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Escritor de Segunda Unidade

10 set

A expressão acima não existe. Acabei de criá-la, e o fiz em analogia ao cinema. A expressão cinematográfica é “Diretor de Segunda Unidade”, que preciso explicar pra justificar o título desta matéria. Vá lendo, que chego lá.

Hoje nem tanto, porém, nos velhos tempos da Hollywood clássica o “Diretor de Segunda Unidade” era uma figura imprescindível na produção de um filme. Sobretudo se o filme era de ação, mais ainda se essa ação se estendia a campos de batalha. Os combatentes poderiam ser os índios e a cavalaria americana, ou os nazistas e os aliados, ou os gregos e os troianos, pouco importava…

O que ocorria é que essas cenas com centenas ou milhares de figurantes na frente da câmera (e claro, sem tomadas dos atores principais) normalmente não eram filmadas pelo diretor principal – aquele cujo nome aparecia nos créditos do filme. Não. Essas cenas cheias de movimentação – cujo conjunto tinha a finalidade de dar uma visão geral da batalha – ficava ao encargo do nosso Diretor de Segunda Unidade.

Um empregado da Companhia com função bem particular, o Diretor de Segunda Unidade não tinha direito a crédito, e, em muitos casos, mal era conhecido do pessoal da produção. Até porque as suas filmagens eram feitas em locais distantes de Hollywood – e não necessariamente ao mesmo tempo da produção.

Quantas cenas de batalha nos filmes de, digamos, Raoul Walsh, Howard Hawks, Michael Curtiz ou mesmo de John Ford, não foram rodadas na ausência deles, apenas vistas depois em salas de montagem, onde eram “ajeitadas” para caber bem no fluxo narrativo do filme.

Pronto, devidamente apresentado o Diretor de Segunda Unidade,  vamos à questão: por que dei a esta matéria o título de “Escritor de Segunda Unidade”?

É que vivo sempre comparando cinema e literatura, e fico me indagando como poderia ser útil, no âmbito literário, um profissional desses, que ajudasse o romancista a não perder tempo com longas descrições de batalhas… pois ele mesmo as escreveria. Pensem no Tolstoi de “Guerra e paz”. Acho que ele teria ficado grato a um cara desses.

E no caso dessa arte essencialmente verbal que é a literatura, por certo a providencial atuação desse Escritor de Segunda Unidade não se limitaria às cenas de ação. Todas aquelas tediosas descrições de fachadas de casas antigas, ou mobiliários cheios de detalhes inúteis, ou de paisagens intermináveis, teria facilitado, se feitas por outrem, a vida de – digamos, Sthendal, Balzac, Melville, José de Alencar, Victor Hugo, e até mesmo Proust.

Naturalmente essse “Escritor de Segunda Unidade” teria que ser uma pessoa muito bem treinada para o ofício, e que, como no caso do cinema, receberia o seu devido pagamento… sem direito a crédito.

Pois bem, se existisse esse tipo de profissional no âmbito literário, acho que eu mesmo iria começar a me organizar para escrever um belo e longo romance. Já que não seria um romance de guerra, o meu Escritor de Segunda Unidade ficaria responsável pelas longas descrições das paisagens, das fachadas de prédios, e da rotina do personagem, coisas que me aborrecem só de pensar em fazer.

Aliás, para o meu Escritor de Segunda Unidade imagino um monte de funções com mais minúcias do que a do seu colega cinematográfico. Por exemplo, arranjar um título para o romance a ser escrito, como se sabe, coisa muitas vezes mais difícil do que escrever o próprio romance. Inventar os nomes dos personagens também poderia ser muito útil, nomes que os futuros exegetas da obra pudessem achar que tinha a ver com a temática abordada.

Mas, um serviço adicional, com direito a pagamento extra, que eu iria querer do meu Escritor de Segunda Unidade seria o seguinte: seria o de transmudar minhas pobres e insossas frases prosaicas em construções metafóricas, cheias de belas imagens que dessem ao texto algum viço, e se possível algum encanto.

O perigo seria, pronto o livro, ele reivindicar uma co-autoria.

Ou, pior, a autoria completa.

Lauren Bacall, teu nome é mulher

21 ago

De ascendência judia, a pequena Betty Joan Perske nasceu em Nova Iorque, em 16 de setembro de 1924 – o pai um comerciante próspero e a mãe, secretária. Seu sonho de menina era ser bailarina, mas a vida lhe reservara outro métier. Aquele que nós conhecemos.

Ao terminar a escola secundária a jovem Betty Joan matriculou-se na Academia Americana de Artes Dramáticas e descobriu-se atriz. Mas os caminhos para a fama são tortuosos, mesmo para quem tinha garra, talento e beleza.

