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Super 8

17 set

Faço aqui minha pequena homenagem ao grande Harry Dean Stanton (1926-2017), falecido dia 15 de setembro de 2017. O texto que se lê abaixo está no meu livro “Um beijo é só um beijo” (Ed. Manufatura, 2002) e se chama “Super 8”. Trata-se de um miniconto que, ficcionalmente, reproduz o enredo de um dos melhores filmes desse ator extraordinário, “Paris, Texas” (Wim Wenders, 1984).  No miniconto, a voz narrativa é de Travis, justamente o personagem de Harry Dean Stanton.

Harry Dean Stanton com Nastassia Kinski, na obra prima de Wim Wenders, “Paris, Texas”.

SUPER 8

E agora, para onde me dirijo? Devolvo o carro a Walt e me recolho a meu silêncio? Ainda faz sentido buscar um ponto no mapa, o terreno onde fui concebido nesse país, o local em que meus pais copularam nove meses antes de eu nascer?

Não sei exatamente o que faz sentido ou não, mas sei que foi bom ter entregue Hunter a Jane. Eu não sabia disso antes, mas, com certeza, era o que queria fazer desde sempre.

Sempre? Quatro anos de torpor e vazio… Quando Walt me encontrou no deserto, fora de mim, mal o reconheci, até porque havia quatro anos eu mal me reconhecia. A sua paciência de irmão e o carinho de Anne é que foram me trazendo de volta a mim mesmo. Contudo ninguém me puxou mais para mim mesmo do que Hunter.

No começo, ficou hostil com aquele pai desgrenhado, sujo e esquisito que, saído do deserto, se intrometia no seu tranquilo e limpo cotidiano pequeno-burguês; por ironia, acho que foi essa sua hostilidade de menino indignado que me arrancou do meu vazio interior e me fez querer me “vestir de pai”. No dia em que fui apanhá-lo na Escola todo pronto e ele, afinal, aceitou vir para casa a pé, caminhando pelo outro lado da rua, senti o meu retorno ao normal, senti que estava voltando a experimentar sentimentos.

Conversar mesmo de pai para filho, lhe dizer as verdades doídas que escondo, isso nunca pude fazer cara a cara. Fiz isso através do walkie-talkie, já aqui em Houston, depois de haver achado sua mãe. Engraçado como só foi possível resolver as coisas de modo indireto, através de algum meio técnico que intermediasse o contato. Eu mesmo não entendo essa necessidade de artifícios, porém com Hunter foi o walkie-talkie que me salvou, e com Jane, o telefone do peep-show. Sinto que frente a frente, a compreensão não teria brotado, nem teríamos, juntos, conseguido mergulhar na dor do passado, para apaziguá-la.

E até o primeiro passo do meu retorno ao real foi promoção de um meio indireto. Foi assistindo à felicidade de nossa família, felicidade de quatro anos atrás, filmada pela câmera Super 8 de Walt, que comecei a sair do meu torpor e a saborear um vago desejo de tornar a viver.

Claro, não vou ter, provavelmente nunca mais, aquela felicidade que está impressa na película Super 8 de meu irmão, mas já foi muita coisa ter vencido o torpor, me resgatado do nada, e mais que isso, haver promovido o encontro de Jane e Hunter.

Se não tiver mais nada de bom nessa minha vida sem perspectiva, vou ter o conforto de saber os dois juntos, se amando como mãe e filho. Não importa o que possa me acontecer: isso me basta.

Isso devia me bastar.

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Meio século sem Paul Muni (da série: Grandes atores do cinema clássico)

16 maio

Nascido no ano do cinema, 1895, ele tinha três meses de vida quando os irmãos Lumière fizeram sua primeira exibição pública do cinematógrafo, em Paris. Quem diria que, tão distante da Paris dos Lumière, aquele bebê, gerado na longínqua província da Galícia, região do então Império Austro-Húngaro – hoje Ucrânia – iria, no futuro, tornar-se um grande ator dessa arte nascente, a ser denominada mais tarde de sétima.

A família era judia, falava Yiddish, e a criança recebeu o nome de Meshilem Meier Weisenfreund. Aos sete anos, porém, em 1902, migraram para os Estados Unidos e o menino foi criado nas ruas de Chicago. Nas ruas? Até certo ponto: como os pais eram atores, o garoto, desde cedo, abraçou o métier, e daí a pouco, já se destacava na escola, e fora dela, pelo talento interpretativo, sendo cedo conduzido ao Teatro Yiddish de Chicago, como uma grande promessa.

