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Meio século sem Paul Muni (da série: Grandes atores do cinema clássico)

16 maio

Nascido no ano do cinema, 1895, ele tinha três meses de vida quando os irmãos Lumière fizeram sua primeira exibição pública do cinematógrafo, em Paris. Quem diria que, tão distante da Paris dos Lumière, aquele bebê, gerado na longínqua província da Galícia, região do então Império Austro-Húngaro – hoje Ucrânia – iria, no futuro, tornar-se um grande ator dessa arte nascente, a ser denominada mais tarde de sétima.

A família era judia, falava Yiddish, e a criança recebeu o nome de Meshilem Meier Weisenfreund. Aos sete anos, porém, em 1902, migraram para os Estados Unidos e o menino foi criado nas ruas de Chicago. Nas ruas? Até certo ponto: como os pais eram atores, o garoto, desde cedo, abraçou o métier, e daí a pouco, já se destacava na escola, e fora dela, pelo talento interpretativo, sendo cedo conduzido ao Teatro Yiddish de Chicago, como uma grande promessa.

A promessa cumpriu-se e não demorou para o jovem ator chegar à Broadway, agora já usando a língua inglesa no palco, em papéis da dramaturgia americana. E, claro, não com o seu impronunciável nome Yiddish, mas com um nome artístico mais digerível para as plateias americanas: Paul Muni. O primeiro nome pode ter sido gratuito, porém, o sobrenome teve uma motivação curiosa: é que, desde a adolescência, ele carregava o apelido, imputado pelos amigos, de “Moony” (mais ou menos: ´aluado´, ´distraído´, ´pensativo´), o que foi, graciosamente, transformado em “Muni”.

Paul Muni (1895-1967)

Consagrado no teatro, aos 36 anos Paul Muni (1895-1967) foi convidado a fazer cinema. Cedeu a Hollywood, mas seu primeiro filme, “The valiant” (1929), não fez grande sucesso, embora tenha lhe valido, já, uma indicação ao Oscar de melhor ator em papel principal. Prosseguiu atuando nas telas, e sua fama – junto com o prestígio crítico – não demoraria: estourou com dois filmes do mesmo ano, 1932, ambos envolvendo o submundo do crime: “Scarface, a vergonha de uma nação” (“Scarface”, de Howard Hawks) e “O fugitivo” (“I am a fugitive from a chain gang”, de Melvyn Leroy), filmes que alguns asseguram haver inaugurado o gênero noir.

No total, Paul Muni rodou 22 filmes, com seis indicações e um Oscar de melhor ator. Mas, sem sombra de dúvida, o auge de sua carreira acontece na segunda metade dos anos trinta quando, exigente com os papéis, escolhe interpretar três figuras históricas de grande envergadura moral, formando uma espécie de trilogia: “A história de Louis Pasteur” (1936), “A vida de Emile Zola” (1937) e “Juarez” (1939), este último sobre o grande líder revolucionário mexicano Benito Juarez. Foi por sua impressionante interpretação de Pasteur que recebeu o Oscar de melhor ator do ano.

O sucesso dessas cinebiografias levou Muni a querer filmar a vida de Alfred Nobel. Iniciou as pesquisas, mas, desistiu, depois de tomar conhecimento de que o cientista sueco que dá nome ao prêmio mais cobiçado do mundo, havia sido homossexual. Muni não era ingênuo e sabia que, naquela época – ainda final dos anos quarenta – nenhum produtor apoiaria um projeto fadado a ser descartado pelo Código Hays de Censura.

Ainda permeando a trilogia citada, há um grande desempenho de Muni, como o camponês Wang que, ao longo da vida, enfrenta penúrias, secas, revoluções e tempestades de gafanhoto, saga empolgante com base no romance da escritora Pearl S. Buck, “The good Earth”. No Brasil, o filme chamou-se “Terra dos deuses” (1937).

Muni como Scarface, 1932.

No final dos anos cinquenta Paul Muni abandona o cinema. Sua última película é “Rebeldia de um bravo” (“The last angry man”, 1959, de Daniel Mann), sobre um médico idealista que é absorvido pelo mundo da televisão.

Teria sido interessante vê-lo na tela como o advogado Henry Drummond da peça “Inherit the Wind” (“O vento será tua herança”), papel que ele fizera brilhantemente nos palcos da Broadway, entre 55 e 56, e que lhe dera o prêmio maior do teatro americano, o Tony Award. Esse papel, como vocês sabem, foi para Spencer Tracy, no filme homônimo de Stanley Kramer, de 1960.

Universalmente reconhecida é a sua capacidade camaleônica de transmudar-se nos personagens mais distintos, em muitos casos fazendo recurso ao uso de maquiagem que o envelhecia ou o rejuvenescia, a depender da estória narrada, mas sempre convencendo pela sua força dramática. Nem feio, nem bonito, Paul Muni nunca entrou na galeria dos astros de Hollywood, talvez por isso pouca gente o lembre hoje em dia.

Em “A história de Louis Pasteur”, 1936.

De minha parte, lamento não ter tido a chance de ver Paul Muni na tela grande. Devo ter assistido, lá pelos anos 50, à reprise de “À noite sonhamos” (“A song to remember”, 1945), mas aí ele foi apenas coadjuvante, no papel do professor de Chopin, compositor cuja vida é contada nesse filme de Charles Vidor.

Vim a conhecê-lo melhor já no tempo do VHS, quando saiu a selagem de “Scarface”. Achei o filme de Hawks tão empolgante que o incluí no vídeo que editei para a festa do Centenário do Cinema, em 1995. Dele escolhi a cena em que, caçado pela polícia, o protagonista comete seus últimos desatinos e é atingido, desabando sem vida no calçamento frio da rua.

