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Macbeth in Brazil

19 nov

Está em cartaz na cidade “A floresta que se move” (2015), filme brasileiro que adapta ao nosso tempo e espaço o enredo da peça shakespeariana “Macbeth” (1606).

Dirigido pelo global Vinicius Coimbra, o filme faz do protagonista um executivo ambicioso que mata o presidente da Empresa para ocupar o seu posto. Em Shakespeare, vocês lembram, o personagem título é, na Escócia dos anos 1400, um vassalo do Rei Duncan, que ouve umas profecias de três bruxas, todas favoráveis à sua ascensão, e nelas acredita.  No filme de Coimbra, é só uma bordadeira que dá a dica a esse Elias ambicioso, e ele, como Macbeth, faz o resto acontecer.

Convenhamos que adaptar ao mundo atual texto tão remoto não deve ter sido fácil. E, de fato, os problemas aparecem. Um deles é o seguinte: até certa altura da projeção, o filme tem feição de um mero thriller, como os que vemos tanto hoje em dia. Um casal ambicioso assassina o presidente da Empresa para que o marido ocupe o seu cargo. Esfaqueia-o, joga o corpo num lago, e fica esperando pelo resultado. Que, naturalmente, não vai ser bom.

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Esse jeitão de thriller nos afasta do clima trágico da peça original, e a ele só voltamos, bem mais tarde, quando o casal assassino oferece um jantar ao corpo executivo da Empresa, e no meio da janta, o fantasma de Banquo, digo, de César (a segunda vítima do ambicioso Elias), aparece, todo ensanguentado. E o desenrolar do filme vai assim: ora thriller, ora tragédia, sem equilíbrio entre as duas coisas.

Fico pensando como receberão o filme, as pessoas sem familiaridade com a peça de Shakespeare. As que têm essa familiaridade eu sei, pois “Macbeth” acontece de ser um dos meus Shakespeares favoritos. Acho que posso dizer que aquelas primeiras vão estranhar a psicologia fantasmagórica, enquanto que estas segundas estranham o investimento no gênero policial. E ninguém sai satisfeito do cinema. Sobretudo, como já disse, por causa da falta de equilíbrio entre os dois tons.

Apesar da ação constante e dos crimes hediondos, “Macbeth” é uma tragédia reflexiva, psicológica, onde a construção dos personagens tem um peso enorme. Não tanto quanto “Hamlet”, mas é. Um exemplo, o assassinato de Duncan é todo circundado dos delírios culposos de seu algoz que, antes do crime, vê adagas no ar guiando ao quarto da vítima, e, depois do ato feito, gasta um tempão atormentado com a ideia de que “assssinou o sono” e nunca mais vai conseguir dormir.

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Não é sem razão que Shakespeare fez com que tudo, no destino dos protagonistas, dependesse das predições das três bruxas, investindo assim na fantasia (ou fantasmagoria), e por tabela, no psicológico, em detrimento do meramente factual. Como em todas as suas peças, o bardo de Stratford foi atrás das fontes históricas, porém, no caso presente, ele deu esse empurrão maior ao fantasioso, e dizem que o fez por interesse. É que o Rei da Inglaterra, James I – sem coincidência o patrono da sua companhia, “The King´s Men” – era apaixonado por bruxaria, e Shakespeare não hesitou em inventar as motivações sobrenaturais para o destino do tirano Macbeth. Se foi mesmo bajulação, foi tão bem feita que virou o melhor da peça.

No filme, os personagens parecem rasos, sem a grandeza trágica do original. Um ou outro trecho da peça vem a suas bocas (´nunca pensei que o velho tivesse tanto sangue´, sussurra e depois escreve Clara, a esposa do empresário), mas o conjunto não funciona a contento. Cheio de investigações e interrogatórios policiais (coisas inexistentes na época de Shakespeare), o filme, como já dito, se afasta temporariamente do espírito da peça, e o que dela tem, quando o tem, não é suficiente para compor uma obra uníssona e fluente. Esforços são feitos neste sentido, mas não diria que com bons resultados. A mim, me veio a ideia de acochambro.

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Dou um exemplo. No filme, uma certa frase de Macbeth (“ela podia ter morrido outra hora”) provoca um erro de montagem. O espectador sai da cena mais dramática, aquela em que o marido Elias, desesperado, encontra o corpo da esposa na banheira, e passa, imediatamente, para um Elias eufórico, no escritório, surpreendendo a secretária – e a nós – com a tal frase, como se feliz da vida. Ele faz isso porque tivera notícias alvissareiras da bordadeira, mas, a mudança brusca no comportamento do personagem é, no mínimo, inverossímil.

Em alguns casos, sente-se mesmo que a infidelidade ao original teria sido melhor opção, caso da famosa cena do porteiro (na peça, o da Fortaleza, no filme, o do Banco), ridiculamente inoportuna na diegese do filme.

Enfim, devo recomendar “A floresta que se move”, ou não? Não sei. Fica a seu critério. Agora, se você está interessado no assunto, não deixe de checar como foi que três “bruxos” geniais trataram a peça de Shakespeare: pela ordem, Orson Welles em “Macbeth, reinado de sangue”, 1948; Akira Kurosawa em “Trono manchado de sangue”, 1957; e Roman Polanski em “Macbeth”, 1971.

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Machado com teste de DNA

26 ago

Um dos maiores romances já escritos, “Dom Casmurro” é, como aceitam todos, a obra-prima de Machado de Assis. De forma que – nos cinemas ou nas locadoras de DVD – o anúncio de um filme que assume a ousadia de adaptá-lo para a tela só pode deixar o leitor/espectador curioso.

