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A soma de todos os ódios

18 ago

A ocasião em que, nos Estados Unidos dos anos cinquenta, passou a vingar a lei federal que obrigava as escolas de segundo grau a aceitarem a matrícula de alunos de cor ficou conhecida como “o Dia da Integração”.

Ora, às vésperas desse dia, chega a essa pequena cidade do sul americano, racialmente segregada como muitas outras, um desconhecido misterioso que se hospeda no hotel local, informando que deve ficar por duas ou três semanas. E logo saberemos: ele veio com o fim precípuo de incitar a população do lugar a posicionar-se contra a lei e rechaçar os estudantes negros de suas salas de aula.

Um filme que começa assim, não dá para parar de ver, dá? Pois é, nos States dos anos cinquenta/sessenta, especialmente no Sul racista, o clima era tenso por toda parte, e, em cada tomada do filme “O intruso” (“The intruder”, 1962), o espectador sente isso: que está no meio de um paiol prestes a explodir, um paiol a que essa figura misteriosa – a mando não se sabe de quem – veio disposto a atear fogo.

Adam Cramer, a soma de todos os ódios...

Adam Cramer, a soma de todos os ódios…

Adam Cramer (esse o nome do ´intruso´) fala à população em nome de uma ´democracia limpa´ (leia-se: sem negros) e acusa comunistas e judeus de estarem por trás da Lei da Integração.

Os habitantes do lugar o ouvem e aplaudem, e os ânimos vão se acirrando cada vez mais. Até se partir para a ação, que é o que Cramer visivelmente tem em mente. Com efeito, no dia seguinte, quando os jovens negros deixam as suas favelas e, de livros e cadernos debaixo dos braços, se dirigem à Escola da cidade, uma multidão branca, ostensivamente fechando a entrada da Escola, encena um amplo e ruidoso protesto, com cartazes, faixas, e gritos agressivos.

Antes de Cramer, as pessoas brancas do lugar, indagadas sobre a Integração, respondiam, com uma ambiguidade sintomática, que não gostavam da ideia, mas que a aceitavam, já que agora era lei. Depois dele, o conceito de lei dissipa-se e o ódio toma a dianteira.

A massa agitada pelo "intruso"...

A massa agitada pelo “intruso”…

Não sei até que ponto o roteiro baseou-se em fato acontecido, porém, é evidente que a construção do maligno protagonista é uma chave simbólica na estrutura semântica do filme – não tenham dúvidas de que ele, Adam Cramer, não é só uma pessoa; ele é uma condensação ideológica, “a soma de todos os ódios”.

Enfim, o clima de agitação na cidade cresce ao ponto de o seu mentor perder o controle da situação, mas, não quero contar mais, e fica a sugestão para o leitor assistir a esse forte e grande filme que o mestre Roger Corman dirigiu em momento de corajosa inspiração.

Estranhamente – ou talvez não – o filme de Corman foi um fracasso de bilheteria. Algum tempo depois da estreia a produção chegou a mudar o título, primeiro para o idiomático “I hate your guts” (ao pé da letra: ´odeio suas tripas´) e mais tarde para o mais abstrato “Shame” (´vergonha´), mas essas medidas em nada melhoraram a resposta de público.

O interessante é que outros filmes denunciando o racismo tiveram, antes dele, boas bilheterias, como “Acorrentados” (Stanley Kramer, 1958), “Imitação da vida” (Douglas Sirk, 1959) e “Audazes e malditos” (John Ford, 1960).

A essa altura dos acontecimentos, não sei quem ainda lembra quem é Roger Corman. Chamei-o acima de mestre porque, de fato, ele, com sua produtora independente – provavelmente a maior no país – e sua garra de ativista artístico, formou uma escola de cinema que ensinou a toda uma geração. Francis Ford Coppola, Ron Howard, Martin Scorsese e James Cameron estão entre os seus alunos, além de atores como Peter Fonda, Jack Nicholson e Robert De Niro.

Nem todo mundo ´engole´ Cramer: o jornalista desconfiado.

Nem todo mundo ´engole´ Cramer: o jornalista desconfiado.

