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Que estranho chamar-se Federico

6 nov

Não veio ao circuito comercial local, mas, acabou de entrar na programação da TV paga o belo e comovente “Que estranho chamar-se Federico” (2013), filme-homenagem de Ettore Scola ao seu colega, amigo e compatriota Fellini.

O filme de um cineasta que amo sobre um cineasta que amo. Vocês não imaginam a ansiedade com que me preparei para ver, e a alegria com que o vi, a mesma com que escrevo.

Sem mais nem menos, “Que estranho chamar-se Federico” é o esperado, um filme com a sofisticação de Scola e a fantasia de Fellini, as duas coisas juntas e inconsúteis. Sim, porque o filme é sobre os dois, e não apenas um. De forma solta e imaginativa, sem se preocupar em ser documental, Scola faz questão de centrar-se na amizade e nos pontos de contato entre os dois, deixando o resto de lado.

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Para tanto, inventa um narrador que, primeiro se insinua como voz, e depois de corpo inteiro. Não um narrador qualquer, mas um que tem todo aquele jeito de personagem felliniano, inclusive, o de intrometer-se no narrado. Uma vez encontra-se num café da época e a garçonete vem lhe trazer a conta, e ele retruca que “sou o narrador, e narrador não paga”, ao que a moça responde que sim, senhor.

O filme começa com o mestre Fellini em sua cadeira de diretor, de costas para nós, olhando a paisagem a sua frente, que deve ser o mar de sua Rimini natal. E aí, magicamente, uma luz de cenário se acende, e passam a desfilar diante dele, dançarinos, saltimbancos, palhaços, acrobatas, tudo como se num show circense.

A partir daí, mas sem obedecer a cronologias, vai-se narrando episódios na vida do cineasta. O primeiro deles, e talvez o mais demorado, é a sua entrada na revista romana de humor “Marc´Aurelio”, como chargista. Seus desenhos e suas charges são motivos de pequenas encenações e o espectador tem a chance de constatar o cineasta inventivo que esses rabiscos prometiam.

Jovens intelectuais na Roma dos anos 50

Jovens intelectuais na Roma dos anos 50

Seis anos depois, à mesma “Marc´Aurelio”, chega o jovem Ettore Scola, com o mesmo propósito, sendo aceito do mesmo modo. A essa altura Fellini já saíra do jornal e já fazia sucesso como cineasta premiado, mas isto não impede que os dois se encontrem e se tornem companheiros de trabalho e amigos. Até porque são muitos parecidos: como assegura o narrador, “ambos meio abstratos, sem jeito para atividades físicas, nunca chutaram uma bola, os dois apaixonados por desenho, pintura e cinema”.

E não podiam faltar os percalços. É o que se tem nos primeiros sketches de um Fellini ainda tateante, encenados no palco modesto de um teatro de revista: sem achar graça no humor dos textos, a platéia começa a jogar lixo no velho ator que performatiza o quadro. Claro, tudo muito felliniano!

Muitas das cenas em que os dois cineastas aparecem juntos soam como fictícias, sem que isso tenha propriamente importância. Para quem conhece a filmografia de Fellini, são, na verdade, cenas poeticamente necessárias, como aquela em que, numa noite qualquer, a dupla dá uma volta pelas ruas de Roma, e, na calçada das putas, oferece carona a uma delas, a qual, no banco de trás do carro, lhes relata quase toda a sua vida. Se se prestar atenção, nesse relato descontraído estão elementos que alimentariam muitos dos roteiros fellinianos, entre os quais o de “La strada”, ou de “Noites de Cabíria”.

Sempre o teatro de revista...

Sempre o teatro de revista…

Pontos comuns entre os dois também são pessoas. Marcelo Mastroiani, por exemplo. E o filme remonta a “A doce vida” para o qual o ator indicado pela produção era Paul Newman, e não o “tipo comum” (palavras de Fellini) Mastroiani, por sua vez, quase recusado, anos mais tarde, por Scola, para o seu “Casanova e a revolução”. Uma canja histórica são as verídicas ´auditions´ que Sordi e Gassman fizeram para ganhar o papel.

Uma das poucas cenas documentais é o funeral de Fellini que, encerraria o filme, não fossem os protestos dos produtores. E então, Scola dá um jeito de jogar em cena mais uma de suas licenças poéticas. Matreiro, Fellini dribla os dois enfeitados carabinieri que guardam o féretro, e às escondidas, escapole pelos becos da cidade, até chegar ao que queria, um carrossel onde vai se divertir feito menino. E com o movimento do carrossel vêm as imagens de seu mundo fantasioso, um caleidoscópio frenético com que dele nos despedimos a rever as cenas mais queridas de suas películas…

É claro que essa licença poética não foi exigência dos produtores. Com certeza, ela já estava no roteiro que o hoje idoso Scola bolou com a ajuda preciosa de suas duas filhas queridas, Paola e Silvia.

Em tempo: a frase que intitula o filme (no original: ´Che strano chiamarsi Federico´) é reprodução de um certo verso de um poeta espanhol que foi xará de Fellini: Federico Garcia Lorca.

