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Brando

28 abr

Fazer um filme sobre Marlon Brando? Dizer o que já se sabe sobre esse ícone cinematográfico e ser irrisório, ou dizer o que não se sabe e ser sensacionalista?

O documentarista Stevan Riley optou por um terceiro caminho, mais honesto, criativo, e ousado. Tentou fazer, não um documentário, mas um ensaio fílmico em que a voz fosse só de Brando. E fez. Só lhe foi possível porque, por sorte e empenho, teve acesso a centenas de gravações e fitas privadas do ator, que montou de uma forma a fazer o próprio Brando contar sua estória, sem interferência de depoimentos alheios.

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Riley emoldurou tudo isso com o recurso ficcional de uma ´auto-hipnose´, a partir da qual o ator mergulharia no seu passado mais íntimo, e chamou o conjunto de “Listen to me Marlon” (2015), que no Brasil ganhou o péssimo título de “A verdade sobre Marlon Brando”.

Apesar dos vai-e-vens no tempo, a viagem subjetiva de Brando segue a cronologia de sua vida, da infância à velhice. Muitos desses fatos já são conhecidos para quem leu suas biografias publicadas, e viu seus filmes, porém, aqui há muito mais emoção, pois é a voz de Brando que se escuta, e, consequentemente, o seu ponto de vista.

O garoto Marlon

O garoto Marlon

O apego a uma mãe “poética” e o ódio a um pai grosseiro e violento, eis a dicotomia dramática essencial, fantasma que o perseguiu a vida inteira. Seu amor à natureza, sua sensibilidade, sua timidez, seu sentido de desajuste e absurdo, sua ânsia de liberdade… tudo aparece para compor uma personalidade complexa e atormentada, que a fama conquistada não apaziguou, muito pelo contrário. Um momento sintomático no filme está no seu desabafo sobre o horror que sente pelas multidões de fãs que o transformam em algo que ele não é, e de que não gosta.

Em várias ocasiões, cenas de seus filmes ilustram seus sentimentos, especialmente aqueles filmes do início de carreira, como “Espíritos indômitos”, “Uma rua chamada pecado”, “Sindicato de ladrões”, “Viva Zapata”, ou “O selvagem”… Na segunda fase de sua carreira, anos setenta, o mais evocado é, naturalmente, “O poderoso chefão”, cuja cena da morte de Don Corleone, por ele comentada, é reproduzida por inteiro.

A street car named desire

A street car named desire

Se os grandes filmes que levaram sua carreira aos píncaros da glória são os mais citados, também vamos ter referências suas aos problemáticos, e, como sabemos, Brando fez – geralmente por dinheiro – muitos filmes problemáticos. Há, por exemplo, um depoimento relativamente longo sobre o desastre que foi “O grande motim” (1962), como também – outro desastre – “A condessa de Hong Kong” (1967). Ao rodar o debochado e sem sentido “Candy” (1968) o ator estava no auge da impopularidade, de crítica e de público.

Os posicionamentos ideológicos do ator não podiam faltar, e vemos a sua defesa da causa negra, e, com um pouco mais de ênfase, sua luta pelos índios americanos, inclusive, recusando o Oscar, como forma de protesto pelo que a civilização americana havia cometido com as comunidades indígenas. Os escândalos familiares aparecem na medida de sua dor, e, a esse propósito, a imagem a ficar é Brando, já idoso, chorando em público em duas ocasiões: no júri do filho e na morte da filha Cheyenne.

Brando em O selvagem

Brando em O selvagem

Uma questão obrigatória tinha que ser o seu conceito de interpretação. Com honestidade, Brando confessa a sua dívida para com o Actor´s Studio, porém, não deixa de estender o conceito para a vida: ‘atuar é sobreviver`, afirma, e passa a dar exemplos de como, no dia a dia, as pessoas ´interpretam´ sem consciência do que fazem.

Por falar em interpretação, vem ao caso o amor de Brando por Shakespeare, várias vezes mencionado e mesmo declamado. Aliás, as declamações ocorrem de forma inusitada. É que o filme abre e fecha com uma experiência a que Brando se submetera e agora apresenta: o seu rosto fora computadorizado, ganhando movimentos que as ondas eletrônicas conduzem. Pois sua primeira “fala eletrônica” é de “Macbeth”, aquele trecho famoso que se inicia em “Amanhã e amanhã e amanhã…” e termina em “nada”. No final do filme,  ele recitará o soneto 29, aquele que começa “When in disgrace with fortune and men´s eyes…”.

o rosto computadorizado...

o rosto computadorizado…

Experiência curiosa e estimulante, o filme de Riley enriquece a lembrança que guardamos de Brando e faz jus a sua grandeza.

