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Bergman 100 anos

30 jul

O cineasta Ingmar Bergman sentia dores estomacais constantes, detestava legumes e comia, o tempo todo, bolacha Maria. Coisas assim, e outras mais, estão no documentário “Bergman – 100 anos” (2018), em exibição local.

O filme da diretora Jane Magnusson concentra-se no ano de 1957, supostamente, o mais produtivo na carreira do cineasta sueco, tanto é assim que o título original se traduz por “Um ano em uma vida” (“A year in a life”).

De fato, nesse ano Bergman lançou e/ou rodou vários filmes, tanto para o cinema como para a televisão, e encenou mais de uma peça de teatro – numa demonstração homérica, não apenas de talento superior, mas de extraordinária capacidade de trabalho.

O filme segue a cronologia do ano, de janeiro a dezembro, embora, em cada caso, a narração retroceda ou se adiante no tempo, para incluir outros momentos da linha existencial do cineasta. De forma que, no geral, o espectador pode desfrutar de um passeio pela carreira e pela vida do biografado – do começo ao fim.

Como mantém o título brasileiro, o filme celebra o centenário de nascimento do autor e é, portanto, elogioso. Trata-se de um dos maiores cineastas de todos os tempos e a narração faz nisso a ênfase cabível. O que não impede que se revelem aspectos da personalidade do biografado não muito edificantes, suas idiossincrasias, suas contradições, incorreções políticas e suas sombras tímicas.

Uma dessas sombras mais desconcertantes para os fãs do cineasta é ficar sabendo que, na juventude, Bergman foi viver na Alemanha e se envolveu até a alma com o nazismo, tornando-se um declarado entusiasta da política de Hitler. Tanto assim que, ao término da guerra, quando os horrores dos campos de concentração vieram à tona, ele se recusou a acreditar, e, por um tempo, permaneceu fiel à ideologia nazista.

Cena em “Morangos silvestres”, 1957.

Menos desconcertante, até porque já conhecida, é a vida amorosa de Bergman, sempre envolvido com várias mulheres, algumas das quais suas belas atrizes. Acho que seu lado “monstro sagrado” tampouco deve ser surpresa para o espectador que, no documentário, tem notícias de seu massacre ao pessoal de sua equipe de filmagem a um nível que sugere sadismo.

Colegas de trabalho, como assistentes de direção, fotógrafos, roteiristas, atores, atrizes, além de amigos e parentes, dão depoimentos que, uns mais outros menos, confirmam esse comportamento autoritário de uma celebridade que usava seu status para conseguir seus objetivos artísticos.

Entre os depoentes alguns são meros fãs, como a cantora Barbra Streisand, e, em momentos assim, o espectador sente falta de fãs bem mais consequentes, por exemplo, o cineasta Woody Allen, que dele tanta influência recebeu. Sim, uma ausência incompreensível.

Bergman em ação.

Para o fã do Mito Bergman, a penetração na vida privada do seu ídolo é estimulante. Já para o estudioso da obra do cineasta sueco um problema seria o que fazer com todos esses dados biográficos. Ocorre que, se alguns deles se refletem nessa obra, outros, – a maioria – não, e ficam cheirando a mexerico de coluna social. Por exemplo: a competição entre o pessoal da equipe de filmagem para atacar a caixa de bolacha Maria e furtar bolachas sem Bergman pressentir. Ou depois do furto, devolvendo a bolacha, com receio da descoberta e consequente reprimenda.

Compreensivelmente, os filmes não são analisados – mesmo os do ano em foco (“O sétimo selo” e “Morangos silvestres”) e o espectador mais exigente sai do cinema com a sensação de ter visto mais “vida” que “obra”.

De minha parte, adorei o modo como o documentário se fecha, com Bergman revelando – e mostrando – qual é a sua tomada cinematográfica mais querida, aquela meio onírica do close no rosto do velho médico aposentado, no final de sua obra prima “Morangos silvestres”. Adorei porque esta também é a minha tomada favorita: no vídeo que montei com cem cenas de cinema, exibido no lançamento de meu livro “Imagens Amadas”, em 1995, foi esta a tomada que escolhi para representar Bergman, no ano do centenário da Sétima Arte.

Claro, o efeito colateral de “Bergman – 100 anos” é a vontade que nos ataca de rever os filmes do autor, se possível fosse, todos, se possível fosse, na ordem dos lançamentos.

O ator veterano Victor Sjöström, na tomada preferida de Bergman.

Centenário de Ingmar Bergman

10 jul

No dia 14 deste mês de julho comemora-se o centenário de nascimento de um dos maiores cineastas do planeta, o sueco Ingmar Bergman (1918-2007). Para celebrar, reproduzo crônica que publiquei na ocasião da morte do cineasta, onde relato o meu primeiro impactante contato com sua obra cinematográfica, no caso, com “A fonte da donzela” (1960).