Aos poucos é que fui me introduzindo a sua filmografia. Indicado por um amigo, “Terra dos deuses” foi uma surpresa agradável, por várias razões; uma delas é que conhecia o livro de Pearl Buck, leitura da juventude, feita quando ensaiava meus primeiros passos na língua inglesa. No filme de Sidney Franklyn, a tempestade de gafanhotos, com o velho camponês se arrastando ao meio, é coisa que nem Cecil B. DeMille faria tão bem.

Com relação à trilogia histórica (Pasteur, Zola, Juarez), que vejo e revejo sempre, não sei dizer onde Muni está melhor. E provavelmente não há como dizer, pois são desempenhos saídos do âmago. Só sei que são grandes filmes, infelizmente muito pouco referidos pelos cinéfilos da atualidade. Por isso mesmo é que redijo este texto, homenagem tardia a esse ator superior que foi Paul Muni, falecido exatamente meio século atrás, em 25 de agosto de 1967.

Muni na pele do escritor francês Émile Zola.

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Coadjuvantes (2) as mulheres

27 nov

Na edição de setembro do Correio das Artes, e neste blogue (Conferir), veiculei matéria sobre os atores coadjuvantes que foram importantes na história do cinema. Quinze cinéfilos (eu incluso) escolheram, cada um, cinco nomes de atores de sua preferência que se destacaram nesta categoria. Inevitavelmente, houve repetições, as quais me conduziram a pensar uma espécie de pequeno cânone.

O ator coadjuvante com maior número de escolhas foi o veterano Walter Brennan (com cinco votos), seguido de Ernest Bognine, Lee van Cleef e Lee J. Cobb e Thomas Mitchell, com quatro.

Agora é a vez das mulheres. Dentro do mesmo procedimento, pedi a quinze cinéfilos amigos que me dessem cinco nomes de suas coadjuvantes mais amadas, e aqui segue o resultado, devidamente comentado.

Como na matéria sobre os coadjuvantes masculinos, a fase do cinema mais evidenciada pelas escolhas foi a clássica, aquele período que vai dos anos trinta aos sessenta. Cinéfilos de memória privilegiada lembraram atrizes de um passado remoto, como – para citar apenas dois exemplos – Edna Purviance e Margaret Dumont. Purviance atuou, com frequência, no cinema mudo, em muitos dos filmes de Chaplin, quando o personagem era o vagabundo Carlitos, e Dumont foi, também com frequência, aquela senhora meio ingênua que, nos anos trinta, servia de escada para as palhaçadas dos irmãos Marx.

Atuantes no tempo em que afrodescendentes eram raro(a)s na tela – proibido(a)s pelo Código Hays de Censura – foram lembradas atrizes como Hattie McDaniel – a empregada negra de “E o vento levou” (1939), e Juanita Moore, a sofredora mãe negra, rejeitada pela filha branca, em “Imitação da vida” (1959).

Thelma Ritter com James Stewart, em Janela Indiscreta.

Thelma Ritter com James Stewart, em Janela Indiscreta.

As nacionalidades são quase todas americanas, mas houve votos, sim, para as brasileiras Ruth de Sousa, Geny Prado, Thelma Reston e Zezé Macedo.

Vejamos, agora, que atrizes tiveram os maiores números de escolhas. Com um número avassalador de votos (treze) ganha Thelma Ritter o primeiro lugar na preferência dos cinéfilos e cinféfilas consultados. Se formos considerar um segundo lugar, este seria dividido entre Agnes Moorehead e Judith Anderson, ambas com cinco votos. E um terceiro honroso lugar fica para a brasileira Zezé Macedo, com quatro votos.

Para quem pode não estar lembrado, Agnes Moorehead, entre muitos outros papéis importantes que desempenhou em filmes da era clássica, foi a mãe do protagonista no filme mais conceituado da história do cinema, o “Cidadão Kane” de Orson Welles (1941). Já Judith Anderson pode muito bem ser lembrada pelo seu papel marcante como a sombria governanta no hitchcockiano “Rebeca, a mulher inesquecível” (1940). Quanto a Zezé Macedo, acho que, entre nós, dispensa apresentação, mas lembremo-la como a esposa matuta de Oscarito na chanchada de primeira classe “O homem do Sputnik” (Carlos Manga, 1959).

A grande atriz Thelma Ritter seria, portanto, a coadjuvante que mais encantou/encanta os cinéfilos e cinéfilas, mas, será que o leitor do Correio das Artes lembra mesmo quem é ela?

Não há outro jeito de saber, se não for repassando os seus papéis, nos muitos filmes em que participou, sempre ao lado de grandes astros e estrelas, filmes dirigidos por cineastas importantes da chamada Hollywood clássica. Vejamos.

Em “A malvada” (“All about Eve”, 1950, de Joseph Mankiewicz) ela era a dedicada camareira de Bette Davis, que dava seus pitacos certeiros, sem nunca ser levada a sério. Em sua intuição de mulher simples, foi a primeira a notar a falsidade da protagonista do título do filme, a “Eva” feita por Anne Baxter.

Em “Anjo do mal” (“Pickup on South Street, 1953, de Samuel Fuller) era a desencantada vendedora de gravatas que, sem culpa no cartório, é assassinada por espião comunista. Sim, aquela mesma que vive juntando o seu dinheirinho mirrado para um funeral com dignidade. Um papel sombrio, num filme sombrio, para uma grande atriz. Nas minhas conversas com os cinéfilos consultados, foi este o seu papel mais mencionado.

Thelma Ritter em A Malvada, com Bette Davis.

Thelma Ritter em A Malvada, com Bette Davis.

Em “Janela indiscreta” (“Rear window”, 1954, Alfred Hitchcock) foi a tagarela enfermeira de James Stewart, que ajudou tanto na cura da perna engessada, como no desvendamento do crime cometido no condomínio. É ela que desce, com Grace Kelly para remexer a terra do jardim lá embaixo, onde o cachorrinho da vizinha cavara, e, por isso, fora morto.

