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DOR E GLÓRIA

20 ago

Lançado em junho no Brasil, já está em DVD o último filme do cineasta espanhol Pedro Almodóvar.

Em tom de autobiografia, “Dor e glória” (“Dolor y gloria”, 2019) conta o drama de um escritor e cineasta que, em crise de meia idade, vive mais ou menos recluso, acreditando-se incapaz de voltar a escrever ou filmar, situação agravada pelos seus problemas de saúde e de viciado em drogas.

Enquanto lida com a crise, lhe vêm ao espírito as lembranças mais caras, as da infância, quando, atolados na pobreza, ele e os pais são forçados a residir dentro de uma ´gruta´, numa região do país em que as casas eram escavadas nas rochas.

Desde então, nos seus dez anos de idade, o menino precoce Salvador Mallo, já gosta de cinema e coleciona álbuns de figurinhas, dos quais uma página nos é mostrada em close, e lá estão: Kirk Douglas, Donna Reed, Tyrone Power, Loretta Young, Robert Taylor, Lana Turner, Alan Ladd, ou seja, toda a Hollywood clássica que formaria o gosto do adulto.

A história prossegue nesse vai e vem, entre vida adulta e infância, como fazem muitos filmes de hoje em dia, mas não exatamente.

Biográficas ou ficcionais, as viradas de enredo que, fundadas no elemento do acaso, fazem o melhor de Almodóvar são mais que bem vindas. Cito duas, ambas relativas ao presente, ou seja, à vida do personagem adulto, feito por um Antonio Banderas impecável: (1) o aparecimento súbito do “old flame” de Salvador que, por mero acaso, entrara no teatro e assistira à peça “Vicío”, onde ele é personagem importante.  (2) a igualmente casual descoberta por Salvador desse desenho, exposto numa galeria de arte, que o pintor de paredes de sua infância fizera dele, sem coincidência, no mesmo dia de sua maravilhosa visão inaugural do corpo masculino, visão que vai lhe direcionar a opção sexual para o resto da vida.

Aliás, uma cena erótica delicada, suave, e, sobretudo, lírica, poética, que, na concepção e na encenação deve ter exigido do autor e da equipe extremo zelo e capricho, para a explicitação da nudez não resultar apelativa, ou mesmo pornográfica. Sim, o que se tem aqui é um garoto de dez anos descobrindo, num rude pintor de parede que se banha despido num tacho, o seu Tadzio. (Cf o “Morte em Veneza” de Visconti).

Fazendo jus ao título, uma longa seção do filme é dedicada à dor, mas isto, sem morbidez ou escatologia. Toda uma série de complexos desenhos e gráficos do corpo humano aparecem na tela, no momento em que Salvador narra em voz over, suas enfermidades, que são muitas. Até eu, que sou patofóbico crônico, curti a beleza dessa aula de anatomia…

A metalinguagem do final é mais que apropriada, no sentido em que faz sugerir que todo o filme a que acabamos de assistir seria de autoria do protagonista Salvador Mallo, o qual, supostamente, teria superado a crise e voltado ao ofício cinematográfico, no caso, contando a história de sua vida.

Assistindo a “Dor e glória” dou-me conta de algo sobre minha reação aos filmes de Almodóvar, que nunca me ocorrera antes: é que um dos elementos que me fazem gostar deles está – e eu não me dera conta ainda – na fotografia. Sim, noto agora como essa fotografia, tão óbvia e tão clara, sem as sombras atuais, tem o mesmo cromatismo brega e belo dos velhos melodramas dos anos cinquenta (tipo: “A caldeira do diabo”, “Palavras ao vento”, “Amores clandestinos”…) – e, claro, em se tratando de Almodóvar, isto é extremamente proposital.

A revista de cinema “Little White Lies” considera “Dor e glória” uma obra prima. Não sei se chega a tanto, mas, que gostei muito, gostei.

Almodóvar com o elenco do filme

Sessenta anos de “OS INCOMPREENDIDOS”

22 abr

Quem, este ano, vira sessentão é “Os Incompreendidos (“Les 400 coups”, 1959), filme do cineasta francês François Truffaut, sobre o qual já escrevi outras vezes e não me canso de a ele retornar.