Nunca esquecei o meu primeiro contato com Ingmar Bergman. Foi em 1961, ou 62, no Cine Sto Antônio, no bairro de Jaguaribe, João Pessoa. Consumidor voraz de cinema, eu estava, pelas estatísticas das exibições locais, acostumado a um modelo de cinema americano onde, pelo menos até então, contundência tinha limites. Por mais noir que fosse o policial, por mais selvagem que fosse o western, por mais ousado que fosse o melodrama – vocês lembram – as cenas de violência eram sempre suavizadas pelas lentes auto-censuradas de Hollywood. Pekimpah, Altman e Kubrick só seriam possíveis bem mais tarde…

Pois foi então que assisti a “A Fonte da donzela” (Junkfraukällen, 1960). Num acesso de lucidez da Meca, ele havia ganhado o Oscar de melhor filme estrangeiro, em 1961, e creio que somente por essa razão entrara no nosso circuito comercial de exibição.

O impacto foi tão grande que, de repente, me vi obrigado a reconsiderar as minhas ideias de realismo cinematográfico e a questionar o modelo de cinema que o acaso me impusera. Tudo bem, àquela altura eu já conhecia um Eisenstein aqui, um Kurosawa ali, um Clouzot acolá, porém nada que, fora do modelo clássico, tivesse me provocado tamanho abalo.

Ainda hoje me recordo de como, depois de ver “A fonte da donzela” saí do cinema estremecido, e como passei vários dias sob efeito do impacto. Lembro que tentei contar o filme em casa a um irmão, e meu relato, depois de alguns esforços, virou um gaguejado confuso, do qual desisti, com medo de que a família começasse a desconfiar que ir a cinema estava atrapalhando minha sanidade mental. Aquela criança vomitando depois de ter presenciado um estupro e assassinato só podia vir da Suécia.

Mais tarde vi outros Bergmans, inclusive alguns cronologicamente anteriores a “A fonte”, como “Morangos Silvestres”, mas a impressão inicial persistiu, e para mim, na maior parte do tempo, Bergman era “A fonte da donzela”.

A ideia que não consegui transmitir a meu irmão era a de que um filme tão contundente, com cenas de estupro e assassinato mostradas tão cruamente, fosse ao mesmo tempo – e por causa disso mesmo! – tão belo. Como era possível esse milagre de casar a infinita crueldade do tema com a suprema beleza da imagem? Onde residia o ponto de tensão entre conteúdo e forma? Como era possível, em cinema, ser tão inseparavelmente primitivo e requintado, explosivo e contido, pulsional e estruturado?

Hoje em dia, quando a contundência virou regra, o filme pode ter perdido parte de seu impacto, mas duvido que a sua beleza. Revê-lo uns tempos atrás foi uma experiência e tanto, a oportunidade de constatar que não perdeu qualidade com o passar do tempo e que, ainda hoje, se alinha entre o melhor cinema que se fez no século inteiro.

Uma curiosidade sobre essa obra prima, no meu entender e da crítica em geral, quase irretocável, é que tenha sido renegada pelo seu próprio autor. Em “O cinema segundo Bergman” (Paz e terra, 1977), o cineasta considera o filme com certo desprezo como “um acidente de percurso”, segundo ele, “um filme para turista ver”, “imitação miserável de Kurosawa”.

Claro que levei um choque ao ler isso pela primeira vez. Gastei tempo e energia refletindo sobre o assunto e fiquei com questões que sempre lanço aos cinéfilos que, como eu, amam “A fonte da donzela”.

E as perguntas vieram: agnóstico assumido, Bergman não estaria apenas refutando a premissa cristã que o desenlace do seu filme encarna? A alegada imitação de Kurosawa, afinal nem tão visível assim, não seria o pretexto para a renegação? Outra coisa, renegar “A fonte” não é renegar Hollywood, que o premiara? Sejam quais forem as respostas, de uma coisa não tenho dúvidas: é de que o affair Bergman versus “A fonte da donzela” ilustra um desses casos – afinal nem tão raros assim na história das artes! – em que o autor se equivoca redondamente sobre sua própria obra. Umas vezes o equívoco consiste em superestima, outras vezes, como aqui, em subestima.

Quem quiser constatar que reveja “A fonte da donzela”!

Capra e Bergman

25 fev

Coisa esquisita é a natureza humana.

Tiro por mim. Há dias em que acordo de espírito leve, disposto a curtir a vida, acreditando que ela é maravilhosa. Outros dias há em que me levanto pesado, vendo tudo feio e crendo que a vida é um castigo que me foi imposto.

E mais estranho ainda é que, para esses estados de espírito antagônicos, que perduram pelo resto do dia, nem sempre existem motivações objetivas. Muitas vezes há problemas, sim, no dia em que acordo leve, e, eventualmente, problema nenhum, no dia em que me ergo da cama pesado.

Ao estado de espírito leve eu, cá comigo, dou o nome de “Capra”, e ao pesado, eu chamo de “Bergman”.