A promessa cumpriu-se e não demorou para o jovem ator chegar à Broadway, agora já usando a língua inglesa no palco, em papéis da dramaturgia americana. E, claro, não com o seu impronunciável nome Yiddish, mas com um nome artístico mais digerível para as plateias americanas: Paul Muni. O primeiro nome pode ter sido gratuito, porém, o sobrenome teve uma motivação curiosa: é que, desde a adolescência, ele carregava o apelido, imputado pelos amigos, de “Moony” (mais ou menos: ´aluado´, ´distraído´, ´pensativo´), o que foi, graciosamente, transformado em “Muni”.

Paul Muni (1895-1967)

Consagrado no teatro, aos 36 anos Paul Muni (1895-1967) foi convidado a fazer cinema. Cedeu a Hollywood, mas seu primeiro filme, “The valiant” (1929), não fez grande sucesso, embora tenha lhe valido, já, uma indicação ao Oscar de melhor ator em papel principal. Prosseguiu atuando nas telas, e sua fama – junto com o prestígio crítico – não demoraria: estourou com dois filmes do mesmo ano, 1932, ambos envolvendo o submundo do crime: “Scarface, a vergonha de uma nação” (“Scarface”, de Howard Hawks) e “O fugitivo” (“I am a fugitive from a chain gang”, de Melvyn Leroy), filmes que alguns asseguram haver inaugurado o gênero noir.

No total, Paul Muni rodou 22 filmes, com seis indicações e um Oscar de melhor ator. Mas, sem sombra de dúvida, o auge de sua carreira acontece na segunda metade dos anos trinta quando, exigente com os papéis, escolhe interpretar três figuras históricas de grande envergadura moral, formando uma espécie de trilogia: “A história de Louis Pasteur” (1936), “A vida de Emile Zola” (1937) e “Juarez” (1939), este último sobre o grande líder revolucionário mexicano Benito Juarez. Foi por sua impressionante interpretação de Pasteur que recebeu o Oscar de melhor ator do ano.

O sucesso dessas cinebiografias levou Muni a querer filmar a vida de Alfred Nobel. Iniciou as pesquisas, mas, desistiu, depois de tomar conhecimento de que o cientista sueco que dá nome ao prêmio mais cobiçado do mundo, havia sido homossexual. Muni não era ingênuo e sabia que, naquela época – ainda final dos anos quarenta – nenhum produtor apoiaria um projeto fadado a ser descartado pelo Código Hays de Censura.

Ainda permeando a trilogia citada, há um grande desempenho de Muni, como o camponês Wang que, ao longo da vida, enfrenta penúrias, secas, revoluções e tempestades de gafanhoto, saga empolgante com base no romance da escritora Pearl S. Buck, “The good Earth”. No Brasil, o filme chamou-se “Terra dos deuses” (1937).

Muni como Scarface, 1932.

No final dos anos cinquenta Paul Muni abandona o cinema. Sua última película é “Rebeldia de um bravo” (“The last angry man”, 1959, de Daniel Mann), sobre um médico idealista que é absorvido pelo mundo da televisão.

Teria sido interessante vê-lo na tela como o advogado Henry Drummond da peça “Inherit the Wind” (“O vento será tua herança”), papel que ele fizera brilhantemente nos palcos da Broadway, entre 55 e 56, e que lhe dera o prêmio maior do teatro americano, o Tony Award. Esse papel, como vocês sabem, foi para Spencer Tracy, no filme homônimo de Stanley Kramer, de 1960.

Universalmente reconhecida é a sua capacidade camaleônica de transmudar-se nos personagens mais distintos, em muitos casos fazendo recurso ao uso de maquiagem que o envelhecia ou o rejuvenescia, a depender da estória narrada, mas sempre convencendo pela sua força dramática. Nem feio, nem bonito, Paul Muni nunca entrou na galeria dos astros de Hollywood, talvez por isso pouca gente o lembre hoje em dia.

Em “A história de Louis Pasteur”, 1936.

De minha parte, lamento não ter tido a chance de ver Paul Muni na tela grande. Devo ter assistido, lá pelos anos 50, à reprise de “À noite sonhamos” (“A song to remember”, 1945), mas aí ele foi apenas coadjuvante, no papel do professor de Chopin, compositor cuja vida é contada nesse filme de Charles Vidor.

Vim a conhecê-lo melhor já no tempo do VHS, quando saiu a selagem de “Scarface”. Achei o filme de Hawks tão empolgante que o incluí no vídeo que editei para a festa do Centenário do Cinema, em 1995. Dele escolhi a cena em que, caçado pela polícia, o protagonista comete seus últimos desatinos e é atingido, desabando sem vida no calçamento frio da rua.

