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11 fev

RETABLO

Desde que o tema da homossexualidade – em meados dos anos setenta – passou a ser permitido nas telas, muitos, como se sabe, têm sido os filmes que o enfrentam. Os cenários desses filmes são quase sempre as grandes cidades e as histórias, enfatizando o choque de gerações, giram, geralmente, em torno de jovens que se descobrem homo e sofrem a repressão da família e da sociedade.

“Retablo” (2018, Alvaro Delgado Aparicio), filme peruano em cartaz no Cine Banguê, também trata da questão homossexual, porém, diferentemente do habitual, se passa numa pequena aldeia dos Andes, a dez mil metros de altura, e o homossexual da história não é um filho de 14 anos, e sim, um pai, que, por sinal, exerce a mais tradicional das profissões locais, a de artesão, detentor de um conceito que faz com que todos o chamem, com muito respeito, de “mestre”.

Nos seus 14 anos de idade, Segundo ajuda o pai na confecção dos “retablos” – estruturas de madeira e massa que, com seus bonecos de barro, representam cenas populares. Nessa ajuda vai aprendendo essa profissional artística, extremamente criativa, que destoa da prevalecente no local, a de agricultores ou criadores de ovelhas.

Um dia, a caminho da cidade para vender a produção caseira, Segundo e o pai, tomam uma carona numa camioneta de um desconhecido. No meio da viagem, o que ocorre? Da boleia do veículo, Segundo divisa uma cena erótica entre o pai e o motorista.

Naturalmente, o choque é forte e, a partir daí a relação pai/filho vai tomar contornos dramáticos. Não pretendo contar os detalhes do enredo, mas cabe dizer que, enquanto Noé e Anatólia (os pais do garoto) são – assim como todos os outros viventes da aldeia – personagens planos, iguais a si mesmos, do começo ao fim, Segundo faz toda a diferença no filme, podendo ser chamado – se quisermos seguir os preceitos da teoria ficcional – de “personagem redondo”. Sim, em toda a história, é ele o único a se transformar e sua transformação contém a mensagem do filme. Vejam que ele passa de (1) admirador do pai para (2) antagonista, para (3) admirador novamente. Os turning points entre estas três fases são duas cenas marcantes no filme: uma, quando Segundo, indignado com a descoberta, agride o pai; a outra, quando – depois de o pai, espancado pelos habitantes do lugar, haver se tornado o horror da aldeia – o acaricia e beija.

E um dado importante: em nenhum momento fica sequer sugerido que Segundo tenha feito a opção pela homossexualidade. Sua atitude final para com o genitor ferido e morto – é possível sentir – nasce da solidariedade e do reconhecimento de um aprendizado inestimável: o trabalho artístico, mas, mais que tudo, do amor incondicional de um filho por um pai.

Na verdade, as transformações de Segundo estavam previstas desde o início. Notemos que ele não compartilha a linguagem chula e a violência dos rapazes da aldeia. E quando é forçado a ser violento, entra em crise. Nisso ele lembra o protagonista de um filme dos anos cinquenta, (“Chá e simpatia”, 1955, de Vincente Minnelli, sem coincidência, o primeiro hollywoodiano a trata da homossexualidade) que, vivendo num campus universitário americano prefere poesia e teatro a futebol e outros esportes violentos.

Um destaque deve ser dado ao jovem ator Junior Bejar no papel de Segundo, com desempenho excelente da primeira a última cena.  Um momento ilustrativo é aquele em que se vê o seu rosto em close, de noite, na cama, ouvindo os sons do amor que fazem seus pais, já havendo ele descoberto a preferência homo do genitor, na ocasião sendo obrigado a atender as solicitações amorosas da esposa. Para quem conhece a história da interpretação no cinema, uma bela negação do famoso “efeito Kulechov” em que, para se ter emoção, um contraplano seria necessário. Aqui, ao contrário, está tudo no rosto do ator.

Como o filme de Minnelli, “Retablo” é uma obra delicada, que poderia tocar o ridículo, e nunca o faz. Por exemplo, com exceção da breve e metonímica cena erótica na camioneta, não nos é dado ver a prática homo de Noé, embora vejamos as suas consequências – um homem quase morto pelo espancamento. Ao contrário, “Retablo” é poético e conquista o espectador em todos os seus belos detalhes, aí incluídos as paisagens e os costumes andinos. A rigor, e independente da questão sexual, poucos filmes na história do cinema, trataram com tanta delicadeza, e com tanto sentimento envolvido, a relação pai/filho.