Depois de vê-lo dei-me conta de uma pequena ironia: o quanto a carreira de Marlon Brando – querendo ele ou não – confunde-se com a própria Hollywood, onde ele sempre trabalhou. Os seus primeiros filmes, todos dos anos cinquenta, coincidem com o melhor da era ainda clássica; os seus desastres dos anos sessenta, do qual “Candy” é o ápice, coincidem com o fechamento geral dos grandes estúdios; e, finalmente, a sua retomada, na segunda metade do século (com “O poderoso chefão”, etc) vai coincidir com o ressurgimento de uma “nova Hollywood”, a que está aí, de pé até hoje.

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Setenta anos de “Desencanto”

12 nov

Em 26 de novembro de 1945, setenta anos atrás, estreava em Londres, a obra prima de David Lean “Brief encounter” (´breve encontro´), filme que mais tarde seria conhecido no Brasil como  “Desencanto”.

Setenta anos de “Desencanto”, e, contudo, não faz nem trinta que o conheço. Nasci em 46 e perdi sua estréia e reprises locais; não tenho culpa. Vi-o pela primeira vez quando saiu em VHS, nos anos oitenta, uma cópia mal cuidada e sem charme, mas, para mim foi amor à primeira vista, uma vista que se repetiu muitas vezes e ainda hoje se repete.

“Desencanto”: o nome eu conhecia de longa data, desde os anos sessenta, tempo em que vivia devorando livros de cinema, todos os que me aparecessem à frente. E quase todos citavam o filme de Lean. Um deles, a famosa “História do cinema mundial” de Georges Sadoul.

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Na infância e adolescência, nem o nome de David Lean eu conhecia. Não tive idade para ir ao cinema quando estreou, no recém fundado Cine Sto Antônio, em Jaguaribe, o seu “Summertime” (“Quando o coração floresce”, 1955). Neste cinema ainda vi “A ponte do rio Kwai” (1957), mas foi com “Lawrence da Arábia” (1962) e “Dr Jivago” (1965) que me familiarizei com seu nome. Era o Lean das grandes produções, dos épicos, que – para quem conhecia a história toda – abafava suas pequenas fitas intimistas da primeira fase de sua carreira.

No meu caso, os termos ficaram cronologicamente trocados, já que a sua fase intimista só me chegou depois da épica, fase intimista da qual fazem parte outras preciosidades como “Grandes esperanças” (1946) e “Oliver Twist” (1948).

Nunca esqueci a primeira vez que vi “Desencanto”. Que emoção! Não sei o que mais me tocou, se a tragédia amorosa que contava ou a perfeição formal com que o fazia. Acho que as duas coisas juntas me levaram às lágrimas.

Loquei a fita várias vezes, e, logo que pude, comprei minha própria cópia original. Em 1995, ao bolar o clip “Imagens Amadas” para o lançamento do meu livro e celebração do centenário do cinema, no Hotel Globo, uma das primeiras cenas que pus no roteiro foi de “Desencanto”. Aquela em que o casal apaixonado, devastado pela culpa, se despede na Estação de trem, prometendo que se veriam mais uma vez na próxima quinta-feira. “Thursday!” grita ele do piso da estação “Thursday”, responde ela da janela do trem que parte.

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Depois disso, sem qualquer planejamento, passei a fazer uma espécie de campanha de divulgação do filme de Lean.

É que, conversando informalmente com amigos, ou em palestras sobre cinema, sempre metia “Desencanto” no meio da fala, e isso foi se repetindo… até se tornar sistemático, consciente e proposital. Tanto é que hoje em dia, muitos de meus amigos já me confessaram que só conhecem “Desencanto” por causa e através de mim. E, como vocês estão vendo, a propaganda continua.

Tenho inveja de quem pôde ver “Desencanto” em tela grande. O saudoso professor Rafael de Menezes, por exemplo. Leio no livro de Wills Leal que o filme de Lean esteve no programa da primeira sessão do “Cineclube de João Pessoa”, em 1951. E, cá com meus botões, fico pensando qual teria sido a reação daqueles padres todos, os fundadores do cineclube que Pe Fragoso coordenava. Que debate, pós-sessão, terá suscitado? Afinal de contas, o tema do filme é o adultério, em princípio algo condenado pela Igreja. A rigor, sua temática deriva do grande romance universal do Século XIX, que explorou ao extremo o motivo da “mulher casada apaixonada fora do casamento” (Karenina, Bovary, Hester Prynne, Luísa, Capitu, etc).