Aos poucos é que fui me introduzindo a sua filmografia. Indicado por um amigo, “Terra dos deuses” foi uma surpresa agradável, por várias razões; uma delas é que conhecia o livro de Pearl Buck, leitura da juventude, feita quando ensaiava meus primeiros passos na língua inglesa. No filme de Sidney Franklyn, a tempestade de gafanhotos, com o velho camponês se arrastando ao meio, é coisa que nem Cecil B. DeMille faria tão bem.

Com relação à trilogia histórica (Pasteur, Zola, Juarez), que vejo e revejo sempre, não sei dizer onde Muni está melhor. E provavelmente não há como dizer, pois são desempenhos saídos do âmago. Só sei que são grandes filmes, infelizmente muito pouco referidos pelos cinéfilos da atualidade. Por isso mesmo é que redijo este texto, homenagem tardia a esse ator superior que foi Paul Muni, falecido exatamente meio século atrás, em 25 de agosto de 1967.

Muni na pele do escritor francês Émile Zola.

Américo

17 fev

Com assinatura do cineasta Alex Santos, o curta-metragem de ficção “Américo – falcão peregrino” (2015) presta uma mais que oportuna homenagem ao tão pouco lembrado poeta paraibano Américo Falcão.

Nascido em Lucena, em 1880, quando esse povoado pertencia ao Município de Santa Rita, o poeta de “Auras” foi nome de estaque na capital paraibana. Diretor da Biblioteca Pública do Estado, foi amigo de figuras importantes da época, como o poeta Augusto dos Anjos, o artista Santa Rosa, e o fotógrafo e cineasta Walfredo Rodriguez. Aliado ao governo na Revolução de Trinta, foi co-autor do hino a João Pessoa, mas, evidentemente, o que mais o imortaliza é a sua produção literária.

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Como homenagear um poeta? Tentando ser poético. É o que faz a dupla Alex Santos (diretor e roteirista) e Manoel Jaime Xavier (co-roteirista) e a primeira medida parece ter sido o descarte do gênero documental ou biográfico. Ao invés disso, os autores se entregam a um vôo imagético, onde a liberdade de criação dita a regra. Ludicamente inspirado no sobrenome do poeta, o filme começa com as imagens de um falcão em voo livre, mas a analogia entre nome e ave não fica só nisso: ao longo de filme, vê-se o poeta sempre caminhando pelas ruas da cidade e essa locomoção quase constante reforça a associação com a ave de seu sobrenome, e o faz muito bem.

Oportunamente, essa itinerância também serve a outro fim: o de vislumbrarmos a João Pessoa (Parahyba) da época, com seus casarões, seus bondes e suas ruas estreitas – verdadeiro “roteiro sentimental de uma cidade”. Nesse sentido, mais que louvável é a reconstituição de época, empreendida – nós calculamos – com enorme esforço de pesquisa e produção (o rádio, a mobília, a indumentária, o carro antigo, etc) e muita habilidade em driblar os signos da atualidade, como postes, automóveis, fios, letreiros, etc.

Cena de "Américo - falcão peregrino".

Cena de “Américo – falcão peregrino”.

A essa reconstituição se somam fatos que foram importantes na época, como a passagem do dirigível Zeppelin, refeita com perícia e criatividade. Por outro lado, toda a Revolução de Trinta é sintetizada numa elipse, com a simples substituição, na sala da Biblioteca Pública, da fotografia de João Pessoa, pela do próximo governante, Gratuliano Brito.

Para não dizer que nada é documental no filme, há o breve depoimento de uma das filhas do poeta, D. Marlinda, de 93 anos de idade, depoimento usado com sabedoria pela direção, que o distribui em duas partes: na abertura do filme D. Marlinda conta coisas miúdas e privadas sobre o genitor; no fechamento, seu comentário é comovente: “Meu pai – diz ela, entristecida – eu sabia tanta coisa sobre meu pai, mas o tempo parece que apaga tudo”.

Ao longo do filme inteiro, trechos dos poemas do autor são recitados por uma voz extradiegética, sempre com relação às imagens mostradas. Seja o poema dedicado a esposa morta, ouvido diante de seu retrato; seja aquele outro sobre a morte do amigo Augusto dos Anjos, escrito, em sua caderneta, ao lado de uma edição do EU. A religiosidade do poeta vai aparecer no interior de uma igreja, onde se escuta aquele poema sobre a força de sua crença. Já uma mera vela doméstica vai provocar a evocação dos seus versos mais conhecidos: “Não há tristeza no mundo…”.

O diretor Alex Santos.

O diretor Alex Santos.