O mestre Fellini.

O mestre Fellini.

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Recomendação de neto

9 jul

Fui assistir “Divertida mente” (“Inside out”, 2015) e, no meio da sessão, descobri que o filme tinha mais a ver comigo do que com toda aquela criançada inquieta e barulhenta que lotava a sala.

Vejam bem, psicologia em desenho animado sempre houve, desde os velhos tempos do Gato Felix, Mickey Mouse e Tom e Jerry, mas aqui há um pouco mais, ou melhor dizendo, muito mais.

A rigor, “Divertida mente” é um ´filme psicológico´, na acepção técnica da expressão. Nele, há dois mundos paralelos: o mundo exterior de Riley, essa garotinha de doze anos, e o mundo subjetivo, interior, mental, da mesma Riley. Os personagens do primeiro mundo são Riley, ela mesma, de carne e osso, e seus pais; no outro mundo, os personagens são emoções, personificadas pela narração: Alegria, Tristeza, Medo, Ódio e Enjoo. 0 inside out A estória no primeiro mundo é simples: de Minnesota, a família de Riley se muda para a distante e diferente São Francisco, na California, o que obriga Riley a uma forçada adaptação. No segundo mundo, a estória não é nada simples: as emoções entram em conflito e empurram o equilíbrio psicológico de Riley para um torvelinho perigoso, cujo corolário pode ser a depressão. Nem precisa dizer que as emoções se emocionam, e, emoção emocionada é um problema sério que nem psicanalista resolve.

Aparentemente tão diferentes, esses dois mundos se revezam na tela, o tempo inteiro, um explicando ou determinando o outro, e, vice-versa. Aquele primeiro, o exterior, é, visualmente falando, mais figurativo, em suas configurações plásticas mais parecido com o real; o segundo, interior, é mais fantástico em seu perfil de cartum. Uma criança inadaptada a um novo habitat seria supostamente uma coisa de pouca monta, mas, os desvãos mentais de Riley provam que não é bem assim. Alegria, a protagonista nesse mundo obscuro e misterioso, é a encarregada de administrar o bem estar da garota, porém, quem foi que disse que bem estar seja coisa administrável? Seus colegas de trabalho, os já referidos Tristeza, Medo, Ódio e Enjoo são os primeiros a atrapalhar e…

Riley, a garota inadaptada

Riley, a garota inadaptada

As atribulações em que os colegas a metem levam Alegria a uma viagem labirintosa, em que nem um personagem adicional, Bing Bong, o ex-amigo imaginário de Riley, ajuda muito. Engraçado é que quem vai de fato encaminhar tudo para um desenlace menos drástico é justamente aquela de quem menos se espera: Tristeza. Neste sentido, o filme se revela didático, pedagógico, instrutivo, quase auto-ajuda, mas nunca, nunca jamais, chato.

Acima falei em dois mundos. Acho que também há duas maneiras de apreciar “Divertida mente”. Uma é diegética, seguindo a sua estrutura narrativa, a estória de uma menina que, de tão decepcionada com a vida, rouba dinheiro da bolsa da mãe e foge de casa. A outra é mais “discurso” e fica na curtição de sua expressão formal e seus muitos delírios plásticos que representam essa crise e essa fuga. Talvez possamos falar de uma terceira leitura, mais sábia, a que mantém diegese e discurso presos um ao outro, como assim quiseram os autores do filme, essa dupla extremamente criativa, os diretores Pete Docter e Ronaldo Del Carmen.

De qualquer maneira, uma coisa é certa: bem mais ´tempo de tela´ foi dado ao mundo subjetivo de Riley, às vezes com desenvolvimentos que beiram a sofisticação plástica. Por exemplo, há uma cena em que, guiadas pelo desastrado amigo imaginário da menina, Alegria e Tristeza entram onde não deviam e ficam ´abstratas´, sim, no sentido visual que tem o termo na pintura moderna. Eis um intertexto que torna o filme uma delícia para adultos intelectualizados, mas que – suponho – escapa ao espectador infantil.

Riley com a família

Riley com a família

Merece comentário o título que o filme recebeu no Brasil, muito sugestivo do gênero, porém, não muito fiel à temática: afinal de contas, todo o seu sequenciamento mental (de ´mente´) é puro sufoco, nada divertido. No original, o filme se chama “Inside out”, ou seja, ´às avessas´, expressão talvez mais prosaica que sugere a exposição emocional a que a narração submete Riley.

Por falar em Riley (pronúncia: /ráili/) com o /r/ forte do inglês), a única coisa que não me agradou no filme foi o nome da protagonista, que mais parece nome de tenista americano. Não podia ter sido algo mais universal, e mais facilmente traduzível, do tipo, Alice, Helen ou Lucy? Vi o filme dublado e notei como a pronúncia do nome soava difícil para a criançada memorizar.

Enfim, justificando o título desta matéria: “Divertida mente” me foi recomendado pelos meus dois netos, Caio Eduardo (17) e Enzo Guilherme (7), de quem – garanto – nunca mais vou perder uma recomendação.