Tenho receio que a sua recepção vá se restringir aos espectadores LGBT. O que seria uma pena, pois “Retablo” é um filme para todo mundo.

DOR E GLÓRIA

20 ago

Lançado em junho no Brasil, já está em DVD o último filme do cineasta espanhol Pedro Almodóvar.

Em tom de autobiografia, “Dor e glória” (“Dolor y gloria”, 2019) conta o drama de um escritor e cineasta que, em crise de meia idade, vive mais ou menos recluso, acreditando-se incapaz de voltar a escrever ou filmar, situação agravada pelos seus problemas de saúde e de viciado em drogas.

Enquanto lida com a crise, lhe vêm ao espírito as lembranças mais caras, as da infância, quando, atolados na pobreza, ele e os pais são forçados a residir dentro de uma ´gruta´, numa região do país em que as casas eram escavadas nas rochas.

Desde então, nos seus dez anos de idade, o menino precoce Salvador Mallo, já gosta de cinema e coleciona álbuns de figurinhas, dos quais uma página nos é mostrada em close, e lá estão: Kirk Douglas, Donna Reed, Tyrone Power, Loretta Young, Robert Taylor, Lana Turner, Alan Ladd, ou seja, toda a Hollywood clássica que formaria o gosto do adulto.

A história prossegue nesse vai e vem, entre vida adulta e infância, como fazem muitos filmes de hoje em dia, mas não exatamente.

Biográficas ou ficcionais, as viradas de enredo que, fundadas no elemento do acaso, fazem o melhor de Almodóvar são mais que bem vindas. Cito duas, ambas relativas ao presente, ou seja, à vida do personagem adulto, feito por um Antonio Banderas impecável: (1) o aparecimento súbito do “old flame” de Salvador que, por mero acaso, entrara no teatro e assistira à peça “Vicío”, onde ele é personagem importante.  (2) a igualmente casual descoberta por Salvador desse desenho, exposto numa galeria de arte, que o pintor de paredes de sua infância fizera dele, sem coincidência, no mesmo dia de sua maravilhosa visão inaugural do corpo masculino, visão que vai lhe direcionar a opção sexual para o resto da vida.

Aliás, uma cena erótica delicada, suave, e, sobretudo, lírica, poética, que, na concepção e na encenação deve ter exigido do autor e da equipe extremo zelo e capricho, para a explicitação da nudez não resultar apelativa, ou mesmo pornográfica. Sim, o que se tem aqui é um garoto de dez anos descobrindo, num rude pintor de parede que se banha despido num tacho, o seu Tadzio. (Cf o “Morte em Veneza” de Visconti).

Fazendo jus ao título, uma longa seção do filme é dedicada à dor, mas isto, sem morbidez ou escatologia. Toda uma série de complexos desenhos e gráficos do corpo humano aparecem na tela, no momento em que Salvador narra em voz over, suas enfermidades, que são muitas. Até eu, que sou patofóbico crônico, curti a beleza dessa aula de anatomia…

A metalinguagem do final é mais que apropriada, no sentido em que faz sugerir que todo o filme a que acabamos de assistir seria de autoria do protagonista Salvador Mallo, o qual, supostamente, teria superado a crise e voltado ao ofício cinematográfico, no caso, contando a história de sua vida.

Assistindo a “Dor e glória” dou-me conta de algo sobre minha reação aos filmes de Almodóvar, que nunca me ocorrera antes: é que um dos elementos que me fazem gostar deles está – e eu não me dera conta ainda – na fotografia. Sim, noto agora como essa fotografia, tão óbvia e tão clara, sem as sombras atuais, tem o mesmo cromatismo brega e belo dos velhos melodramas dos anos cinquenta (tipo: “A caldeira do diabo”, “Palavras ao vento”, “Amores clandestinos”…) – e, claro, em se tratando de Almodóvar, isto é extremamente proposital.

A revista de cinema “Little White Lies” considera “Dor e glória” uma obra prima. Não sei se chega a tanto, mas, que gostei muito, gostei.

