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Mulheres em “Picnic”

21 jul

Sobre os filmes que ficaram sessentões neste ano de 2015 já escrevi, mas, há um especial a que sempre retorno: “Férias de amor” (“Picnic”, 1955).

Quase todo mundo lembra o filme de Joshua Logan pela cena da dança às margens do rio, Kim Novak e William Holden trocando passos ao som de ´Moonglow´… Ou, então, pela desastrosa consequência da dança, o casal sendo apartado e, depois de muita confusão familiar, encontrando-se às escondidas e fazendo declarações de amor que ninguém sabe se se concretizarão, ainda que, no final, as imagens do trem (que o leva) e do ônibus (que a leva) se perfilem na tela e sugiram que sim.

A famosa cena da dança às margens do rio.

A famosa cena da dança às margens do rio.

Pois eu lembro “Férias de amor” pelo conjunto de seus personagens, no caso, os femininos. É que o filme de Logan pinta um quadro sistemático da condição feminina, tratando da mulher em diversas faixas etárias, como se não houvera protagonistas. Senão vejamos.

A primeira, digo a mais jovem, é Millie (Susan Strasberg), a adolescente inexperiente que quer ser escritora quando crescer, embora por enquanto não conheça quase nada desse material chamado natureza humana, apesar de saber de cor os sonetos shakespearianos.

Millie, a adolescente que quer ser escritora.

Millie, a adolescente que quer ser escritora.

Com um pouquinho mais de idade, a segunda é Marge (Novak) que não sabe o que quer, mas, sabe muito bem o que não quer: casar com o rapaz mais promissor dessa pequena cidade interiorana do Kansas e virar a mãe de família que todos esperam.

Marge, a pretendente relutante.

Marge, a pretendente relutante.

A terceira é Flo (Betty Field), a mãe das duas, essa mulher de meia idade, cansada de arcar sozinha com a responsabilidade da casa; frustrada no casamento e, por isso mesmo, hiper cautelosa em relação ao destino da filha casadoura.

A mãe preocupada: Flo.

A mãe preocupada: Flo.

A quarta figura feminina é Rosemary Sydney (Rosalind Russell), essa solteirona, professora primária que vê os anos passarem sem que sua vida amorosa tome um rumo definido; pela profissão, é a mais informada do lugar, embora os seus costumes modernos de nada lhe sirvam no terreno em que mais anseia. Administra a solidão como quem domina uma sala de aula, mas, basta uma dose a mais para perder o controle de si mesma.

A professora solteirona, Rosemary Sydney.

A professora solteirona, Rosemary Sydney.

A quinta figura é a vizinha, a Sra Helen Potts (Verna Felton), essa dócil senhora idosa que há muito não sente cheiro de homem em casa, e por isso acolhe com tanta boa vontade esse forasteiro que surge do nada. De tão sozinha, seu consolo é ter vizinhos em quem confia e por quem alimenta o carinho que não pode dar a mais ninguém, sequer à mãe doente, pois esta geme no quarto dos fundos, completamente inconsciente.

Dona Potts, a vizinha que acolhe o forasteiro Hal.

Dona Potts, a vizinha que acolhe o forasteiro Hal.

Há uma sexta personagem feminina? Nunca a vemos, mas há. É justamente a mãe da Sra Potts, mais que idosa, senil e enferma, cujos gemidos escutamos de longe, e então não precisamos de nenhuma imagem concreta para sabermos como é que é uma criatura em idade avançada, inerte em cima da cama, penosamente arrastando a cruz dos anos…

O quadro, como se vê, recobre a imagem da mulher em várias idades, e, psicologicamente, a sobrepõe aos poucos homens da estória. De tal forma que de alguma maneira pode se dizer que os três homens da narrativa funcionam como pretextos. Tudo bem, o pretexto maior é Hal Carter (Holden), o forasteiro cuja breve e turbulenta estada no lugar mexe com todos, com as mulheres de modo particular.

Antes de ser filme, “Picnic” foi peça, que estreara na Broadway em 1953 e dera ao seu autor, o dramaturgo William Inge, o prêmio Pulitzer. Inge foi um mestre na descrição da vida da cidade pequena no Meio Oeste americano, onde ele mesmo nasceu e criou-se.

O cartaz do filme.

O cartaz do filme.

Como os seus personagens, femininos ou masculinos, Inge foi um solitário atormentado, inadaptado ao meio ambiente que retrata com tanta precisão. Formado em Arte Dramática e professor por muito tempo, entregou-se ao alcoolismo e faleceu em consequência do vício, vício que a rigor tinha motivação bem mais funda: numa época de preconceito arraigado, Inge foi forçado a reprimir sua homossexualidade pela vida inteira.

É interessante saber que o instrutivo e cativante quadro feminino de “Férias de amor” tem fundo biográfico. O próprio Inge relatava que, na infância, sua mãe, criando a família sozinha como a Flo do nosso filme, hospedava professoras primárias nas dependências da casa, e ele, criança, as observava de perto e acompanhava e entedia seus anseios, suas frustrações e seus vazios…

Bom, recordar experiência vivida é uma coisa; transfigurá-la em arte teatral, é outra. Seu talento fez isso, e por sorte, o talento de quem filmou sua peça, idem. Outra sorte nossa: as encenações na Broadway desapareceram, mas o filme está aí, para infinitas revisitações, como a que venho de fazer.