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Já escrevi várias vezes sobre “Desencanto” e não vou me repetir. Na ocasião de seus setenta anos, deixem-me apenas dizer que se trata de uma das mais belas estórias de amor que a sétima arte já foi capaz de contar. Não hesito em afirmar que “Desencanto” é o “Casablanca” britânico.

Foi rodado numa Londres ainda arrasada pela guerra, nos Denham Studios, e não tem a logística de Hollywood, nem o elenco de estrelas.

Porém, o texto primoroso de Noel Coward (de sua peça “Still life”: ´natureza morta´ ou ´vida calma´), as interpretações estupendas de Trevor Howard e Celia Johnson, a fotografia impressiva de Robert Krasker e a direção genial de David Lean o tornam o que é – uma obra prima. Fiz de conta que esqueci o melhor, mas não esqueci: a música, no caso, o soberbo emprego do Segundo Concerto para Piano de Rachmaninof, perpassando o filme inteiro, e, em momentos chave, acentuando suas subidas e descidas dramáticas.

Enfim, se porventura você não conhece “Desencanto”, dê logo um jeitinho de corrigir essa falha grave.

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Cantinflas

15 fev

O cinema mexicano é conhecido, no resto do mundo, pelos seus lacrimosos melodramas, mas isso é mais clichê que verdade, pois houve lá outras coisas: Cantinflas, por exemplo.

Para quem nunca ouviu falar do comediante mexicano, ou – mais ainda – para quem o curtiu nos anos cinquenta, está agora disponível o filme que conta a sua vida e o seu trabalho nas telas.

Quase tão divertido quanto o próprio biografado, o filme do também mexicano Sebastian Del Amo se chama “Cantinflas” (2014), papel-título desempenhado com extrema correção pelo ator espanhol Oscar Jaeneda, de aparência física impressionantemente semelhante a do protagonista.

Cartaz do filme, onde se vê o ator Oscar Jaeneda

Cartaz do filme, onde se vê o ator Oscar Jaeneda

A rigor, o filme narra duas estórias em dois tempos, sempre intercalados em rápidas sequências. Ora se vê a estória da atropelada carreira de Cantinflas, que vai de boxeador a artista de circo mambembe, passando por toureiro desastrado e outras trapalhadas; ora é a estória da produção do mega sucesso “A Volta ao Mundo em Oitenta dias” (“Around the world in eighty days”, 1956), quase tão atropelada quanto a vida de Cantinflas, filme em que ele faz a sua primeira – e quase única – atuação hollywoodiana.

Só no desenlace é que as duas estórias convergem, quando, já famoso no México, Cantinflas – depois de várias recusas peremptórias – aceita fazer o papel de Passepartout nessa adaptação de Júlio Verne.

Se Cantinflas protagoniza a primeira estória, a segunda é protagonizada pelo produtor americano Michael Todd (o ator Michael Imperioli) que, sem grandes suportes financeiros, ambiciona rodar o filme com um número extravagante de astros e estrelas de Hollywood, no nível de Elizabeth Taylor e Frank Sinatra, nomes que supostamente aceitariam atuar de graça nessa superprodução da United Artists.

Mario Moreno Cantinflas, o próprio.

Mario Moreno Cantinflas, o próprio.

Nem toda celebridade topa a empreitada e, Cantinflas, já famoso em seu país, muito menos. Não fica muito claro o que o faz mudar de idéia, mas de última hora, muda. E vai ser – vocês lembram? – o fiel escudeiro de Mr Philias Fogg (David Niven) na viagem que vai cobrir a superfície inteira do planeta, no prazo estabelecido pela aposta dos aristocratas britânicos, ou seja, dentro do número de dias que está no título.

É possível que o espectador sinta falta de mais informação sobre os bastidores de “A volta”, afinal, um filme que levou cinco Oscars. De suas filmagens, poucas cenas são mostradas e, da equipe, quase ninguém, salvo o produtor Todd, aparece. Por exemplo: fica de fora o músico Victor Young que compôs a bela trilha sonora, e até o diretor Michael Anderson ninguém avista.

A justificativa deve ser a de que o que interessaria no filme em questão – como mantém o seu título – é a figura de Cantinflas. Daí, as muitas reconstituições das filmagens de suas comédias mexicanas, algumas das quais são: “O grande fotógrafo” (1953), “Cavalheiro sob medida” (1954), “Abaixe o pano” (1955). “O engraxate” (1957), “Sobe e desce” (1959), “O analfabeto” (1961), etc. Sem falar na incursão em sua vida amorosa e seu casamento, de altos e baixos, com a dançarina russa Valentina.