Almodóvar com o elenco do filme

“O Confeiteiro”, ou, a torta alemã contra o Velho Testamento

9 abr

Na Berlim de hoje, Thomas mantém esse Café, onde serve sua especialidade: uma saborosa torta alemã. Sua freguesia não é grande, mas seleta, até porque ele não confeita bolos para ficar rico, e sim, por prazer.

Um freguês seleto é Oren, esse empresário israelita que, a negócios, vem a Berlim todo mês, e, aproveita para degustar a torta de Thomas, e levar uma fatia para a esposa, em Jerusalém. Thomas e Oren se identificam, se tornam amigos, e, mais que isso, amantes. Amantes que só se veem uma vez ao mês, mas tudo bem…

Um dia Thomas telefona para Oren e ninguém atende. Este sofrera um acidente em sua terra, e falecera. Depois de um tempo de luto, o que faz Thomas? Toma um avião e, sem identificar-se, vai ver de perto a família do amante. Consegue emprego na lanchonete de Anat, a viúva de Oren, e lá passa a confeitar a sua deliciosa torta alemã, a qual logo começa a ter muito mais saída do que a comida judia que Anat, forçada pela tradição do Velho Testamento, é obrigada a cozinhar. Ocorre que Thomas e Anat se envolvem na medida direta em que a torta alemã “vence” o Velho Testamento, e, a partir daí, o espectador começa a testemunhar um novo relacionamento amoroso…

Narrado com elegância e delicadeza, o filme “O confeiteiro” (“The cakemaker”, 2017) do jovem cineasta israelense Ofir Raul Graisor ambiguiza categorias conceituais em vários níveis – político (Alemanha versus Israel), gustativo (torta alemã versus comida judaica) e sexual (homossexualidade versus heterossexualidade).

Interessante é a construção do personagem Thomas, que ao longo de todo o filme, articula poucas palavras. Esse quase silêncio o torna mais misterioso e mais intenso. Quase sempre absorto em seu minucioso labor de confeiteiro, nos passa a impressão de uma alma insatisfeita com as limitações de suas circunstâncias, mas – de algum modo que não nos é dado entender – tranquilo na sua insatisfação. E apesar dos pesares, um personagem “doce”… se se puder dizer, como suas tortas. Com ele, nota-se que o filme quer ser um pouco menos realista, e um pouco mais, se for o caso, lírico.

Trata-se de uma estória de amor (ou duas, se for o caso), porém, uma estória muito pouco convencional – admitamos. Vejam que, no final do filme, muito tempo depois de Thomas ter sido literalmente expulso de Jerusalém por uma mulher que se sentiu duplamente traída, o que pode nos dizer a última cena em que, em plena Berlim, a esposa/amante traída observa de longe o “Café da torta alemã” e seu proprietário que, no momento, sem se saber vigiado, monta sua bicicleta e pedala em direção a seu lar solitário?

Como sói acontecer, o desenlace da estória não é dado ao espectador, que deve preencher as lacunas ficcionais a seu gosto: (1) Thomas e Anat se encontrarão e retomarão o namoro? (2) Os dois se manterão apenas amigos? (3) Jamais se verão e cada um esquecerá o ocorrido? Ou, enfim, uma outra alternativa, que não me ocorre no momento?

“O confeiteiro” faz, de alguma forma, o espectador lembrar um filme dos anos noventa, “Traídos pelo desejo” (“The crying game”, 1992, de Neil Jordan), porém, dele ganha na contenção, na beleza, e como já sugerido, na doçura. Não é sem coincidência que o elemento diegético que une o desencontrado “triângulo” amoroso seja justamente o refinado sabor da deliciosa torta alemã – no caso, contraposto ao gosto manjado da tradicional, obrigatória em Jerusalém, comida judaica.

Sochi, Rússia.

7 nov

Em fevereiro de 2014, eu estava convalescente de um problema de saúde, e, com locomoção reduzida, não havia muito a fazer. O que fiz muito foi ver televisão. Por coincidência, estavam começando os jogos Olímpicos na Rússia, em Sochi, e eu, que nem ligado a esportes sou, me entreguei a acompanhar o espetáculo todo, belo espetáculo que celebrava a paz e a convivência entre os povos. Quanta saúde, quanta beleza, quanta democracia!