Sem

Sem “Tristeza” não pode haver alegria.

A cura pela conversa

12 jun

Em grave crise nervosa, gritando e se contorcendo com violência incontrolável, chega ao Hospital de Zurique, Suíça, em 1904, essa jovem histérica que atende pelo nome de Sabina Spielrein. Quem a toma como paciente é o Dr Carl Jung, que, fugindo à atrasada tradição da medicina mental da época, trata a moça com o moderno método da “cura pela conversa”, proposta recém-aventada pelo seu mestre admirado, o austríaco Sigmund Freud.

“Conversando”, a moça revela coisas chocantes: na infância e adolescência era espancada pelo pai dominador e o espancamento a deixava sempre molhada de excitação, de modo que o seu desejo sexual, quase sempre à flor da pele, estava atrelado à ideia de dor.

Logo Jung percebe que o enorme potencial sexual de Sabina era diretamente proporcional ao seu potencial intelectual, e não só isso: do mesmo tamanho era a vocação da moça para a profissão que ele mesmo tinha, a de psiquiatra. Em relativamente pouco tempo, Sabina supera os seus traumas e se torna uma fervorosa e bem sucedida discípula de Jung.

Um passo adiante da mera “conversa”, a relação discípula-professor toma contorno sexual, o que, aparentemente, teria completado a cura de Sabina. O problema é que, casado, pai de duas meninas e bom marido, Jung começa a se sentir culpado em estar levando essa vida dupla.

Assim se inicia o filme “Um método perigoso” (“A dangerous method”, 2011), de David Cronenberg, e, convenhamos, esse início já é suficiente para deixar o espectador interessado; mais ainda se ele sabe quem foi Carl Jung, e se está ciente da importância de sua obra para o pensamento científico do século XX.

Não vem ao caso contar o enredo inteiro, mas, digamos apenas que, a partir desse ponto crucial de sua existência, Jung se aproxima de Freud, os dois se tornam amigos confidentes, que passam horas, às vezes dias, trocando ideias, tanto sobre pontos chave da ciência da alma, quanto sobre o particular problema amoroso de Jung – seu caso com Sabina e os perigos, os práticos e os conceituais, do envolvimento médico-paciente.

Qual a função do psiquiatra? Desreprimir o paciente para uma liberdade selvagem e anti-social, ou, fazê-lo reconhecer o seu caso e lhe sugerir contenção e dignidade? Estimulante é acompanhar a querela entre os dois pensadores, com Freud defendendo o rigor de suas teorias sobre o papel destruidor da sexualidade no ser humano, e Jung rebatendo com a necessidade de se sair da materialidade negativa para um âmbito mais aberto, mais livre, e mais criativo, da imaginação – isto, percebe-se, com alguma contribuição conceitual da colega e amante, Sabina.

Com o avanço das divergências, tanto no terreno científico quanto pessoal, a amizade, inevitavelmente, vai desfazendo-se, até tornar-se antagonismo indisfarçado. Em dado momento, desabafa Freud: “nós judeus, não devíamos confiar em arianos como Jung”. O desabafo é feito a Sabina, como ele, também judia, a essa altura separada de Jung e sua discípula, e, no futuro, grande psiquiatra ela mesma.

É possível que os fãs de Cronenberg não gostem muito do filme, talvez asséptico demais para o conhecido estilo “horror venéreo” do cineasta canadense.

Isto à parte, um problema que o filme tem é mesmo o de ser biográfico e contar uma estória complexa que compreende quase dez anos. Por conta disso, está cheio de grandes elipses, suponho que incômodas para quem desconhece as vidas dos envolvidos e o seu contexto histórico. Alguns exemplos: depois da separação forçada entre Jung e Sabina, a cena da reconciliação já é a de Jung espancando a moça na cama, como ela gostava, isto sem quaisquer preâmbulos narrativos; no mementoem que Sabinadialoga com a esposa de Jung, nenhuma pista diegética conduzira, previamente, à sua nova situação, há muito casada e agora grávida; a cena finalem que Jungconta a Sabina o seu sonho de uma inundação em que a água vira sangue – “o sangue da Europa”, diz ele – é claramente a premonição do advento do nazismo, do qual Sabina seria futuramente vítima – porém, este dado não está no filme!

De minha parte, senti falta do que mais ficou de Jung enquanto pensador: o seu conceito de Inconsciente Coletivo, com os seus fundamentais Arquétipos. É fato que, ainda não suficientemente elaborados no período em que o filme recobre (até 1913), estes estão, contudo, nas entrelinhas de suas discussões com Freud, e, fico pensando em como o filme não teria crescido se essa dimensão imaginária tivesse lhe servido de ponto de fuga. Tudo bem, não precisam me dizer: seria outro filme.

De qualquer maneira, inteligente e elegante, “Um método perigoso” é um filme que interessa ver, afinal, sobre três gênios (Sabina Spielrein incluída) que deram passos decisivos no desvendamento desse mistério que é a mente humana.

Em tempo: esta matéria é dedicada a Ronaldo Monte.