Seus grandes sucessos de direção foram filmes de terror e ficção científica, muitos deles adaptações de Edgar Allan Poe, com o seu ator preferido, Vincent Price.

Para mim, por exemplo, o que da filmografia de Corman guardo são horror movies que vi na adolescência e que me tiravam o sono com seus cenários mal-assombrados e seus personagens doentios e atormentados. Engraçado, filmes que, mais tarde, na vida adulta, me conduziriam à leitura de Poe, como “O solar maldito” (1960) que adaptava “A queda da casa de Usher”.

Neste aspecto, ‘O intruso”, com sua ênfase na ideologia, seria um Corman atípico, mas acho que nem tanto. Em certa medida, também é um filme sobre o medo (ódio e medo, como sabemos, andam de mãos dadas) – um medo mais concreto do que o que tirara o meu sono de adolescente, mas de todo jeito, medo. Além do mais, é o próprio Corman quem afirma  (cito): “em todos os meus filmes existe, sim, uma subcamada política”.

Sobre “O intruso”, não hesito em afirmar: um filme (tristemente) atual… e, pior, universal.

Protestos brancos em frente à Escola.

Protestos brancos em frente à Escola.

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Só para relembrar Omar Sharif

14 jul

A morte do ator Omar Sharif (1932-2015) foi assunto da imprensa nestes dias. Aqui o relembramos através do seu filme mais amado, “Doutor Jivago” (1965), que por sinal, neste 2015, está completando cinquenta anos.

Se pudermos começar o nosso relato com um close, vamos nos centrar na mão iluminada de um grande poeta russo, que, debaixo da dureza do regime totalitário, rabiscava – e quando podia publicava – os seus poemas de tom místico e humanista que em nada batiam com a fechada ideologia vigente.

De repente, esse poeta inspirado, Boris Pasternak, decide escrever em prosa e produz – ironicamente – a obra pela qual ficaria internacionalmente conhecido: o romance semi-autobiográfico que conta a estória de um certo médico perdido entre a Revolução, a literatura e um amor adúltero.

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Inaceitável na URSS, “Doutor Jivago” é editado na Itália em 1957 e – surpresa! – ganha o prêmio Nobel, que Pasternak, evidentemente, é obrigado a recusar, vindo a falecer três anos depois, em 1960.

Uma estória dramática, um romance premiado, um autor injustiçado e morto… Os grandes estúdios americanos ficam de olho, até porque a grandiosidade da narrativa cabia nos parâmetros das superproduções a que a Hollywood decadente da época se agarrava com unhas e dentes.

Foi a já cambaleante MGM quem assumiu a realização da adaptação, chamada pelos comentaristas de “salada russa”, com referência à mistura das nacionalidades envolvidas: rodado na Finlândia, na Espanha e no Canadá, a companhia produtora foi a italiana de Carlo Ponti, e do elenco faziam parte alemães (Klaus Kinski), americanos (Rod Steiger), ingleses (Alec Guiness), e, claro, o egípcio Omar Sharif no papel-título. A trilha sonora foi para o francês Maurice Jarre e a fotografia para o inglês Freddie Young. Aliás, música e fotografia, as duas juntas, são um destaque estético que torna o filme memorável – acho que o leitor concorda comigo.

Omar Sharif e Julie Christie em "Doutor Jivago"

Omar Sharif e Julie Christie em “Doutor Jivago”

A direção vai para as mãos hábeis de um inglês que já provara ser bom em grandes produções. David Lean tinha feito “A ponte do rio Kwai” (1957), e em 1962 deslumbrara o mundo com o seu – também uma adaptação e também épico – “Lawrence da Arábia”, onde Sharif – vocês lembram – já estava. Ninguém melhor que Lean, sem contar que esse romântico inveterado já revelara, desde o intimista “Desencanto” (“Brief encounter”, 1945) que, independente do tamanho da produção, a sua temática preferida, aquela em que mais rendia, era a da ´mulher apaixonada fora do casamento´, sim, aquela mesma dos grandes romances do século XIX.