Democracia? Bem, agora, três anos depois, me chega este documentário “To Russia with love” (Noam Gonik, 2014), contando os bastidores de um evento esportivo que já foi problemático e tenso… bem antes de se acender a tocha inaugural.

Acontece que, em um tempo estratégico entre a escolha da Rússia pela COI e o início dos jogos, as autoridades russas decidiram, sem mais nem menos e meio às escondidas, passar uma lei que proibia aos participantes do Evento, estrangeiros ou nativos, a “propaganda de relações sexuais não-tradicionais”.

Ora, estrangeiros ou não, os atletas diretamente atingidos (os gays ou LGBT) se viram em um impasse perigoso: denunciar a lei discriminatória ou calar? Alguns dos atletas suíços, canadenses, australianos eram gays já assumidos em seus países de origem, e a situação começou a ficar estranha para eles; estranhamento menor para os russos, acostumados a silêncios obrigatórios.

Nos dias que precederam os Jogos, chegou a haver indagações se a escolha da Russia para sediar as Olimpíadas teria sido sensata, mas o fato é que, a essa altura dos acontecimentos, a escolha estava consumada, e não havia nada mais a fazer, salvo participar… ou não. Todos participaram e – para o bem ou para o mal – não houve manifestação pública de protesto. Houve, porém, muitas, individuais e sentidas, que o filme, rodado in loco, captou e editou, dando ao conjunto uma forma orgânica e pulsante.

O governo Obama ainda teve o cuidado de enviar, como representante, a Secretaria de Esportes, Billie Jean King, um mito do tênis, hoje idosa, mas sempre uma defensora das liberdades homoafetivas, ela mesma, desde sempre lésbica assumida. Medalhas de outro como Mark Tewksbury (nado), Jason Collins (Tenis) e Greg Loganis (mergulho), todos gays assumidos de longa data, participaram das filmagens de “To Russia with love”, porém, em nível mais privado que público.

Billie Jean King, ícone do tênis, enviada a Sochi como secretária de esportes.

Bem, e aí o filme vai se centrando em casos pessoais, que são muitos. Uma atleta canadense iria estar junto de sua companheira suíça, também atleta premiada… O dançarino do gelo, o russo Johnny Weir iria aparecer com suas roupas extravagantes… Iria haver problemas? Tudo indicava que não, contanto que não se fizesse referência à homossexualidade.

Uma das declarações das autoridades russas à imprensa foi que – ao cidadão de maior no país é permitido fazer suas escolhas sexuais à vontade, e concluía com uma grande conjunção adversativa: “mas, por favor, deixem nossas crianças em paz”. Visivelmente, homossexualidade, para eles, se confunde com pedofilia – e usam o argumento com ênfase.

De tal forma que um caso difícil é o do jovem russo que por ventura se descobre homossexual antes dos 18 anos de idade. Caso desse Vladislav Slavsky, 17 anos e aluno do Escola Secundária,  que, não sendo propriamente atleta, entra no filme pelo seu ímpeto ativista. Massacrado na escola pelos colegas, e mesmo pelos professores, Vlad aproveita a ocorrência das Olimpíadas na sua cidade, Sochi, para protestar. A americana Billie Jean King toma conhecimento do seu caso, e Vlad, termina ganhando passaporte para os Estados Unidos, onde irá estudar na Universidade da Califórnia.

O dançarino do gelo, Johnny Weir.

Já o Presidente russo da Liga LGBT de Esportes come o pão que o movimento Nazi amassou, mas, nem por isso, desmorona… nem pensa em deixar o seu país, por nada na vida. Talvez com mais amargura, o skater Weir passa uma visão menos encantada da Rússia. Diz ele: é como se fosse sua avó; você a ama, mas sabe muito bem que ela é alienada e vive do passado.

Um dos casos mais tocantes no filme é, com certeza, o daquele pai americano que viaja a Sochi só para dar apoio aos atletas LGBT: perdera o filho gay, vítima de violência homofóbica.

O filme termina melancolicamente, com os atletas estrangeiros, em seus respectivos países de origem, falando das Olimpíadas em Sochi como algo já passado. Mas a gente sabe, não tão passado. A atleta canadense de esqui rápido, por exemplo, se indaga se, ao abraçar sua companheira suíça, diante das câmeras de televisão russa, não devia tê-la beijado na boca. O fato é que não o fez.

Enfim, belo filme: suave e delicada lição de cidadania e também de cinema.

