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MAIS LEAR

17 jul

Na minha última postagem tratei do filme recente “King Lear” e, logo em seguida, e por pura coincidência, me cai nas mãos este “O último ato” (“Humbling”, 2014), de Barry Levinson, que eu não vira na estreia, e que também trata do velho rei shakespeariano.

Mas, atenção, agora não se trata de uma adaptação da peça de Shakespeare.

O filme é a estória de um idoso e decadente ator do palco novaiorquino que, em triste fim de carreira, não sabe o que fazer da vida, e, uma noite, no meio de uma atuação no palco, para espanto da plateia, pula da ribalda para o chão e quase morre.

Depois disso, tem-se a impressão de que o filme, tal qual o ator, não sabe para onde ir, e ficamos o tempo quase todo com as lamentações em voz over do protagonista e sua relação problemática e nada clara com três personagens: com o seu analista, que só aparece na tela de seu notebook; com uma fã amalucada que quer porque quer que ele mate seu marido; e com uma jovem lésbica que com ele se envolve sexualmente, sem, contudo, deixar de ser lésbica.

E onde é que chegamos a Lear?

Bem, temos que esperar o filme quase todo para, nos vinte minutos finais, o agente do ator trazer a proposta de um grupo de produtores para o nosso ator interpretar, no palco da Broadway, o papel do trágico rei shakespeariano. Depois de muita relutância, a proposta é aceita e os minutos finais do filme são a encenação, no palco, do reencontro de Lear e sua filha Cordelia, claro, com as respectivas mortes dos dois.

Há, porém, um detalhe que – de novo, para espanto da plateia presente – difere da peça: como se sabe, em Shakespeare o rei morre de tristeza (do coração, se diria); no filme, o ator que o representa (e, portanto, o personagem idem) se suicida com uma punhalada no abdômen. Vendo o ator/personagem agonizar, ensanguentado, no piso do palco, os outros atores da peça prosseguem com suas falas e a cortina baixa como se nada tivesse acontecido. É o fim da peça e o fim do filme. A peça é entusiasticamente aplaudida pela plateia presente; já o filme, não sei que aplausos pode ganhar.

De todo jeito, e para fazer um pouco de justiça ao filme, há, antes desse desenlace, elementos que a ele conduzem, e que ligam o drama do ator ao de Lear. Algum tempo antes, ele, o nosso ator (interpretação de Al Pacino) tivera um sonho, ou pesadelo, em que vinha vê-lo no ensaio da peça a mãe de sua amante lésbica, que no passado fora também amante sua, e, com ar ameaçador, lhe revela que a moça é filha dele. Ele não acredita, mas, acreditando ou não, é morto na hora pela mãe da moça, que lhe enfia uma adaga no abdômen.

Na noite da estreia da peça, a moça se desentende com ele e, aos gritos e insultos, o abandona, tudo indica que para sempre – aparentemente, assim como Lear, no começo da peça fora abandonado por Cordelia. Obviamente, mesmo infundada, a sugestão no sonho, a de que essa moça seria filha do velho ator, aproxima ainda mais a vida com a ficção do palco e, assim, “justificaria” a morte real do ator no fechamento da peça.

Competente como sempre, a interpretação de Al Pacino como o idoso ator em crise profissional e existencial não salva um filme moroso e, em muitos aspectos, manjado, e às vezes, sem sentido.

Por exemplo: a personagem daquela fã amalucada do ator e toda a sua estória sobre o marido que seria um cretino que precisava ser assassinado, parece fora da essência do drama do protagonista, nada lhe acrescentando, aliás, nem a ele, nem ao enredo. É possível que no livro adaptado de Phillip Roth essa personagem meio deslocada funcionasse bem, mas aqui não. Se não servia para o filme, bem que poderia ter sido dispensada.

Por falar em deslocamento, um fato que me intrigou diz respeito a um certo intertexto fílmico, intrometido no diálogo num momento chave: por que será que (e tomara que o meu leitor me responda), ao ser abandonado pela jovem companheira, o velho ator implora que ela não vá, que fique, que não o deixe, exatamente com estas palavras: “Come back, Shane” e repete “Shane, Shane, Shane…”?

Será que, entre a tragédia de Lear e o faroeste “Os brutos também amam” de George Stevens (1953) existe uma relação subliminar que não estou sendo capaz de alcançar?

Aceito sugestões.

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