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Confissões de um cinéfilo à moda antiga

26 jun

Semanas atrás fui ao cinema do Manaíra Shopping ver “A livraria” (“The bookshop”, 2017), filme obscuramente exibido na Sala 1, sala esta, segundo consta, reservada a ´filmes de arte´.

Pois mesmo nesta ´sala de arte,´ passam, antes da sessão, os trailers dos filmes comerciais e, aí, começa o meu tormento. Um atrás do outro, cada trailer é um amontoado de explosões, rostos e corpos deformados, criaturas robóticas, paisagens desoladas e sombrias, correrias sem fim, velocidades indizíveis, pirotecnias as mais mirabolantes, efeitos especiais os mais absurdos… e barulho, muito muito barulho.

Deve ser problema da idade, mas essas parafernálias dos filmes atuais me incomodam horrivelmente e fazem mal aos meus olhos e ouvidos, para não dizer que ameaçam a minha saúde. Fico enfiado na poltrona como um menino medroso, com vontade de chorar ou sair da sala correndo.

Ufa! Depois de mais ou menos meia hora de sofrimento, eis que começa o filme que escolhi ver. Que alívio!

Na verdade, “A livraria” não é nenhuma grande obra: só um filme mediano, sem méritos especiais, mas, por contraste com o inferno dos trailers, juro, comecei a achá-lo um bálsamo para o meu espírito aturdido. Que beleza, entrar leve e discretamente na vida de pessoas normais, que não são robóticas, nem voam, nem se transformam em monstros, nem explodem bombas que destroem o Universo…

Em 1959, numa cidadezinha insignificante da Inglaterra, Hardborough, chega essa senhora, viúva de meia idade, Florence, simpática e tranquila, que compra uma casa antiga do lugar, com o intento de transformá-la numa livraria. Encontra apoio em uns e oposição em outros, mas, nada que esteja fora do familiar universo dos seres humanos como a gente. A senhora Florence poderia muito bem ser nossa tia, e os seus apoiantes e oponentes, poderiam muito bem ser os residentes do bairro onde moramos.

Com a vantagem de ser um filme sobre livros, coisa que eu não via fazia tempos. O último acho que foi “Nunca te vi, sempre te amei” (“84 Charing Cross Road”) do diretor David Jones, – vocês lembram – com a Anne Bancroft e o par Anthony Hopkins e Judi Dench em começo de carreira no cinema, embora ambos já maduros.

Em “A livraria” até os conflitos são leves. É verdade que a Sra Florence encontra indiferença na população local e rivalidade junto a uma socialite poderosa que termina por derrubar os seus planos, mas, mesmo assim o filme não pesa.

Pesa a bela e delicada amizade da protagonista com um senhor idoso e solitário, o Sr Brundish, que ela descobre ser um grande bibliófilo e, daí, passa a lhe enviar livros para avaliação. O primeiro que envia é um livro sobre livros, o famoso “Farenheit 451” de Ray Bradbury, que é logo aprovado e passa a constar das prateleiras da livraria. O segundo vai dar mais ainda o que falar: o – para a época – polêmico “Lolita” de Nabokov, mas é, sim, aprovado e passa a ser vendido como qualquer outro livro.

E por falar em Lolita, vejam que a funcionária da livraria da Sra Florence é uma criança, uma garota de 14 anos, Christine, que sequer gosta de ler, mas que será induzida à leitura pela sua patroa. Aliás, o filme inteiro – saberemos no desenlace – é narrado em flashback por essa garota, quando já adulta, ela mesma, hoje dona de uma grande livraria em Londres.

Como disse, “A livraria” não tem méritos especiais; é retilíneo e convencional, porém, contraposto ao inferno dos trailers que o precedeu, ele acidentalmente tornou-se, para mim, um filme extremamente agradável.

A propósito do contraste que me bateu entre os trailers infernais e “A livraria”, acho que não é coincidência que se trate de um filme sobre livros, quando se sabe que o computador, o poderoso opositor do livro no mundo de hoje, é justamente a máquina eletrônica que torna possível todo o “inferno” dos trailers referidos… Por aí.