Em que pese à tristeza do personagem, o filme se caracteriza por certa ludicidade. O voo imagético com o sobrenome do poeta já foi mencionado, mas, o espectador precisa ficar atento a mais. Por exemplo: em certa ocasião se mostram alguns livros na estante do poeta. Um deles é “O falcão maltês” de Dashiel Hammett (1929) e a razão não é outra senão – de novo – o sobrenome do poeta. Ao lado dele está o “Moby Dick” de Herman Melville e o espectador vai lembrar as cenas da pesca da baleia, exibidas anteriormente, no documentário de Walfredo Rodriguez, a que Américo Falcão assiste, com ar meio desolado. Ele mesmo escrevera as legendas para esse documentário, ele, que afinal de contas, era um amigo dos animais, como se comprova em várias cenas em que acaricia o gato caseiro.

Se é fato que o filme descarta o biográfico, não o faz de todo.  E nisso, do espectador se cobra atenção redobrada a pequenos detalhes que recompõem a vida do poeta de forma metonímica. Um exemplo, entre tantos: passeando pela sala de visita, a câmera revela uma iconografia de Santa Rosa, para nos lembrar a amizade dos dois artistas.

De forma sistemática o filme é fotografado em preto-e-branco nas cenas do passado, e em cores, nas cenas do presente, estas abrindo e fechando a projeção, com as belas imagens da praia de Lucena, como se sabe, uma paixão de Américo Facão. No papel do protagonista, o ator Ricardo Moura está impecável, mas, um capricho adicional é a sensível trilha musical, composta para o filme pelo cantor e compositor Adeildo Vieira.

O médico Manoel Jaime é co-roteirista de "Américo - falcão peregrino".

O médico Manoel Jaime é co-roteirista de “Américo – falcão peregrino”.

Carol

20 jan

Com seis indicações ao Oscar, está em cartaz na cidade e no mundo “Carol” (2015), filme de Todd Haynes, com Cate Blanchett no papel-título.

O filme é baseado em livro de 1952 de Patricia Highsmith, mas vamos por etapas. No comecinho dos anos cinquenta a jovem escritora Patricia Highsmith ainda era uma ilustre desconhecida. O seu romance de estreia  “Strangers on a train” (´Estranhos em um trem´, 1950)) mal fora notado pela crítica e pelo público. Esse anonimato, porém, não durou muito. É que no ano seguinte, essa estória de crimes trocados foi filmada por ninguém menos que Alfred Hitchcock. Pronto: a fama estava feita. A partir daí, Highsmith tornou-se uma das escritoras mais lidas nos Estados Unidos, com direito a entrevistas à imprensa e palestras universitárias. Hitchcock apenas abriu o caminho, pois, os estúdios ficaram de olho nos escritos de Highsmith e, com o passar do tempo, muitos de seus livros foram à tela, alguns até mais de uma vez, como é o caso de “The talented Mr Ripley”, que deu o filme de René Clément “O sol por testemunha” (1960) e o de Anthony Minghella “O talentoso Mr Ripley (1999).

Tudo começou numa loja de departamento

Tudo começou numa loja de departamento

Houve, contudo, um livro seu que ninguém quis filmar. Pelo menos, por muito tempo. Publicado em 1952, chamava-se “The price of salt” (ao pé da letra: ´o preço do sal´) e, diferente dos outros, não tratava de crimes perfeitos. Ao contrário, era uma forte estória de amor, para a época, nada convencional. Semi-autobiográfico e assinado com o pseudônimo de Claire Morgan, o livro narrava o relacionamento amoroso entre uma jovem atendente de loja de departamento em Nova Iorque, e uma senhora de meia idade, classe média alta, que, com uma filha pequena e um marido possessivo, vivia um casamento infeliz. Provavelmente por causa da temática lésbica, o livro hibernou com a pecha de ´infilmável´, mesmo depois da abolição da censura. E certamente ainda estaria hibernando, se o cineasta Todd Haynes não lhe tivesse posto os olhos.

Na bem cuidada adaptação de Haynes, o caso de amor entre a jovem Therese (Rooney Mara) e a elegante senhora Carol (Cate Blanchett) é descrito com delicadeza e sem muito apelo sexual. Concebida com bom gosto, a única ´cena de cama´ com as duas mulheres é mais poética que erótica, e as duas atrizes, nela e no filme inteiro, dão desempenhos convincentes e tocantes. Nos anos cinquenta, o romance de Highsmith foi considerado muito ousado, não apenas pela temática, mas, principalmente pelo seu final feliz, que parecia aplaudir a relação lésbica, atitude então inconcebível. Com a tranquilidade (?) de hoje em dia, depois de todos os movimentos LGBT, o filme segue a felicidade do final literário, o que, na sessão em que assisti, arrancou aplausos da platéia.