01 a famosa cena da dança

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Recomendação de neto

9 jul

Fui assistir “Divertida mente” (“Inside out”, 2015) e, no meio da sessão, descobri que o filme tinha mais a ver comigo do que com toda aquela criançada inquieta e barulhenta que lotava a sala.

Vejam bem, psicologia em desenho animado sempre houve, desde os velhos tempos do Gato Felix, Mickey Mouse e Tom e Jerry, mas aqui há um pouco mais, ou melhor dizendo, muito mais.

A rigor, “Divertida mente” é um ´filme psicológico´, na acepção técnica da expressão. Nele, há dois mundos paralelos: o mundo exterior de Riley, essa garotinha de doze anos, e o mundo subjetivo, interior, mental, da mesma Riley. Os personagens do primeiro mundo são Riley, ela mesma, de carne e osso, e seus pais; no outro mundo, os personagens são emoções, personificadas pela narração: Alegria, Tristeza, Medo, Ódio e Enjoo. 0 inside out A estória no primeiro mundo é simples: de Minnesota, a família de Riley se muda para a distante e diferente São Francisco, na California, o que obriga Riley a uma forçada adaptação. No segundo mundo, a estória não é nada simples: as emoções entram em conflito e empurram o equilíbrio psicológico de Riley para um torvelinho perigoso, cujo corolário pode ser a depressão. Nem precisa dizer que as emoções se emocionam, e, emoção emocionada é um problema sério que nem psicanalista resolve.

Aparentemente tão diferentes, esses dois mundos se revezam na tela, o tempo inteiro, um explicando ou determinando o outro, e, vice-versa. Aquele primeiro, o exterior, é, visualmente falando, mais figurativo, em suas configurações plásticas mais parecido com o real; o segundo, interior, é mais fantástico em seu perfil de cartum. Uma criança inadaptada a um novo habitat seria supostamente uma coisa de pouca monta, mas, os desvãos mentais de Riley provam que não é bem assim. Alegria, a protagonista nesse mundo obscuro e misterioso, é a encarregada de administrar o bem estar da garota, porém, quem foi que disse que bem estar seja coisa administrável? Seus colegas de trabalho, os já referidos Tristeza, Medo, Ódio e Enjoo são os primeiros a atrapalhar e…

Riley, a garota inadaptada

Riley, a garota inadaptada

As atribulações em que os colegas a metem levam Alegria a uma viagem labirintosa, em que nem um personagem adicional, Bing Bong, o ex-amigo imaginário de Riley, ajuda muito. Engraçado é que quem vai de fato encaminhar tudo para um desenlace menos drástico é justamente aquela de quem menos se espera: Tristeza. Neste sentido, o filme se revela didático, pedagógico, instrutivo, quase auto-ajuda, mas nunca, nunca jamais, chato.

Acima falei em dois mundos. Acho que também há duas maneiras de apreciar “Divertida mente”. Uma é diegética, seguindo a sua estrutura narrativa, a estória de uma menina que, de tão decepcionada com a vida, rouba dinheiro da bolsa da mãe e foge de casa. A outra é mais “discurso” e fica na curtição de sua expressão formal e seus muitos delírios plásticos que representam essa crise e essa fuga. Talvez possamos falar de uma terceira leitura, mais sábia, a que mantém diegese e discurso presos um ao outro, como assim quiseram os autores do filme, essa dupla extremamente criativa, os diretores Pete Docter e Ronaldo Del Carmen.

De qualquer maneira, uma coisa é certa: bem mais ´tempo de tela´ foi dado ao mundo subjetivo de Riley, às vezes com desenvolvimentos que beiram a sofisticação plástica. Por exemplo, há uma cena em que, guiadas pelo desastrado amigo imaginário da menina, Alegria e Tristeza entram onde não deviam e ficam ´abstratas´, sim, no sentido visual que tem o termo na pintura moderna. Eis um intertexto que torna o filme uma delícia para adultos intelectualizados, mas que – suponho – escapa ao espectador infantil.

Riley com a família

Riley com a família

Merece comentário o título que o filme recebeu no Brasil, muito sugestivo do gênero, porém, não muito fiel à temática: afinal de contas, todo o seu sequenciamento mental (de ´mente´) é puro sufoco, nada divertido. No original, o filme se chama “Inside out”, ou seja, ´às avessas´, expressão talvez mais prosaica que sugere a exposição emocional a que a narração submete Riley.

Por falar em Riley (pronúncia: /ráili/) com o /r/ forte do inglês), a única coisa que não me agradou no filme foi o nome da protagonista, que mais parece nome de tenista americano. Não podia ter sido algo mais universal, e mais facilmente traduzível, do tipo, Alice, Helen ou Lucy? Vi o filme dublado e notei como a pronúncia do nome soava difícil para a criançada memorizar.

Enfim, justificando o título desta matéria: “Divertida mente” me foi recomendado pelos meus dois netos, Caio Eduardo (17) e Enzo Guilherme (7), de quem – garanto – nunca mais vou perder uma recomendação.

Sem

Sem “Tristeza” não pode haver alegria.