Enquanto não apareciam as grandes oportunidades para a ribalta, seguiu a carreira de modelo, e, já com o nome artístico de Lauren Bacall, fez tanto sucesso que uma foto sua foi parar na capa de uma das mais badaladas revistas de moda da época, a “Harper´s Bazaar”.

bacall

A foto chamou a atenção de uma senhora, tão bela e elegante quanto a própria Bacall. Esta senhora, esposa do afamado diretor Howard Hawks, mostrou a foto ao marido, fez a sugestão, e não deu outra: ela foi logo contratada pela Warner Brothers para atuar, ao lado do já famoso Humphrey Bogart, na adaptação do conto de Hemingway “To have and have not”, filme que no Brasil chamou-se “Uma aventura na Martinica” (1944).

A Sra Hawks e Lauren ficaram amigas, tanto que a atriz usou o nome de sua protetora no seu primeiro filme, Slim (é por esse apelido que Bogart a chama, lembram?), e não só isso: dizem que a sua figura pública foi toda moldada em cima do charme e elegância da Sra Hawks. Bem, de todo jeito, o que a Sra Hawks certamente não tinha era a sensualidade daqueles olhos felinos esverdiados e daquela voz rouca e aveludada.

Com Gregory Peck, em "Teu nome é mulher".

Com Gregory Peck, em “Teu nome é mulher”.

Enfim, Hollywood havia descoberto Lauren Bacall, que não parou mais de filmar, pode se dizer até o final do século. Com Bogart, com quem casou em 45 compôs, em pelo menos quatro filmes, uma das duplas mais queridas do cinema… até a morte do ator em 57.

Não tenho espaço para citar todos os filmes da carreira de Lauren Bacall e anexo a esta matéria apenas uma seleção de dez títulos de sua fase clássica. (Veja adiante).

De todo jeito, para não deixar de citar filmes da segunda metade do século XX, relembremos de passagem os seus papéis em: “Assassinato no Expresso Oriente”, “O último pistoleiro”, “O fã – obsessão cega”, “Louca obsessão”, “Pret-à-porter”, “Meus queridos presidentes” e “Dogville”.

Com Humphrey Bogart, em "Prisioneiro do passado"

Com Humphrey Bogart, em “Prisioneiro do passado”

Com filmografia tão vasta, Bacall nunca ganhou um Oscar por seu desempenho em determinado filme. Em 1996 foi indicada como coadjuvante no filme de Barbra Streisand, “O espelho tem duas faces”, mas perdeu. Em 2010, é que foi homenageada pela Academia com um Oscar honorário pelo conjunto de sua carreira.

Atriz talentosa, é difícil escolher o seu melhor desempenho. Fiquemos apenas com o personagem que mais ressaltou seu charme e elegância, possivelmente aquela comédia romântica de Vincente Minnelli onde ela, contracenando com Gregory Peck, faz uma bela estilista, eventualmente mais charmosa que suas freguesas. O filme se chama “Teu nome é mulher” (1957), que, por razões óbvias, julguei um bom título para esta matéria.

Num outro clássico dos anos cinquenta, “Angústia de tua ausência” (1958), infelizmente um filme sem grandes méritos estéticos, o seu personagem é uma dona de casa que vem a falecer e retorna na forma de um anjo da guarda, que passa a proteger o marido e a filha pequena. Agora, na ocasião de sua morte, não duvido nada que algum fã inconformado esteja aspirando a sua benfazeja proteção…

Com Marilyn Monroe e Betty Grable em "Como agarrar um milionário"

Com Marilyn Monroe e Betty Grable em “Como agarrar um milionário”

 

Dez clássicos para lembrar Lauren Bacall (1924-2014):

 

Uma aventura na Martinica (1944)

À beira do abismo (1946)

Prisioneiro do passado (1947)

Paixões em fúria (1948)

Êxito fugaz (1950)

Como agarrar um milionário (1953)

Paixões sem freios (1955)

Palavras ao vento (1956)

Teu nome é mulher (1957)

Angústia de tua ausência (1958)

 

Em "Angústia de tua ausência";  anjo da guarda do lar

Em “Angústia de tua ausência”; anjo da guarda do lar

 

 

 

 

O Cassavetes de nossos dias

16 maio

Por que fui ver “Mulheres ao ataque” (“The other woman”, 2014), filme em cartaz na cidade? Acho que foi por teimosia.

