Tag Archives: inspiração

A “doce vida” gay em um filme afetivo

23 ago

Eu canto o corpo elétrico / Os braços dos que amo me envolvem e eu os envolvo / Eles não me largarão até que eu vá com eles, lhes responda, / E os liberte, e os preencha com a carga da alma.”

 

Com tradução minha, é assim que começa o longo poema “I sing the body electric”, do grande poeta americano Walt Whitman, poema que teria servido de inspiração para os realizadores do filme “Corpo elétrico” (2017), no momento em cartaz na cidade.

O filme do novato Marcelo Caetano mostra a vida diária e noturna de empregados de uma fábrica de confecções na São Paulo de hoje, com relativa concentração em um dos personagens, Elias (o paraibano Kelner Macêdo), um jovem de 23 anos que, morando só, se divide entre o trabalho e muitas aventuras homoeróticas.

Mas não esperem clichês: ao contrário da maior parte dos filmes que conhecemos sobre o mundo LGBT, “Corpo elétrico” não é um libelo, nem um panfleto. Não há protestos, nem denúncias, e tudo é muito leve, talvez leve demais.

Os conflitos são sutis e não há mesmo o desenvolvimento de um enredo, com esperados turning points, nem mesmo a progressiva e aprofundada construção de um protagonista. O que há mais é a descrição compassada de uma situação: a dessa comunidade de empregados de uma fábrica, seu cotidiano e seu lazer: só isso.

Apesar das muitas relações sexuais graficamente exibidas, “Corpo elétrico” é um filme em que, praticamente, nada acontece. Quando a gente se dá conta de que ele termina em aberto, com festa e, em seguida, no mar, não há como não lembrar certo filme de Fellini. Aqui, claro, um “La dolce vita” dos pobres. A diferença, obviamente, é que Fellini é crítico na descrição de sua sociedade, ao passo que Marcelo Caetano é afetivo, quase cúmplice.

E mais: grande parte da estrutura do filme se sustenta em lacunas. Por exemplo, sabe-se que o protagonista Elias é paraibano, mas só isso. Nenhuma informação sobre sua vida pregressa. Conversando com um colega novato, um imigrante de Guiné-Bissau, quando este lhe fala na importância da família, Elias escuta e, pensativo… cala. Seria este o momento de fazer referência à sua família, na Paraíba, mas o silêncio – para o colega e para nós – é a resposta.

Assim, evasivos, são também os seus casos amorosos. O caso com o vigilante do prédio vizinho começa com imagens (quando se conhecem), mas só temos o seu desenvolvimento em palavras, e mesmo assim ele fica sem paradeiro… O mesmo se diga do caso com o novato africano, tentado, sem sucesso… Para não falar do caso com o companheiro mais frequente – aquele com quem se abre o filme, os dois despidos na cama, depois de uma cópula – um relacionamento sem passado manifesto e sem futuro prometido…

Que essa ausência diegética de passado e futuro é chave no filme fica evidente no que seria o desenlace. Depois do ano novo na praia, Elias deveria voltar ao trabalho (como lhe lembra o companheiro), e no entanto, ele prefere o mar e seu mistério infinito – último fotograma que nossos olhos têm o direito de divisar.

Por estas e outras, o espectador é levado a cogitar se o filme faz a proposta de uma sociedade diversa, por exemplo, sem lugar para o conceito de família e de trabalho – uma espécie de utopia a alcançar. Mas, não queiramos ir tão longe: suave, descontraído, descompromissado, o filme não tem nada de assertivo.

Às lacunas diegéticas, de fato, pode se dizer que corresponde uma lacuna semântica, mas, cuidado, esta última é proposital, assumida, e o espectador fica livre para preenchê-la a seu gosto.

Só para voltar ao poema inspirador do filme: em Walt Whitman, materialidade (expressa na palavra “braços”) e espiritualidade (em “alma”) deveriam ser a mesma coisa. E são.

No filme de Marcelo Caetano essa simbiose é (só) uma promessa. Mas, suponho, uma promessa válida…

O ator paraibano Kelner Macêdo em cena do filme.

Anúncios

Um homem, uma mulher: “jamais vu”

4 ago

Em meados dos anos sessenta, com seis fracassos de público e crítica nas costas, o jovem cineasta Claude Lelouch estava andando, meio desiludido, pelas calçadas litorâneas de Deauville, Norte da França, quando avistou, ao longe, uma jovem senhora e sua filha pequena que, alegres e saltitantes, brincavam nas areias da praia.

