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Carol

20 jan

Com seis indicações ao Oscar, está em cartaz na cidade e no mundo “Carol” (2015), filme de Todd Haynes, com Cate Blanchett no papel-título.

O filme é baseado em livro de 1952 de Patricia Highsmith, mas vamos por etapas. No comecinho dos anos cinquenta a jovem escritora Patricia Highsmith ainda era uma ilustre desconhecida. O seu romance de estreia  “Strangers on a train” (´Estranhos em um trem´, 1950)) mal fora notado pela crítica e pelo público. Esse anonimato, porém, não durou muito. É que no ano seguinte, essa estória de crimes trocados foi filmada por ninguém menos que Alfred Hitchcock. Pronto: a fama estava feita. A partir daí, Highsmith tornou-se uma das escritoras mais lidas nos Estados Unidos, com direito a entrevistas à imprensa e palestras universitárias. Hitchcock apenas abriu o caminho, pois, os estúdios ficaram de olho nos escritos de Highsmith e, com o passar do tempo, muitos de seus livros foram à tela, alguns até mais de uma vez, como é o caso de “The talented Mr Ripley”, que deu o filme de René Clément “O sol por testemunha” (1960) e o de Anthony Minghella “O talentoso Mr Ripley (1999).

Tudo começou numa loja de departamento

Tudo começou numa loja de departamento

Houve, contudo, um livro seu que ninguém quis filmar. Pelo menos, por muito tempo. Publicado em 1952, chamava-se “The price of salt” (ao pé da letra: ´o preço do sal´) e, diferente dos outros, não tratava de crimes perfeitos. Ao contrário, era uma forte estória de amor, para a época, nada convencional. Semi-autobiográfico e assinado com o pseudônimo de Claire Morgan, o livro narrava o relacionamento amoroso entre uma jovem atendente de loja de departamento em Nova Iorque, e uma senhora de meia idade, classe média alta, que, com uma filha pequena e um marido possessivo, vivia um casamento infeliz. Provavelmente por causa da temática lésbica, o livro hibernou com a pecha de ´infilmável´, mesmo depois da abolição da censura. E certamente ainda estaria hibernando, se o cineasta Todd Haynes não lhe tivesse posto os olhos.

Na bem cuidada adaptação de Haynes, o caso de amor entre a jovem Therese (Rooney Mara) e a elegante senhora Carol (Cate Blanchett) é descrito com delicadeza e sem muito apelo sexual. Concebida com bom gosto, a única ´cena de cama´ com as duas mulheres é mais poética que erótica, e as duas atrizes, nela e no filme inteiro, dão desempenhos convincentes e tocantes. Nos anos cinquenta, o romance de Highsmith foi considerado muito ousado, não apenas pela temática, mas, principalmente pelo seu final feliz, que parecia aplaudir a relação lésbica, atitude então inconcebível. Com a tranquilidade (?) de hoje em dia, depois de todos os movimentos LGBT, o filme segue a felicidade do final literário, o que, na sessão em que assisti, arrancou aplausos da platéia.

Mulheres apaixonadas nos anos cinquenta

Mulheres apaixonadas nos anos cinquenta

A rigor, não há um grande enredo, ou enfoque original, que justifique algum destaque especial para o filme de Haynes, porém, há qualidades inegáveis que fazem parte do estilo do diretor. Uma delas é a reconstituição de época, em que Haynes é sempre bom, sobretudo, quando a época são os anos cinquenta. Lembram de “Longe do paraíso” (2002), onde ele refilma o “Tudo o que o céu permite” de Douglas Sirk? Em “Carol” a reconstituição é tão perfeita que acho que nem precisava aquela ´marcação visual de tempo´ pela imagem de “Crepúsculo dos deuses” (1950), entrevisto em certo momento só para dizer que estamos nos anos cinquenta.

De minha parte, o de que mais gostei foi a discreta mas comovente homenagem a David Lean e o seu insuperável “Desencanto” (“Brief encounter”, 1946).