Em “Confidências à meia noite” (“Pillow talk”, 1959, de Michael Gordon) foi a faxineira de Doris Day, que só dava conta da arrumação do apartamento entre um gole e outro, e, sempre cambaleante, ainda tinha tempo para conselhos a essa jovem patroa que vivia envolvida com um vizinho chato e um amante cavalheiro, que, na verdade, eram a mesma pessoa.

Em “Os desajustados” (“The misfits”, 1961, de John Huston) era a amiga de Marilyn Monroe, que desaparecia depois de meia hora de filme, mas deixava o seu rastro, mesmo porque, onde Thelma Ritter aparecia ninguém esquecia seu rosto e seu jeito.

Em “O homem de Alcatraz” (“The birdman of Alcatraz”, 1962, de John Frankenheimer) foi a sofrida genitora desse criador de pássaros, mais preso que eles. Suas visitas ao filho encarcerado não eram constantes, mas deixaram marcas.

Suponho que, a esta altura, o leitor – se não tinha – já tem uma ideia da figura de Thelma Ritter, até porque as suas atuações reforçavam um tipo, físico e psicológico, bem particular, que poderia talvez se rotular de mulher do povo: baixinha, rosto redondo, olhos apertadinhos, bochechas ligeiramente salientes, cabelo encaracolado, nem curto nem comprido, dicção inconfundível, cheia de tiradas curtas e grossas, andar peculiar, balançando o corpo de um lado para o outro, em alguns casos criando um ritmo que também era o do filme.

Thelma Ritter (1902-1968) nasceu no Brooklyn, Nova Iorque, e se interessou por teatro desde tenra idade. Na juventude, foi aluna do “American Academy of Dramatic Arts”, porém, a sua vida profissional na ribalta mal começara e ela já casou-se com o executivo da publicidade Joseph Moran, teve duas filhas, e, salvo participações em rádio durante os anos quarenta, interrompeu a carreira para ser mãe e dona de casa.

Os Desajustados (1960): Thema Ritter com Marilyn Monroe.

Os Desajustados (1960): Thema Ritter com Marilyn Monroe.

De forma que, ao retornar à profissão e ser escalada pela equipe da 20th Century Fox para uma ponta em “De ilusão também se vive” (“Miracle on 34th street”, 1949, de George Seaton) já era uma senhora de quarenta e cinco anos. Vocês lembram, não é? Com Natalie Wood ainda garota, o filme era a estória de um Papai Noel que, para a perplexidade de todos, se revelava verídico.

Depois dessa ponta sem créditos, não parou mais de ser chamada para os fundamentais “supporting roles” – papéis de apoio.

Eis alguns de seus outros filmes: “Quem é o infiel?” (1949, de Mankiewicz), “Duas almas, dois destinos” (1950, de Bretaigne Windust), “O quarto mandamento” (1951, de Mitchel Leisen), “O modelo e a casamenteira” (1951, de George Cukor), “Meu coração canta” (1952, de Walter Lang), “Náufragos do Titanic” (1953, de Jean Negulesco), “Papai pernilongo” (1955, de Negulesco), “Os viúvos também sonham” (1959, de Frank Capra), “A conquista do Oeste” (1962, de vários diretores), “Por amor ou por dinheiro” (1963, de Michael Gordon), “Ele, ela e a outra” (1963, de Gordon).

Sua última participação em cinema não correspondeu ao seu talento: “Boeing Boeing” (1965, de um tal de John Rich), foi uma comédia tola onde o jornalista Tony Curtis, controlando o esquema de voos, conseguia ter casos simultâneos com três aeromoças.

Na categoria de atriz coadjuvante, Thelma Ritter mantém ainda hoje um recorde, ao mesmo tempo honroso e desfavorável: foi seis vezes (em 1950, 51, 52, 53, 59 e 62) indicada ao Oscar, sem nunca receber o prêmio. Esse recorde ela partilha com Deborah Kerr (no caso, como atriz principal), só que Kerr pôde receber, no fim da vida, um prêmio pelo conjunto da obra, e ela não. Mais uma das injustiças da Academia de Hollywood.

Enfim, eis a lista completa dos depoentes e suas escolhas – aqueles relacionados em ordem alfabética, e estas, na ordem em que me foram entregues:

Alessandra Brandão:

Thelma Ritter, Hattie McDaniel, Ruth Gordon, Judith Anderson, Shelley Winters.

André Ricardo Aguiar:

Thelma Ritter, Margaret Dumont, Joan Cusak, Gloria Grahame, Maggie Smith.

Edward Lemos:

Celeste Holm, Agnes Moorehead, Thelma Ritter, Jessica Tandy, Barbara Eden.

Fernando Trevas:

Thelma Ritter, Marisa Tomei, Geny Prado, Zezé Macedo, Thelma Reston.

Homero Fonseca:

Ruth de Sousa, Maggie Smith, Judi Dench, Kim Hunter, Agata Kuleszca.

Ivan (Cineminha) Costa:

Thelma Ritter, Agnes Moorehead, Jo Van Fleet, Judith Anderson, Zezé Macedo.

Jefferson Cardoso

Gloria Grahame, Edna Purviance, Dianne Wiest, Patricia Clarkson, Toni Collette.

Joao Batista de Brito:

Thelma Ritter, Agnes Moorehead, Katy Jurado, Celeste Holm, Elsa Lanchester.

Joaquim Inácio Brito:

Judith Anderson, Flora Robson, Gale Sondergaard, Thelma Ritter, Elsa Lanchester.

Martinho Moreira Franco

Katy Jurado, Thelma Ritter, Shelley Winters, Rosalind Russell, Zezé Macedo.

Paulo Melo:

Thelma Ritter, Lotte Lenya, Donna Reed, Ruth Gordon, Cloris Leachman.