Mulheres apaixonadas nos anos cinquenta

Mulheres apaixonadas nos anos cinquenta

A rigor, não há um grande enredo, ou enfoque original, que justifique algum destaque especial para o filme de Haynes, porém, há qualidades inegáveis que fazem parte do estilo do diretor. Uma delas é a reconstituição de época, em que Haynes é sempre bom, sobretudo, quando a época são os anos cinquenta. Lembram de “Longe do paraíso” (2002), onde ele refilma o “Tudo o que o céu permite” de Douglas Sirk? Em “Carol” a reconstituição é tão perfeita que acho que nem precisava aquela ´marcação visual de tempo´ pela imagem de “Crepúsculo dos deuses” (1950), entrevisto em certo momento só para dizer que estamos nos anos cinquenta.

De minha parte, o de que mais gostei foi a discreta mas comovente homenagem a David Lean e o seu insuperável “Desencanto” (“Brief encounter”, 1946).

Uma atendente de loja com dons fotográficos.

Uma atendente de loja com dons fotográficos.

Sim, para quem tem bons olhos, “Carol” assume a estrutura narrativa do filme de Lean – começando a estória do casal apaixonado pelo final e a esse final retornando, pouco antes do filme se concluir, reencenando uma mesma situação diegética: em despedida dolorosa, em local público (restaurante), o casal desfruta dos minutos fugazes em que deveriam estar a sós nesse derradeiro instante de privacidade, e, para desolação geral, é interrompido por um amigo inconveniente que aparece do nada e destroi completamente o clima. Até o toque da mão daquele que parte (aqui Carol, em Lean, Dr Harvey) sobre o ombro daquela que fica (Therese/Laura), digo, até isso foi encenado para que o espectador cinéfilo não tivesse dúvida sobre a homenagem prestada.

A homenagem também é interessante por sugerir igualdade entre o amor hetero e o homo, mas, por ironia, “Carol” sai, inevitavelmente, perdendo em emoção no cotejo com “Desencanto”. Não é culpa de Haynes: qualquer outra estória de amor moderna perderia para o filme de Lean.

Como disse, “Carol” não é nenhum grande filme que mereça algum tipo especial de destaque, porém, ao meio da parafernália desmedida e barulhenta que assola nossas telas, merece uma espiada. Sem violência, escatologia ou efeitos especiais, é um filme ´adulto´, no sentido simples em que esta palavra é antônima de ´infantil´.

Carol: um casamento em crise

Carol: um casamento em crise

Que estranho chamar-se Federico

6 nov

Não veio ao circuito comercial local, mas, acabou de entrar na programação da TV paga o belo e comovente “Que estranho chamar-se Federico” (2013), filme-homenagem de Ettore Scola ao seu colega, amigo e compatriota Fellini.

O filme de um cineasta que amo sobre um cineasta que amo. Vocês não imaginam a ansiedade com que me preparei para ver, e a alegria com que o vi, a mesma com que escrevo.

Sem mais nem menos, “Que estranho chamar-se Federico” é o esperado, um filme com a sofisticação de Scola e a fantasia de Fellini, as duas coisas juntas e inconsúteis. Sim, porque o filme é sobre os dois, e não apenas um. De forma solta e imaginativa, sem se preocupar em ser documental, Scola faz questão de centrar-se na amizade e nos pontos de contato entre os dois, deixando o resto de lado.

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Para tanto, inventa um narrador que, primeiro se insinua como voz, e depois de corpo inteiro. Não um narrador qualquer, mas um que tem todo aquele jeito de personagem felliniano, inclusive, o de intrometer-se no narrado. Uma vez encontra-se num café da época e a garçonete vem lhe trazer a conta, e ele retruca que “sou o narrador, e narrador não paga”, ao que a moça responde que sim, senhor.

O filme começa com o mestre Fellini em sua cadeira de diretor, de costas para nós, olhando a paisagem a sua frente, que deve ser o mar de sua Rimini natal. E aí, magicamente, uma luz de cenário se acende, e passam a desfilar diante dele, dançarinos, saltimbancos, palhaços, acrobatas, tudo como se num show circense.

A partir daí, mas sem obedecer a cronologias, vai-se narrando episódios na vida do cineasta. O primeiro deles, e talvez o mais demorado, é a sua entrada na revista romana de humor “Marc´Aurelio”, como chargista. Seus desenhos e suas charges são motivos de pequenas encenações e o espectador tem a chance de constatar o cineasta inventivo que esses rabiscos prometiam.