A primeira tentativa de adaptação fora de 1968 e está assinada por Paulo César Saraceni, com o título de “Capitu”, um “filme de época” do Cinema Novo (coisa rara!), do qual lembro pouco, salvo que não gostei muito.

Agora é a vez desse “Dom” do novato Moacyr Góes, que estreou em 2003, mas se encontra disponível em formato eletrônico para locação.

Para garantir o direito de infidelidade (!) ao romance, os autores dos créditos do filme tiveram o cuidado de usar o termo “inpirado” (ao invés de “adaptado”), e de fato, sua narrativa contém modificações fundamentais em relação ao texto literário.

Ao contrário do “Capitu” de Saraceni, o “Dom” de Góes transpõe para a atualidade a estória de Bentinho e sua companheira de olhos de ressaca, olhos que teriam feito um pouco mais do que olhar para o amigo de infância do marido, Escobar, fato supostamente indicado pela aparência física de outros olhos, os do filho, Ezequiel.

Diferentemente do romance, o filme conclui a estória com o filho ainda pequeno, brincando com o pai, e o amigo, embora off-screen, vivinho da silva. No romance, vocês lembram, Escobar morre afogado antes de envelhecer. Presa a esta, está a mudança na idade do protagonista/narrador: como lembra o leitor, o romance é narrado em forma de recordação, com o idoso Dom Casmurro sendo assim chamado justamente por estar idoso e amargurado. No filme, o termo “Dom”, apelido de um personagem jovem do início ao final, não tem, nem poderia ter, esta motivação etária e psicológica, e é só uma referência familiar e acidental ao fato de seu pai gostar de ler Machado.

Para marcar as diferenças talvez seja interessante confrontar dois momentos equivalentes, no romance e no filme.

Ao ser atacado pelo ciúme, Bentinho decide se suicidar e põe um tipo de barbitúrico no café, que afinal não toma. Sai de casa e vai visitar a mãe doente, que encontra melhor, e de lá vai ao teatro, mais aliviado da dúvida. Ora, para seu infortúnio, a peça em cartaz é o “Otelo” de Shakespeare, como se sabe, uma tragédia sobre ciúme e morte. Embora a Desdêmona shakespeariana seja sem dúvida inocente, o conteúdo da peça reacende os ciúmes de Bentinho, que raciocina desta forma em relação ao que seria a prova (na peça, uma prova falsa) da traição de Desdêmona, um lenço: “Os lenços perderam-se, hoje são precisos os próprios lençóis”. O que advém dessa passagem fônica de “lenços” para “lençóis” é, naturalmente, a separação, Capitu sendo praticamente exilada para a longínqua Suíça.

No filme, o confronto entre o casal é feito ao meio de uma enxurrada de palavras e gestos melodramáticos, lembrando uma novela mexicana, e o ápice da discussão acontece com a sugestão, por parte da esposa, de (pasmem!) um teste de DNA. Ora, como se sabe, um dos aspectos mais fascinantes no romance de Machado é a impossibilidade mesma de se saber quem é o pai biológico do filho de Capitu, a sutileza do discurso literário investindo nessa ambigüidade. Pois no filme, o teste é feito e, convenientemente, a esposa morre num acidente de automóvel, somente para que o marido decida queimar o papel que contém o resultado do teste, para poder aceitar o que lhe resta de tudo, o filho pequeno. Como se percebe, uma tentativa inútil dos roteiristas de manter a ambigüidade do romance, tentativa esta que mais parece “emenda pior que soneto”.

Bem, já é tempo de dizer: longe da ironia, do charme intelectual e da profundidade filosófica de um romance que faz do benefício da dúvida uma questão metafísica, o filme é um completo desastre estético. Isto não propriamente porque traia o romance ao mudar elementos de seu universo diegético, mas porque é ruim em si mesmo. Mal realizado em todos os níveis, seria ruim, mesmo se não consistisse numa adaptação.

Pelo que se percebe, houve, por parte da produção, um considerável investimento nos belos olhos da atriz Maria Fernanda Cândido, e, no entanto, quando Marcos Palmeira lhe confidencia a mais famosa fala do livro, lhe dizendo que ela “tem olhos de ressaca”, a obviedade da cena, ao invés de convencer, soa ridícula.

Para ser justo, até que o filme começa prometendo. No início aquela moça (Daniela, feita por Luciana Braga) à procura obsessiva de um companheiro é engraçada, e o seu diálogo com o companheiro de trabalho, Miguel (Bruno Garcia) tem lances inteligentes que arrancam risadas das platéias. Também é legal o modo de iniciar o caso de amor dos protagonistas com pistas falsas, cada um dos dois envolvido com outras pessoas, sugerindo nisso, a diferença (uma vez indicada no diálogo dos dois personagens masculinos) entre este século e o século dezenove. Até aí o espectador supõe que a proposta do filme seja a de transformar a amarga ironia do livro em humor, uma saída talvez viável para enfrentar a aura do literário.

Na medida, porém, em que a estória se desenvolve, percebe-se que não é o caso: as falas e os personagens vão ficando “sérios”, melodramáticos, e pior, vão virando puro clichê. Por exemplo, as juras de amor entre Dom (Marcos Palmeira) e Ana (Maria Fernanda Cândido) são, no geral, intragáveis. Ao nascer a criança, o comportamento do amigo Miguel, agarrando o bebê contra si, o tempo inteiro, é óbvio, ridículo, chanchadesco. Enfim, quando se chega ao referido ápice do melodrama e a esposa sugere o teste de DNA, a solução para o espectador desapontado é passar a enfrentar o filme como uma “má comédia”, e rir mesmo, agora um riso maldoso com que, naturalmente, não contou o cineasta.

Pobre Machado.

Em tempo: publicada neste Suplemento em outubro de 2003, esta matéria foi reformatada para a ocasião.