Ramayana Lira:

Thelma Ritter, Marisa Tomei, Agnes Moorehead, Judith Anderson, Juanita Moore.

Renato Félix:

Thelma Ritter, Kathleen Freeman, Joan Cusak, Jean Hagen, Celeste Holm.

Rolf de Luna Fonseca:

Thelma Ritter, Jane Darwell, Judith Anderson, Agnes Moorehead, Gale Sondergaard.

Silvino Espínola:

Thelma Ritter, Dorothy Malone, Katy Jurado, Zezé Macedo, Angie Dickinson.

Thamara Duarte:

Rita Moreno, Donna Reed, Jessica Tandy, Hattie McDaniel, Edna Purviance.

A grande campeã das coadjuvantes, a magnífica Thelma Ritter.

A grande campeã das coadjuvantes, a magnífica Thelma Ritter.

Filho de peixe…

20 set

 

O ditado popular que o título desta matéria insinua – sabe-se muito bem – nem sempre é verdadeiro. Mas acontece que às vezes é.

Aqui vamos tratar da segunda alternativa, ou seja, casos em que os filhos, ou filhas, de peixes foram, ou são, peixinhos.

No nosso território, que é sempre o cinema, os exemplos de filhos, ou mesmo netos, que assumiram a profissão dos genitores, e/ou progenitores, são inumeráveis, mas, para não nos estendermos demais, fiquemos no âmbito da profissão de ator, a mais familiar ao grande público.

Na Hollywood clássica, por exemplo, era comum, e mesmo esperável, que uma criança, filha de atores famosos, criada entre estúdios, tapetes e holofotes, terminasse seguindo a carreira do pai, ou da mãe.

Tony Curtis e Janet Leigh com as filhas, uma delas a futura atriz Jamie Lee-Curtis.

Tony Curtis e Janet Leigh com filhos, entre os quais a futura atriz Jamie Lee-Curtis.

Um exemplo típico é o daquela enorme família de atores dos anos trinta, os Barrymore, John, Lionel e Ethel, irmãos que se revezavam o tempo todo nas telas da época. Difícil os descendentes não tomarem o caminho dos familiares: o filho de um deles, John, gerou o também ator John Drew Barrymore, que por sua vez, teve uma filha que seguiria a mesa carreira do pai e avô, Drew Barrymore. Embora já adulta e bem conhecida em filmes atuais, creio que dela todo mundo lembra como a garotinha em “ET o extraterrestre” (1982).

Essa relação, praticamente secular, que vai de avós a netos também está no caso da família Huston. O grande ator dos anos vinte e trinta Walter Huston (lembram dele em “O tesouro de Serra Madre”?), é pai do diretor mas também ator John (lembram dele em “Chinatown”?), que, por sua vez, é pai da atriz, ainda hoje atuante, Anjelica Huston (lembram dela em “A família Adams”?). O mesmo se diga da linhagem Fonda: Henry deu Jane e Peter, e este deu Bridget.

No caso de a relação sangunea limitar-se a pais e filhos, a lista é ainda maior. Creio que todo mundo lembra logo Charles Chaplin e Geraldine Chaplin; Kirk Douglas e Michael Douglas; Lloyd Bridges e Jeff e Beau Bridges; Bruce Dern e Laura Dern; Ryan O´Neal e Tatum O´Neal; Ed Begley e Ed Begley Jr. Casos mais recentes são os dos Sutherland, Donald e Kieffer.

Kirk Douglas abraça Michael, em 1949.

Kirk Douglas abraça Michael, em 1949.

O caso é mais enfático quando, não só um dos pais era ator ou atriz, mas os dois. Como aconteceu com Tony Curtis e Janet Leigh, casal famoso nos anos cinquenta, que nos legou esta excelente Jamie Lee-Curtis.

Às vezes o sobrenome não é o mesmo, o que não impede o cinéfilo curioso de identificar a relação familiar. Quem é que não sabe que a atriz Liza Minnelli é filha da atriz Judy Garland, e que o sobrenome vem do pai, o cineasta Vincente Minnelli? Ou – caso idêntico – que Isabella Rosselini é filha de Ingrid Bergman, com o cineasta italiano Roberto Rosselini.

Estes são casos notórios, mas nem todos os casos são tão notórios assim.

Por exemplo, nem todos sabem que a atriz Mia Farrow é filha de Maureen O´Sullivan, sim, aquela mesma que era conhecida nos velhos tempos por ser a Jane de Tarzan. Como nos casos anteriormente citados, o sobrenome vem do pai, o grande cineasta, autor de belos filmes noir, John Farrow.

Quem diria que a atriz contemporânea Melanie Griffith é filha da hitchcockiana Tippi Hedren?

Henry Fonda, um dos peixões de Hollywood...

Henry Fonda, um dos peixões de Hollywood…

Naturalmente, o fenômeno da herança profissional não se limita ao cinema americano. De passagem, lembro os alemães Klaus e Nastassia Kinski, e os italianos Vittorio e Alessandro Gassman. E o leitor lembrará outros tantos. No cinema brasileiro, o caso mais famoso é o de Fernanda Montenegro e sua filha Fernanda Torres.

Mas, catar laços familiares entre pais e filhos estelares é coisa para revista de show business. O interessante seria deter-se na qualidade das interpretações, já que dotes pessoais não são necessariamente hereditários.  Ou, se for o caso, prestar atenção aos estilos interpretativos, já que, na maior parte dos casos, grande é a distância temporal, e, portanto, cultural, comportamental e mesmo ideológica,  entre os parentes cotejados.

Por exemplo, o que o estilo neurótico e implosivo de Mia Farrow poderia ter a ver com a simplicidade performática de sua mãe, Maureen O´Sullivan como a companheira de Tarzan? Em que os desempenhos atuais de Bridget Fonda poderiam sugerir a forma clássica de interpretar do avô, Henry Fonda? Michael Douglas, um ator de quem se diz ser “o cuspe do pai” (´the spit of his father´), Kirk, interpreta da mesma forma, ou existiriam em suas performances nuances que fazem a diferença?