Pois é. No dia em que amanheço Capra nada me abala. Os problemas são tirados de letra, pois creio piamente que, para tudo, existe um happy end que nos aguarda em algum lugar, acolhedor e generoso. Estar vivo é um dom divino que deve ser preservado com júbilo e gratidão.

No dia em que amanheço Bergman tudo me derruba e me destrói. Nem precisa ser nada grande, nem grave. Uma torneira quebrada já é o suficiente para conjugar um monte de preocupações, que vão se somar a outras, mais severas e formar um caldo sujo e feio que desagua num oceano escuro e fundo.

Morangos silvestres - o idoso que aprende sobre a vida.

Morangos silvestres – o idoso que aprende sobre a vida.

Mas, não pensem que sou ciclo-tímico.

Não é nada disso. Na verdade, Capra e Bergman não se manifestam com frequência, e, quando o fazem, os espaços de tempo entre um e outro são grandes, enormes. A rigor, na maior parte dos dias, eu saio da cama normal, digo, nem a euforia de Capra, nem a disforia de Bergman, apenas eu mesmo.

Capra e Bergman, nunca os vi juntos. Nem poderia. A bem da verdade, vi-os juntos, sim, mas foi só uma vez.

Foi assim: saído de uma noite de sonhos estranhos, uma certa manhã eu abri os olhos, ainda sonolento, e, em torno de minha cama estavam essas duas figuras ímpares. Do lado direito, sorridente em sua cadeira de diretor, Capra piscava o olho para mim, como a dizer: “Levanta, cara, e vamos curtir esse dom sagrado que Deus te deu: a existência”. Do lado esquerdo, de cara enferrujada, Bergman me fitava, como a admoestar: “Deixa de ilusão, cara, e cai na real, que a vida é só amargura e dor”. Quando os dois se entreolharam, como se fossem dar início a uma disputa filosófica, ou coisa pior, sei lá, uma briga peripatética, com troca de socos e pontapés, dei um pulo da cama, botei minha sunga e corri para o jardim, tomar banho de sol, como faço toda manhã. E nunca mais vi os dois juntos, graças a Deus.

O desespero de George Bailey, no filme de Capra.

O desespero de George Bailey, no filme de Capra.

Uso os nomes desses dois cineastas que admiro para ilustrar a dicotomia entre alegria e tristeza, mas não o faço com tranquilidade. Pensando bem, e procurando com cuidado, a gente até que pode encontrar tristeza em Capra, e, mutatis mutandis, alegria em Bergman.

Vejam o caso de “A felicidade não se compra”, o filme mais pra cima de Frank Capra. Se não fosse pelo final feliz, dir-se-ia que a vida de George Bailey é um amontoado de problemas, desde quando, ainda criança, quase perde um irmão afogado, até a crise financeira que quase leva o banco da família à falência… tudo isso culminando na noite de Natal em que ele mesmo, sem saída, opta pelo suicídio.

Já um dos filmes mais típicos de Ingmar Bergman, “Morangos silvestres”, contém, sim, seus momentos positivos. Tudo bem, é a estória de um senhor idoso, um médico amargo e frio, desencantado com o gênero humano e talvez consigo mesmo, porém, não esqueçamos que a sua viagem para receber a homenagem que lhe cabe também é uma viagem interior em que ele se reavalia e cresce humanamente. O filme termina com o sonho infantil dos morangos catados na floresta, com a doce e poética consideração de que a vida poderia ter sido diferente.

Lembranças poéticas no filme de Bergman.

Lembranças poéticas no filme de Bergman.

Esses aspectos menos óbvios em Capra e em Bergman, aparentemente contraditórios deles mesmos, eu não os lembro por lembrar. Acho que os lembro interesseiramente, na esperança de que me sirvam de lição. Para, no dia em que eu amanhecer completamente Capra, dar-me conta de que – desculpem o clichê – nem tudo na vida são flores, e quando amanhecer totalmente Bergman, dar-me conta de que nem tudo são espinhos. Aprender a conviver com flores e espinhos, tarefa existencial difícil, que me esforço para cumprir.

Porém, não vou me iludir: não tem jeito, já me antevejo, lá adiante, não sei quando, sendo atacado por aqueles estados de espíritos antagônicos, cada um no seu tempo, uma vez Capra, outra vez Bergman, estados, como disse, que não recorrem com assiduidade, mas que nunca deixam de recorrer. Num caso, teimando em ser feliz, no outro, teimando em ser infeliz.

Não creio que haja cura para isso. A mente humana é mesmo esquisita. Ou o problema seria só meu?

Tomara que o leitor possa me ajudar, – talvez, quem sabe? – com depoimentos análogos. Mesmo que os seus cineastas sejam outros, ou, se for o caso, sequer existam.

Nem tudo é alegria em A felicidade não se compra.

Nem tudo é alegria em A felicidade não se compra.