Aqui em João Pessoa acho que foi exibido em 1961 – ou por aí – e me lembro de tê-lo visto, não nos cinemas lançadores (Rex e Plaza), mas no modesto Cine Brasil que, para quem não alcançou, ficava na subida da Rua Guedes Pereira, quase em frente ao Grupo Escolar Tomás Mindelo.

Para mim, garoto de catorze anos, foi uma experiência e tanto acompanhar a estória – tão singela e direta – desse menino quase da minha idade que não se entendia com os pais e, muito menos, com os professores da Escola. Falta de entendimento que terminaria por levá-lo à marginalidade.

Vocês lembram, não é? Depois de fugir de casa e cometer um pequeno furto, Antoine Doinel vai parar num Reformatório Juvenil, de onde mais uma vez foge e, em carreira desembalada, vai dar no mar. E o filme é cruel com o espectador ao deixar o garoto ali, sozinho, perdido e desamparado naquela praia deserta e fria, sem saída, sem rumo, seu rosto triste congelado na tela, imagem seguida do implacável FIN. Por que nos afeiçoar ao garoto, se iríamos no final, cruelmente, abandoná-lo? Acho que foi com perguntas assim que saí das dependências do Cine Brasil, naquela tarde quente de 1961.

É que, até então, eu estava habituado ao cinema americano, e, no cinema americano, não se abandonava uma criança assim. Lembrar que a palavra chave em “O mágico de Oz” (1939) era LAR: a garota de “De ilusão também se vive” (1947), por exemplo, tem o seu, e até os órfãos do melodrama “Em cada coração uma saudade” (1957) encontram guarida em lares alheios. Vejam – mais um exemplo – que o garoto de “Os brutos também amam” (1953) perde seu amigo Shane no final do filme, porém, a gente sabe que, após o desaparecimento do misterioso cavaleiro solitário por trás das montanhas, Joey vai correr de volta à casa, onde terá, com certeza, o consolo e o afeto dos pais. A sua mãe estará tão triste quanto ele, mas, tudo bem.

Voltando a “Os Incompreendidos”, depois da sessão ocorreu-me ler sobre o filme nos jornais locais. Os críticos, que eu tanto admirava, me diziam que aquele era o primeiro filme de um jovem cineasta francês que, junto com outros igualmente jovens, estava inaugurando uma nova maneira de fazer cinema, e nisso, fundando um verdadeiro movimento cinematográfico que levava o nome sonoro de “Nouvelle Vague”.

Esses artigos nos jornais locais me inquietavam e, se não me ajudavam a entender o filme, me deixavam com a impressão de que, na minha ingenuidade e ignorância, eu estava tendo o privilégio de testemunhar o surgimento de uma nova era, porventura repleta de novas ideias e novas formas…

Assim, o preto-e-branco triste de “Os Incompreendidos”, de repente, passava a fazer contraste com o technicolor comercial do cinema hollywoodiano; um preto-e-branco que eu já vinha vendo em outros filmes europeus, como “Hiroshima meu amor”, “Ascensor para o cadafalso”, “A fonte da donzela”, “A aventura”, “A doce vida”, “Rocco e seus irmãos”, etc. Não que preto-e-branco fosse sinônimo de qualidade, mas, bem, acho que vocês entendem o que quero dizer.

Enfim, o cinema amadurecia… e eu, com ele.

Mais tarde, menos ingênuo e mais antenado, eu acompanharia a trajetória cinematográfica de Truffaut, até o seu último filme. Vibrei com sua obra prima “Jules et Jim” (1962) e com sua brincadeira metalinguística em “A noite americana” (1973), porém, nenhuma reação a seus filmes marcou meu espírito tanto quanto a que tive a “Os Incompreendidos”.

Para fazer referência ao título original do filme, foi um golpe.

Aliás, “Os 400 golpes” desse título original foram lidos por mim como uma hipérbole numérica, referente às muitas dores impingidas às crianças pelos adultos. Era a leitura que Truffaut queria, só que essa escolha titular – só vim a saber muito tempo depois – era profundamente irônica, pois, segundo a língua e a civilização francesas, os tais ´golpes´ são os pais que recebem, e os recebem dos filhos. Truffaut, um apaixonado por crianças, inverteu a relação algozes/vítimas e aumentou a gravidade da intitulação. E do filme!

Em tempo: esta crônica é dedicada a truffautiana Glória Gama.

