engravidado uma das empregadas da empresa… e, vocês lembram, a estória dá em tragédia grega.

E ele como o padre Logan que, no confessionário, ouve uma confissão criminosa, e vai viver tolhido entre o dever sagrado do silêncio e a obrigação civil da delação? No hitchcockiano “A tortura do silêncio” (“I confess”, 1953) está um dos seus grandes desempenhos.

Em “Quando a mulher erra” (1953) ele faz um amante romano de quem a americana, casada, Jennifer Jones, não consegue se despedir na “Statioze Termini” (título original). Na verdade, não gosto muito desse filme de Vittorio De Sica, mas o elenco o salva.

Um dos seus desempenhos mais lembrados pelo grande público é, com certeza, o do melancólico soldado meio auto-destrutivo de “A um passo da eternidade”, drama de Fred Zinnemann sobre o ataque japonês a Pearl Harbor.

Em “De repente no último verão” (1959) ele faz o médico cirurgião que é quase comprado pela patriarca (Catherine Hepburn), para que ele proceda a uma lobotomia na sobrinha (Elizabeth Taylor) que vive tendo lembranças desagradáveis da morte do primo, filho da patriarca…

Em Tennessee, a construção de uma barragem vai inundar a ilha onde reside essa senhora idosa, mas firme e determinada a não se mudar (Jo Van Fleet): e Clift faz o papel do administrador que deve convencer a senhora a abandonar o local, em “Rio violento”: grande drama de Elia Kazan, 1960.

Com Donna Reed, em “A um passo da eternidade”.

Junto com Clark Gable e Eli Wallach, ele é, em “Os desajustados” (John Huston, 1960), um dos cowboys modernos que, com Marilyn Monroe metida em um caminhão, vão caçar cavalos selvagens no ensolarado deserto de Nevada.

Quem pode esquecer o seu testemunho em “Julgamento em Nuremberg” (Stanley Kramer, 1961), como o débil mental, vítima do nazismo, justamente por causa da debilidade? Seu desempenho é um exercício de interpretação que impressiona sempre.

E encerro a lista com o seu papel como o famoso psiquiatra austríaco, em “Freud além da alma” (John Huston, 1962), tratando, pela primeira vez, histeria feminina com hipnose e, noutra ocasião, com um paciente do sexo masculino, acidentalmente descobrindo o complexo de Édipo.

Montgomery Clift não rodou muitos filmes, apenas 17. Antes do cinema, trabalhou em teatro e foi ator destacado do afamado Actors Studio. Algum tempo depois de sua morte, a imprensa internacional incluiu-o no rol dos muitos astros clássicos que haviam sido homossexuais, mas, essa é outra estória que aqui não interessa.

Interessam o seu talento e o legado que deixou na tela.

Alice Guy-Blaché, a primeira cineasta

27 jun

Hoje em dia o número de mulheres dirigindo cinema no mundo todo é tão grande que nem faz sentido ir atrás de estatísticas. Mas não foi sempre assim, muito pelo contrário. Nos primórdios da história do cinema, e mesmo ao longo da era clássica – toda a primeira metade do século XX – mulheres na direção era coisa rara, raríssima. Nos Estados Unidos, por exemplo, apontam-se três nomes: Lois Weber para as primeiras décadas do século; Dorothy Arzner para os anos 30/40; e Ida Lupino para os anos 50/60. E só.

Mas, quem foi mesmo a primeira diretora de cinema do mundo?

Pois é, hoje não há mais dúvidas: foi a francesa Alice Guy, mais tarde Alice Guy-Blaché (1873-1968), não só a primeira a dirigir, como a primeira a roteirizar e produzir filmes.

Nascida em Saint-Mandé, Alice era filha de um grande livreiro, com ramificações comerciais no Chile. Com a falência dos negócios e a morte do pai, Alice, muito nova, fez curso de datilografia e foi trabalhar na empresa fotográfica de Leon Gaumont. Quando Gaumont, depois da invenção dos irmãos Lumière, mudou da fotografia para a película cinematográfica, ela sentiu-se em casa. Com o apoio do patrão, roteirizou e rodou um filmezinho curto (naquela época, fins do século XIX, todo filme era curto, com duração de minutos), chamado “A fada do repolho” (1896) que contava a lenda de como os bebês nasciam desse vegetal. O filme foi muito bem aceito pelo público e Gaumont não teve outro jeito, a não ser lhe abrir caminho para mais e mais.

Daí a pouco Alice estava produzindo e dirigindo dezenas de filmes, com uma vantagem sobre o seu concorrente George Méliès: é que, menos descritivos que os dele, seus filmes introduziam, de forma mais ou menos sistemática, o elemento que seria essencial no que veio, mais tarde, a se chamar de Sétima Arte, a saber, a narratividade. Em outras palavras: eram filmes que contavam uma estória com começo, meio e fim.