Bem agasalhadas do frio, as duas pareciam curtir a tarde e, mais que isso, a companhia uma da outra. A alegre cena, cheia de rodopios e risadas, estimulou a imaginação do cineasta que passou a se indagar o que poderiam estar fazendo ali, quase únicas na paisagem, aquelas duas. E aí foi preenchendo o que não sabia por conta própria: a mulher bem que poderia ser viúva, e a filha, aluna do Orfanato local, por isso só se viam em fins de semana, quando a mãe vinha, de Paris, apanhá-la.

0

Conta a lenda – e o cineasta a reforça – que foi daí que nasceu o roteiro de “Um homem, uma mulher” (“Um homme et une femme”, 1966), o filme que, depois dos fracassos iniciais, deu novo rumo à carreira de Lelouch.

Nascido em Paris, em 1937, Lelouch aprendeu a gostar de cinema ainda criança, durante a guerra, na Paris ocupada, quando, judeu de origem que era, se refugiava dos alemães nas salas escuras dos cinemas.

Ao crescer, não deu outra. Entrou no métier logo que pôde, primeiramente como cameraman de atualidades e depois como co-autor de curtas publicitários.

Em viagem à URSS, em 1957, Lelouch caiu um dia, por acaso, num set de filmagem do cineasta Mikhail Kalatozov, e pôde então vivenciar de perto a efervescência do cinema russo que, naquele tempo, depois da morte e devassa de Stalin, já chamava a atenção do mundo, com filmes como “O quadragésimo primeiro”, “Quando voam as cegonhas”, “A balada do soldado” e outros. Foi nesse dia que Lelouch decidiu ser realizador de longas de ficção.

Anouk Aimée e Jean-Louis Trinttingnant

Anouk Aimée e Jean-Louis Trinttingnant

Mas, voltando à cena na praia de Deauville, com certeza naquela ocasião a tristeza de Lelouch tinha a ver com as fortes reações negativas da crítica a seus filmes de início de carreira. Uma dessas críticas foi, mais tarde, chamada por ele próprio de “assassina”.

“Souvenez-vous bien de ce nom: vous n´en entendrez plus jamais parler”. “Lembrem-se bem deste nome: vocês nunca mais ouvirão falar dele”. Foi com esta frase cruel que, em 1963, a revista de cinema “Cahiers du Cinéma” tentou descartá-lo do cenário cinematográfico.

Ironia do destino – quatro anos mais tarde, em 1967, Lelouch ganharia a Palma de Ouro no Festival de Cannes e os Oscar de melhor filme estrangeiro e melhor roteiro original por seu novo filme – justamente aquele nascido em Deauville. Na França e em todo o mundo era só o que se escutava e do que se falava, do filme “Um homem, uma mulher” (“Un homme et une femme”, 1966).

A intimidade e a lembrança do luto

A intimidade e a lembrança do luto

De cara mexendo, o pessoal dos “Cahiers” quis voltar atrás e, na imprensa, François Truffaut ousou sugerir que “Um homem, uma mulher” se enquadrava no espírito da Nouvelle Vague, movimento de cinema, como se sabe, saído do seio da revista que criticara Lelouch. Dando o troco à altura, na mesma imprensa, Lelouch peremptoriamente declarou que seu filme não tinha nada, absolutamente nada a ver com a Nouvelle Vague.

Desde então ficou comprada a briga entre Lelouch e a crítica de uma maneira geral, briga que faz o cineasta jogar farpas famosas do tipo: “Um dia farei um filme para os críticos – quando tiver dinheiro para perder”.

A carreira de Lelouch deslancharia vertiginosamente depois do estrondoso sucesso de “Um homem, uma mulher”, e a frase dos Cahiers ficou registrada, no anedotário cinematográfico, como uma das grandes mancadas da crítica. A filmografia do cineasta já contém mais de cinqüenta títulos e seu nome há muito consta entre os grandes realizadores de seu país.

Só uma estória de amor...

Só uma estória de amor…

Para o bem ou para o mal, existe um “estilo Lelouch” e ele já estava todo prometido em “Um homem, uma mulher”: câmera móvel, em muitos casos, na mão ou no ombro, diálogos improvisados, voz over para as revelações mais íntimas dos personagens, flashbacks com imagens narradoras, no lugar dos diálogos, visual de clips publicitários, ritmo preso a uma trilha musical generosa, uso cronológico das cores… são alguns desses traços de estilo.