Sobre o problema dos trailers que tanto me atormentaram, um amigo me disse o que já sei: que em tempo de férias, a programação local investe em filmes assim, para uma plateia infanto-juvenil. Para mim, o problema persiste: será que isto significa que, formado por esse tipo cibernético e barulhento de filme, o espectador do futuro nunca vai ver um filme singelo e humano como “A livraria”? Não tenho resposta…

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Sobre este blogue

9 abr

Criado no final de 2011, este blogue já completou seis anos de funcionamento ininterrupto, e até agora, só tem me dado satisfações. E aproveito para agradecer aos seus seguidores, os fiéis e os acidentais, os conhecidos e os anônimos.

Como constatam todos os que o acessam, alimento-o semanalmente com artigos, crônicas, ensaios ou matérias jornalísticas sobre cinema, e eventualmente literatura, textos diversos a que tem acesso um número grande, e cada vez maior, de leitores. Estou a par do número de acessos porque o vasto Quadro de Estatísticas do WordPress generosamente me informa, toda vez que consulto a mais que providencial parte administrativa do blogue.

Mas, se está tudo indo tão bem, qual a necessidade de escrever sobre este blogue? Vaidade? Falta de assunto? Nada disso.

Ocorre que as estatísticas diárias do WordPress – aquelas que me dão os números de acessos ao blogue no Brasil e no mundo – estão, de uns tempos pra cá, me intrigando um bocado. Vou explicar.

De início, digo, três ou quatro anos atrás, achei curioso que um blogue escrito em língua portuguesa (há apenas cinco ou seis postagens em Inglês) fosse acessado por praticamente todos os países do mundo. Só que, compreensivelmente, estes eram acessos em pequeno número, em muitos casos, uma única vez, ou duas ou três vezes.

Imaginei na ocasião que a coisa ocorresse assim: uma pessoa, digamos, na Ucrância, ou na Suécia, ou na Indonésia, caía no meu blogue meio por acaso, passava a vista, não entendia a língua e… desaparecia, para não mais voltar. Ou eventualmente voltava, uma ou duas vezes, se se tratasse de um brasileiro residente nesses países.

Normal era – e é – que o número maior de acessos estrangeiros viesse de países lusófonos, como Portugal, Moçambique, Angola, etc… Também normal sempre me pareceu que um número razoável de acessos – digamos, em torno de 4 a 6 por dia – viesse de países como Inglaterra, França, Itália, Estados Unidos e Canadá, como se sabe, países com um número considerável de residentes de origem brasileira.

Claro que era do Brasil o maior número de acessos, entre 70 a 90 por dia, fato que sempre me deu muita alegria – a constatação de estar sendo lido, no meu país, por tanta gente de forma tão sistemática.

Eu usei o verbo no passado quando disse que o número de acessos brasileiros “era” o maior de todos; sim, eu disse “era” por que não é mais. E é aí que começa a minha dificuldade em entender o que está acontecendo.

Vejam bem, de uns dois ou três anos para cá, os acessos diários vindos dos Estados Unidos começaram a crescer, chegando a alcançar, em média, um terço dos acessos brasileiros. E não ficou aí. O número de acessos diários a meu blogue vindos dos Estados Unidos, foi crescendo mais e mais, e este ano, desde janeiro, já ultrapassou os acessos diários brasileiros de uma forma, para mim, inexplicável e assombrosa. Aqui forneço alguns dados transcritos do mais que confiável Quadro de Estatísticas do WordPress. Aleatoriamente, tomei o exemplo de três dias deste mês de março em que estamos.

 

Dia 15: acessos brasileiros: 74; acessos americanos: 182.

Dia 27: acessos brasileiros 100; acessos americanos: 151.

Dia 29: acessos brasileiros: 55; acessos americanos: 137.

 

As estatísticas para o mês inteiro de março são as seguintes: 2.978 acessos vindos do Brasil, contra 4.655 acessos vindos dos Estados Unidos. Como se nota, não está muito longe de os acessos americanos duplicarem os brasileiros.

Em suma, por que os americanos estão acessando Imagens Amadas – um blogue, repito, redigido em língua portuguesa – bem mais que os brasileiros? Seriam esses acessos feitos por brasileiros residentes nos Estados Unidos? Ainda que assim fosse, é estranho supor que algumas comunidades brasileiras em território americano, superem, em número de acessos, um país inteiro, o Brasil.