Olimpíadas em Sochi, 2014,

A “doce vida” gay em um filme afetivo

23 ago

Eu canto o corpo elétrico / Os braços dos que amo me envolvem e eu os envolvo / Eles não me largarão até que eu vá com eles, lhes responda, / E os liberte, e os preencha com a carga da alma.”

 

Com tradução minha, é assim que começa o longo poema “I sing the body electric”, do grande poeta americano Walt Whitman, poema que teria servido de inspiração para os realizadores do filme “Corpo elétrico” (2017), no momento em cartaz na cidade.

O filme do novato Marcelo Caetano mostra a vida diária e noturna de empregados de uma fábrica de confecções na São Paulo de hoje, com relativa concentração em um dos personagens, Elias (o paraibano Kelner Macêdo), um jovem de 23 anos que, morando só, se divide entre o trabalho e muitas aventuras homoeróticas.

Mas não esperem clichês: ao contrário da maior parte dos filmes que conhecemos sobre o mundo LGBT, “Corpo elétrico” não é um libelo, nem um panfleto. Não há protestos, nem denúncias, e tudo é muito leve, talvez leve demais.

Os conflitos são sutis e não há mesmo o desenvolvimento de um enredo, com esperados turning points, nem mesmo a progressiva e aprofundada construção de um protagonista. O que há mais é a descrição compassada de uma situação: a dessa comunidade de empregados de uma fábrica, seu cotidiano e seu lazer: só isso.

Apesar das muitas relações sexuais graficamente exibidas, “Corpo elétrico” é um filme em que, praticamente, nada acontece. Quando a gente se dá conta de que ele termina em aberto, com festa e, em seguida, no mar, não há como não lembrar certo filme de Fellini. Aqui, claro, um “La dolce vita” dos pobres. A diferença, obviamente, é que Fellini é crítico na descrição de sua sociedade, ao passo que Marcelo Caetano é afetivo, quase cúmplice.

E mais: grande parte da estrutura do filme se sustenta em lacunas. Por exemplo, sabe-se que o protagonista Elias é paraibano, mas só isso. Nenhuma informação sobre sua vida pregressa. Conversando com um colega novato, um imigrante de Guiné-Bissau, quando este lhe fala na importância da família, Elias escuta e, pensativo… cala. Seria este o momento de fazer referência à sua família, na Paraíba, mas o silêncio – para o colega e para nós – é a resposta.

Assim, evasivos, são também os seus casos amorosos. O caso com o vigilante do prédio vizinho começa com imagens (quando se conhecem), mas só temos o seu desenvolvimento em palavras, e mesmo assim ele fica sem paradeiro… O mesmo se diga do caso com o novato africano, tentado, sem sucesso… Para não falar do caso com o companheiro mais frequente – aquele com quem se abre o filme, os dois despidos na cama, depois de uma cópula – um relacionamento sem passado manifesto e sem futuro prometido…

Que essa ausência diegética de passado e futuro é chave no filme fica evidente no que seria o desenlace. Depois do ano novo na praia, Elias deveria voltar ao trabalho (como lhe lembra o companheiro), e no entanto, ele prefere o mar e seu mistério infinito – último fotograma que nossos olhos têm o direito de divisar.

Por estas e outras, o espectador é levado a cogitar se o filme faz a proposta de uma sociedade diversa, por exemplo, sem lugar para o conceito de família e de trabalho – uma espécie de utopia a alcançar. Mas, não queiramos ir tão longe: suave, descontraído, descompromissado, o filme não tem nada de assertivo.

Às lacunas diegéticas, de fato, pode se dizer que corresponde uma lacuna semântica, mas, cuidado, esta última é proposital, assumida, e o espectador fica livre para preenchê-la a seu gosto.

Só para voltar ao poema inspirador do filme: em Walt Whitman, materialidade (expressa na palavra “braços”) e espiritualidade (em “alma”) deveriam ser a mesma coisa. E são.

No filme de Marcelo Caetano essa simbiose é (só) uma promessa. Mas, suponho, uma promessa válida…

O ator paraibano Kelner Macêdo em cena do filme.