Explico-me. O diretor é Nick Cassavetes, filho de um cineasta que muito admiro, John Cassavetes (1929-1989), o mentor do que um dia foi o “cinema independente americano”, aquele movimento novaiorquino que, nos anos sessenta, deu aos Estados Unidos o seu equivalente às vanguardas que então eclodiam em outros países, como a Nouvelle Vague francesa e o Free Cinema inglês.

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Eram filmes produzidos fora dos estúdios, no caso de John Cassavetes, feitos com um encantador tom autoral, quase invariavelmente estórias de casais em crise amorosa, sempre com a musa do diretor, sua esposa Gena Rowlands. Sem fôlego comercial, muitos desses filmes, como A canção da esperança (1961), Minha esperança é você (1963), ou Faces (1968), não frequentaram o circuitão e, no geral, são pouco conhecidos do grande público. Mas todos grandes filmes.

Só que eu já sabia – e nisso reside a minha teimosia – que nem sempre filho de peixe é peixinho, pois, dez anos atrás, eu havia visto o Nick em seu início de carreira, com o seu terceiro filme “Diário de uma paixão” (“The notebook”, 2004). Vira, não gostara e escrevera sobre, dizendo que não gostara e por quê. Era um filme com bons ingredientes (inclusive, com a ainda bela e talentosa Gena Rowlands, mãe de Nick), mas, uma estória melodramática pouco plausível, e não muito hábil no gesto de envolver o espectador.

Agora, com este “Mulheres ao ataque” a decepção de dez anos atrás é dez vezes maior. Não há dúvida de que “o Cassavetes de nossos dias” debandou para o besteirol, sem se incomodar de fazer uma comediazinha idiota, como as que comete em série a Hollywood eletrônica dos tempos atuais.

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Um parêntese literário: em poema conhecido, “Dis aliter visum”, o poeta inglês Robert Browning reclamava da burrice da sua época, a paradona e pouco fértil Era Vitoriana, diminuindo pejorativamente o poeta contemporâneo seu com o subtítulo maldoso: “o Byron de nossos dias”. Desculpem-me, mas é neste mesmo sentido que sublinho a expressão acima, “o Cassavetes de nossos dias”…

O enredo do filme até que é interessante: o tratamento dado é que não é.

Uma jovem esposa (Leslie Mann) descobre que o marido gostosão tem uma amante (Cameron Diaz) e, ao invés de procurar o cônjuge para os devidos acertos de conta, procura a amante, a qual, não sabendo que o cara era casado, sente-se tão traída quanto a esposa. Depois de muitos mal-entendidos, as duas se tornam amigas e quando estão planejando algo, descobrem, estupefatas, que na vida do cara há uma terceira mulher (Kate Upton), a qual, por sua vez, experimentando a mesma sensação de traição, termina por se juntar às outras duas e, como está no título brasileiro do filme, partem ao ataque.

Cheio de gags desnecessárias e ridículas, o filme apela para o riso fácil e, como dito, tome besteirol! Quedas de batentes, jarros quebrados, vômitos dentro de bolsas, farsas inviáveis com pernas e braços alheios, perseguições desastradas, brigas truculentas… a lista não termina mais, porém, o pior de tudo é um cachorro sabido que se faz onipresente, como um personagem incomodamente indispensável.

No cinema, ouvi pessoas rindo, divertidas com as gags e ainda quis me convencer de que estava sendo exigente demais com o filme, porém, confesso, não aguentei o desperdício de película e – coisa rara – deixei a sala de exibição antes de o filme terminar.

A atriz Cameron Diaz é uma das mulheres atacantes.

A atriz Cameron Diaz é uma das mulheres atacantes.

Saí e fui tomar uma taça de vinho lá fora, lembrando por contraste, não tanto os dramas pesados do pai de Nick, mas, por causa da temática de “Mulheres ao ataque”, as comédias de amor dos velhos tempos.

Entre um gole e outro, vieram-me à mente a elegância e o charme de filmes como “Levada da breca” (Howard Hawks, 1938), “A costela de Adão” (George Cukor, 1939), “Núpcias de escândalo” (Cukor, 1940)… – todos eles comédias repletas de situações realmente hilárias, algumas bastante surrealistas, e que, no entanto, não ofendiam a inteligência de ninguém, muito pelo contrário, a estimulavam.

Os diretores não eram filhos de gênios: eram gênios eles próprios, e – pelo menos nesses três casos que me ocorreram diante da taça de vinho – tínhamos, na cabeceira do elenco, ninguém menos que Katherine Hepburn…

Hoje quem temos? Cameron Diaz…

Saudades do nariz arrebitado de Katherine Hepburn

Saudades do nariz arrebitado de Katherine Hepburn