Dos curtas de poucos minutos, Alice partiu para metragens mais longas e, em 1906, lançou “A vida de Cristo”, com mais de meia hora de duração, uma produção cara, cheia de requintes técnicos, com mais de 300 figurantes, cenários próprios e efeitos especiais.

A fada do repolho (1896)

Até então ela era Alice Guy, mas conheceu um colega de trabalho, apaixonou-se e casou com Herbert Blaché, que representava os negócios de Gaumont nos Estados Unidos. Mudaram-se para Nova Iorque e lá fundaram, em 1910, a Companhia cinematográfica Solax, e Alice foi, assim, a primeira mulher no mundo a dirigir um Estúdio de Cinema – isto antes de Hollywood sequer existir. O sucesso do empreendimento foi tamanho que, logo mais, gerou uma extensão, ainda maior, da Solax Company, em Fort Lee, Nova Jersey.

Bem no topo do sucesso profissional, de repente, a coisa começou a desandar. Envolvido com amantes, inclusive com uma das atrizes da Companhia, Blaché revelou-se um empresário inseguro e desastrado, fazendo transações que começaram a dar errado. Enfim, a competição com o agora emergente cinema do Oeste, e fatores de ordem familiar, levaram a Companhia cinematográfica à falência, e o casal, ao divórcio.

Leiloado o Estúdio da família, Alice voltou a seu país de origem, a França, e nunca mais fez cinema. Em 1927, viajou à América e fez uma tentativa de realização, que não vingou, retornando à França mais uma vez. Em 1964 é que foi morar, com uma das filhas nos Estados Unidos, onde terminaria os seus dias.

A vida de Cristo (1906)

O último filme de Alice data de 1920, mas, hoje sabe-se que o total de sua filmografia supera a casa dos mil, entre os quais estão 22 longas metragens. Sem os cuidados de preservação, e muito menos ainda os de direitos autorais, a maior parte dessa produção se perdeu, e hoje os seus títulos disponíveis estão em torno de trezentos e cinquenta.

Afastada do cinema desde então, e mal reconhecida pela historiografia, Alice veio a falecer em 1968, aos 94 anos de idade, num asilo para idosos, em Mahwah, Nova Jersey.

A autobiografia de Alice Guy-Blaché, publicada na França nos anos quarenta, foi traduzida para o inglês e editada nos Estados Unidos nos anos oitenta – fator que convenceu estudiosos do ramo a revisar a importância de seu papel na história do cinema mundial, e hoje algumas Fundações e Festivais de cinema oferecem prêmios que levam o seu nome.

Uma coisa é certa: a estória de Alice Guy-Blaché daria um belo filme, daqueles para ganhar Oscar.

Alice Guy-Blaché, a primeira cineasta.

 

Em tempo: alguns dos filmes de Alice Guy-Blaché estão disponíveis no Youtube, inclusive um belo documentário sobre sua vida e obra, “The lost garden – the life and cinema of Alice Guy-Blaché” (Marquise Lepage, 1995), narrado em inglês, sem legendas.

“Não os fiz para você” – revendo Cassavetes

7 jun

De repente, e não mais que de repente, o diretor americano John Cassavetes (1929-1989) vai à berlinda. Reedições de seus filmes, com extras e entrevistas, além de cursos e palestras entre cinéfilos e estudiosos, começam a aparecer, enfocando esse cineasta que é um dos mais conceituados do século XX, o pai do que ficou conhecido como O Cinema Independente Americano.

De minha parte, sempre acompanhei Cassavetes de longe, e toda vez que, reconstituindo em ensaios o clima cinematográfico inovador do final dos anos cinquenta e começo dos sessenta, incluía o “cinema independente americano” nesse contexto, me vinha a culpa de não estar mais “perto” de Cassavetes.

Pois esse clima de revisão me instigou a voltar ao diretor de “Faces” e o resultado é esta matéria que ora se lê.

John Cassavetes

Na verdade, manifestações de independência sempre houve no cinema americano, desde a era muda, até hoje. E a palavra ´independência´, em cinema, abarca um leque semântico que vai do financeiro ao artístico. Porém, historicamente falando, a expressão ´cinema americano independente´ passou a ser usada, desde a década de sessenta, para referir a realização fílmica de Cassavetes que, sintomaticamente aparecia na mesma época em que as vanguardas estouravam no mundo todo: a nouvelle vague francesa, o free cinema inglês, o cinema novo brasileiro, etc… O seu estreante “Shadows” é, por exemplo, do mesmo ano do igualmente estreante “Os incompreendidos”, de François Truffaut, 1959.