No caso de “Um homem, uma mulher” o enredo não poderia ser mais exíguo – talvez o único dado que difere da filmografia posterior do cineasta: um viúvo parisiense que, todo fim de semana, vai pegar o filho pequeno num orfanato em Deauville, conhece uma viúva que sempre vai pegar a filha no mesmo local. Um dia ela perde o trem, ele lhe dá carona e a amizade está garantida, logo virando amor. No primeiro encontro íntimo, os dois aprendem que o luto não passa fácil e que precisam de delicadeza para contorná-lo.

O jovem Lelouch nas filmagens de "Um homem, uma mulher"

O jovem Lelouch nas filmagens de “Um homem, uma mulher”

À simplicidade do enredo corresponde a simplicidade da forma. Nada de angústias existenciais, filosóficas ou metafísicas, apenas as angústias das pessoas comuns; nada de experimentos formais inovadores, salvo os que os espectadores comuns tenham condição de acompanhar e aceitar. Nesse sentido, a trilha sonora principal, é exemplar, com sua batida simples e sua melodia delicada. Embora já consagrados, os atores Jean-Louis Trintingnant e Anouk Aimée dão interpretações despojadas, como se vivendo a estória de verdade. O tom geral do filme, se não é eufórico, é alegre, como a mulher e a criança avistadas nas areias de Deauville. E o final, claro, tinha que ser feliz.

Não me recordo como a crítica doméstica reagiu a “Um homem, uma mulher”, mas lembro bem que o público adorou o filme, em especial, o seu lado brasileiro, com o emprego da música “Samba Saravá” de Baden Powell e Vinicius de Moraes. Apesar da ditadura, era aquela uma época em que o Brasil estava em evidência, com a bossa nova, o futebol, o cinema novo, as misses, o boxe, a arquitetura de Brasília, etc, e a parcela brasileira do enredo massageava o nosso ego.

A crítica que se faz hoje a Lelouch é que ele redunda temas e fórmulas narrativas e plásticas, dando a impressão de estar, há décadas, rodando o mesmo filme. Desde o mega-sucesso “Retratos da vida” – e talvez antes – que os seus filmes são tachados pela crítica mais hostil com o rótulo de “dejà vu”

Pode até ser verdade, mas, quanto a “Um homem, uma mulher” ainda hoje parece “jamais vu”.

 

Em tempo: esta matéria foi apresentada no Cineclube “Usina Lumière”, em João Pessoa, em 21 de maio de 2014, quando da exibição de “Um homem, uma mulher”.

4

 

 

Flores raras

22 ago

Fosse se fazer a seleção dos vinte poemas mais belos do Século XX e “One Art” (`Uma arte´), da poetisa americana Elizabeth Bishop, possivelmente estaria entre eles. Eu pelo menos o poria lá.

De modo perfeito, nele está ´o casamento entre percepção e visão´ de que nos fala a crítica literária. Na forma é uma vilanela e no conteúdo, uma declaração sobre a necessidade de desenvolvermos ´a arte de perder´ (´the art of losing´) que, segundo a suave ironia da voz poética, não é assim tão difícil de dominar (´isn´t hard to master´). Mas, o que é a vilanela? Uma forma fixa com dezenove versos, todos pentâmetros jâmbicos, distribuídos em seis estrofes, sendo cinco tercetos e um quarteto, com rima entre os primeiros e terceiros versos, salvo no quarteto final, onde os últimos versos é que rimam, configurando um dístico rematador da idéia central. “One Art” foi escrito em 1976, ao tempo em que Bishop estava envolvida com a jovem Alice Methfessel, seu grande amor depois da brasileira Lota de Macedo Soares.

Flores raras 1

 Em cartaz na cidade, o filme de Bruno Barreto, “Flores raras” (2013) puxa para trás a data da produção do poema, e, na Nova Iorque de 1951 – em cena inicial do filme – já vemos Bishop recitando os primeiros versos, para o poeta e amigo Robert Lowell, num banco do Central Park, e a projeção se fecha, em 1967, data da morte de Lota, com a recitação completa do poema. Barreto teve, contudo, um bom álibi para a incorreção cronológica: é que o poema faz, sim, referências claras à vivência de Bishop no Brasil, quando, entre as coisas perdidas, cita ´dois rios´ e ´duas cidades´ – sem dúvida, esses rios são o Amazonas e o São Francisco, que ela visitou nos seus primeiros quinze anos entre nós (embora o filme não mostre isso), e as duas cidades são o Rio de Janeiro e Ouro Preto, onde viveu.