Como as estatísticas do WordPress só informam os países de onde os acessos se originam, e nada mais (não sei, por exemplo, que estados americanos me acessam, e muito menos que cidades…), nada me resta fazer, a não ser o registro de minha curiosidade e admiração, para não dizer perplexidade…

Ficaria, sim, muito grato se, americano ou brasileiro, algum seguidor de Imagens Amadas nos Estados Unidos, ao ler esta matéria, fizesse o obséquio de me contatar, aqui mesmo, neste blogue, informando sua cidade e, se for o caso, a forma como descobriu o meu blogue e por que o segue. Antecipadamente, agradeço.

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Vitória e Abdul

6 fev

Embora dirigido por Stephen Frears e com Judi Dench no papel principal, o filme “Vitória e Abdul – o confidente da rainha” (2017) só de forma modesta concorre ao Oscar deste ano: nas categorias de figurino e maquiagem.

De fato, não se trata de nenhum grande filme, mas, acho que vale a pena ser visto. Nem que seja por puro entretenimento. Eu, pessoalmente, me diverti acompanhando o desenrolar dessa amizade nada provável entre uma rainha idosa e um jovem plebeu, e isto em pleno Século XIX. Aliás, como no clássico de William Wyler “A princesa e o plebeu” (1953), o tema subjacente também é aquele que se resume na expressão “noblesse oblige”.

Em cenas chave, vemos a poderosa rainha da Inglaterra confidenciando ao seu servo indiano o peso e a solidão de ser rainha. São cenas intimistas, com certeza a parte mais criativa de um roteiro que se diz baseado em fatos reais e, espertamente acrescenta “mostly”, ou sejam “em sua maior parte”… Mas não sempre, subentende-se.

Enfim, em plena Índia colonial do século XIX, o modesto funcionário público Abdul Karim é aleatoriamente escolhido para ir à Inglaterra, fazer entrega à Rainha Vitoria de uma famosa moeda pátria. Acontece que, já no ato da entrega, durante a pomposa ceia real, a Rainha põe os olhos naquele belo indiano, e não quer mais largá-lo. Para desespero da corte inteira (contando filhos, parentes em geral e serviçais) o nomeia seu guardião, e, com o desenvolvimento da amizade, seu professor e guru. Como o guru era muçulmano, daqueles que sabem o Alcorão de cor, ela vai aderindo à sua religião, esquecida do rigor de sua tradição anglicana.

Centrado na amizade dos dois protagonistas, o filme não tem tempo de mostrar o contexto histórico da chamada Era Vitoriana. Deve ter partido do princípio de que o espectador o conhece muito bem das aulas de história.

Seja como for, sabemos bem que foi uma época puritana de falso moralismo, e pior, de improdutivo marasmo, onde tudo girava em torno do conceito mais retrógrado de lar. É pelo menos assim que está descrita no livro “Orlando” de Virginia Woolf, ou, se for o caso, nas páginas poéticas de um Robert Browning. E o pior é que essa atmosfera conservadora e mesquinha é, normalmente, associada à própria figura da Rainha Vitória, a mãe de nove filhos, supostamente estimuladora do conceito mais careta de família.

Ora, é exatamente por causa desse contexto não explicitado que o filme de Frears se torna interessante – pelo fato de negá-lo, apresentando-nos uma rainha, como já dito, cansada de ser rainha, e, aos 81 anos de idade, de mente aberta às novidades, ao exotismo e à aventura; cheia de projetos de uma vida nova que nada tinham a ver com a conservadora tradição inglesa, muito pelo contrário.

Em sua primeira metade – possivelmente de propósito – o filme nos faz crer que o interesse da Rainha Vitória no seu súdito seja amoroso, mas, a certa altura, tem o cuidado de corrigir a impressão, ou pelo menos, deixá-la suspensa. É no suave turning point em que ela fica sabendo que o rapaz é casado. E o que faz? Imediatamente e com todo gosto, manda buscar, da Índia, a tal esposa, que vai nos aparecer sem que a vejamos realmente, o corpo todo, incluindo o rosto inteiro, escondido por uma indumentária de cor negra.

Evidentemente, as diferenças entre a Inglaterra e a Índia eram – e são – muitas e o diretor Frears não perde a oportunidade de as acentuar com lances de humor.