Uma atendente de loja com dons fotográficos.

Uma atendente de loja com dons fotográficos.

Sim, para quem tem bons olhos, “Carol” assume a estrutura narrativa do filme de Lean – começando a estória do casal apaixonado pelo final e a esse final retornando, pouco antes do filme se concluir, reencenando uma mesma situação diegética: em despedida dolorosa, em local público (restaurante), o casal desfruta dos minutos fugazes em que deveriam estar a sós nesse derradeiro instante de privacidade, e, para desolação geral, é interrompido por um amigo inconveniente que aparece do nada e destroi completamente o clima. Até o toque da mão daquele que parte (aqui Carol, em Lean, Dr Harvey) sobre o ombro daquela que fica (Therese/Laura), digo, até isso foi encenado para que o espectador cinéfilo não tivesse dúvida sobre a homenagem prestada.

A homenagem também é interessante por sugerir igualdade entre o amor hetero e o homo, mas, por ironia, “Carol” sai, inevitavelmente, perdendo em emoção no cotejo com “Desencanto”. Não é culpa de Haynes: qualquer outra estória de amor moderna perderia para o filme de Lean.

Como disse, “Carol” não é nenhum grande filme que mereça algum tipo especial de destaque, porém, ao meio da parafernália desmedida e barulhenta que assola nossas telas, merece uma espiada. Sem violência, escatologia ou efeitos especiais, é um filme ´adulto´, no sentido simples em que esta palavra é antônima de ´infantil´.

Carol: um casamento em crise

Carol: um casamento em crise

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Olivia

14 jan

 

Quem vai estar completando 100 anos de vida, neste 2016, é Olivia de Havilland. Reclusa e sem contato com a imprensa, a atriz americana mora, tranquila, em Paris, cidade que escolheu como lar desde há muito.

Olivia e Kirk Douglas, também centenário neste ano, são alguns dos poucos ídolos do cinema clássico americano ainda vivos.

A rigor, ela não é propriamente americana. Filha de pais ingleses, ela nasceu em Tóquio, em primeiro de julho de 1916. Ainda pequena seus pais se divorciaram e a mãe mudou-se para a Califórnia, junto com ela e a irmã menor, Joan, que mais tarde se tornaria Joan Fontaine.

Mais lembrada pelo seu papel em "E o vento levou"

Mais lembrada pelo seu papel em “E o vento levou”

Na escola secundária a adolescente Olivia já se interessava por teatro. Em encenação de Max Rheinhardt, esteve na shakespeariana “Sonho de uma noite de verão”, e tão bem se saiu no palco escolar que o diretor da peça a empurrou para a versão cinematográfica homônima (1935), uma produção da Warner Brothers, companhia com a qual ela fechou contrato de sete anos.

A partir daí, foi um filme atrás do outro, inclusive os oito que rodou com um par muito especial, Errol Flynn. Acho que os mais conhecidos da dupla são: “Capitão Blood” 1935), “A carga da brigada ligeira” (1936) e “As aventuras de Robin Hood” (1938). Tão famosa ficou que, em 1939, o todo poderoso produtor David O. Selznick a pediu emprestado a Warner, para o papel da suave Melanie de “E o vento levou”, sua primeira indicação ao Oscar.

De saco cheio dos papéis cor de rosa que a Warner lhe impunha, fez greve contra a companhia e foi punida. Levou o caso à Justiça e ganhou um processo que dava mais liberdade aos atores, e que, de tão importante para a profissão, passou a ser apelidado de “a decisão de Havilland”, pois vários outros atores haviam processado a Warner, sem sucesso.

Com Errol Flynn, em "As aventuras de Robin Hood".

Com Errol Flynn, em “As aventuras de Robin Hood”.

É que, ao contrário do que sugere a expressão “star system”, os atores e atrizes da época, anos quarenta, sofriam pressões dos estúdios e, em muitos casos, eram obrigados a aceitar termos de contrato limitativos, o que, ironicamente, parecia justificar a maldosa boutade do venenoso Alfred Hitchcock, segundo a qual “atores são gado”.