Enfim, nem que seja para contradizer o ditado que intitula esta matéria, a pergunta seria: onde é que os “peixinhos” estão além, ou aquém, dos “peixões”?

Fica a sugestão.

Mia Farrow, a filha de Mary O´Sullivan (Jane, a companheira de Tarzan).

Mia Farrow, a filha de Maureen O´Sullivan (mais conhecida como Jane, a companheira de Tarzan).

Chico

20 dez

Com chave de ouro fechou o Fest-Aruanda 2015 “Chico: artista brasileiro”, filme de Miguel Faria Jr sobre o cantor, compositor e escritor Chico Buarque de Hollanda.

Para quem conhece o trabalho de Faria Jr e o de Chico, o filme é o esperado, mas, o esperado que agrada. E muito.

O esquema é simples. O cineasta fez com o compositor uma longa entrevista em sua residência. Selecionou trechos dessa entrevista e correu atrás das fontes – iconográficas ou de outra ordem – que tivessem a ver com a fala. Em certos casos pode ter sido o contrário: fez perguntas a partir de material iconográfico disponível – o que dá no mesmo. Outra providência foi encenar gravações de performances de cantores interpretando Chico, e intercalá-las à narração. Algumas delas atuais, feitas exclusivamente para o filme, outras antigas, buscadas em arquivos. Os depoimentos de amigos e parentes são poucos, provavelmente para não alongar a projeção, já repleta de preciosidades imperdíveis.

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O resultado é, naturalmente, um passeio delicioso pela carreira e pela vida do compositor e cantor mais querido e mais admirado da MPB.

A ordem dos fatos é mais ou menos cronológica, com ligeiros ´retornos´, pedidos pela eventual recorrência de certos assuntos. A abertura é dada à última composição de Chico, “Sinhá”, cantada por ele mesmo, mas, depois disso, vai-se à infância e segue-se a linha do tempo até o momento presente, com a abordagem do Chico escritor. Seu último romance, “O irmão alemão”, passa, então, a ter destaque, quando o autor relata a relação da estória verídica com o que no livro está ficcionalizado, e o cineasta acompanha o autor em sua visita à Alemanha, à cata dos rastros desse irmão bastardo, já falecido, que, aliás, também era cantor.

Um dos poucos depoentes no filme, Edu Lobo, chama a atenção para o bom humor de Chico, lembrando como, em conversa com amigos, ele está sempre rindo. E é justamente o que se vê na tela: um Chico hilário contando coisas engraçadas e, em vários momentos, rindo aos borbotões, da forma mais descontraída.

Chico, sempre rindo...

Chico, sempre rindo…

Essa simplicidade não impede, contudo, que em dadas ocasiões, o cantor faça o charme que adoram fazer as pessoas famosas, que é o de surpreender os seus ouvintes com colocações desconcertantes. Eis duas dele. (1) Dizer que o seu métier é a literatura, e não a música. E (2) dizer que a música de hoje em dia é melhor que a do passado, exemplificando com a bossa nova, que seria coisa de elite, ao passo que a música de hoje seria realmente popular, e, portanto, melhor. E naturalmente, o espectador do filme, neste momento, se indaga: que música?

Em compensação, há revelações preciosas sobre o seu trabalho de compositor, como naquele momento em que, fazendo visível esforço conceitual, explica como as letras das canções podem, de modo inconsciente, remontar a dados biográficos que não eram aparentes no instante da criação.

Outra revelação a guardar diz respeito ao lado político de seu trabalho de compositor: quando, quase lamentando, explica como músicas compostas para denunciar situações políticas ou injustiças sociais, terminam por sofrer perda de significação quando o tempo passa e as coisas mudam.

O diretor Miguel Faria Jr em ação.

O diretor Miguel Faria Jr em ação.

Entre as cenas de arquivo, inclui-se uma entrevista dada a um canal de televisão em que o locutor pergunta a Chico se, criador de tantas personagens femininas, ele não seria homossexual. E ele retruca o que se esperava: que, no ato de criar as letras ele era tudo, homossexual, mulher, e marginal em todos os sentidos da palavra. A cena é circunstancial, porém, evidencia algo essencial no compositor de “Folhetim”: evidencia que o conceito de heterônimos não é exclusivo de Fernando Pessoa.

Como se sabe, a vida e a carreira de Chico se confundem com a história do Brasil no século XX, e o espectador tem a chance de fazer esse retrospecto, sobretudo – meu caso – se a sua faixa etária não diferir muito da do compositor. Os festivais de música da Rede Tupi, os movimentos estudantis contra a Ditadura, o peso da censura, o Roda Viva, a passeata dos cem mil, o exílio, a luta pelas diretas já… Tudo isso vem à tona, junto com as canções e com os sentimentos nelas envolvidos.

Falar em canções, saí do cinema ouvindo e vendo, e agora mesmo ainda ouço e vejo, a portuguesa Carminho performatizando “Sabiá”. Só não tão nítido porque, no meu lembrar, se superpõe a Laila Garin interpretando “Uma canção desnaturada”. Ou a Maria Bethânia recriando “Olhos nos olhos”. Ou a Ney Matogrosso reinventando “As Vitrines”. Ou… Bem vou parar por aqui.

Sugeri acima que o filme de Faria Jr é inevitavelmente previsível. Como se também não o fosse esta matéria…

Ney Matogrosso reinventando "As vitrines"

Ney Matogrosso reinventando “As vitrines”

Amor e espaguete

2 jan

Não costumo ler bestsellers, mas, às vezes não é possível evitar. Um inevitável é este “Ontem, hoje e amanhã” (2014) que está em todas as vitrines, a autobiografia de ninguém menos que Sophia Loren.