Identificado dentro desse contexto de revolução universal, o cinema de Cassavetes tomou foros de movimento cinematográfico, embora Cassavetes ele mesmo recusasse essa ideia, afirmando peremptoriamente que “Não sou parte de nada, nunca me juntei a coisa alguma”.

De fato, o seu cinema guarda traços próprios, pessoais, idiossincráticos, pouco identificáveis até mesmo com os de outros cineastas tidos por independentes, como – digamos – um Roger Corman, seu conterrâneo e contemporâneo.

Acho que a primeira coisa a ser dita sobre Cassavetes é que o seu é um cinema de reação. Bem entendido, não reacionário, mas de reação, e a reação é à Hollywood clássica. Ao sistema hollywoodiano ele reage negativamente e o faz de modo radical e com muita ênfase. Explico-me: não é só financeiramente que ele se opõe ao sistema, com filmes de baixíssimos orçamentos: a oposição também é na ideologia, na técnica e, sobretudo, na forma, com tudo que o termo implica.

Imagino que, para um aluno de curso de cinema, um exercício instrutivo seria tomar um filme típico da Hollywood clássica, de um lado, e de outro, um filme qualquer de Cassavetes, para confrontá-los em todos os níveis que estruturam uma obra fílmica. Com certeza, o resultado dessa extensa e minuciosa análise comparativa seria um quadro de oposições completo e fechado. Se eu puder ser mais específico, os filmes bem que poderiam ser “Imitação da vida” (de Douglas Sirk) e “Shadows”, ambos de 1959, e ambos com uma linha de roteiro semelhante – a de uma moça afrodescendente de cor clara que é rejeitada pelo namorado quando este descobre sua origem negra.

Mas, atenção, não exageremos nas diferenças. Vejam bem, o cinema de Cassavetes – como os filmes de Hollywood de qualquer época – também são representacionais (não são abstratos), ficcionais (não são documentais) e narrativos (contam estórias). E essa igualdade não pode ser jogada no lixo. As diferenças vão aparecer na forma como representam, ficcionalizam e narram. Ao longo desta matéria, estaremos apontando algumas dessas diferenças.

Se fôssemos começar pela ideologia, seria o caso de mencionar aquela cena em ‘Assim falou o amor” (“Minnie and Moskowitz, 1971) em que as duas amigas conversam sobre o cinema e a vida, depois de terem assistido a uma sessão de “Casablanca” (1942). E uma delas, a protagonista Minnie, vivida por Gena Rowlands, desabafa sobre a grande conspiração que é o cinema: “o cinema é cruel com a gente – diz ela. Faz-nos crer no amor, no romance, quando, no real, isso não existe. Na vida real, os homens são uns babacas que nada têm de Charles Boyeur ou Humphrey Bogart”.

“Casablanca” (1942), o clássico hollywoodiano que Minnie critica.

Claro, uma fala dessas de certa maneira contém a proposta de Cassavetes, como se ele estivesse a nos dizer: se devo contar uma estória de amor (caso de “Assim falou o amor”) não vou dourar a pílula – vou mostrar gente apaixonada, mas, pequena, limitada, precária, como são as pessoas no mundo de verdade, vivendo estórias nem sempre edificantes. Para ele, Hollywood criou o Mito, e todo Mito é ordenado… enquanto a vida, esta é Caos.

No documentário de Michael Ventura “I am almost not crazy (“Eu sou quase não louco”, 1984), o próprio Cassavetes explicita a sua postura anti-hollywoodiana em três boutades sintomáticas: “Cinema não tem nada a ver com dinheiro”; “Detesto entretenimento”; “A audiência é secundária”, como se constata, blasfêmias inaceitáveis para qualquer produtor da Meca do Cinema, na época ou hoje. Isto para não citar coisa mais grave, dita em outra ocasião, como o seu recado direto ao (im)provável espectador de seus filmes: “Se você não gosta de meus filmes, foda-se. Não os fiz para você.”

De fato, o de Cassavetes é um cinema difícil de engolir, se o espectador está acostumado ao modelo clássico, ou se dele não abre mão.

Para começo de conversa, são filmes até certo ponto incompreensíveis, que assumem essa “incompreensão” de forma natural. A ideia parece ser a de que, se na vida não compreendemos tudo, por que teríamos que compreender no cinema? Cassavetes trabalha basicamente com esse “não saber”, o qual parece ser a chave interpretativa para a sua obra – se é que pode haver uma.

Gena Rowlands, atriz e esposa de Cassavetes.

Não há, em seus filmes, um sentido conclusivo, nem nos desenlaces, nem nos finais de cenas, nem na construção dos personagens. Há, sim, um enredo, uma situação dramática, e personagens vivendo alguma forma de conflito, mas, a partir daí, vêm as lacunas, os vazios e o não sentido.