Mas como adaptar à tela um romance tão vasto, apesar do lirismo, de escala épica, cuja narrativa se iniciava no início do Século XX e se estendia para além da Segunda Guerra Mundial? A missão do roteirista Robert Bolt (o mesmo de “Lawrence”) foi reduzir a extensão da história e centrar-se no caso de amor entre o médico Yuri Jivago e a sua bela enfermeira Lara – uma imposição dos estúdios que o diretor – imagino – deve ter abraçado de muito bom grado.

Não vou resumir o enredo de um filme que todo mundo conhece, mas, cabe referir as críticas que o filme recebeu na época de sua estreia: o de trair a dimensão lírica e mística do romance de Pasternak, de cujas páginas fazem partes muitos de seus poemas mais inspirados. O outro ponto crítico foi a exploração do lado melodramático da narrativa, no investimento que faz no desafortunado romance entre Jivago e Lara, a Revolução Russa e seus efeitos aparecendo como pano de fundo.

Frio e solidão na paisagem gelada da URSS.

Frio e solidão na paisagem gelada da URSS.

O público é que não quis saber de nada disso e, não apenas acorreu aos cinemas, como, passado o tempo, incluiu o filme no imaginário da comunidade cinéfila do planeta. Hoje, quem tem dúvidas de que “Doutor Jivago” é um dos clássicos mais lembrados?

Do ponto de vista estrutural, uma mudança básica na adaptação está na escolha do foco narrativo, a estória inteira sendo contada a partir de um longo flashback, quando, tempos depois da Revolução de Outubro, o irmão do protagonista, Yevgraf (Guiness), encontra essa moça, operária nesse novo país, a URSS, que teria sido a filha do casal adúltero, Jivago e Lara.

Acho que o flashback funciona bem, agora, aqui para nós, o que nunca me pareceu apropriada foi a escolha de Rita Tushingham – uma das atrizes mais feias na história do cinema – para ser justamente a filha dos belos Julie Christie e Omar Sharif. Atriz talentosa, Rita esteve ótima naqueles filmes sobre ´gente como a gente´ do Free Cinema (Cf “Um gosto de mel”, por exemplo), porém, aqui lhe faltou o que a natureza não lhe deu: physique du rôle, ou seja, o físico apropriado ao papel.

Enfim, “Doutor Jivago”, um belo filme. Vamos ligar o aparelho de DVD e, entre outras coisas, relembrar Omar Sharif.

Rita Tushingham e Alec Guiness, em cena de abertura do filme.

Rita Tushingham e Alec Guiness, em cena de abertura do filme.

Pride

21 abr

Nos anos oitenta, sob o regime da dama de ferro Margareth Thatcher, a Inglaterra conheceu um fato digno de estudos sociológicos: uma greve de mineiros do Interior recebe o apoio voluntário de um grupo de homossexuais de Londres.

A greve é frustrada, mas, um ano depois, quando os gays e lésbicas organizam um grande evento em defesa da diversidade sexual, os mineiros ex-grevistas – para surpresa de todos – comparecem e, publicamente, manifestam o seu apoio, igualmente voluntário.

Histórico, o fato foi, na época, entendido como um sintoma de que é possível a solidariedade entre homossexuais e heterossexuais, cada um na sua, e cada um respeitando as inclinações e os direitos do outro.

Pois agora o fato histórico virou filme. Em “Pride” (2014), o diretor Stephen Beresford reconstitui, ficcionalmente, a estória toda da greve de 1985, e pode se dizer que o faz muito bem.

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O tempo de tela fica dividido entre, de um lado, os gays e lésbicas que em Londres coletam, nas ruas, o dinheiro em apoio à greve mineira, e, do outro, os poucos cidadãos do lugarejo de Onllyin, no vale galês de Dulais, que ousam recebê-los – a eles e à sua grana coletada – claro, de bom grado e com gratidão. E a narração, com bom senso, procura o equilíbrio entre o coletivo e o individual. Assim, ora o grupo é visto como um todo, ora vão se ter as estórias privadas de alguns dos participantes do movimento, quer do lado homo, quer do lado hetero. Um deles é esse rapaz que, ao longo do movimento grevista, adquire a coragem de assumir sua condição homo e enfrentar a família conservadora. Do outro lado (digo, o hetero), temos a estória dessa modesta dona de casa que, no mesmo processo grevista, se descobre uma líder com destino político.