Aproveitei a chatice do Natal para devorá-lo, o que fiz em dois dias seguidos, e não me arrependo. Uma pessoa como Sophia Loren não conseguiria, mesmo que quisesse, contar sua vida sem contar parte da história do cinema, uma história que, por tabela, também é nossa.

o livro

E para completar, o livro está bem escrito, com dosagens certas de informação privada e de informação pública. O que não é de domínio popular e o que já é, está tudo lá, bem dito e bem arranjado. Alguns dos tópicos mais interessantes são:

A infância pobre da menina Sofia (ainda com “f”) Sciocolone, em Pozzuoli, Nápoles, durante a guerra, toda ela marcada pela fome, uma fome tão grande que lhe gerou o apelido de ´Sofia palito´.

Na adolescência, os primeiros passos para a fama nacional, através da participação nas fotonovelas dos anos 50, ainda com o seu primeiro nome artístico de Sofia Lazzaro.

As primeiras pontas em filmes da Cinecittà, e o primeiro papel de protagonista, em 1957, na superprodução “Orgulho e paixão”, ao lado de Cary Grant e Frank Sinatra.

Agora já com o nome de Sophia Loren (com “ph”), a formação do trio famoso: ela, Vittorio De Sica e Marcello Mastroiani, que ela chama de ´os três mosqueteiros´. Como se sabe, com cada um dos dois, ou com os dois juntos, ela rodou inúmeros filmes, inclusive aquele que dá nome ao livro (“Ontem, hoje e amanhã, 1964), no qual ela executa um delirante striptease, ainda hoje comentado.

O Oscar por “Duas mulheres” (1961) e a projeção internacional, que lhe abre o caminho inevitável a Hollywood. E aí vamos ter os seus depoimentos emocionados dos primeiros contatos com gente do show business, que antes, ela só conhecia das telas. De Cary Grant (que, sem sucesso, a havia pedido em casamento depois das filmagens de “Orgulho e paixão”) até Charles Chaplin a lista é enorme.

O rosto latino perfeito

O rosto latino perfeito

Um espaço todo especial no livro vai haver para duas figuras que foram as mais decisivas em sua vida, a mãe e, mais tarde, o marido. A mãe foi uma bela mulher que, na juventude, lutou por uma carreira de sucesso, mas que caiu na armadilha de um amor não correspondido, e esse amor veio a ser o pai de Sophia, um homem ausente e mesmo hostil. O marido, que Sophia calorosamente denomina de “o homem da minha vida”, foi o produtor Carlo Ponti, vinte e dois anos mais velho, com quem se envolveu quando ele ainda era casado, e com quem viveu toda uma existência de amor e harmonia.

Pelo menos três grandes dramas são narrados com certa tristeza. Na ordem: o desejo frustrado de ser mãe, em dois abortos consecutivos, até ser finalmente ´curada´ da suposta esterilidade por um médico mais competente que o médico da família. O exílio forçado, quando a justiça italiana e a Igreja interpretam o seu casamento como bigamia, uma vez que Ponti, embora separado havia anos, continuava casado com a primeira esposa. E, já em idade madura, a prisão na Itália, por suposta sonegação de imposto de renda.

Um assunto recorrente no livro é a gastronomia, um prazer que advém da comidinha que a avó materna improvisava nos tempos duros da guerra. Sem coincidência, Loren é autora de um livro de receitas que ainda hoje é popular na Europa, o “Ricordi e ricette” (´Recordações e receitas´), acho que sem edição brasileira.

E por falar em gastronomia, passo a um episódio que não está no livro, mas que conheço de outra fonte e aqui menciono para explicar o título que, preservando a isotopia do afeto e do paladar, quis dar a esta matéria.

Em 2001, os ingleses fizeram uma votação geral para eleger a mulher mais bela do Século XX e, disparada, Sophia Loren ganhou. Entregue o prêmio, a imprensa a procurou para uma coletiva e, na entrevista, um jornalista fez a pergunta óbvia: como era que, naquela idade (então, setenta e sete anos) ela exibia tanta beleza e vitalidade? A resposta veio curta e fina: “Amor e espaguete!”.

Sophia em "El Cid".

Sophia em “El Cid”.

Voltando a “Ontem, hoje e amanhã”, um livro simples, sincero, sentido, escrito com a serenidade de quem soube – e sabe – viver. Com amor e espaguete, naturalmente.

 Se contarmos todas as suas aparições na tela, podemos dizer que, até o momento, Sophia Loren trabalhou em noventa e quatro filmes. Aqui faço seguir uma lista de dez que, de alguma forma, foram importantes na sua carreira e na boa lembrança que dela mantemos:

Desejo (Desire under the elms, 1958) de Delbert Mann, com Anthony Perkins e Burl Ives

Começou em Nápoles (It started in Naples, 1960) de Melville Shavelson, com Clark Gable

Duas mulheres (La ciociara, 1961) de Vittorio De Sica, com Jean-Paul Belmondo e Eleonora Brown

El Cid (1961) de Anthony Mann, com Charlston Heston e Raf Valone

Ontem, hoje e amanhã (Ieri, oggi, domani, 1964) de Vittorio De Sica, com Marcello Mastroiani

A condessa de Hong Kong (A countess from Hong Kong, 1967) de Charles Chaplin, com Marlon Brando

Os girassóis da Rússia (I girassoli, 1970) de Vittorio De Sica, com Marcello Mastroiani

A mulher do padre (La moglie del prete, 1971) de Dino Risi, com Marcello Mastroiani

O homem de La mancha (Man of La Mancha, 1972) de Arthur Hiller, com Peter O´Toole

Um dia muito especial (Una giornatta particolare, 1977) de Ettore Scola, com Marcello Mastroiani.