Jovens intelectuais na Roma dos anos 50

Jovens intelectuais na Roma dos anos 50

Seis anos depois, à mesma “Marc´Aurelio”, chega o jovem Ettore Scola, com o mesmo propósito, sendo aceito do mesmo modo. A essa altura Fellini já saíra do jornal e já fazia sucesso como cineasta premiado, mas isto não impede que os dois se encontrem e se tornem companheiros de trabalho e amigos. Até porque são muitos parecidos: como assegura o narrador, “ambos meio abstratos, sem jeito para atividades físicas, nunca chutaram uma bola, os dois apaixonados por desenho, pintura e cinema”.

E não podiam faltar os percalços. É o que se tem nos primeiros sketches de um Fellini ainda tateante, encenados no palco modesto de um teatro de revista: sem achar graça no humor dos textos, a platéia começa a jogar lixo no velho ator que performatiza o quadro. Claro, tudo muito felliniano!

Muitas das cenas em que os dois cineastas aparecem juntos soam como fictícias, sem que isso tenha propriamente importância. Para quem conhece a filmografia de Fellini, são, na verdade, cenas poeticamente necessárias, como aquela em que, numa noite qualquer, a dupla dá uma volta pelas ruas de Roma, e, na calçada das putas, oferece carona a uma delas, a qual, no banco de trás do carro, lhes relata quase toda a sua vida. Se se prestar atenção, nesse relato descontraído estão elementos que alimentariam muitos dos roteiros fellinianos, entre os quais o de “La strada”, ou de “Noites de Cabíria”.

Sempre o teatro de revista...

Sempre o teatro de revista…

Pontos comuns entre os dois também são pessoas. Marcelo Mastroiani, por exemplo. E o filme remonta a “A doce vida” para o qual o ator indicado pela produção era Paul Newman, e não o “tipo comum” (palavras de Fellini) Mastroiani, por sua vez, quase recusado, anos mais tarde, por Scola, para o seu “Casanova e a revolução”. Uma canja histórica são as verídicas ´auditions´ que Sordi e Gassman fizeram para ganhar o papel.

Uma das poucas cenas documentais é o funeral de Fellini que, encerraria o filme, não fossem os protestos dos produtores. E então, Scola dá um jeito de jogar em cena mais uma de suas licenças poéticas. Matreiro, Fellini dribla os dois enfeitados carabinieri que guardam o féretro, e às escondidas, escapole pelos becos da cidade, até chegar ao que queria, um carrossel onde vai se divertir feito menino. E com o movimento do carrossel vêm as imagens de seu mundo fantasioso, um caleidoscópio frenético com que dele nos despedimos a rever as cenas mais queridas de suas películas…

É claro que essa licença poética não foi exigência dos produtores. Com certeza, ela já estava no roteiro que o hoje idoso Scola bolou com a ajuda preciosa de suas duas filhas queridas, Paola e Silvia.

Em tempo: a frase que intitula o filme (no original: ´Che strano chiamarsi Federico´) é reprodução de um certo verso de um poeta espanhol que foi xará de Fellini: Federico Garcia Lorca.

O mestre Fellini.

O mestre Fellini.

Anthony Quinn

22 out

Neste 2015, se vivo fosse, Anthony Quinn teria completado cem anos de idade. Acho que o fato merece nota e convido o leitor a recordar esse que foi um dos maiores atores do Século XX.

E começo com Umberto Eco. Falando de rostos em um de seus “Diários Mínimos”, Eco relata que estava um dia em Nova Iorque, numa beira de calçada apinhada, tentando atravessar a rua, quando estira a cabeça para um lado e, lá adiante, divisa o rosto de uma pessoa que fizera o mesmo. Era o rosto de um desconhecido, que, no entanto, lhe pareceu incrivelmente familiar. Segundos adiante, a rua atravessada, lhe cai a ficha: era o rosto de Anthony Quinn, tão perdido no meio da multidão quanto ele.

O teórico da semiótica e o ator de cinema nunca se conheceram, mas, quem é que, tendo vivido o Século XX, não retém na mente as feições de Anthony Quinn?

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Esse mexicano, descendente de irlandês pelo lado paterno, nasceu em Chihuahua, em 21 de abril de 1915. Durante a revolução mexicana seu pai foi soldado de Pancho Villa, mas, finda a revolução, em situação financeira difícil, a família muda-se para Los Angeles, onde o pai vai trabalhar de cameraman nos Studios Selig. Acompanhando o pai no trabalho, chega a conhecer e ficar amigo de mitos do faroeste primitivo, como Tom Mix.