Claro, num filme desses, cenas sobre o preconceito são obrigatórias, um pouco mais ainda em um tempo em que a Aids ainda era um mistério assombroso e sem controle. Por exemplo, quando os gays que apoiam os mineiros grevistas são chamados pela imprensa de ´pervertidos´, a gente lembra que na Inglaterra de vinte anos atrás, ou seja, anos sessenta, a homossexualidade ainda era, por lei, considerada crime.

Lésbicas e gays apoiam mineiros em greve

Lésbicas e gays apoiam mineiros em greve

Mas, um cuidado todo especial do filme é não parecer tendencioso. Homos ou heteros, todos são descritos como seres humanos, capazes de gestos nobres e vis. Como, segundo consta, a roteirização foi elaborada a partir de pesquisa de campo, supomos que o filme faça justiça aos personagens reais.

Uma coisa boa é a reconstituição de época, e, nela, a música tem um papel decisivo. Sucessos dos anos oitenta se repetem em série, sempre acompanhando as cenas coletivas, aquelas em que a ação conjunta, e não os diálogos, mais interessam. Inevitavelmente, a dança, mesmo sendo um elemento pontual, ganha um papel sintomático. Caso daquela cena no baile, em que as mocinhas do lugar ficam fascinadas com um gay que “arrasa” dançando, e esquecem os machos locais que mal conseguem mexer os ombros. Agora, atenção: dando certo com a tentativa de distanciamento do diretor sobre a questão sexual, observemos que não é um grupo de gays que dança: o dançarino que dá seu show é um único gay, enquanto os outros o observam de longe, tão admirados e intrigados quanto os machões presentes.

É verdade que a cena final parece apoteótica, com os ônibus chegando ao local da manifestação Gay Pride, deles desembarcando os mineiros, que vêm do Interior só para apoiar um evento homossexual, mas, nisso o autor do filme tem um atenuante em seu favor: como já dito, o fato aconteceu!

Os bastidores do movimento

Os bastidores do movimento

Nos créditos finais, são acrescidas informações sobre o destino dos personagens principais. Por exemplo: o jovem homossexual que encabeçou o movimento pro-mineiros grevistas morreu de Aids dois anos depois, e a aquela humilde dona de casa, acima referida, que entrou de corpo e alma na greve, fez brilhante carreira política e ainda hoje ocupa importante cargo no Parlamento Britânico.

Para quem já conhecia a história verídica da greve inglesa, “Pride” deve talvez parecer previsível. Por sua vez, previsível vai ser a sua recepção, a depender das tribos. Com certeza, a tribo dos homófobos vai subestimá-lo e, mutatis mutandis, a dos homossexuais vai superestimá-lo.

Para aqueles – como eu – sem tribo, trata-se de uma boa realização fílmica, feita com talento e humor, com o adicional de trazer à tona questões importantes para a construção disso que se chama cidadania, essa palavra que, hoje em dia, circula de boca em boca, sem que aparentemente os seus usuários compreendam bem a extensão de seu significado.

Mineiros em greve contra o terror Thatcher

Mineiros em greve contra o terror Thatcher

 

A onda

22 maio

Na Alemanha de hoje, o Nazismo é coisa do passado. Será? Seja a resposta afirmativa ou negativa, a questão é trazida à tona no filme “A Onda” (“Die Welle”, 2008), recentemente exibido entre nós, dentro da programação de cinema da Estação Cabo Branco.

Em uma escola de segundo grau, um professor de Autocracia resolve conduzir um experimento com sua turma. E o experimento consiste em fazer a classe inteira funcionar, ela mesma, como uma autocracia, ou seja, todos unidos para o que der e vier, seguindo os mesmos propósitos, vestidos do mesmo modo, e com um gesto para identificar os participantes, cada um encarregado de propagar “a Onda” – denominação do grupo. Apesar de algumas resistências, a classe quase toda adere à proposta e, de repente, a Onda – feito uma bolha assassina – começa a crescer e incomodar, no colégio e na cidade, a quem não a segue. Com o passar dos dias, alguns dos participantes da Onda vão virando fanáticos e, em certo momento decisivo, o professor dá-se conta de que a coisa saiu do controle. Ele só não imaginava o quanto, e, inevitavelmente, a estória toda termina em tragédia.