Com Mastroiani, em "Um dia muito especial", obra prima de Ettore Scola.

Com Mastroiani, em “Um dia muito especial”, obra prima de Ettore Scola.

 

Canastrões clássicos

21 abr

Quando estava nos Estados Unidos fazia o que não costumava fazer aqui: via televisão, só para checar como era a TV do primeiro mundo. Com isso, pude assistir, e em horários perfeitamente viáveis, a trechos de filmes clássicos do passado que se exibidos no Brasil, seriam empurrados para tarde da noite.

Mas, dessa programação antiga, um filme havia que um certo canal repetia praticamente toda manhã e me enchia o saco. Era uma comédia tola sobre um cientista que criava um macaco em casa e este lhe trazia um bocado de problemas. De início, não entendi por que a repetição daquele filme idiota, mas, prestando mais atenção ao elenco, matei a charada: o ator que fazia o cientista atrapalhado residia, no momento, na Casa Branca: era Ronald Reagan, e a exibição repetida não era uma homenagem, e sim, uma gozação, como se a dizer: “vejam como o macaquinho trabalha melhor que ele”.

Ronald Reagan em "Bedtime for Bonzo".

Ronald Reagan em “Bedtime for Bonzo”.

Pois é, por motivos saudosistas, aqui pretendo relembrar com o leitor quem foram os grandes canastrões do cinema clássico americano, e já começo a lista com ele, Ronald Reagan.

A relação é, na verdade, enorme e me limito a citar os que, casualmente, me acorrem à memória.

Se fosse para compor a lista pela categoria dos mais famosos, acho que todo mundo começaria com Charlston Heston, que – coitados de nós – tivemos que aguentar, não apenas nas superproduções de Cecil B De Mille, mas em dramas, westerns, policiais e outros gêneros. Para citar um único título, lembro só o seu esforço de ganhar noblesse ao ser dirigido por Orson Welles em “A marca da maldade”.

Charlston Heston com Orson Welles em "A marca da maldade"

Charlston Heston com Orson Welles em “A marca da maldade”

Um igualmente famoso foi John Wayne, só que este teve a sorte de, desde o início de carreira, cair nas graças de diretores geniais, como John Ford e Howard Hawks, que souberam moldá-lo até o ponto de seus limitados dotes interpretativos serem suficientes para não atrapalhar o conjunto do filme. E hoje, quem assiste a “Rastros de ódio” ou “Rio Vermelho”, nem se indaga se John Wayne trabalhou bem ou não.

Outro destacado foi Victor Mature, de cuja canastrice já se fez mil piadas, até ele mesmo fez, ao afirmar, para um clube que não queria aceitá-lo por ser ator, que não o era e tinha 60 filmes para provar. O que não impede de encontrarmos desempenhos convincentes em sua carreira, o mais evidente sendo o de “Paixão dos fortes” onde ele muito bem encarna a figura verídica de Doc Holiday e, em cena chave, até Shakespeare recita. Vejam que Hollywood fez várias versões da estória real do famoso OK Curral, mas, com certeza, o melhor Doc Holiday de todos foi Mature.

Victor Mature, o Doc Holiday do fordiano "Paixão dos fortes".

Victor Mature, o Doc Holiday do fordiano “Paixão dos fortes”.

Um outro que não pode faltar à nossa lista é Vincent Price, que, com sua carona comprida, voz rouca e pausada, fazia o mesmo tipo em qualquer filme. Foi coadjuvante em grandes clássicos (“Laura”, “Amar foi minha ruina”, “A canção de Bernadete”), até passar a ator principal nos filmes de terror de Roger Corman, filmes que, com o passar dos anos, viraram cult e em cult transformaram tudo que deles fazia parte, inclusive Vincent Price.

E passo para John Gavin. Não sei quem hoje ainda o lembra, mas esteve em filmes importantes, como “Psicose” de Hitchcock, e “Spartacus” de Kubrick. Alto, cabelos e olhos negros, bonitão, foi pescado pelos estúdios para ser uma espécie de concorrente de Rock Hudson, com quem tinha mesmo traços físicos comuns. Foi posto para trabalhar com grandes estrelas (com Lana Turner em “Imitação da vida”, com Doris Day em “A teia de renda negra”…), mas, o resultado não deu em nada, a não ser na comprovação de que estávamos diante de um estupendo canastrão.

Salvo por Ford e Hawks: John Wayne

Salvo por Ford e Hawks: John Wayne

Da mesma época foi o caso de Troy Donahue, que, com jeito ariano de garotão americano típico, prometia virar um ícone e… gorou. Ganhou o papel principal ao lado de Sandra Dee em “Amores clandestinos”, um melodrama ousado que deu o que falar na época, e, em seguida, esteve no elenco de um dos maiores sucessos comerciais do começo dos anos sessenta, “Candelabro italiano”… Depois disso, foi a decadência, até o seu desaparecimento completo das telas.

Esses atores sem dotes eram os Keanu Reeves, os Nicholas Cage, ou os Nick Nolte da época, mas a época também teve os seus Stallone, digo, atores que, compensando suas canastrices, se impuseram pela musculatura e força física. Refiro-me a Steve Reeves (Lembram dele em “Os últimos dias de Pompeia”?) de quem se dizia, depois de assistir a um filme seu: “estive horrível”. Isto para não ir mais para trás no tempo, com os Johnny Wessmuller, os Lex Barker e todos os Tarzans da história do cinema.

Pretenso rival de Rock Hudson: John Gavin

Pretenso rival de Rock Hudson: John Gavin

Quem talvez possa ser perdoado por não atuar tão bem são os que tinham outros dotes artísticos compensadores, por exemplo, os que cantavam e/ou dançavam na tela, casos clássicos de Fred Astaire, Bing Crosby e Gene Kelly.