Para coroas como eu, esse filme sobre a carreira e a vida de Cantinflas é um banho de saudosismo. De minha parte, me remete a sessões no Cinema Sto Antônio, em Jaguaribe, onde, na infância, não perdia as películas desse comediante, tão popular na época ao ponto de formar filas nas calçadas dos cinemas.

Cantinflas e David Niven em "A volta ao mundo em 80 dias".

Cantinflas e David Niven em “A volta ao mundo em 80 dias”.

Por outro lado, devo dizer que via os filmes de Cantinflas, mas não posso afirmar que os amasse. No meu espírito de criança, ficava, na maior parte das vezes, constrangido com as mancadas absurdas do protagonista, e este, em muitas ocasiões da estória, me parecia, não apenas ingênuo, mas meio débil mental. Com freqüência, seus “erros” crassos me deixavam incomodamente envergonhado, como se esses erros não estivessem previstos no roteiro do filme.

Assistindo a “Cantinflas” agora entendo por que tinha essa sensação. É que, em suas comédias mexicanas, o ator improvisava adoidado, ao ponto de, arrogantemente, chegar a expulsar diretores que não aceitavam suas improvisações.

De forma que o que mais me admirou no filme de Del Amo foi saber que Charles Chaplin era um admirador de Cantinflas e que lhe enviou uma importante mensagem declarando essa admiração. Digo que me admiro, não por questões de nível qualitativo, mas por se tratar de dois comediantes completamente antagônicos: como se sabe muito bem, o humor de Chaplin era estudado, calculado, quase cerebral, e por isso mesmo fazia efeito, ao passo que o de Cantinflas era solto, espontâneo e descuidado. Enfim…

Cantinflas, aqui visto com a sua compatriota Frida Kahlo

Cantinflas, aqui visto com a sua compatriota Frida Kahlo

 

 

Esquinas de Jaguaribe

29 nov

Tinha doze anos de idade e já trabalhava. Seus pais possuíam uma pequena padaria, na verdade, uma “gangorra”, como se chamava padaria de pobre, e a ele cabia entregar o pão em mercearias e em algumas residências do bairro.

Bem cedo da manhã, quase madrugada, o pão tinha que ser entregue, e isto, em sacolas de pano branco, o amontoado de sacolas pendurado em torno de seu corpo franzino lhe dando um jeitão ridículo de Papai Noel, apelido que lhe jogavam os meninos do bairro.

Esse cansativo ofício matinal tinha, naturalmente, uma compensação: a mesada semanal, que lhe garantia o acesso aos três – sim, três! – cinemas do bairro: o Sto Antônio, o São José e o Cine Jaguaribe.

Uma das esquinas de Jaguaribe: O Cine Sto Antônio.

Uma das esquinas de Jaguaribe: O Cine Sto Antônio.

Situado na Av Primeiro de Maio, número 146, esquina com a Vasco da Gama, o Sto Antônio, era vizinho ao Grupo Escolar onde estudava e todo dia podia ver a programação da semana e fazer seus planos. Um pouco mais longe, o São José ficava na Rua Senador João Lira, número 697, esquina com a Floriano Peixoto, e o Cine Jaguaribe, s/n, por sua vez, estava na Capitão José Pessoa, esquina com a Aderbal Piragibe.

Três esquinas, três cinemas… Para tantos filmes a ver, a sua mesada não bastava, mas assistia ao que podia, e também, ao que a censura permitia.

Seu pai não aprovava de bom grado esse vício de cinema, mas, por outro lado, não punha objeções, talvez pelo fato de ele ser aplicado na escola e tirar boas notas. Logo que percebeu isso, ele mais se aplicou, não porque gostasse de estudar, mas para consolidar o seu direito de ir a cinema quando quisesse. Sua mãe era neutra, e seus irmãos – também eventuais frequentadores – eram coniventes, de modo que não encontrava impedimentos de circular em torno daquelas três esquinas cinematográficas, a não ser na eventual falta dos 500 ou 800 réis que pagavam o ingresso.

A igreja do Rosário, vizinha ao Grupo e o ao cinema.

A igreja do Rosário, vizinha ao Grupo e o ao cinema.