Contudo, não foi nessa época que o cinema o pegou. Órfão aos nove anos, Quinn teve que lutar pela sobrevivência em muitos sub-empregos, como pregador de rua, magarefe, açougueiro e, mais tarde, boxeur. Tentou a escola, sem muito sucesso, e só muito tempo depois, já adulto feito, experimentou um curso de arquitetura.

No cinema começou em pontas, geralmente no papel de índio em filmes faroeste. Ao desposar, em 37, a filha do afamado diretor Cecil B. DeMille, sua carreira toma rumo mais regular, apesar de o sogro nunca ter simpatizado com seu lado latino. Para se ter uma idéia, até 1947, aos 32 anos, Quinn ainda era um imigrante mexicano, sem cidadania americana.

Seu prestígio de ator só veio mesmo nos anos cinquenta, depois de ter passado pela Broadway, onde impôs um nome, substituindo Marlon Brando no papel de Kowalski na peça “Um bonde chamado desejo”. O sucesso teatral de Quinn criou uma rivalidade entre Brando e ele, e contam que foi motivado por essa rivalidade que o cineasta Elia Kazan colocou os dois juntos em “Viva Zapata” (1952), filme que deu a Quinn o seu primeiro Oscar.

Quinn em "Vida Zapata" (Kazan, 1952)

Quinn em “Vida Zapata” (Kazan, 1952)

Depois disso vai morar na Itália, onde vem a filmar o felliniano “La strada” (1954). A rigor, fica revezando-se entre Europa e América, mas sua preferência era clara. “Na Europa um ator é um artista; em Hollywood, se você não estiver trabalhando é chamado de vagabundo”: chegou a desabafar. Um exemplo típico dessa mistura de continentes está em “Sede de viver” (1956), filme hollywoodiano sobre Van Gogh, onde ele faz o papel de Gauguin, e arrebata o seu segundo Oscar.

Foi essa internacionalização profissional que o levou ao ápice de sua carreira, no início dos anos sessenta, com sua inesquecível participação em “Lawrence da Arábia”, e no que até hoje é o seu filme mais cultuado pelos cinéfilos: “Zorba, o grego” (1964).

Nenhum ator de cinema americano revezou tão bem papéis principais e de coadjuvante, mas, a mim, o que me ocorre é que ninguém assumiu, na tela, tantas nacionalidades diferentes. Repassem a extensa carreira de Quinn (cerca de 137 filmes) e confiram suas muitas etnias fílmicas: esquimó, índio, mongol, ucraniano, huno, espanhol, francês, italiano, irlandês, americano, judeu, havaiano, grego, filipino, inglês, chinês, basco, árabe, e, naturalmente… mexicano.

No felliniano "La strada" (1954)

No felliniano “La strada” (1954)

Para fechar a homenagem, faço seguir, sem contar os filmes já mencionados no texto, uma lista de dez títulos em que Anthony Quinn, como ator principal ou coadjuvante, brilhou:

 

O corcunda de Notre-Dame (Jean Delannoy, 1957)

A fúria da carne (George Cukor, 1957)

A orquídea negra (Martin Ritt, 1958)

Minha vontade é lei (Edward Dmytryk, 1959)

Duelo de titãs (John Sturges, 1959)

Sangue sobre a neve (Nicholas Ray, 1960)

Retrato em negro (Michael Gordon, 1960)

Os canhões de Navarone (J. Lee Thompson, 1961)

A visita (Bernard Wicki, 1964)

A voz do sangue (Fred Zinnemann, 1964)

 

Em "Zorba, o grego" (1964), o ápice de sua carreira.

Em “Zorba, o grego” (1964), o ápice de sua carreira.

Cine Tambaú

4 jun

 

Por que nunca escrevi sobre o extinto Cinema Tambaú, eu que tanto escrevo sobre cinemas extintos? Alguns amigos já reclamaram e eu não soube o que responder.

É, de fato, estranho, pois fui, desde a sua abertura, no começo dos anos setenta, um frequentador assíduo daquela elegante casa de espetáculos, tão elegante quanto o Hotel todo.

Não sei que filme o inaugurou e não devo ter comparecido a essa estreia festiva, porém fui lá, sim, nas primeiras semanas de seu funcionamento, entusiasmado de estar adentrando um novo cinema em João Pessoa, numa época em que os mais antigos já estavam fechando suas portas.

Eu morava em Jaguaribe, bairro afastado da praia, e naquela época, as distâncias em João Pessoa eram bem maiores. Devo ter ido de ônibus, mas não me arrependi. Ao contrário, adorei o cinema e o filme, e logo senti que aquela trajetória de ônibus iria se repetir muitas vezes.