Os personagens têm psicologia obscura, para nós e para eles mesmos – e, com certeza, para o autor do filme. São figuras desconcertantes que agem de modo surpreendente para os padrões vigentes. Em muitos casos, gritos, afagos, risadas, discussões intermináveis, e outras atitudes ficam sem explicação – nem psicológica, nem diegética. Os closes – um recurso frequente – ao invés de revelar, nos fazem mergulhar em mistérios. É muito comum que, no fechamento das longas cenas (que são muitas nesses filmes de metragens longas), o espectador espere por explicações, as quais não vêm, e se corta para algo totalmente diferente.

Essas características variam na intensidade e assiduidade, ao longo de sua filmografia, mas, se presentificam de modo sistemático em dois filmes, que são os mais ilustrativos de seu estilo, “Shadows” (1959) e “Faces” (1968).

Não deve ser sem razão que uma temática constante em Cassavetes tenha sido a loucura, mas atenção, vista não como uma situação patológica, mas um estágio dentro disso que se chama sanidade mental. Em vários filmes, Gena Rowlands encarna mulheres desequilibradas que se movem em torno de uma fronteira não muito delimitada, para não dizer obscura. A sua frase “I am almost not crazy”, que deu título ao documentário de Ventura, já nos diz tudo. Em muitos casos, o desequilíbrio chega a ser físico: querem ver, contem as quedas que suas personagens sofrem. Em “Noite de estreia” (“Opening night”, 1977), por exemplo, creio que se chega a um extremo…

Cena em “Faces”, 1968.

Todo esse sentido de inconclusão e indefinição é aumentado pelas interpretações, onde o improviso é comum, refletido num diálogo aparentemente “irrisório” que, – nós percebemos hoje – seria mais tarde imitado por um Tarantino. Aliás, já foi dito que o cinema de Cassavetes é um cinema de atores, onde o enredo é frágil, e onde os personagens tomam conta da tela, a câmera como mera registradora, submissa a suas atuações.

O baixo orçamento das produções aparece na tela, e de modo assumido pela direção, como elemento estético. Muitas cenas de rua foram feitas porque não havia um set de filmagem, e, mais tarde, a casa do diretor funcionou quase sempre como o set possível. No elenco, não eram permitidos astros e estrelas consagrados, somente a equipe particular de Cassavetes, sua esposa Gena Rowlands, e os amigos Seymour Cassel, Ben Gazarra e Peter Falk. E, claro, o próprio Cassavetes, que também foi ator em muitos filmes alheios, com uma carreira sólida que, segundo consta, financiou os seus próprios filmes.

Os traços estilísticos de Cassavetes são os mesmos, até naqueles filmes em que fez certa concessão ao comércio, assumindo gêneros, casos de “Assim falou o amor” (“Minnie and Moskowitz, 1971) e “Gloria” (1980), aquele primeiro uma estória de amor no estilo “man meets woman”, este segundo, um thriller sobre a violência da Máfia.

Para os fãs de Cassavetes – que, no meio cinéfilo, afinal de contas, são muitos – um  certo incômodo devem ser aqueles dois filmes que ele rodou no início dos anos sessenta. Sim, imprensados entre os dois “revolucionários” “Shadows” e “Faces” estão “A canção da esperança” (“Too late blues”, 1961) e “Minha esperança é você” (“A child is waiting”, 1963), filmes feitos para o estúdio da Paramount, com atores famosos e intenção de lucro, ou seja, tudo que Cassavetes abominava. O primeiro tem o cantor Bobby Darin e Stella Stevens no elenco e conta a estória, mais ou menos tradicional, de um músico que se vende a um agente, depois de se apaixonar por uma cantora. Mais convencional ainda, o segundo se passa num Instituto para crianças deficientes em que Judy Garland é enfermeira e Burt Lancaster o diretor.

A sugestão que dei acima, para o aluno de cinema, foi heterogênea (fazer o confronto entre um filme hollywoodiano clássico e um filme de Cassavetes). Pois encerro esta matéria com uma segunda sugestão, esta homogênea: confrontar Cassavetes com Cassavetes, ou seja, comparar um desses dois filmes convencionais ao Cassavetes “independente”. De novo, se eu puder ser mais específico, os filmes poderiam muito bem ser “Minha esperança é você” e “Uma mulher sob influência” (1974), ambos tratando de debilidade mental, um, em crianças, o outro, em adulto.

Heterogêneo ou homogêneo, em qualquer dos dois estudos comparativos, o aprendizado seria enorme, tenho certeza.

Cena em “Noite de estreia” (“Opening night”, 1977)