Uma sessão imperdível no Cine Sto Antônio era a matinal de domingo, sempre às nove e trinta, horário conveniente, pois a missa da Igreja do Rosário, obrigatória para os alunos do Grupo, era nesse dia, mas, às sete, terminando cerca das oito: depois do “amém”, era só correr para casa, tomar café com o pão quentinho de fabricação própria, e se mandar para o Sto Antônio, a ver o que estivesse em exibição: algum faroeste, um Tarzan qualquer, filmes de aventura, reprises de Chaplin, fosse o que fosse, que tudo dentro daquele enorme templo de imagens era encantamento.

A rigor, todas as sessões, em qualquer horário, diurno ou noturno, naquelas três esquinas do bairro eram imperdíveis, só perdidas quando não havia jeito.

Uma circunstância toda especial acontecia quando lhe incumbiam o doce papel de acompanhar as irmãs mais velhas que – a ordem paterna era clara – não tinham permissão de irem ao cinema à sós com o namorado ou o noivo, e, no caso, o acompanhante obrigatório geralmente era ele, que – privilégio dos privilégios – usufruía dessa chance de ver filmes sem pagar, pois o namorado, claro, não abria mão da elegância de ser o patrocinador. Geralmente, o casal, a fim de carícias não permitidas em casa, sentava lá atrás, nas últimas filas, enquanto ele, ávido de meter-se tela adentro, procurava as poltronas da frente, indiferente ao seu papel de fiscal da moralidade familiar.

Mas essa era uma circunstância especial. No geral, o ingresso lhe custava o peso das sacolas carregadas.

O velho prédio onde funcionou o Cine São José.

O velho prédio onde funcionou o Cine São José.

Naquele dia, 28 de maio de 1958, quarta-feira, estava completando doze anos de idade. No seio de sua modesta família – residente à Rua Alberto de Brito, uma casa humilde não muito distante da Praça Onze – não havia o hábito de se comemorar aniversários, porém, sua irmã mais velha, casada e residente em Sta Rita, aparecera e lhe pusera na palma da mão um dinheirinho extra, que dava para algumas pequenas extravagâncias.

Já tinha visto que o Cine Sto Antônio estava anunciando para o fim de semana “Orgulho e paixão”, um filme histórico, em cujo cartaz um enorme canhão, sobreposto aos rostos de atores afamados, Cary Grant, Frank Sinatra e Sophia Loren, definia o seu gênero, guerra. No São José estava programada a exibição de “O homem que sabia demais”, e no Jaguaribe, o grande épico “Alexandre Magno”. Até então estava pensando em escolher só um deles, e esperar pela possível reprise dos outros dois. Agora, com o agrado da irmã, considerava a possibilidade de ir aos três.

Circos, lapinhas, festas de ruas, o bairro de Jaguaribe não era desprovido de diversões, porém, para ele, não havia nada que superasse a magia escondida naquelas três esquinas.

Em tempo: esta matéria é dedicada a Martinho Moreira Franco.

O cartaz de "Orgulho e paixão",

O cartaz de “Orgulho e paixão”,

Tarja branca

24 jul

Que brincar é essencial à vida das crianças todo mundo sabe. Que também o seja à vida dos adultos, poucos sabem… ou acreditam. É do que trata o documentário brasileiro “Tarja branca – a revolução que faltava” (Cacau Rhoden, 2014), em cartaz na cidade.

É claro que o título é uma ironia com os remédios chamados de ´tarja preta´. E, neste sentido, tarja branca seria a brincadeira que nos livra das doenças. Das doenças que nos levam às tarjas pretas.

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Recolhendo depoimentos de pessoas que trabalham, ou trabalharam, em atividades as mais diversas – algumas famosas, outras, nem tanto – o autor do filme montou um painel de opiniões sobre a pulsão lúdica na natureza humana. Ficasse nisso e “Tarja branca” seria um filme convencional, manjado, talvez chato. Para fugir à convenção dos documentários tradicionais, o seu autor inventou uma fórmula própria de abordar os seus depoentes, que pode ser resumida na tríade: verbo, conceito, imagem.

Assim, tem-se primeiramente a recordação, em palavras, das brincadeiras infantis dos entrevistados; depois disso vem a discussão de questões conceituais sobre o gesto de brincar, seu significado e seu papel na vida infantil e adulta; e, por fim, em terceiro lugar, o retorno à infância dos entrevistados, agora de forma visual, através da remissão a fotos desses entrevistados quando eram crianças, sem dispensar suas respectivas interpretações dessas fotos.