Agora com mais liberdade de ação, Olivia passou a escolher papéis a dedo e o resultado não demorou a aparecer, para a crítica e para o público. Dessa fase mais madura, entre 1946 e 1960, saíram dramas, policiais, romances, e até um western. Eis alguns desses títulos, três dos quais lhe deram dois Oscar de melhor atriz e uma indicação:

“Devoção” (1946), “Só resta uma lágrima” (1946) (Oscar), “Champanhe para dois” (1946), “A cova da serpente” (1948) (indicação), “Tarde demais” (1949) (Oscar), “Eu te matarei, querida” (1952), “A favorita de Felipe II (1955), “Não serás um estranho” (1955), “A filha do embaixador” (1957), “O rebelde orgulhoso” (1958), a noite é minha inimiga” (1959).

No noir "Espelhos d´alma" em papel geminado.

No noir “Espelhos d´alma” em papel geminado.

Acho que posso dizer que o pique dessa fase próspera foi “Tarde demais” (“The heiress”, 1949), um dos seus papéis mais fortes, provavelmente o mais impressionante de toda a sua carreira. Dirigido pelo mestre William Wyler, adaptando parte do romance “Time Square”, de Henry James, o filme contava a estória de uma moça rica, mas feia, a quem um pai rigoroso (Ralph Richardson) e um pretendente ambicioso (Montgomery Clift), cada um a seu respectivo modo, ensinam a ser cruel. Com certeza, um dos mais belos e contundentes dramas que Hollywood já foi capaz de engendrar. Confesso, um dos meus filmes mais amados em todos os tempos e espaços.

Infelizmente, depois desse ápice profissional não veio nada mais brilhante. Na verdade, nos anos sessenta e adiante, Olivia fez cada vez menos filmes, e passou a atuar um pouco mais em teatro e mais ainda em televisão. Em que pese ao seu sempre superior desempenho, filmes, por exemplo, como “A dama enjaulada” (1964), ou “Com a maldade na alma” (1964), não acrescentam muito a uma carreira de êxitos passados. Melancólica, sua derradeira aparição na tela foi em “O quinto mosqueteiro”, película esquecível de 1979.

Primeiro Oscar por "Só resta uma esperança"

Primeiro Oscar por “Só resta uma esperança”

Sobre o tema da efemeridade da fama, é a própria Olivia quem diz o seguinte – e sua frase ficou registrada pela imprensa : “Gente famosa acha que tem que ficar eternamente na crista da onda, sem entender que isto é contra todas as regras da vida. Você não pode estar no topo o tempo todo: não é natural.”

Pode ser, mas, para mim, ainda hoje Olivia de Havilland é famosa. Figura mais adorada na minha privada galeria de ídolos.

Em tempo: como antropônimo inglês, o termo Olivia não leva acento.

Papel decisivo e segundo Oscar: "Tarde demais" (1949).

Papel decisivo e segundo Oscar: “Tarde demais” (1949).

 

Livre

29 abr

Aos vinte e quatro anos de idade, Cheryl Strayed estava à beira de um ataque de nervos: seu casamento acabara, sua mãe falecera e ela estava entregue a uma promiscuidade meio suicida.

Como sair da crise?

Ao invés de procurar o divã, ela decidiu que caminhar seria a solução. Botou nas costas o matulão e foi fazer o percurso do Pacific Crest Trail, a famosa trilha americana dos picos do Pacífico.

Caminhar é bom, se você está perto de casa. Acontece que a trilha do Pacific Crest recobre mais de quatro mil e duzentos quilômetros, começando no extremo sul dos Estados Unidos (limite com o México), até o extremo norte (limite com o Canadá), tudo isso através de área selvagem, entre desertos, montanhas, rios e florestas. Na geografia brasileira seria mais ou menos como você ir, a pé, de Porto Alegre até Boa Vista, em Roraima.