O tabu homossexual

25 jul

Muitas são as diferenças entre o cinema de antigamente e o de hoje. Uma marcante tem a ver com a censura, hoje em dia, quase inexistente, mas, nos velhos tempos, uma espinha enfiada na garganta dos cineastas, roteiristas e produtores, sobretudo em Hollywood, onde vingou o famigerado Código Hays, de 1934 a 1964.

Esta semana eu estava vendo esse filme finlandês recente “A jovem rainha” (“The girl king”, 2015) e pensando no assunto da censura.

O filme de Mika Kaurismäki conta a estória verídica da sueca Cristina que, com a morte do pai, o rei Gustavo Adolfo, tornou-se rainha aos seis anos de idade e governou, no século 17, um país luterano e belicoso. Mas, o centro do enredo é, na verdade, a vida amorosa da rainha, que, premida pela corte para casar e gerar um herdeiro ao trono, ao invés disso, apaixona-se por sua dama de companhia, a bela Condessa Ebba Sparre, e é plenamente correspondia. Impossibilitada de assumir publicamente o seu amor homossexual, a rainha Cristina recusa todos os seus pretendentes, adere ao catolicismo e morre virgem. Antes disso, porém, a câmera não esconde cenas de alcova entre as duas mulheres apaixonadas.

Mulheres apaixonadas em “A Jovem Rainha” (2015).

Inevitavelmente, lembrei o passado. Lembrei a primeira e “inocente” versão sobre a vida da antiga soberana sueca, filme de nome “Rainha Cristina” (1933), com Greta Garbo no papel-título. Dirigido por Rouben Mamoulien para a MGM, o filme fugia ao tema da homossexualidade como o diabo da cruz. Nada de Condessa Sparre, e no lugar dela, inventava-se um embaixador espanhol (John Gilbert) para ser o grande amor proibido da Rainha, a qual, de tristeza por não poder consumar a paixão por motivos políticos, saía perambulando pelas paisagens inóspitas de seu país, vestida de homem. Sim, os trajes masculinos eram, curiosamente, a única referência à homossexualidade da personagem, uma referência subliminar demais para ser percebida pelas inocentes plateias de então.

Tais modificações (ou deturpações, se for o caso) das fontes originais foram regra na Hollywood clássica, controlada pelo rigoroso Código Hays de Censura. As fontes originais podiam ser históricas – como no caso citado – ou ficcionais, tanto fazia, as modificações tinham que ser feitas, se os livros, romances, contos ou peças teatrais tratavam de amor entre pessoas do mesmo sexo.

Ray Milland, no papel do alcoólico de “Farrapo Humano”.

Um exemplo de romance adaptado à tela e estrategicamente modificado está em “Farrapo humano” (Billy Wilder, 1945). Publicado no ano anterior às filmagens, o romance do escritor Charles Jackson, a rigor, contava a estória e o drama do seu autor, um homossexual condenado por si próprio.

Na estória original, o universitário Don Birman é expulso de sua Fraternity (residência universitária) por estar sexualmente envolvido com um colega. A partir daí, se entrega ao alcoolismo, e as duas coisas juntas, homossexualidade reprimida e ingestão descontrolada de álcool, o levam ao fracasso profissional. Claro, os roteiristas tiveram o cuidado de ignorar as motivações gay do protagonista e centrar no vício da bebida, e o filme, uma produção da Paramount, foi um grande sucesso, ganhando, aliás merecidamente, quatro estatuetas do Oscar.

Um caso digno de nota está nas duas adaptações cinematográficas que recebeu a peça da escritora Lillian Hellman, sobretudo por demonstrar as primeiras frágeis vitórias dos profissionais de Hollywood na luta contra a censura.

Escrita na primeira metade dos anos trinta, a peça, mais ou menos autobiográfica, chamava-se “The children´s hour” (´a hora das crianças´, se fôssemos traduzir) e contava o drama de duas professoras de escola primária que mantêm uma relação afetiva, mais ou menos ambígua, e são denunciadas por uma das alunas.

Audrey Hepburn e Shirley MacLaine, em “Infâmia”, a versão de 1961.

Dirigido por William Wyler para a MGM, “Infâmia” (1936), o primeiro filme a adaptar a peça, teve o título original de “These three” (´esses três´) e modificou o problema, de lesbianismo para adultério: o rumor divulgado pela aluna maldosa referia-se agora, não mais a uma relação homo, mas, a um suposto caso entre uma das professoras e o marido da outra.