Vista parcial do Hotel Tambaú, que abrigava o cinema.

Vista parcial do Hotel Tambaú, que abrigava o cinema.

Anos depois, mudei-me para Manaíra e o acesso ficou mais fácil.

Das minhas boas lembranças cinematográficas fazem parte coisas ocorridas no Cinema Tambaú, quase todas nos anos oitenta, por exemplo: uma mostra Glauber Rocha, quando do falecimento do cineasta baiano; uma mostra do alemão Fassbinder, também recém falecido; e uma mostra Hitchcock, na ocasião da liberação dos seus filmes embargados, entre os quais “Janela Indiscreta” e “Um corpo que cai”. E, enfim, exibições de outros tantos clássicos (“Vidas amargas”, por exemplo) que a gente – ainda sem a invenção do VHS – não tinha chance de ver ou rever de outro modo.

Nada mais agradável do que sair da sessão do Tambaú, atravessar a rua e ir tomar umas cervejas com amigos, na Lanchonete Nutritiva, ou então, comer ou beber em qualquer barraca da então chamada Feirinha de Tambaú.

Eu falei em cinema extinto, mas o caso do Tambaú é atípico: o cinema morreu, mas a sala ainda está no mesmo lugar, hoje com o nome do construtor do hotel, Sérgio Bernardes. Sala que, aliás, acolheu, durante quatro ou cinco anos, o nosso querido “Fest-Aruanda”.

Cartaz de "O passageiro da chuva" (1970).

Cartaz de “O passageiro da chuva” (1970).

Voltando ao início da crônica, o filme que vi na minha primeira visita ao Cinema Tambaú foi um delicioso thriller francês do veterano René Clément, “O passageiro da chuva” (“Le passager de la pluie”, 1970), cujo charme, na minha cabeça sonhadora, associei ao charme do cinema, como se um tivesse sido feito para o outro.

Na estória, essa dona de casa (a pequenininha e frágil Marlene Jobert) era estuprada dentro de casa por um estranho e o matava, jogando seu corpo num lago. Logo em seguida, aparecia esse Mr Dobbs (o grandão e forte Charles Bronson), dando a pinta de que sabia de tudo o que ocorrera, embora “Love-love”, como ele a chamava (por causa de uma inscrição em sua camiseta) negasse o crime até o fim. O resto era uma interminável briga de gato e rato, e o delineamento de um caso de amor mais escondido que o próprio crime.

Eu conhecia René Clément de longas datas. Ele foi um daqueles cineastas franceses execrados pela Nouvelle Vague, e, no entanto, tinha talento, tanto ou mais, que muitos nouvellevaguistas. Além de talento, era – como os mesmos nouvellevaguistas – um fã incondicional de Hitchcock, e a ele fez várias homenagens. Aliás, uma ironia do destino é que o filme com que presta homenagem ao mago do suspense fez, no mesmo período da inauguração da Nouvelle Vague, muito mais sucesso que os lançamentos de Truffaut, Godard, ou Chabrol. Digo sucesso, ambos, de crítica e de público: refiro-me a “O sol por testemunha” (1960).

Marlene Jobert e Charles Bronson em ação.

Marlene Jobert e Charles Bronson em ação.

Pois é, não dá para entender a indisposição dos nouvelleguistas para com Clément, pois os seus filmes dos anos quarenta e cinquenta são clássicos que honram a história do cinema francês, basta citar “Brinquedo proibido” (1952) e “A batalha dos trilhos” (1946).

Em “O passageiro da chuva” o intertexto hitchcockiano perpassa tudo; por exemplo, é com bebida que Mr Dobbs tortura Love-love (Cf “Intriga Internacional”), a qual sofre de lampejos culposos da infância (Cf “Marnie”). Esse intertexto é indicado pelo próprio cineasta, ao dar ao criminoso o nome de Macguffin. Confesso que, na época em que vi o filme eu não conhecia esse curioso conceito teórico, tão importante em Hitchcock, e, como todo mundo por aqui, teria que esperar anos pelo lançamento do livro “Truffaut/Hitchcock: entrevistas”… Não disponho de espaço para explicá-lo, e deixo ao leitor a curiosidade de pesquisar o significado do termo “macguffin” em linguagem cinematográfica.

Revi agora em DVD “O passageiro da chuva”, para mim, um retorno ao Cinema Tambaú e, com “macguffin” e tudo mais, um prazer em partilhar a brincadeira hitchcockiana de René Clément.

Um serial killer chamado Macguffin...

Um serial killer chamado Macguffin…