Um exemplo já está no quase início, com a prolongada cena do pomposo jantar na corte, os dois novatos indianos observando, estupefatos, o ridículo cerimonial em que cerca de cem comensais ocupam uma mesa sem fim, servidos por cerca de cem serviçais atarantados… Um outro exemplo, catado ao acaso: no dia em que o médico da corte é obrigado a examinar a esposa do indiano, e não pode fazê-lo porque – o marido explica – ela não pode retirar a burka, a solução é que a mulher, por um buraquinho pequeno do pano, lhe estire, em close, a sua grossa, vermelha e molhada língua.

Mas, visivelmente, o forte em “Vitória e Abdul” não é o enredo. Ele é muito mais, como se diz, “um filme de personagem”, e, neste aspecto, quem nele reina, soberana, é a grande Judi Dench. Afinal de contas, num filme que parece ter sido concebido para ela.

“O destino de uma nação”: a hora mais sombria

23 jan

Winston Churchill foi, como se sabe, um dos maiores estadistas do século XX. Seu papel na II guerra mundial foi decisivo e é o que mostra o filme “O destino de uma nação” (“Darkest hour”, 2017), em cartaz na cidade.

O tempo da narrativa é curto, mas sintomático: de 3 a 29 de maio de 1940, o périplo que vai da posse de Churchill como Primeiro Ministro ao dia do seu famoso discurso, no Parlamento, sobre o posicionamento do Reino Unido no Conflito.

Desde a invasão nazista à Polônia pairava nos apavorados ares londrinos, mais especificamente no Parlamento, a ideia de uma negociação com Hitler, uma negociação que deixasse a ilha britânica fora de suas garras devastadoras. Desconfiado dos intuitos do ditador alemão, Churchill se opõe terminantemente a essa ideia, e, durante todo esse trágico mês de maio, amarga maus momentos, junto ao Parlamento, à imprensa e ao público em geral, o que está expresso no título original do filme “Darkest hour”, ´a hora mais sombria´.

Uma coisa que o filme faz bem é mesclar o público e o privado. Ao lado do embate nos bastidores da política londrina, também nos é permitido acompanhar Churchill (Gary Oldman) em sua casa, enfrentando os seus demônios pessoais, com ou sem a ajuda providencial de Lady Clementine (Kristin Scott Thomas). E mesmo no seu escritório, testemunhamos sua angústia de homem público, posto em situação de perigo extremo, situação partilhada por uma jovem datilógrafa exemplar, Elizabeth Layton (Lily James), a mocinha tímida que ouve e anota seus discursos em primeiríssima mão – ela também transformada em personagem importante.

Alias, uma das cenas mais comoventes no filme está naquele momento em que Churchill e sua fiel datilógrafa, a sós, enfrentam a questão Dunquerque. Pela sugestão do Primeiro Ministro, 4 mil soldados foram sacrificados para salvar os 300 mil perdidos no litoral de Dunquerque. Em choro contido, a jovem datilógrafa confessa que seu irmão esteve entre os que pereceram, e as lágrimas são partilhadas por um Churchill dobrado à dor alheia.

Gary Oldman como Winston Churchill

Um segundo momento de comoção especial, embora desta vez menos disfórica, vem quando um Churchill ousado vai buscar o apoio do povo à sua tão malquista proposta, e toma um metrô, coisa que ele nunca fizera na vida. Tenha ocorrido veridicamente ou não, a cena do diálogo entre os cidadãos comuns e o homem que tem o destino da nação nas mãos é um ponto alto do roteiro, com foros de turning point. Sintam como o grito do jovem negro no metrô “Eles nunca tomarão Piccadilly!” vai virar o discurso inflamado de Churchill para o Parlamento e para a nação, todos agora atentos aos seus argumentos. Antes do apoio do povo no metrô, esse atormentado Primeiro Ministro tivera o aval do ambíguo e frágil rei George VI, que o visitara na sua casa de madrugada, às escondidas, porém, é no espaço público do metrô que sentimos a virada.

Acima falei em Dunquerque. Ora, o filme “Dunkirk” (2017) também recentemente exibido entre nós, funciona como um intertexto óbvio para este “O destino de uma nação”. Ou seria vice-versa? Na verdade, o que me ocorre no momento em que redigo estas linhas é que os dois filmes são complementares, pois, historicamente falando, as duas coisas são simultâneas e, mais que isso, dependentes uma da outra, digo: a problemática presença dos 300 mil soldados ingleses nas praias de Dunquerque e a luta de Churchill para derrotar a proposta de negociação com o Eixo.