Vinte e cinco anos depois, em 1961, quando o Código Hays já estava caducando, o mesmo William Wyler, dirigiu, agora para a United Artists, uma nova versão fílmica da mesma estória, desta feita com o mesmo título da peça original, “The children´s hour”, (no Brasil, foi mantido o título de 1936: “Infâmia”) e – finalmente – com o mesmo conteúdo, ou seja, a questão do lesbianismo, com interpretações excelentes de Audrey Hepburn e Shirley MacLaine.

Aqui estão comentados apenas três filmes clássicos que, por ingerência da censura, ignoraram, encobriram e/ou driblaram a problemática homossexual de suas matrizes.

Aos interessados na temática, tomo a liberdade de indicar um longo ensaio, constante deste blogue, em que reviso a história da homossexualidade no cinema clássico – desde sua invenção até os anos sessenta. Um empréstimo linguístico de Oscar Wilde, o título do ensaio é “Quando o amor não ousava dizer seu nome”.

Greta Garbo é a “Rainha Cristina”, a versão “inocente” de Rouben Mamoulien, de 1933.

“Vidas Amargas” com amigos

18 abr

Fui recentemente convidado por um grupo de amigos para conversar sobre cinema, e o filme escolhido foi “Vidas amargas” (1955). Esta matéria contém as anotações do meu comentário sobre esse clássico de Elia Kazan, que considero um dos filmes mais importantes do seu século.

Acho que há várias maneiras de ler “Vidas amargas”, e aqui não faço mais do que imaginar e sugerir algumas – quatro, na verdade, cada uma delas tendo a ver com as outras três.

Uma primeira sugestão de leitura seria colocá-lo no contexto de sua década, como um daqueles filmes que empreenderam os primeiros bombardeios ao “bom” conceito de família.  Até então esse conceito sagrado era salvaguardado pelo Código Hays de Censura, e pouca gente em Hollywood tinha a coragem de problematizá-lo. Creio que o símbolo mais concreto dessa condição intocável da família estava na imagem da cama de casal que aparecia nos filmes hollywoodianos até então: sempre dupla, uma em um lado do quarto, a outra, no outro lado, como se papai e mamãe não fizessem sexo. De repente, uma certa Hollywood, mais ousada e corajosa, começou a quebrar tabus, com filmes que, não apenas passaram a falar de sexo doméstico, mas a mostrar a roupa suja nos bastidores familiares.

Na segunda metade dos anos cinquenta, muitos filmes fizeram isto: com maior ou menor consequência recepcional, ou estética, entrariam nesse rol, por exemplo, “A caldeira do diabo” “Férias de amor”, “Imitação da vida”, “Amores clandestinos”, “Juventude transviada”, e outros mais. E “Vidas amargas” foi um dos primeiros a ter essa coragem.

Relembremos o grosso do seu enredo: supostamente viúvo, o fazendeiro Adam Trask (Raymond Massey) é pai do consciencioso e sensato, Aaron (Dick Davalos), filho predileto, e do rebelde e inconsequente Cal (James Dean). Acontece que este último detém um segredo que partilha conosco: ao contrário do que sustenta o honrado fazendeiro, não longe dali vive Kate (Jo van Fleet), a mãe dos dois rapazes, uma mulher estranha, dona de bordéis e bares, altamente respeitada na esfera mundana, que, sufocada um dia pelo moralismo do marido, abandonara o lar. Quando o fazendeiro cai em dificuldades financeiras, Cal procura essa mãe marginal e lhe pede uma grana para, sem que o pai saiba, plantar feijão, aproveitando a subida de preços, decorrente da Guerra Mundial. No dia do aniversário do pai, um Cal ansioso para agradar oferece a quantia ganha com os feijões como presente e é rechaçado pela indignação paterna, que só vê desonestidade no ato de se lucrar com a morte de soldados americanos. Confuso e em crise, Cal conduz Aaron ao bordel onde vive a mãe maldita e o resultado é a fuga do irmão e uma trombose do pai.

James Dean e Raymond Massey em cena final.