Cena do filme de Cacau Rhoden

Cena do filme de Cacau Rhoden

Cada depoente, cada um em três turnos, recobre as três etapas citadas, o que concede ao filme uma estrutura narrativa extremamente simétrica e – no bom sentido da palavra – fechada, mais fechada ainda, na medida em que as conceituações, sem exceção, convergem ideologicamente para uma mensagem inequívoca: brincar é essencial a todos, e, consequentemente, não brincar é nocivo à saúde mental e física… do indivíduo e da sociedade.

É verdade que às vezes a segunda etapa, a da conceituação, é expressa através de confissões biográficas, como a daquele senhor, ao dizer que, trabalhando em uma agência bancária, passou vinte e cinco anos carimbando mecanicamente cheques devolvidos, até descobrir que podia simplesmente abandonar o Banco… e partir para uma ocupação bem mais criativa. Ou pode ser expressa de modo metafórico, como foi o caso daquela senhora que, observando garotos empinando pipas e premiando as mais elevadas, aprendeu que brincar na vida era “usar a corda toda”.

Depoimentos: Antônio Nóbrega.

Depoimentos: Antônio Nóbrega.

É verdade também que, em dado momento do filme, os esforços de conceituar conduziram – não sei se casualmente ou de propósito – a uma ideia mais genérica e menos pessoal, segundo a qual o Brasil seria um país ´brincalhão´ e que esse aspecto do nosso perfil antropológico deveria ser considerado, respeitado e preservado. Imagens de nossos folguedos são usadas como ilustração.

Outro dado que não escapou às discussões teóricas foi que, em alguns casos, certas profissões permitem o usufruto da brincadeira, e não apenas as profissões artísticas, mas também outras mais científicas, como – uma depoente a cita – a engenharia.

Os entraves à ludicidade na vida adulta, segundo a opinião de alguns dos depoentes, não ficam por conta apenas da descrença dos adultos, da desistência de permanecerem crianças, mas também, do sistema que organiza a sociedade moderna. O capitalismo, onde “negócio” é a negação do “ócio”, seria, nessa perspectiva, o grande vilão…

José Simão: um dos depoentes.

José Simão: um dos depoentes.

Engraçado, vendo “Tarja branca” me lembrei de um filme muito sério que conta a estória de um homem rico e poderoso que, ao morrer, pronuncia uma palavra misteriosa.

A palavra é ´rosebud´ e os outros personagens do filme gastam a projeção inteira tentando descobrir o que ela significava, e ninguém descobre. Nós, espectadores, por sorte, bem no finalzinho do filme, descobrimos: era o nome de um trenó com que Charles Foster Kane, em criança, brincava (grifo meu), antes de conquistar a sua riqueza e o seu poder. Ou seja, a mensagem inteira de “Cidadão Kane” (Orson Welles, 1941) parece ser esta: não há, em toda a existência humana, nada mais importante que a infância e sua natureza lúdica.

Por tabela, isso também me fez lembrar da chegada do próprio Orson Welles a Hollywood, com vinte e quatro anos de idade, na iminência de rodar o seu primeiro filme. Eis o que, na ocasião, disse ele do cinema: “é o melhor brinquedo (grifo meu, de novo) que a humanidade já inventou!”.

Pois é, mesmo sem nada ter a ver com “Cidadão Kane” ou Orson Welles, ocorre-me que o filme do jovem diretor Cacau Rhoden também é, e foi confeccionado para ser, um brinquedo. E como todo brinquedo, de grande utilidade.

País brincalhão: folguedos brasileiros

País brincalhão: folguedos brasileiros

 

 

 

 

Mary Poppins e Walt Disney

11 mar

Faço esforços e não lembro as reações locais a “Mary Poppins”. O filme dos Estúdios Disney é de 64 e deve ter sido exibido por aqui no ano seguinte. Fico pensando se o clima ´político´ da época não teria interferido. Pessoalmente, me recordo de tê-lo visto numa matinée melancólica do Plaza, como se estivesse diante de algo bonito, mas anacrônico, retrô, sei lá.

Meio século depois, está de volta a questão, no filme de John Lee Hancock “Walt nos bastidores de Mary Poppins” (2013), em cartaz na cidade e no país.

Um dos posters de "Walt nos bastidores de Mary Poppins" (2013)

Um dos posters de “Walt nos bastidores de Mary Poppins” (2013)

O grande personagem agora, porém, não é a governanta mágica que, na Londres do início do século XX, com a chegada do vento oeste, aparece às crianças da família Banks e modifica suas vidas, mas a sua criadora, a escritora anglo-australina Pamela Lyndon Travers, que só cedeu os direitos autorais do seu livro a Walt Disney depois de muita briga.