Começo o meu comentário de “Flores raras” com referência a “One Art” por uma razão muito simples: é que o efeito do emprego do poema é admirável e seu lirismo e beleza, me parece, inspiraram a realização bem mais que o caso verídico Bishop/Lota, enriquecendo de sentido o drama pessoal dessas mulheres apaixonadas. Não admira que o título provisório, usado durante as filmagens, tenha sido “The art of lossing” (´a arte de perder´), frase que é um refrão no poema. Aliás, duas pessoas particularmente inspiradas, na equipe do filme, são as atrizes que fazem o casal principal, Miranda Otto (Bishop) e Glória Pires (Lota).

Miranda Otto e Glória Pires, protagonista em Flores Raras

Miranda Otto e Glória Pires, protagonistas em Flores Raras

Não conheço o livro de Carmem Oliveira que o filme adapta, porém, para os amantes da poesia universal, a estória é bem conhecida. Em crise de criação e entregue ao alcoolismo, a poeta Elizabeth Bishop, começo dos anos 50, decide viajar à América do Sul. De passagem pelo Rio, aceita o convite de uma ex-colega de universidade e vai estar uns dias no sítio Samambaia, em Petrópolis, onde conhece a arquiteta brasileira Lota. Não pensa em demorar, mas come um caju, adoece, é hospitalizada e o apoio de Lota vira amor – um caso que, apesar dos pesares, vai durar pelo menos quinze anos.

E os pesares são muitos. Embora Bishop tenha amado Lota e o país, a entrega foi sempre reticente. Tanto é que o título alternativo do filme é “Você nunca disse eu te amo” – motivo de desentendimento entre as duas mulheres. Com relação ao país, os pesares são maiores: aquele caju ofensivo é só uma metonímia da ambígua aversão de Bishop ao “Brazilian way of life”, no filme resumida naquela cena da homenagem na Embaixada, quando ela revela publicamente seu estranhamento ao modo indiferente como a população local reagiu ao Golpe de 64 – e faz isto sentada ao lado do governador Carlos Lacerda.

Bishop e Lota em momento privado

Bishop e Lota em momento privado

Mas, como disse, a aversão é ambígua; afinal, é no sítio Samambaia que Bishop vai recuperar a verve que andara lhe faltando nos States: é aí que ela escreve o livro “North and South” (1955), contendo o poema “The Shampoo”, inspirado nos cabelos sedosos da amante Lota (uma das cenas sensuais do filme) – livro que lhe deu, em 1956, um dos prêmios literários mais cobiçados do mundo, o Pulitzer Prize.

Referi-me aos títulos alternativos do filme e vou referir-me a mais um, o internacional, pelo qual será conhecido no mundo. Nesse título, “Reaching for the Moon” (´tentando tocar a lua´) está, sintomaticamente, o apego de Bishop ao país e a Lota: ele indica a ânsia da arquiteta brasileira em iluminar o Parque do Flamengo – importante criação sua – com luzes que sugerissem a lua, uma ideia que lhe ocorreu em sua viagem a Ouro Preto com Bishop. Era sua forma concreta de fazer poesia, uma que comove Bishop às lágrimas, no dia de sua partida, quando ela, a caminho do Galeão, pede ao motorista do taxi que pare… e vai, comovida, admirar a obra da companheira.

Gostei muito de “Flores raras” e, agora que escrevo, fico pensando se a minha paixão pelo poema “One Art” não influiu nesse gostar. Talvez. De qualquer modo, não se pode negar, um filme poeticamente inspirado que revigora a nem sempre inspirada carreira do cineasta Bruno Barreto. Uma pena que, sendo falado em inglês, não possa concorrer ao Oscar de filme estrangeiro.

Parque do Flamengo, o "poema" de Lota

Parque do Flamengo, o “poema” de Lota

Para fechar, acrescento o poema de Elizabeth Bishop:

 ONE ART

 

The art of losing isn’t hard to master;

so many things seem filled with the intent

to be lost that their loss is no disaster.

 

Lose something every day. Accept the fluster

of lost door keys, the hour badly spent.

The art of losing isn’t hard to master.

 

Then practice losing farther, losing faster:

places, and names, and where it was you meant

to travel. None of these will bring disaster.

 

I lost my mother’s watch. And look! My last, or

next-to-last, of three loved houses went.

The art of losing isn’t hard to master.

 

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,

some realms I owned, two rivers, a continent.

I miss them, but it wasn’t a disaster.

 

Even losing you (the joking voice, a gesture

I love) I shan’t have lied. It’s evident

the art of losing is not too hard to master

though it may look like (Write it!) like disaster.