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Para completar, Cheryl não era nenhuma atleta: não tinha conhecimento da técnica de caminhar, nem qualquer treino físico. Por exemplo: o matulão que levava, com vários elementos supérfluos, pesava tanto que seu corpo franzino mal conseguia se equilibrar na vertical.

Mas foi, viu e venceu. Venceu a distância e a crise existencial. Tanto que juntou seus dotes literários e descreveu a experiência num livro que logo virou bestseller.

Inevitavelmente, o livro virou filme. Concorrendo ao Oscar em duas categorias, “Wild” (2014) foi denominado no Brasil de “Livre”, e já está disponível em DVD.

São quase cem dias de marcha e, naturalmente, fez-se necessário, na roteirização do percurso, uma seleção. Tentando ser fiel ao livro, o diretor Jean-Marc Vallée descreve a caminhada de Cheryl nos seus momentos mais dramáticos, que são de duas ordens: os problemas práticos, pertinentes à marcha em si, e os problemas emotivos, relativos a sua crise pessoal.

Citando exemplos ao leu: um deles é uma temida possibilidade de estupro por dois caminhantes de má fé que ela encontra na floresta; outro, é a lembrança dos maltratos que a mãe recebia do marido. Evidentemente, o roteiro tenta, quando pode, estabelecer algum tipo de relação entre as duas ordens.

Reese Witherspoon no papel de Cheryl Strayed.

Reese Witherspoon no papel de Cheryl Strayed.

Para dizer a verdade, ouso imaginar que “Livre”, a depender do tipo de espectador que o vê, permite duas leituras: como um filme de aventura e como um filme psicológico.

Na primeira hipótese, ele lembra – espero não estar sendo maldoso – uma gincana escolar, árdua e difícil, mas de todo jeito gincana; e aí, os muitos flashbacks mnemônicos da jovem viajante funcionariam como interrupções que retardam e põem em perigo o cumprimento da tarefa.

Na outra hipótese, são as relações familiares e suas dores o que mais interessa, ou mais que isso, a tentativa de superação e de crescimento pessoal da protagonista, tudo isso “interrompido” pelos muitos episódios da aventura pedestre, esta sempre duvidosa no seu suposto efeito de sanar os sofrimentos da alma.

Naturalmente, o grande lance é supor que aventura e psicologia se tocam e que, no toque, operam o milagre desejado – missão para um terceiro tipo de espectador, mais sutil e mais exigente.

Escolhida pela própria autora do livro, a atriz Reese Witherspoon faz muito bem a jovem desesperada que, ao meio de muitas dúvidas e ímpetos de desistir, no fundo acredita na “terapia Pacific Crest Trail” e – para sua própria surpresa – tem a coragem suprema de testá-la até o fim. Também convincente é Laura Dern no papel da mãe lembrada, só vista em flashbacks, mas de imagem marcante. Como atrizes, principal e coadjuvante, as duas tiveram indicação ao Oscar 2015.

Laura Dern faz a mãe de Cheryl.

Laura Dern faz a mãe de Cheryl.

Há, contudo, algo em “Livre” que o faz não funcionar bem, e que deixa o espectador, finda a projeção, um tanto e quanto insatisfeito.

O que seria? me pergunto. Ao drama familiar faltou força? A associação aventura versus psicologia não funcionou a contento? Ou o problema estaria no desenlace – digo, a breve e lacônica cena do término da jornada e do filme, não suficientemente expressiva em seu papel de simbolizar a redenção da personagem, aquela que, entre muitas outras coisas, justificaria, por exemplo, a interpretativa intitulação brasileira: “Livre”?

Enfim, mais um filme baseado em fatos reais, esse filão temático que o cinema anglo-americano atual descobriu, tão visível na lista dos indicados ao Oscar deste ano.

Realidade e ficção lado a lado: Cheryl e Reese.

Realidade e ficção lado a lado: Cheryl e Reese.