“STAN & OLLIE” – O Gordo e o Magro

16 abr

Acho que, na minha infância, vi mais o Gordo e o Magro do que Carlitos. Eram filmezinhos curtos, que passavam antes da película principal, nas matinées dos cinemas de João Pessoa – alguns, suponho, da fase muda da dupla – mas o pouco tempo das projeções era suficiente para fazer a sala estrondar com as gargalhadas da plateia.

Era o aperitivo para o longa a ser visto, e nunca me preocupei com os créditos,  nem sei se eram mostrados. Sequer os nomes dos personagens interessavam: para mim – e para a garotada toda, acho – tratava-se de “o gordo e o magro” e isso bastava. Só muito tempo depois, já um cinéfilo em formação, é que ouvi falar, ou li sobre, Stanley Laurel e Oliver Hardy – os Stan & Ollie das plateias americanas, sempre nesta ordem (o magro e o gordo), contrária à nossa.

Steve Coogan e John C Reilley no papel da dupla famosa

Pois foi com os olhos alegres da infância (mas também com um pouco de desconfiança) que fui assistir a esse “Stan & Ollie – o Gordo e o Magro” (2018), produção anglo-americana-canadense sobre essa dupla imortal, possivelmente a mais famosa e a mais querida da sétima arte. Imagino o trabalho que deve ter tido a produção para localizar atores que exibissem os respectivos “physiques du rôle”. Steve Coogan e John C Reilley foram os escolhidos, e acho que funcionou bem, apesar de o nariz de Reilly ser bem maior que o de Hardy.

Com direção de Jon S. Baird e roteiro do escritor Jeff Pope, o filme começa em 1937, fase áurea da dupla, quando estavam rodando um dos seus maiores sucessos, “Dois caipiras ladinos” (“Way out West”), um faroeste musical em que, na rua, de frente a um saloon, eles performatizam um número de dança engraçadíssimo.

Mas, logo logo pula o filme para 1953, quando o prestígio comercial e artístico da dupla já não era mais o mesmo. Aliás, estava longe de ser. A cena em que, passando por acaso na frente de um cinema, Laurel vê o cartaz de um filme com Abbot e Costello é um sintoma bem claro de que a concorrência os afetava, como nunca afetara antes, mesmo no tempo do cinema mudo com, por exemplo, Chaplin e Buster Keaton.

Agora, digo, no começo dos anos cinquenta, com meia década fora das telas, Stan e Oliver vivem de apresentações em palcos de teatros que nem sempre lotam suas cadeiras. É nessa época de decadência franca que fazem uma turnê pelo Reino Unido, porém, o peso da idade, as dificuldades com os produtores e a eventual indiferença dos espectadores vão minando sua disposição, e pior, vão alimentando um inoportuno clima de hostilidade entre os dois que, num momento de crise, desabafam e se ferem mutuamente.

Para piorar, no meio da turnê, Hardy sofre um ataque cardíaco, enquanto Laurel se envolve num projeto à parte, fazendo par com um comediante novato. Quando a separação entre os dois parece coisa definitiva, Laurel desiste do novo projeto e procura “Babe”, que era o seu apelido carinhoso para Hardy: quase entre lágrimas, os dois refazem as pazes e, se não fazem mais filmes, nunca mais se separam, mesmo sabendo que a carreira da dupla estava inevitavelmente no fim. Ou por isso mesmo. Com exceção dos seus primeiros filmes, antes da formação da dupla, Laurel nunca filmou sem Hardy, que veio a falecer logo depois, em 1957. E ele, oito anos depois, em 1965. Como muito bem disse em verso o poeta Sérgio de Castro Pinto: “do gordo é o magro / continuação intensa / um ponto dentro / de uma circunferência”.

Entre curtas e longas, mudos e sonoros, num período de 36 anos – de 17 a 53 – a dupla rodou 106 filmes que encantaram o planeta, infantil e adulto, e que, ainda hoje, de alguma maneira, encanta.

Dessa filmografia, destaco um aspecto que só notei em retrospecto, a partir de reflexões próprias sobre a história do cinema e dos movimentos cinematográficos: é que ela foi quase toda surrealista no sentido próprio da palavra, em alguns casos, bem mais que os filmes assim chamados, com a vantagem de – ao contrário dos filmes assim chamados – fazer rir.