Lily James é a secretária devotada, Elizabeth Layton.

Pois bem, na minha cabeça de cinéfilo, “montei” um filme só, mais longo, em que toda a querela de Churchill com o parlamento inglês, no filme em questão, seria intercalada por cenas de “Dunkirk”. O resultado seria um longa-metragem de quatro horas de projeção, mas acho que valeria a pena ver confrontados os claustrofóbicos espaços, de um filme, com as paisagens abertas, do outro; as intermináveis discussões sobre estratégia de guerra, em um, e a violência aberta, no outro.

Segundo consta, nunca se soube ao certo por que Hitler não esmagou Dunquerque: por que, então, não imaginar que a proposta de negociação – a abominada por Churchill – teria chegado aos ouvidos do Führer, via Mussolini, ou por qualquer outro meio de espionagem, e daí haver ele hesitado, como hesitou, em atacar Dunquerque de forma definitiva? É verdade que todos os filmes sobre a II guerra mundial que tenham sido fundados em fatos reais possuem certa complementariedade, mas aqui, acho, o caso é mais direto e mais encaixável.

Para fechar, sabe-se que Winston Churchill tinha lá os seus defeitos pessoais e nunca foi um herói perfeito, mas, de todo modo, o filme de Joe Wright, sem querer ou querendo, nos remete aos dias de hoje e suscita a incômoda pergunta: onde estão os líderes no mundo atual?

Kristin Scott Thomas e Gary Oldman em cena do filme.

Um espectro ronda a Europa…

14 nov

Nesse tempo de comemorações do centenário da Revolução bolchevique, acho que um filme oportuno é este, recém lançado, “O jovem Marx” (“Der junge Karl Marx”, 2017), do haitiano Raoul Peck. Como promete o título, o filme de Peck se reporta à juventude do autor de “O capital”, ao tempo em que suas ideias eram apenas conceitos em formação.

Quando o filme começa Marx não passa de um jovem judeu prussiano, banido de uma família classe média e cheio de vontade de mudar o mundo. Com uma filha pequena, está casado com uma moça aristocrática, Jenny von Westphalen, também banida da família, de forma que o casal sobrevive em digna miséria.

Mais ou menos fiel à história, o filme reconstitui a trajetória de Marx, desde sua participação na “Gazeta renana”, em Colônia, Alemanha, 1843, até a escritura do Manifesto do Partido Comunista, em 1848. São cinco anos de dureza, mas também de espantoso progresso intelectual.

O sustento da família vem dos escritos que o jovem Marx publica em revistas de filosofia, mas, claro, a remuneração por esses escritos mal paga o aluguel da casa. Dificuldades financeiras e políticas o removem à França, onde termina conhecendo um pensador jovem como ele, que seria fundamental em sua vida pessoal e intelectual: Friedrich Engels.

Em 1844, em Paris, ele conhece pessoalmente Proudhon, além de Bakunin e outros pensadores sociais, mas, de fato, o ponto alto de sua trajetória conceitual está no dia em que vem a conhecer, pessoalmente, Engels. A cena em que os dois jovens pensadores se encontram e se falam, pela primeira vez, na antessala de um jornal é um ponto alto no filme. A primeira reação é de hostilidade recíproca, porém, não demora muito para os dois se renderem um ao outro. Ocorre que cada um conhecia e admirava o trabalho do outro, e não foi necessária muita conversa para se darem conta de que esses respectivos trabalhos, não eram apenas importantes, mas complementares.

Enquanto Marx, com o seu materialismo dialético, teorizava a condição do trabalho da época, Engels (filho rico de proprietário de fábricas, na Inglaterra) procedera, por conta própria – e claro, à revelia do pai – a pesquisas de campo sobre as condições de operários, em fábricas europeias, incluindo as de sua família. Assim, a prática se unia à teoria e dava os melhores resultados.