die-welle poster

Muito bem dirigido pelo quase novato Dennis Gansel, o filme prende o espectador desde o início e o faz acompanhar a narrativa com interesse, sobretudo quando se considera que tudo acontece em seis dias, de segunda à sábado, cada um dos dias marcado na tela. É, de fato, impressionante como, nesse breve tempo, podemos acompanhar, não apenas a formação e desenvolvimento da Onda, mas as transformações, emocionais, psicológicas e ideológicas por que passa todo um grupo de jovens. E isso de modo bastante realista.

Espécie de “ovo de serpente” (como se sabe, filme de Bergman, sobre o mesmo assunto), inevitavelmente o experimento do professor aparece como um microcosmo do que foi o nazismo, ou, se for o caso, como o microcosmo de qualquer regime totalitário e ditatorial.

Naturalmente, trata-se de um filme sobre o coletivo, lembrando aquela concepção chapliniana de que toda multidão é um monstro acéfalo (Conferir “Luzes da ribalta”), porém, ao meio do conjunto, dois personagens, pelas posições simétricas que ocupam na diegese, me chamaram a atenção como pontos chave para discutir os elos fugazes entre comportamento individual e comportamento social.

die welle 2

O primeiro é aquele estudante que assume a Onda como o que lhe faltava na vida, e radicaliza a sua conduta, ao ponto de se oferecer como vigilante do professor. É ele que, no desenlace, partirá para os gestos mais drásticos, que não revelo para não estragar o gosto de quem ainda não viu o filme. Solitário em sua vida privada, e frustrado em suas relações afetivas, fica claro que o seu mergulho na Onda é uma compensação para a incompletude de sua existência e, nesse sentido, o filme faz uma denúncia, válida para qualquer corporação, das pequenas (tipo: tribos) às maiores (tipo: regimes políticos).

A outra personagem que me interessou mais de perto foi a aluna que, desde o começo, repugnou a ideia da Onda, recusou-se a participar, e mais tarde, assumiu, quase sozinha, a difícil missão de, na prática, combater o movimento. É claro que, para o conflito (elemento essencial em qualquer narrativa) ter caráter extensivo, era preciso que surgissem oponentes da Onda dentro do seu seio (a sala de aula), porém, vejo como ideologicamente marcado o fato de que se tratou de uma mulher. O que nos permite – e acho que isso é proposital no filme – indagarmos sobre a pertinência das, sempre apontadas e refutadas, diferenças entre uma forma masculina de pensar (mais racionalismo e abstração…) versus, uma forma feminina (mais sentimento, senso de medida, concretude, etc…).

Todos de uniforme branco, menos a aluna dissidente

Todos de uniforme branco, menos a aluna dissidente

A existência dessa aluna dissidente também ilustra a riqueza do roteiro. Antes de a Onda ser formulada pelo professor, alguns alunos da turma ensaiavam uma peça, em que ela fazia o papel principal. Sem nenhuma coincidência, a peça, do dramaturgo Friedrich Dürrenmat, era “A visita da velha senhora”, que conta a estória de como toda uma população de uma pequena cidade – feito uma “onda”, cabe dizer! – adere a uma certa proposta politicamente incorreta de uma mulher muito rica. Que a aluna dissidente, no papel desta senhora, tenha sido demitida dos ensaios é um dado sintomático para a significação geral do filme.

Enfim, vê-se pouco cinema alemão por aqui, e essa Mostra recente, exibindo três filmes, preenche uma lacuna – um bom trabalho da coordenação de cinema da Estação Cabo Branco. Na sessão em que estive, o cinéfilo e escritor Andres Von Dessauer foi o debatedor do filme, e alguns dos pontos aqui levantados são ecos do debate entre ele e o público presente. Um ótimo exercício de cinefilia, para o qual espero ser convidado outras vezes.

Uma lição de autocracia: a palavra no quadro-negro

Uma lição de autocracia: a palavra no quadro-negro