É justamente a briga o que está narrado no filme, aliás, para os estudiosos do problema da adaptação, um bom exemplar dos conflitos entre literatura e cinema. Para dar apenas um exemplo: embora estivesse falida (seu livro não vendia havia muito) e precisasse da grana, Pamela Travers não queria que de sua obra fosse feito um musical, não queria cores, e não queria cenas com desenho animado. Como sabemos, perdeu nos três itens, três que por ironia fazem o encanto do filme – disso eu lembro.

De qualquer forma, o filme de Hancock não se limita a isso, e, baseando-se na vida pessoal de Pamela, acrescenta todo um subplot do ´passado´, onde acompanhamos a infância da menina Pamela e seu apego ao pai alcoólatra. A cada situação atual, há um equivalente no passado: por exemplo, viajar de trem para Allora, Austrália, versus viajar de avião a L. A., no presente, etc.

O passado australiano de Pamela Travers...

O passado australiano de Pamela Travers…

Mais que isso, o filme se dá ao luxo de ´interpretar´ a vida de Pamela, nos explicando, a partir dos dramas vividos na infância, as suas reações negativas ao mundo de Hollywood. Um exemplo entre muitos: ao chegar no Hotel de Los Angeles, joga na piscina as peras que haviam sido colocadas pelos empregados do Estúdio no seu apartamento, e não entendemos por que – só mais tarde, saberemos que foi a fruta que comprou no dia em que o pai faleceu.

“Essa mulher é um enigma”, diz um Walt Disney perplexo diante de tantos caprichos, que só entenderá no dia que descobre o verdadeiro nome de Pamela, Helen Lyndon Goff, este o sobrenome do pai, enquanto que, um pouco antes de Disney, o subplot do passado já nos encaminhava para a decifração.

Se há uma coisa bem feita no filme de Hancock é o desenvolvimento do conflito, todo explorado a partir de duas personalidades fortes: Pamela e Walt. Aquela, uma escritora antiquada e cegamente presa ao universo verbal da literatura; este, um visionário que, muito adiante dos grandes estúdios de Hollywood, divisou os caminhos recepcionais do cinema moderno. Como duas pessoas tão diferentes poderiam chegar a um acordo? Em ambos os casos temos a chance de adentrar um pouco o imaginário de dois adultos que (com meios tão diversos) tentaram manter as crianças que foram, vivas dentro de si.

Como esperado, Tom Hanks faz um Walt Disney convincente, e, no papel de Pamela, Emma Thompson tem a chance de fazer o que ela sempre faz no cinema: manter a mesma cara, aqui pelo menos sendo esta manutenção pertinente.

Walt Disney na fachada do Disneyworld, aguardando a visita de Pamela

Walt Disney na fachada do Disneyworld, aguardando a visita de Pamela

Bem conduzido, engraçado e comovente, o filme de Hancock, como não podia deixar de ser, traz o selo dos Estúdios Disney, coisa já indicada no seu título original “Saving Mr Banks” (´salvando o Sr Banks´) e a salvação é de um final infeliz. Sem coincidência, Pamela e Walt se entendem no dia em que este conta a ela a sua infância gelada em Missouri, entregando jornais nas residências, serviço cobrado por um pai rigoroso e sovina, e, no entanto, ´salvo´ pela imaginação do filho. Mais tarde, assistindo à première do filme em Hollywood, Pamela se comove até as lágrimas, embora tenha o cuidado de dizer a Walt a seu lado que é só porque ´detesta desenho animado´.

Evidentemente, perde um pouco do melhor em “Walt nos bastidores de Mary Poppins” quem não conhece o filme “Mary Poppins” (direção de Robert Stevenson, com Julie Andrews em sua estreia no cinema) e/ou o livro adaptado.

Em tempo: esta matéria é dedicada a três paraibanos que lidam com o imaginário infantil: Neide Medeiros, Marília Arnaud e André Ricardo Aguiar.

O Walt Disney do filme e o real.

O Walt Disney do filme e o real.

Antes da televisão

20 out

O rádio foi sempre um elemento presente no cinema, mas, duvido que homenagem maior lhe tenha sido feita do que a que recebe no filme de Woody Allen, “Radio Days” (1987), no Brasil chamado de “A era do rádio”.