O jovem casal Karl e Jenny (August Diehl e Vicky Krieps)

Reuniões acaloradas nos bairros de Paris, com trabalhadores e artesãos, além de artigos considerados subversivos, por exemplo, aquele sobre o atentado ao rei da Prússia, logo tornam Marx uma persona non grata em território francês, do qual vem a ser sumariamente expulso. A essa altura, Engels, que o apoiava financeiramente, já voltara a seu país de origem, e Marx e família estão à mercê do acaso, situação piorada com a notícia de que Jenny está, mais uma vez, grávida.

Em 1845 vamos encontrar o casal em Bruxelas, em estado de penúria, ele pedindo emprego e sendo recusado por causa da má caligrafia, e ela, fragilizada, aguardando o momento de descansar. A salvação, de novo, vem de Engels que envia dinheiro ao casal, pelos Correios.

No ano seguinte, 1846, Marx é convidado a ir a Londres, participar da recém fundada por Weitling, “Liga dos Justos”. Em desastrosa reunião, Marx se desentende com Weitling e seus seguidores. Debates vêm, debates vão, e a tal “Liga dos Justos” termina por se transformar em “Liga comunista”, agora ostentando os dizeres que a tornariam famosa: “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos”.

Engels e Marx, nas ruas de Paris.

Se Marx era um judeu empobrecido, casado com uma aristocrata, Engels era um alto burguês casado com uma operária irlandesa: esse “quiasmo social” parece que deu sustentação ao quarteto, que viveu em comunhão, afetiva e intelectual, pelo resto da vida. Foi essa convivência crítica que propiciou um dos escritos mais importantes do pensamento da época, redigido em conjunto enquanto o quarteto passava férias em Ostende, uma praia isolada da Bélgica. Refiro-me, naturalmente, ao “Manifesto do Partido Comunista”, elaborado e publicado em 1848.

“Um espectro ronda a Europa…” – assim começava o texto.

De alguma maneira, sente-se que o roteiro do filme foi bolado de forma a que tudo na estória do quarteto referido desaguasse na criação do Manifesto – espécie de apoteose conceitual, depois da qual… Bem, depois da qual vão vir as lacunas que o espectador, conhecedor da História subsequente, deverá preencher por conta própria. Se for o caso, de acordo com suas próprias inclinações ideológicas…

Para “ajudar” ironicamente nesse preenchimento, o filme se finda com uma longa cadeia de tristes imagens do Século XX, tudo ao som do “Like a rolling stone” de Bob Dylan.

Para o bem ou para o mal, um efeito devastador.

Uma foto da época, mostrada no filme de Peck.

“Eu, Daniel Blake”: pobres no Primeiro Mundo

2 maio

Na Inglaterra de hoje, o viúvo Daniel Blake, marceneiro de 59 anos, residente em Newcastle, foi acometido de um problema cardíaco e, segundo seu médico, não poderia trabalhar. Legalmente como fica a sua situação profissional?

Ao ir atrás de seus direitos de cidadão que paga impostos, Daniel vê-se metido em um sistema mais confuso e perverso do que aquele que está descrito em certo livro de Franz Kafka – situação agravada pelo fato de pertencer ele a uma geração que não se familiarizou com computadores, celulares e demais recursos eletrônicos.

A frieza dos atendentes nas repartições públicas, só comparadas às das vozes gravadas nos telefones, ou às das páginas virtuais nos computadores, vai minando sua paciência, até um ponto insuportável para um homem de idade e doente. Ninguém o ajuda e quem tenta – como uma certa funcionária, também idosa, que dele se compadece – é admoestado pelos superiores.

Ninguém ajuda Daniel, e, no entanto, ele ajuda outros, aparentemente mais desesperados que ele, caso dessa jovem que perdera o teste para emprego porque, arrastando dois filhos pequenos, chegara atrasada. Mãe solteira, Katie já vem de Londres onde morava num albergue público insalubre. Agora em Newcastle, a situação de penúria continua, mas, o encontro casual com Daniel lhe sugere que nem tudo está perdido. Pelo menos que ainda existe solidariedade humana.