Infelizmente não tenho espaço para comentar todos e encerro com a citação de alguns nomes – uns protagonistas, outros meros coadjuvantes – que o leitor, pelo menos o mais coroa, deve recordar: Tyrone Power, Jeff Chandler, Stewart Granger, Van Johnson, Jack Palance, Stuart Whitman, Yul Brynner, George Peppard, Dean Martin, Rod Taylor… e, enfim, quem mais o leitor achar que cabe entrar na galeria dos “canastrões clássicos”.

Como esta matéria é assumidamente saudosista, devo dizer que muitos desses canastrões tinham seu charme e que ainda hoje os curto – exceção feita talvez a Ronald Reagan e seu macaco.

Troy Donahue, com Sandra Dee em "Amores clandestinos".

Troy Donahue, com Sandra Dee em “Amores clandestinos”.

O som e a fúria ao redor

6 mar

Entra, finalmente, no circuito comercial o super aguardado “O som ao redor” (2012), primeiro longa do pernambucano Kleber Mendonça Filho, que revela o talento e a competência expostas nos seus curtas.

Construído em cima de duas pulsões supostamente antagônicas, o filme chama a atenção, entre outras coisas, pela originalidade de seu roteiro, aqui o meu enfoque escolhido. De um lado, temos uma pulsão descritiva, documental, realista, epocal, cujo limite seria a crônica cinematográfica; de outro lado, uma pulsão narrativa, fabulatória, ficcional, cujo limite seria, digamos, o thriller.

Para o espectador a crônica vem primeiro, e o filme parece limitar-se a fazer o retrato de um bairro classe média de Recife, até que, menos óbvia, a segunda pulsão começa a manifestar-se, para completar-se na tomada final, quando estampidos de fogos de artifícios encobrem disparos de armas que ´resolvem´ um caso de vendetta familiar.

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Vejam, por exemplo, que a faceta descritiva já tem muito da metonímia que está no título: as cenas são do cotidiano, mas, a ênfase é na poluição sonora que caracteriza a vida urbana no Brasil – latidos de cães, trânsito, furadeiras, gritos infantis, televisões ligadas, carrinhos de cd pirata, aspiradores de pó, etc… são os sons ao redor que infernizam a existência e escondem uma violência subliminar. Aliás, poucos filmes na história do cinema tematizaram o ruído (duplo sentido: de perturbação sonora e distúrbio semiótico na comunicação) do modo como aqui está feito. Fico imaginando o quanto os silenciosos espectadores europeus terão dificuldade em compreender esse barulho generalizado.

Com o mesmo comportamento metonímico (ninguém vê o que ocorre), a violência – já não mais tão subliminar – vai ter um ápice na referida cena final, quando o filme nos descortina a sua faceta de thriller; um que foge aos padrões do gênero como o diabo da cruz, mas, de todo jeito, um thriller.

Sim, nem a descrição é fiel ao real, nem a narração é convencional, pois inúmeros detalhes problematizam o realismo da primeira pulsão, e vários incidentes perturbam o desenvolvimento da narratividade na segunda.

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Exemplos do primeiro caso: de uma dona de casa nordestina não se espera que se masturbe ao som da máquina de lavar, nem que seus filhos sejam obrigados a estudar chinês; por que a empregadinha que é levada pelo amante a um apartamento alheio, só quer fazer amor em determinado compartimento? Como explicar os banhos noturnos do idoso Sr Francisco, num setor da praia sujeito a ataques de tubarões? Os personagens possuem suas idiossincrasias e a lógica – se há uma –, que vai muito além do típico, parece ser a de que ´de perto, ninguém é normal´.

Do mesmo modo, e apesar da divisão do filme em três partes indicadas por letreiros, o decorrer narrativo está repleto de lacunas propositais e perturbadoras. Um exemplo típico está na relação entre os personagens Francisco (feito por Solha) e seu neto Dinho: este é o protégé daquele, e, no entanto, raramente, ou nunca, os vemos juntos na tela. A visita à fazenda é outro exemplo que vem ao caso, toda mostrada em elipses, ficando-se apenas com imagens sintomáticas, como a do banho de cachoeira de águas subitamente avermelhadas, espécie de prolepse do desenlace. Aliás, única linha amorosa da estória toda, o caso entre João e Sofia chega a um término desencantado, sem que saibamos como nem por quê, isto para não citar o final em aberto, de nós graficamente escondido…

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No mesmo sentido de driblar a convenção, vários incidentes retardam o tempo, sem relação aparente com o narrado. A reunião de condomínio para demitir o porteiro do prédio, bem como o caso do pivete trepado na árvore, podem ser entendidos como itens da pulsão descritiva, porém, o argentino perdido na vizinhança, o discutido olho cego de um dos vigilantes, aquela bola que um garoto sem querer chuta para o apartamento a alugar, e os pés descalços da empregada passando ferro são de mais difícil explicação…

As interpretações dos atores são, todas elas, excelentes, mas “O som ao redor” me parece um caprichoso “filme de roteiro” onde concepção de cenas, manuseio de som e edição de imagens são perfeitos. Com o seu tema de vingança, a trama poderia – se se quisesse – ser posta nos seguintes termos: rapazes do Interior se disfarçam de vigilantes para vingar a morte do pai, crime cometido por velho latifundiário, hoje aposentando e residente solitário da praia de Boa Viagem; junto com o cotidiano dos vizinhos e parentes do velho senhor, esta é a diegese do filme, porém, como este resumo dá uma idéia longínqua do que se vê na tela!

Se a coisa mais explícita no filme de Kleber Mendonça é o som, a menos explicitada (e por isso mesmo, mais gritante) é a violência, tanto a atual, urbana, como aquela outra, arcaica, que vem do passado do velho Francisco e seu Nordeste latifundiário. Para usar uma metáfora intertextual bem cabível (Cf “MacBeth”), são o som e a fúria numa mesma isotopia fílmica.

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