Uma outra forma de ler “Vidas Amargas” seria como um filme de James Dean. De modo trágico, o jovem ator faleceu no ano de sua estreia e o mito, ajudado por seus dois outros filmes (“Juventude transviada” e “Assim caminha a humanidade”), logo tomou forma e cresceu. Nos três filmes, Dean fazia o papel de um jovem rebelde e/ou incompreendido, com quem uma parcela enorme de espectadores jovens passou a identificar-se. Os estudos de sociologia do cinema têm confirmando as mudanças comportamentais ocorridas na época em função dessa identificação. Por outro lado, vale lembrar que Dean foi o típico ator kazaniano. Veio do Actors Studio (que Kazan fundou) e foi descoberto para o cinema por Kazan. Por ter conseguido um primeiro lugar em teste para o Actors, foi contratado para os palcos da Broadway, onde protagonizou a peça “O imoralista”, baseada no livro de André Gide. Nessa peça, Dean interpretava o homossexual que afirmava sua homossexualidade de forma ostensiva, quase cruel, quase misógina. Kazan assistiu à peça e o solicitou para o papel de Cal em “Vidas Amargas”. Em entrevista, o próprio Kazan conta, com certa ironia maldosa, o quanto gostou do fato de que a relação de Dean com o pai era difícil, do mesmo modo que, durante as filmagens, foi difícil a relação de Dean com o ator veterano Raymond Massey (Adam Trask, o pai) que o detestava: tudo isso foi assumidamente usado como “laboratório” para o filme – era parte do “Método” de Kazan.

O presente recusado: conflitos entre pai e filho

Uma terceira e inevitável maneira de ler “Vidas Amargas” seria como um filme de Kazan. Se comparado aos outros dezoito filmes do autor, vamos notar o quanto ele é característico de seu estilo, ao desenvolver o tema que foi o mais central em Kazan, a saber, o do outsider – outsider no grupo social, na família, ou no mundo, tanto faz. Trata-se de uma adaptação do livro de John Steinbeck, porém, Kazan cortou o que não interessava aos seus propósitos e centrou na figura do inadaptado Cal. Como nos seus filmes mais marcantes, há dois tipos de conflito, um externo (aqui, um pai puritano e uma mãe prostituta), outro, interno (o de Cal, que não consegue se fazer compreender, nem dentro, nem fora da família). O conflito interno é sempre o mais importante, porque é o que demarca o protagonista como essencialmente outsider – condição que parece ter sido a do próprio Kazan, aliás, confirmada em entrevista por ele mesmo – um eterno imigrante nos Estados Unidos, e, como se não bastasse, malquisto em vista de sua delação na Comissão de Atividades Anti-americanas.

É verdade que o personagem de Cal é, no desenlace, redimido pelo perdão paterno, mas, o que fica para o espectador é a sua condição marginal e ambígua, aliás, sugerida pela óbvia remissão bíblica, expressa já nos nomes do trio masculino: Adão (Adam), Abel (Aaron) e Caim (Cal).

Cal na roda gigante com a cunhada Abra.

Resta ler “Vidas amargas” em si mesmo, enquanto realização cinematográfica que atinge um nível de qualidade inquestionável. Para tanto, seria o caso de observar o quanto a sua forma expressa o seu conteúdo de modo estético e efetivo. Esse fato se dá em todos os aspectos do filme, da música à montagem, da fotografia às interpretações, mas, para efeito de análise chamo apenas a atenção para o modo sistemático e impressionantemente eficaz como a câmera efetua os enquadramentos, sobretudo nos momentos mais dramáticos, como: (1) na primeira visita de Cal ao bordel que a mãe administra, do qual ele, aos protestos, é expulso à força: (2) em casa, no aniversário do pai, quando o dinheiro do feijão plantado é impiedosamente recusado, o filho, em prantos, abraçado ao corpo paterno; (3) na trágica terceira e última visita ao bordel materno, agora com o irmão sendo literalmente empurrado para os braços de uma mãe indesejada. Na ocasião, com apenas dois anos de emprego, a técnica do cinemascope era novidade e, em vista de sua extensão horizontal, havia o preconceito quanto a sua possibilidade de expressar os desvãos da alma humana: Kazan é o primeiro a, na prática, derrubar o preconceito.

Como disse acima, estas quatro alternativas de leitura de “Vidas amargas”, só estão separadas para efeito de análise, quando, na verdade, elas se imbricam em um conjunto coeso, possivelmente mais pertinente do que suas partes.

Em tempo: esta matéria é, com carinho e admiração, dedicada a Zezita Matos.