Apesar da solidariedade recíproca, os casos de Daniel e Katie, cada um a seu modo, vão se agravando até um ponto… Bem, não conto o resto para não estragar o prazer de quem ainda não viu o filme do veterano diretor inglês Ken Loach “Eu, Daniel Blake” (2016)

Como vivem os pobres no Primeiro Mundo? Claro, um dos aspectos interessantes do filme de Ken Loach é que estamos num país supostamente rico, e, mais, numa das democracias mais consolidadas do planeta. Para o espectador desavisado, constatar como os sem teto e, sobretudo, os idosos, são tratados pelo sistema inglês pode ser estarrecedor. Se a estória se passasse no Brasil…

À parte esse tom, aliás, bastante forte, de denúncia, o filme convence como cinema, envolve e empolga. Ainda que de modo simples e direto, o enredo é efetivo em desenvolver a estória por etapas, cada nova etapa com uma pitada de gravidade acrescentada, e, isto feito em paralelo: de um lado, o drama de Daniel (um atrapalho no uso do computador, um não recebido de um funcionário…), do outro, o de Katie e seus filhos (um azulejo quebrado, um sapato puído…). Naturalmente, com pontos de toque em momentos sintomáticos, para indiciar bem a construção de uma amizade.

Os personagens são desenvolvidos com inspirada competência, e nos passam com naturalidade a verdade humana que encarnam. Novato no cinema, o ator Dave Johns está excelente no papel-título, e a atriz Hayley Squires não fica a dever como a sofrida mãe Katie. Até dos atores mirins se conseguem bons desempenhos.

Dois momentos particularmente dramáticos constituem turning points que, na mão de um cineasta menos experiente, se tornariam, um piegas, o outro, ridículo. Refiro-me primeiramente àquela cena em que Daniel, descobrindo, indignado, a opção de Katie pela prostituição, a visita no bordel e os dois, constrangidos entre as quatro paredes de um quarto, mal falam oprimidos pelas lágrimas.

O segundo momento é quando Daniel, completamente desiludido com relação à (im)possibilidade de resolver seu caso burocraticamente, e insanamente movido por puro desespero, toma a atitude drástica de pichar a parede do prédio da repartição com palavras de ordem, entre as quais a que intitula o filme.

A ninguém escapa o jeito documental de “Eu, Daniel Blake”. Consta que, bem antes da concepção do argumento, Ken Loach e o seu comparsa de sempre, o roteirista Paul Laverty, procuraram o auxílio de empregados do Sindicato de pensão e trabalho. As entrevistas e as informações fornecidas por esses empregados – cujos nomes, evidentemente, não puderam aparecer nos créditos – é que serviram de base para a estrutura narrativa ficcional do filme. Algumas cenas foram mais ou menos improvisadas, caso da visita de uma Katie faminta ao Banco de alimentos: a senhora que a atende sabia que estava sendo filmada, mas não sabia o que ia acontecer com Katie logo em seguida: o gesto extremo de abrir a lata de conservas, engolir o conteúdo e desesperar-se, envergonhada.

Em Cannes, 2016, “Eu, Daniel Blake” foi ovacionado durante quinze minutos. Levou a Palma de Ouro, aliás, a segunda na carreira brilhante de Ken Loach, cineasta idoso ele mesmo (81 anos) que sempre soube resistir aos encantos de Hollywood. E convites não lhe faltaram.

Um filme comovente, sobre vários tópicos que se tocam: a terceira idade, a exclusão social, o desemprego, a desigualdade, a miséria, a humilhação, o desespero, a perda da dignidade, o protesto impotente, mas, sobretudo, a solidariedade.

Recomendo.

Bertrand e Rebeca

13 set

Experiência agradável ver, em tela grande, “Rebeca, a mulher inesquecível” (1940), o primeiro filme americano do mestre Alfred Hitchcock.

O filme foi exibido no Cine Bangüê, quinta-feira passada, dia 8, ocasião em que também foi lançado o livro do fotógrafo e cineasta Bertrand Lira, “Cinema Noir – a sombra como experiência estética e narrativa”.

Coube-me a missão dupla de apresentar livro e filme, mas, como tive pouco tempo para a apresentação, aqui completo o que faltou dizer.

Parte de sua tese de doutorado, o livro de Bertrand analisa o funcionamento artístico da fotografia no filme noir, e o faz à luz das propostas contidas na obra de Gilbert Durand, “As estruturas antropológicas do imaginário”, onde se investiga a simbologia das sombras na cultura universal.