Entre saudosista e irônico, biográfico e imaginativo, o filme conta, não tanto uma estória, mas um apanhado de episódios que giram em torno de uma família pobre do bairro judeu de Rockaway, Nova York, mais ou menos num périplo que vai de 38 a 44. Todo narrado em voz over pelo próprio Allen, “Radio Days” tem estatuto de flashback, e um roteiro que é todo cerzido pelas muitas canções da época. De Cole Porter a Glenn Miller, passando por Ary Barroso e Carmem Miranda, a trilha, sempre diegética e determinante dos episódios narrados, concede ao filme um certo jeitão de musical.

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 Mas, claro, nem só de música vive o filme – uma força decisiva vem da capacidade de persuasão da palavra oral, no caso, aquela que se escuta no rádio caseiro, seja o assunto as incríveis aventuras do Vingador Mascarado, ou o diário show do café da manhã das socialites, ou porventura a reportagem sobre uma catástrofe local, como aquela da menina soterrada. O personagem central é esse garoto (de 8 a 12 anos), filho único, cuja mãe abomina a vida que leva, cujo pai esconde a profissão que tem, e há ainda uma tia solteirona especialmente infeliz nas relações amorosas. Aliás, os dois únicos personagens a ganharem um relativo desenvolvimento narrativo são essa Tia Bea (Dianne Wiest), com seus inúmeros pretendentes, e Sally, a vendedora de cigarro (Mia Farrow) que, depois de quebradas de cara, alcança, por vias improváveis, um certo estrelado no rádio. Os episódios narrados teriam sido testemunhados pelo garoto,- uma espécie de alterego de Allen – que os viu de perto, dentro de casa, ou no bairro, ou que simplesmente deles ouviu falar, ou melhor ainda, com a ajuda de Allen, os inventou, caso bem óbvio da narração radiofônica do jogador de beisebol que, por acidente, foi perdendo partes do corpo.

Em muitos casos esses “episódios” estão possuídos de uma certa autonomia narrativa, como se valessem por “curtas” dentro de um longa, como se dá com o acidente que abre o filme: dois ladrões em ação atendem o telefone e – surpresa – tratava-se de um programa de rádio para os ouvintes dizerem qual música está sendo executada no momento: o ladrão conhece as três músicas, dá as respostas e deixa o enorme prêmio para a família roubada. Outro episódio completo que vem ao caso é o dos garotos que espiam a vizinha nua, e na semana seguinte, a belezona lhes aparece como professora da escola, e um deles, acometido de culpa judaica, deduz que eles e seus colegas vão todos para o inferno.

Patéticos ou líricos, alguns desses episódios também servem para demarcar a época, como o incidente com o namorado de Bea (a tia solteirona), que a abandona dentro do carro num lugar ermo, com medo da invasão de ETs, transmitida pelo rádio – a gente sabe – na voz fake de Orson Welles em 1938. Outra marcação evidente é a do anúncio radiofônico do ataque a Pearl Harbor, interrompendo um número musical. Vejam que o filme termina com a comemoração do ano novo de 1944, e o faz muito bem, pois – também sabemos – logo depois disso um novo meio, a televisão, começaria a tomar conta dos lares americanos, empurrando o rádio para uma posição secundária.

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Um mérito especial está no modo como, na concepção dos episódios, o roteiro combina o público e o privado; é o caso da surra que o pai está dando no garoto, no exato momento em que uma rádio local transmite o triste caso da menina que caiu numa cratera e, depois de muitos esforços dos bombeiros, não pôde ser salva e morreu: é a comoção com o fato que vai transformando aos poucos as pancadas paternas no corpo do menino em gestos de extremo carinho.

Uma coisa a notar é como, sendo o rádio o tema, o filme tem o cuidado de não tratar de cinema, quando se sabe que a época enfocada era também a áurea da sétima arte. Para não misturar as bolas, os personagens quase não falam de cinema, uma das poucas exceções sendo aquela cena na praia em que os três garotos, falando de suas musas da tela, ouvem um deles mencionar Dana Andrews, como se se tratasse de uma mulher. Resta observar a força da imagem num filme sobre uma mídia oral como o rádio, com o detalhe de, às vezes, a imagem chegar a substituir a oralidade desse meio, conforme acontece no relato do jogador de beisebol, por exemplo. No mais, a fotografia em si mesma, tanto fiel à época quanto criativa, é um item todo especial, com os tons frios (tendentes a azul) escolhidos para a paisagem e os quentes (inclinados ao vermelho) para os interiores.

Enfim, “A era do rádio” pode não ser um Woody Allen maior, mas, com certeza, é um dos mais saborosos.

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