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Grade teórica escolhida com sabedoria e aplicada com sensatez e competência. E vejam que Bertrand não escolheu bem somente a grade teórica, como também o corpus. Para close reading, privilegiou cinco filmes que foram particularmente importantes na formação do gênero, a saber “Relíquia macabra” (John Huston, 1940), “Almas perversas” (Fritz Lang, 1945), “Envolto nas sombras” (Henry Hathaway, 1946), “Maldição” (Lang, 1950) e “A marca da maldade” (Orson Welles, 1958).

Os filmes de Huston e Welles são emblemáticos no sentido de estarem nos extremos do período atribuído à vigência do cinema noir. Contando a estória de uma secretária que ajuda o patrão a se livrar de uma acusação criminosa, o filme de Hathaway ilustra o gênero de modo exemplar. E por fim, “Almas perversas” e “Maldição” são de autoria de uma figura chave, Lang, alemão de origem que foi, nos anos vinte, cabeça do Expressionismo e que, de modo pessoal, trouxe para Hollywood as sombras desse movimento artístico.

Em suma, um belo livro, bem montado e bem escrito, que deve ficar como referência para os estudiosos da arte cinematográfica, em nível local e nacional.

Laurence Olivier e Joan Fontaine

Laurence Olivier e Joan Fontaine

Como já disse, adorei ver “Rebeca” em tela grande, porém, a meu ver, o ideal seria que o filme escolhido para exibição tivesse sido um daqueles estudados no livro de Bertrand. Para o espectador presente à sessão e futuro leitor do livro, “a aula”, então, teria sido completa.

A rigor, “Rebeca” nem é um noir típico. Como se sabe o filme noir era “B”, ou seja, tinha orçamento baixo, o que, aliás, dava a seus realizadores mais liberdade para criar, sem a fiscalização que recebiam os projetos de alto custo. Eram filmes para completar cardápio, geralmente curtos (entre 70 a 90 minutos), exibidos em dias de semana, entre segunda e quarta-feira. O cenário era quase sempre urbano e noturno, cheio de sombras, iluminação oblíqua, e trilha sonora desconcertante, para dar certo com a temática disfórica. Tratando de crime, sedução, culpa, e castigo, seus personagens podiam ser bandidos, policiais ou o cidadão comum envolvido em trama maldosa.

“Rebeca”, por sua vez, foi rodado com pompa e circunstância.

O grande produtor americano David Selznick convidou o grande cineasta inglês Hitchcock, e lhe ofereceu condições privilegiadas para filmar, em seus estúdios hollywoodianos, um romance que estava virando best-seller, e isto com um elenco de primeira: o shakespeariano Laurence Olivier, a estrela em ascensão Joan Fontaine, e até os coadjuvantes eram chique: o refinado George Sanders e a impressionante Judith Anderson, que faz a governanta mais assombrosa da história do cinema, no papel da Sra Danvers.

Capa do livro de Bertrand e convite ao lançamento.

Capa do livro de Bertrand e convite ao lançamento.

Selznick havia acabado de produzir o estrondoso “E o vento levou…” (1939) e ainda estava na tarefa da distribuição e exibição, quando Hitchcock – que havia muito já ganhara prestígio internacional com suas produções inglesas – aportou em Hollywood, com um contrato e a perspectiva de grande trabalho em comum.

O filme começa com o casamento de uma moça pobre com um aristocrata, mas esse cheiro de “Cinderela” vai, aos poucos, sumindo e tomando os tons de terror a que nos conduzem, tanto o cenário (a suntuosa mas funesta mansão de Manderley), como o mistério da trama, suscitado pelo espírito da ex-esposa, e encarnado de modo concreto, na governanta.

Segundo a biógrafa de Daphne du Maurier – a autora do livro adaptado por Hitchcock – antes de escrever “Rebeca”, ela havia lido os originais de um certo livro intitulado “A sucessora”, enviado para a sua editora, e que contava mais ou menos a mesma estória. A autora? A brasileira Carolina Nabuco. Mas este é outro problema, que fica para outra hora.

Por enquanto é bom lembrar: “Rebeca” continua em cartaz no Bangüê, e o livro de Bertrand está à venda na Livraria do Luiz e na Livraria do CCHLA, na UFPB.

Patroa e governanta, em "Rebeca, a mulher inesquecível" (1940)

Patroa e governanta, em “Rebeca, a mulher inesquecível” (1940)